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quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Vencendo a Barreira do Relativismo (Colossenses 2.4-7) | Solano Portela


Nesta segunda mensagem, abordamos a barreira da filosofia do relativismo. Você ficou pensando em pessoas que se identificam com essa filosofia, ou consegue perceber traços de relativismo no seu caminhar?

Fonte: Igreja Presbiteriana de Santo Amaro

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Agnosticismo - A Barreira da Convicção de Conhecimento | Solano Portela (Culto da Manhã | 9h)


Você conhece algum amigo que se intitula agnóstico? Você acha que se declarar agnóstico é fugir de confrontar as realidades últimas desta vida e do destino eterno pessoal?

Fonte: Igreja Presbiteriana de Santo Amaro

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Críticas ao Artigo “ Deus e o jardim das delícias” | Gaspar de Sousa

O Jornalista Hélio Schwartsman, do Folha Online, escreveu um artigo: "Deus e o Jardim das Delícias". Li e, sinceramente, não passa de afirmações tautológicas e antiteístas. O leitor Marcos Dourado forneceu uma excelente resposta, por e-mail, ao articulista militante. A resposta encontra-se no site Criacionismo Segue, numa boa exposição dos achados de Hélio. As notas no fim do artigo foram postas por mim.

Caro Hélio,

Em sua última coluna na Folha, “Deus e o Jardim das Delícias”, você se declarou um “ímpio contumaz”. Data venia, prezado. Contumaz, talvez; ímpio, nem por brincadeira. Você obviamente aplicou contra si um juízo apocalíptico – acredito que por galhofa, a julgar pelo encômio moral que você se dedicou há alguns anos. Hélio, não se superestime. É preciso muito suor, muita hora-extra – em suma, um esforço literalmente dos diabos para se atingir o status da impiedade. Por algumas de suas colunas na Pensata, você, quando muito, mereceria do seu provável ascendente, o rei Davi, a pecha de néscio ("Diz o néscio no seu coração: Não há Deus. Os homens têm-se corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras; não há quem faça o bem." Salmo 14:1).

Mas eu falava de esforços. O ímpio é, antes de tudo, diligente. Abnegado. Não sabe o que é desídia, ao menos a desídia intelectual. Logo, para juntar-se ao conselho dos ímpios, você deveria demonstrar essa diligência ímpia ao longo de seus textos. Parece-me que tal não ocorre. Permita-me desenvolver o raciocínio.

Em tempos idos, mais precisamente 11/1/2007, você escreveu o artigo “Santa Ilusão” a respeito do livro Deus, Um Delírio, de Richard Dawkins. À época, não me dispus a ler o “delicioso libelo”, como então você o definiu. Apeteceu-me mais o breve, elegante e bem conduzido Deus Existe, que conta a decisão aristotélica do filósofo Antony Flew de abraçar o teísmo após setenta anos de ateísmo. Por que “aristotélica”? Porque Flew, desde a adolescência, se dispôs a seguir o argumento até aonde ele o levasse. E o livro é umroad movie desse trajeto.

Contudo, mesmo não conseguindo Dawkins me induzir à copromancia[1] (falar nisso, por onde andará o Paulo Betti?), ainda assim confiei em seu juízo quando você se dispôs a resenhar o fecaloma editorial do renomado zoólogo. Ao menos quanto à pertinência da argumentação do bufo sacrílego, julguei que você a dissecaria segundo seus critérios de filósofo. Daí, por decorrência, imaginei que, malgrado as grosserias levianas do autor, haveria algum mérito lógico nas ideias ali defendidas. Ledo e ivo engano. Hoje pela manhã me repassaram um vídeo em que o filósofo, teólogo e historiador do Novo Testamento, William Lane Craig[2], disseca o argumento considerado central pelo próprio Dawkins em seu “delicioso libelo”. Repasso-o, meio que de memória.

Para começar, a edição brasileira do Delírio, sem querer, comete uma graça: o argumento central do livro começa à página 1-7-1.

