terça-feira, 13 de março de 2012

Cinco Pecados que Ameaçam os Calvinistas: Parte 1 | Solano Portela- O Pecado do Orgulho Espiritual

Definindo Orgulho Espiritual
O primeiro pecado que procuraremos examinar é o pecado doorgulho espiritual. Poderíamos definir o orgulho espiritual como sendo umaatitude de desprezo aos outros irmãos. Seria abrigar a sensação de se acharpossuidor de uma visão superior. Seria o desenvolvimento de uma atitude derejeição do aprendizado, contrária à humildade que Deus requer dos seus servos.Seria achar que se é conhecedor de uma faceta de compreensão que os demaisirmãos ainda não alcançaram.

A Tendência de se Criar uma Hierarquia dos Salvos
A natureza humana pecadora carrega para o seio da comunidadecristã o orgulho espiritual sob diversas formas. Uma tendência sempre latentena Igreja através da história foi a de subdividir a dicotomia estabelecida pelaBíblia, na divisão das pessoas. Com relação ao posicionamento perante ocriador, todos estão subdivididos em salvos ou perdidos; crentes ou descrentes;os que receberam a fé por dom de Deus ou aqueles sem fé que se encontram nocaminho da perdição.

Ocorrências ao Longo da História da Igreja
O renitente orgulho espiritual tem gerado muitos movimentosdentro da Igreja que acrescentam uma terceira categoria de pessoas, no que dizrespeito ao status espiritual dos homens perante Deus: os sobrenaturalmenteagraciados com um fenômeno fora do comum, que difere e está além do atosoberano de Deus da salvação.

Se fizermos uma rápida viagem ao longo da história da igreja,veremos que estamos confrontando uma das mais sérias demonstrações da naturezahumana caída e que Satanás sutilmente traz, em ondas intermitentes, ao seio daigreja para perturbar o relacionamento dos fiéis.

Os Gnósticos e o Orgulho Espiritual na IgrejaNeotestamentária
Mesmo no início de sua história neotestamentária, a Igrejaexperimentou uma “cristianização” da heresia secular gnóstica, que afirmavacertos patamares de conhecimento serem misteriosamente propriedade de unspoucos. Esses protognósticos “cristãos” do primeiro século cresceram etornaram-se uma força destrutiva dentro das igrejas.

No segundo século da era cristã o movimento gnóstico jáhavia atingido “grandes proporções”.(4) Os gnósticos dividiam os crentes entreos que possuíam conhecimento espiritual apenas rudimentar e aqueles quepossuíam o verdadeiro conhecimento (gnosis), velado aos demais. Encontramospresente a tríplice divisão: (1) os descrentes, (2) os crentes rudimentares e(3) os crentes iluminados.

Os Alegoristas e o Orgulho Espiritual
No terceiro século os alegoristas dividiram os crentes entreaqueles que entendiam o sentido mais espiritual e profundo das passagens eaqueles que não conseguiam penetrar além do significado literal do texto.Orígenes, grande expoente da Escola de Alexandria, mas um dos proponentes doalegorismo, ensinava, na realidade, que a Palavra de Deus possuía trêssentidos: (1) o sentido comum, histórico—inteligível aos de mente simples; (2)o sentido espiritual—que se constituía na alma das Escrituras; e (3) o sentidoperfeito—que representava um sentido espiritual mais profundo, possível de serexpresso somente por meio de alegorias. Mais uma vez uma subdivisão estranha aoconceito bíblico do estado espiritual das pessoas, é introduzida no ensinamentodas igrejas, refletindo o desenvolvimento de orgulho espiritual.

Os Quakers e o Orgulho Espiritual
Na época dos puritanos tivemos o surgimento dos Quakers quedeclaravam-se possuidores de uma experiência fora do normal com o EspíritoSanto. Uma constante, em suas pregações, era a procura pela “inner light” – luzinterior, que declararia a perfeita vontade do Espírito a cada um na qualbrilhasse. Com sua diferenciação dos “crentes comuns” eles representaram umnovo surgimento da tão prejudicial divisão tríplice, evidência de orgulhoespiritual.

A idéia do Crente Carnal e o Orgulho Espiritual
Pulando para época mais recente, até dentro do campoevangélico conservador fundamentalista, mesmo quando este ainda não havia setornado quase todo pentecostal, foi gerada uma nova e superior categoria decrentes–o crente espiritual. Este seria aquele que deu o segundo passo deaceitação. Já havia aceito a Cristo como Salvador, mas, em um segundo passo eem uma segunda experiência, o aceita como Senhor. Essa aceitação do senhorio deCristo faz com que ele se dissocie do crente carnal. Crentes carnais seriamaqueles que permanecem em um estágio inferior e primitivo de espiritualidademantendo um comportamento virtualmente similar ao do descrente. Temos,novamente, o ensinamento da existência de três categorias de pessoas: osdescrentes, os crentes carnais e os crentes espirituais.

As Experiências Pentecostais e o Orgulho Espiritual
O pentecostalismo, abrigou e renovou esta tendência dentroda igreja, dando-lhe novos rótulos, mas postulando uma hierarquia dos salvosestranha à Palavra de Deus. Ele trouxe à cena evangélica o inusitado e oextraordinário como sendo não apenas parte da realidade existencial, históricae religiosa da Igreja, mas como objeto de anelo e desejo na vida individual de cadacrente. Os ensinamentos do pentecostalismo deixaram a expectativa de que semestas experiências algo estaria a faltar na vida do cristão. Era necessário seatingir um patamar superior, obter-se uma segunda bênção, elevar-se acima donível do crente comum. Gerou-se assim uma hierarquia de crentes: os batizadosvs. os não-batizados pelo Espírito Santo, ou, utilizando uma outraterminologia: os recebedores vs. os “ainda-carentes-de-uma-segunda-bênção”.

A questão da Cura Divina e o Orgulho Espiritual
A questão da cura divina, trazida pelo pentecostalismo,segue linhas paralelas semelhantes. Ela coloca os crentes em uma escalahierárquica, qualificando o seu cristianismo, fazendo uma divisão entre os quejá atingiram um patamar de fé que é suficiente a torná-los recebedores de curasmilagrosas vs. aqueles cuja fé é insuficiente ao recebimento destas bênçãos.Tais experiências estariam reservadas aos mais aquinhoados espiritualmente. Viade regra, formamos uma casta de orgulhosos espirituais que vivem a propagar asgraças “alcançadas”, em função da sua fé.

O Perigo do “gnosticismo reformado”
Com tantas recaídas, de segmentos diversos da igreja cristã,no mesmo problema, o meu ponto é que nós calvinistas precisamos nos guardarpara não seguirmos esta trilha tão repisada na história da igreja. Não podemosnos considerar imunes ao desenvolvimento de uma atitude de que “nós reformados”somos os iluminados, únicos entendedores das verdades divinas que se encontramveladas à grande parte dos crentes comuns, a não ser que recebam a explicaçãológica e