Craig argumenta que se o cerne do livro de Dawkins falhar, como aquele mesmo propôs, suas conclusões a respeito da inexistência de Deus se esfacelam.
Citemos as palavras do livro:

  • 1) Um dos grandes desafios para o intelecto humano, ao longo dos séculos, vem sendo explicar de onde vem a aparência complexa e improvável de design no Universo.
  • 2) A tentação natural é atribuir a aparência de design a um design verdadeiro.
  • 3) A tentação é falsa, porque a hipótese de que haja um propósito suscita imediatamente o problema maior sobre quem projetou o projetista.
  • 4) O guindaste mais engenhoso e poderoso descoberto até agora é a evolução darwiniana, pela seleção natural.
  • 5) Não temos ainda um guindaste equivalente para a Física.
  • 6) Não devemos perder a esperança de que surja um guindaste melhor na Física, algo tão poderoso quanto o darwinismo é para a Biologia.

Conclusão: "Deus, quase com certeza, não existe."

Salta aos olhos que a conclusão brota do vento. Qual theo ex-machina, ela desce de paraquedas; não resulta de nenhuma das seis premissas anteriores. Não é preciso ser um estudante de filosofia para perceber que se trata de uma falácia non sequitur (ou como você bem traduziu uma vez: besteira da grossa).

Falácia permanece falácia mesmo quando todas as suas premissas se mostram verdadeiras. Elas são? Vejamos.

Poderíamos, sob a batuta de Quine, apelar para a generosidade (embora quando se trate de Dawkins eu ache melhor pautar-me por Goya – aquele que pintou um quadro de nome “o sono da razão gera monstros”). Nesse caso, diríamos não se tratar de premissas mas de um conjunto de afirmações cuja consecução um tanto saltitante resultaria na conclusão da inexistência de Deus.

Pergunta a um filósofo: “Existe alguma regra lógica que permita, de maneira válida, chegar à conclusão de Dawkins partindo de suas seis 'afirmações'?”

Parece que nem blindada pela caridade a conclusão se sustenta. No máximo, considerando-se verdadeiras cada uma das seis afirmações, não se poderia afirmar a existência divina com base no “aparente” design do Universo. Daí a negá-la resulta que o eminente queniano atolou-se até o pescoço no monturo de seus preconceitos.

Melhor, a “aparente” complexidade do Universo não confirma a existência de Deus – mas também não a inviabiliza. Na verdade, essa “suposta” impressão de design mais apoia que desmente a existência de Deus. O crente pode, a partir dela, crer justificadamente em Deus – ainda que dispense argumentos cosmológicos, ontológicos, morais ou, por que não, desconsidere qualquer argumento. Ele pode basear-se talvez em experiências religiosas estritamente pessoais. Até mesmo, quem sabe, na própria Revelação Divina. Não seria incoerente; um dos pilares cristãos vem justamente de a fé ser um dom divino, imprescindível para o perdão dos pecados e a salvação da alma.

Portanto, a rejeição para o argumento do design para a existência de Deus de modo algum implica que Ele não exista. Nem sequer invalida essa crença. Muitos dos cristãos que conheço rejeitam diversos argumentos em favor da existência de Deus (alguns rejeitam até o design) e isso não faz com que levem a sério o ateísmo ou o agnosticismo.

Voltando aos seis passos de Dawkins, percebe-se que alguns deles são flagrantemente falsos:

Passos ou premissas 5 e 6:

Neles, Dawkins se refere ao improvável, quiçá miraculoso, ajuste fino para que as condições iniciais do Universo viessem a propiciar o surgimento e desenvolvimento da vida. Tais condições são tão complexas e de tal forma excludentes a alternativas que muitos cientistas se assombram a ponto de chamarem-nas de “sintonia fina do Universo para a vida”.

Pois não é que Dawkins admite justamente isso no argumento 6? Não há equivalente à Teoria da Evolução para explicar essa sintonia. Logo, mesmo se o neodarwinismo fosse bem sucedido (e não é) para explicar a origem da vida mais a sua complexidade em planos estanques de reinos, filos, classes e ordens, não há teoria que explique o improbabilíssimo emaranhado de combinações pró-vida decorrentes do tal Big Bang.
Desse modo, o famigerado livro de Richard Dawkins, tão incensado, tão badalado, possui em seu miolo um buraco impossível de ser preenchido apenas com entulhos falaciosos.

Para cobrir tal lacuna, ele recorre ao velho tapa-buracos do otimismo: “Não devemos perder a esperança de que surja um guindaste melhor na Física, algo tão poderoso quanto o darwinismo é para a Biologia.” Obliquamente, o evangelho dawkinsiano sequestra uma metáfora de Richard Goldschmidt: “Eis que o monstro esperançoso se fez cãs e foi esvoaçá-las no campus de Oxford.”

Mas há como o nosso etólogo travesso se superar. Tomemos o passo 3 de seu argumento:

“A tentação é falsa, porque a hipótese de que haja um propósito suscita imediatamente o problema maior sobre quem projetou o projetista.”

Quer dizer: não há justificativa para inferir design a partir da complexidade do Universo porque o problema seria apenas deslocado para mais adiante.

Primeiro: para que uma explicação seja satisfatória não há necessidade da explicação da explicação. Isso é elementar em filosofia da ciência. Exemplo: se em alguma das luas de Júpiter forem recolhidos maquinários de lavra desconhecida não seria justificável negar-lhes origem alienígena apenas por não se conhecer os seres extraterrenos que os possam ter produzido – sobretudo não havendo a mínima ideia de como chegaram àquele astro ou mesmo quem eram (Aquiles, Brás Cubas, Papai Noel?).

Segundo: exigir uma explicação anterior leva a uma regressão infinita: qual a explicação da explicação? Qual a explicação da explicação da explicação? E por aí segue, ad eternum... Pode até parecer um bom recurso para avacalhar uma infindável linhagem teogônica. Acontece que pau que dá em Pinto dá em Jacinto: de igual modo, nenhuma explicação científica seria definitiva e a ciência colapsaria. Esse é o lado Bin Laden de Dawkins: para acabar com Deus ele não titubeia em pôr em risco as torres gêmeas da ciência. Por que tamanha temeridade? Para não conceder ao leitor que a explicação do “aparente” aspecto de projeto do Universo não implica em descartar o projetista.

Terceiro: em outra parte do texto, Dawkins defende que a explicação da origem do Universo, no caso, o projetista, precisa ser pelo menos tão complexa quanto a coisa a ser explicada. Ora, isso em nada avançaria a explicação. Mais: Dawkins não parece ter uma relação epistêmica saudável com o critério de simplicidade para ponderação de hipóteses. Particularmente, não considero esse critério nem descartável nem soberano. Poderíamos citar outros critérios como o “poder explanatório”, o “escopo explanatório”, o grau “ad hoc” naturalidade/artificialidade, a plausibilidade, etc. Todos eles devem ser considerados balanceadamente ao se comparar hipóteses.

Quarto: um projetista não precisa ser tão ou mais complexo que o Universo projetado por ele. Sendo incorpórea, a mente divina se revelaria consideravelmente simples; até onde podemos supor, ela não possui secções, não é multicomposta. Incorpórea, frisemos, ela pode tranquilamente ser monolítica e ainda possuir as propriedades características de uma mente: autoconsciência, racionalidade e vontade. Isso é muito simples, ao contrário da complexidade de um universo contingente formado de quantidades de matéria e energia balizadas por inúmeras constantes e propriedades, além de uma inexplicável aparência de design. Comparados, a mente divina é inegavelmente mais simples que o Universo. Sem contar que a simplicidade de tal mente não a impede de formular ideias complexas, até imperscrutáveis para a nossa compreensão. Para ela, o cálculo infinitesimal, por exemplo, poderia ser tão trivial quanto somar 2 com 2. Dawkins, propositadamente ou não, desconsidera que a complexidade de uma ideia não é incompatível com a simplicidade da mente que a formulou.

Por fim, a verdadeira questão: Por que um biólogo doutorado em uma das mais renomadas universidades do planeta comete uma falácia tão bisonha? Pior: Por que tamanha falácia não é desmascarada pela maioria dos que se arrogam a faculdade de bem pensar?

Tenho um palpite, mas fica para a próxima.

1ª Parte2ª Parte

Por: Gaspar de Sousa


[1] “Arte” de adivinhação por meio dos excrementos

[2] Este vídeo pode ser acessado Acima, ou nos Links: 1ª Parte e 2ª Parte.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Trindade: Da Teoria à Prática | Leandro Lima | [2/5]

Aspectos históricos da doutrina da Trindade 
 No início do cristianismo a Trindade foi motivo de controvérsias. Antes do Concílio de Nicéia (325 d.C.), as principais controvérsias trinitárias foram influenciadas pelo judaísmo em sua ênfase no monoteísmo e na unidade de Deus, também pelo gnosticismo que via todas as coisas como emanações de Deus e considerava a matéria má, e pelo platonismo que cria no Logos como a principal criatura de Deus.
 
Essas correntes filosóficas causaram muita influência nos cristãos primitivos, originando uma série de disputas, que deram origem a algumas teorias heréticas sobre a Trindade3. As principais foram:
 
Monarquismo
 
Essa heresia surgiu da dificuldade em explicar o elemento divino na pessoa de Cristo, e mesmo do Espírito Santo, sem cair no erro do triteísmo.
 
O Monarquismo Modalista não admitia a existência da Trindade Ontológica (em essência), mas apenas Econômica (funcional), ou seja, Pai, Filho e Espírito Santo são uma única pessoa que se manifestou sucessivamente na história. Deus se manifestou na pessoa do Pai na Criação, na Pessoa do Filho na Encarnação e na Pessoa do Espírito Santo na Regeneração.
 
Já o Monarquismo Dinâmico negou a divindade essencial de Jesus, afirmando que Deus é essencialmente um, e que Jesus havia recebido o dinamis (poder) de Deus por ocasião de seu batismo, sendo elevado a uma categoria divina. Esse poder o abandonou poucos instantes antes de sua morte.
 
Arianismo
 
O Arianismo recebeu esse nome de seu fundador Ário (250-336 a.D.), que foi um Presbítero da igreja de Alexandria. Ário era essencialmente unitarista, e negava qualquer possibilidade de haver uma Trindade.
 
Segundo Ário, somente Deus era eterno, Jesus era uma criatura intermediária gerada do nada por Deus antes da criação do mundo. Desse modo o Pai nem sempre foi Pai, pois antes de ter criado o Filho, Deus existia sozinho. O Filho não é eterno.
 
Segundo Ário, a importância do Filho estava no fato de que ele foi o instrumento através do qual Deus criou todas as coisas e nada mais. É impossível não associar o arianismo ao que proclamam hoje as Testemunhas de Jeová.
 
Os Concílios
 
A igreja reagiu à maioria das heresias antigas reunindo-se em concílios onde foram formuladas declarações de fé que demonstravam a verdadeira ortodoxia. Os Concílios que mais trataram a respeito da trindade foram Nicéia e Calcedônia.
 
O Concílio de Nicéia foi convocado pelo Imperador Constantino por causa do Arianismo em 325 d.C. O Arianismo foi rejeitado nesse concílio, e formulada a seguinte declaração de fé:
“Cremos em um só Deus, o Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis; E em um só Senhor, Jesus Cristo, o filho de Deus, gerado do Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz de luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, de uma só substância com o Pai, pelo qual todas as coisas vieram a ser, coisas nos céus e coisas na terra, o qual, por nós, homens, e por nossa salvação, desceu e Se encarnou, tornando-Se homem, sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, e virá para julgar os vivos e os mortos; E no Espírito Santo. Mas, quanto àqueles que dizem „tempo houve em que ele não existia‟, e „antes de nascer ele não era‟ e que ele veio a existir do nada, ou que afirmam que o Filho de Deus procede de uma hipóstase ou substância diferente, ou é criado, ou está sujeito a alteração ou mudança – a esses a igreja Católica (Universal) anatematiza”.
 
Essa declaração colocou o Filho em pé de igualdade com o Pai, ou seja, ele é da mesma substância do Pai. Não é um Deus diferente, e muito menos inferior.
 
No Concílio de Constantinopla, em 381, as diferenças com relação à divindade do Espírito Santo foram resolvidas. A Fé Nicena foi reafirmada nesse Concílio, mas a questão do Espírito Santo foi melhor esclarecida:
“Nós cremos no Espírito Santo, o Senhor, o Doador da Vida, que procede do Pai4, que com o Pai e o Filho juntamente é adorado e glorificado...”
 
Essa declaração afirma claramente que o Espírito Santo não era subordinado ao Filho e nem ao Pai, mas era da mesma substância do Pai e do Filho.
 
3 Para uma excelente exposição sobre os conflitos trinitários deste período, ver: Louis Berkhof. Historia de Las Doctrinas Cristianas, p. 47-119.
4 No concílio de Toledo (589 a.D.) foi acrescentada a expressão “e do Filho”, sumarizando a doutrina da igreja Ocidental de que o Espírito procede do Pai e do Filho conjuntamente.

Série Completa:

1º Parte - A Trindade: Da Teoria à Prática
2º Parte - Aspectos históricos da doutrina da Trindade
3º Parte - Aspectos Bíblicos da doutrina da Trindade
4º Parte - Aspectos Teológicos da doutrina da Trindade
5º Parte - Aspectos práticos da doutrina da Trindade

Autor: Rev. Leandro Lima

terça-feira, 13 de março de 2012

Cinco Pecados que Ameaçam os Calvinistas: Parte 1 | Solano Portela- O Pecado do Orgulho Espiritual

Definindo Orgulho Espiritual
O primeiro pecado que procuraremos examinar é o pecado doorgulho espiritual. Poderíamos definir o orgulho espiritual como sendo umaatitude de desprezo aos outros irmãos. Seria abrigar a sensação de se acharpossuidor de uma visão superior. Seria o desenvolvimento de uma atitude derejeição do aprendizado, contrária à humildade que Deus requer dos seus servos.Seria achar que se é conhecedor de uma faceta de compreensão que os demaisirmãos ainda não alcançaram.

A Tendência de se Criar uma Hierarquia dos Salvos
A natureza humana pecadora carrega para o seio da comunidadecristã o orgulho espiritual sob diversas formas. Uma tendência sempre latentena Igreja através da história foi a de subdividir a dicotomia estabelecida pelaBíblia, na divisão das pessoas. Com relação ao posicionamento perante ocriador, todos estão subdivididos em salvos ou perdidos; crentes ou descrentes;os que receberam a fé por dom de Deus ou aqueles sem fé que se encontram nocaminho da perdição.

Ocorrências ao Longo da História da Igreja
O renitente orgulho espiritual tem gerado muitos movimentosdentro da Igreja que acrescentam uma terceira categoria de pessoas, no que dizrespeito ao status espiritual dos homens perante Deus: os sobrenaturalmenteagraciados com um fenômeno fora do comum, que difere e está além do atosoberano de Deus da salvação.

Se fizermos uma rápida viagem ao longo da história da igreja,veremos que estamos confrontando uma das mais sérias demonstrações da naturezahumana caída e que Satanás sutilmente traz, em ondas intermitentes, ao seio daigreja para perturbar o relacionamento dos fiéis.

Os Gnósticos e o Orgulho Espiritual na IgrejaNeotestamentária
Mesmo no início de sua história neotestamentária, a Igrejaexperimentou uma “cristianização” da heresia secular gnóstica, que afirmavacertos patamares de conhecimento serem misteriosamente propriedade de unspoucos. Esses protognósticos “cristãos” do primeiro século cresceram etornaram-se uma força destrutiva dentro das igrejas.

No segundo século da era cristã o movimento gnóstico jáhavia atingido “grandes proporções”.(4) Os gnósticos dividiam os crentes entreos que possuíam conhecimento espiritual apenas rudimentar e aqueles quepossuíam o verdadeiro conhecimento (gnosis), velado aos demais. Encontramospresente a tríplice divisão: (1) os descrentes, (2) os crentes rudimentares e(3) os crentes iluminados.

Os Alegoristas e o Orgulho Espiritual
No terceiro século os alegoristas dividiram os crentes entreaqueles que entendiam o sentido mais espiritual e profundo das passagens eaqueles que não conseguiam penetrar além do significado literal do texto.Orígenes, grande expoente da Escola de Alexandria, mas um dos proponentes doalegorismo, ensinava, na realidade, que a Palavra de Deus possuía trêssentidos: (1) o sentido comum, histórico—inteligível aos de mente simples; (2)o sentido espiritual—que se constituía na alma das Escrituras; e (3) o sentidoperfeito—que representava um sentido espiritual mais profundo, possível de serexpresso somente por meio de alegorias. Mais uma vez uma subdivisão estranha aoconceito bíblico do estado espiritual das pessoas, é introduzida no ensinamentodas igrejas, refletindo o desenvolvimento de orgulho espiritual.

Os Quakers e o Orgulho Espiritual
Na época dos puritanos tivemos o surgimento dos Quakers quedeclaravam-se possuidores de uma experiência fora do normal com o EspíritoSanto. Uma constante, em suas pregações, era a procura pela “inner light” – luzinterior, que declararia a perfeita vontade do Espírito a cada um na qualbrilhasse. Com sua diferenciação dos “crentes comuns” eles representaram umnovo surgimento da tão prejudicial divisão tríplice, evidência de orgulhoespiritual.

A idéia do Crente Carnal e o Orgulho Espiritual
Pulando para época mais recente, até dentro do campoevangélico conservador fundamentalista, mesmo quando este ainda não havia setornado quase todo pentecostal, foi gerada uma nova e superior categoria decrentes–o crente espiritual. Este seria aquele que deu o segundo passo deaceitação. Já havia aceito a Cristo como Salvador, mas, em um segundo passo eem uma segunda experiência, o aceita como Senhor. Essa aceitação do senhorio deCristo faz com que ele se dissocie do crente carnal. Crentes carnais seriamaqueles que permanecem em um estágio inferior e primitivo de espiritualidademantendo um comportamento virtualmente similar ao do descrente. Temos,novamente, o ensinamento da existência de três categorias de pessoas: osdescrentes, os crentes carnais e os crentes espirituais.

As Experiências Pentecostais e o Orgulho Espiritual
O pentecostalismo, abrigou e renovou esta tendência dentroda igreja, dando-lhe novos rótulos, mas postulando uma hierarquia dos salvosestranha à Palavra de Deus. Ele trouxe à cena evangélica o inusitado e oextraordinário como sendo não apenas parte da realidade existencial, históricae religiosa da Igreja, mas como objeto de anelo e desejo na vida individual de cadacrente. Os ensinamentos do pentecostalismo deixaram a expectativa de que semestas experiências algo estaria a faltar na vida do cristão. Era necessário seatingir um patamar superior, obter-se uma segunda bênção, elevar-se acima donível do crente comum. Gerou-se assim uma hierarquia de crentes: os batizadosvs. os não-batizados pelo Espírito Santo, ou, utilizando uma outraterminologia: os recebedores vs. os “ainda-carentes-de-uma-segunda-bênção”.

A questão da Cura Divina e o Orgulho Espiritual
A questão da cura divina, trazida pelo pentecostalismo,segue linhas paralelas semelhantes. Ela coloca os crentes em uma escalahierárquica, qualificando o seu cristianismo, fazendo uma divisão entre os quejá atingiram um patamar de fé que é suficiente a torná-los recebedores de curasmilagrosas vs. aqueles cuja fé é insuficiente ao recebimento destas bênçãos.Tais experiências estariam reservadas aos mais aquinhoados espiritualmente. Viade regra, formamos uma casta de orgulhosos espirituais que vivem a propagar asgraças “alcançadas”, em função da sua fé.

O Perigo do “gnosticismo reformado”
Com tantas recaídas, de segmentos diversos da igreja cristã,no mesmo problema, o meu ponto é que nós calvinistas precisamos nos guardarpara não seguirmos esta trilha tão repisada na história da igreja. Não podemosnos considerar imunes ao desenvolvimento de uma atitude de que “nós reformados”somos os iluminados, únicos entendedores das verdades divinas que se encontramveladas à grande parte dos crentes comuns, a não ser que recebam a explicaçãológica e incontestável de nossa parte. Muitos calvinistas têm se deixado levarpela síndrome da descoberta da pólvora, passando a demonstrar o mais evidenteorgulho espiritual, no relacionamento com os irmãos, prejudicando o testemunhoda fé reformada.

Um Exemplo de Como o Orgulho Pode Tomar Conta de Nós
Vou citar o que me disse um grande amigo meu, e não gostariaque entendesse que eu o estou acusando de orgulho espiritual. Faço a citaçãoapenas como exemplo de como devemos nos guardar, porque às vezesimperceptivelmente, estamos nos colocando, como calvinistas, numa castaespecial de iluminados, cujo resultado será o desenvolvimento desse tãoperigoso orgulho espiritual do qual devemos fugir. Após haver lidoextensivamente vários trabalhos sobre justificação e de ter ouvido umabrilhante exposição desta doutrina, dentro da perspectiva bíblica/reformada,ele me disse: “Estou impressionado e chegando à conclusão de que ninguém sabena realidade o que é a justificação…” Continuando, disse: “o nosso povo não tema mínima idéia do que significa ser justificado.”

Notem que essas palavras foram ditas não com orgulho, mascom humildade e profunda admiração pelo trabalho de Cristo, mas quero chamaratenção para o fato de que essa apreensão doutrinária, e até essa apreciaçãodas doutrinas da graça, traz em si a semente latente e destruidora que podegerminar, sem muito esforço, em orgulho espiritual. Minha resposta, na ocasião,foi: “Sabem, meu irmão, elas sabem sim. Se uma pessoa foi realmente resgatadapelo precioso sangue de Cristo ela sabe experimentalmente o que éjustificação”.

A Experiência da Graça de Deus
Não estou colocando experiência acima da revelaçãoescriturada, mas estou fazendo uma distinção entre saber o que é, e saber realizaruma exposição lógica, sistemática e detalhada de uma doutrina. Não podemosnunca cair no engano de que a ignorância espiritual é algo que será arraigadopela visão que temos da soberania de Deus. Não podemos nunca menosprezar asimplicidade dos crentes comuns, resgatados que foram por Cristo Jesus, peloDeus soberano que todos amamos, predestinados desde a fundação do século,separados para a glória do Deus todo poderoso. Eles sabem o que é justificação,mesmo que nunca tenham ouvido falar de Lutero e Calvino, mesmo que não consigamdizer os cinco pontos do calvinismo, mesmo que não consigam explicar o que éjustificação. O Deus poderoso que salva, o faz soberanamente, não dependendo daperspicácia, lógica ou inteligência do escolhido.

O Exemplo do Cego de Jericó
Temos que nos mirar no exemplo do cego curado por Jesus, emJoão 9. Ele não sabia muitas coisas. Havia discernido autoridade, nas palavrasde Jesus, por isso fez o que ele mandou e o classificou como “profeta” (v. 17).Não sabia, entretanto, a razão da sua cura. Não sabia a procedência ou odestino do soberano que o curara (Vs. 12 e 25). Além do lodo com o qual haviasido untado, não sabia, obviamente, explicar como fora curado (vs. 11 e 27).Uma coisa porém ele sabia e isso lhe era suficiente naquela ocasião: “uma cousasei, eu era cego e agora vejo”.

Razões Para Nossa Ampla Comunhão
Por que podemos ter comunhão genuína com aqueles que não sãocalvinistas? Porque se verdadeiramente salvos, somos irmãos, filhos do mesmoDeus soberano. Porque apesar das inconsistências verificadas nas suasformulações teológicas, por mais que digam que a salvação foi fruto do pretenso“livre arbítrio” do homem; por mais que, em seus discursos, venham a inferiruma subordinação das ações de Deus a este “livre arbítrio”, quando se põem dejoelhos e oram, oram a um Deus soberano que tudo pode, a um Deus que é tudo eoram a ele reconhecendo que nada são.

Incoerências Humanas
Temos que reconhecer que nós mesmos, como seres humanosfalíveis, nunca somos totalmente coerentes com nossas premissas. Querem umexemplo? Sabemos da importância do Dia do Senhor, do domingo. Temos a convicçãoque neste dia devemos nos reunir e adorarmos o nosso Deus. A maioria de nós,aqui, nunca pensaria esquecer o nosso culto dominical para nos envolvermos em,vamos dizer, uma partida de futebol. Entretanto muitos de nós torcemos bastantepor este ou aquele clube de futebol. Secretamente apoiamos tanto o divertimentoquanto o ganha-pão naquele dia, ou pelo menos fechamos os olhos e estabelecemosum duplo padrão de comportamento: um para nós e para os nossos filhos e outro,desculpável, para aqueles por quem nós torcemos. Chegamos até a inventar umacategoria de cristãos, “os atletas de Cristo”, que sacramentaliza, cristianizae justifica a atividade no domingo. Isto é: peça a nossa opinião e condenaremoso esporte dominical. Observe a nossa prática e condescendência e verificará umaaceitação tácita dos esportes praticados no Dia do Senhor. O que é isso?Incoerência humana, para sermos bem gentis, e Deus nos agüenta!

Por acaso achamos que poderemos encontrar total coerênciaentre o discurso e a prática nos demais cristãos? Digo isso apenas parareforçar que é bastante provável que venhamos a encontrar a fé genuínareformada em pessoas, mesmo quando o discurso externo estiver um poucoincoerente com a nossa fé reformada. Nunca devemos ser orgulhosos emenosprezadores daqueles que constituem a verdadeira igreja de Cristo, pelaqual ele deu o seu sangue. Conclamando calvinistas a ter um comportamentocordato e humilde, o Rev. Ian Hamilton, da Escócia, disse: “A graça de Deusdeveria adoçar nossas discordância. Existe um grande perigo de absolutizar anossa forma de fazer as coisas. Devemos nos apegar àqueles que se apegam aCristo”. (5)

O Amor que Aniquila o Orgulho
O apóstolo Pedro, escrevendo em sua primeira carta (1.22 e23) nos fala do amor cristão que aniquila o orgulho. Neste trecho lemos: Tendopurificado as vossas almas, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista oamor fraternal não fingido, amai-vos de coração uns aos outros, ardentemente,pois fostes regenerados, não de semente corruptível, mas de incorruptível,mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente.

A base deste amor é a regeneração comum (v. 23) que todos oscristãos têm em Cristo Jesus. Ele é também o nossos exemplo, pois no verso 17lemos que ele julga “sem acepção de pessoas”, isto é, com equidade detratamento. O amor comissionado no versículo 22 possui três características:
· É questão de obediência (“obediência à verdade”),
· Tem que ser sincero (“não fingido”) e
· Tem que ser intenso (“ardentemente”)

Tendo sido regenerados pelo Deus vivo e pela Palavra viva,de nada podemos nos orgulhar, nem mesmo da nossa compreensão de Deus e de Suamajestade, pois só dele procede a iluminação para o entendimento das verdadesespirituais e ele deseja que sejamos caridosos e pacientes na instrução da SuaPalavra. Que Ele nos livre do pecado do orgulho espiritual.

(4) Kenneth Scott Latourette, A History of Christianity (N.York: Harper & Row, 1953, 1975) pp. 26, 114, 123, 124.

(5) Ian Hamilton, palestra: “O Propósito que Governa o CultoReformado”, no VI Simpósio do Projeto Os Puritanos, Águas de Lindóia, 6-13 dejunho de 1997.

Sequência: [Introdução][1ªParte][2ªParte][3ªParte][4ªParte][5ªParte]

Por: Solano Portela
Fonte: solanoportela.com

Este livreto foi publicado no site da 1a Igreja Presbiteriana do Recife contendo uma versão preliminar publicana na revista "Os Puritanos". A versão publicada aqui é a completa. Este texto completo foi publicado pela Editora PES e pode ser adquirido através do site da editora:
http://www.editorapes.com.br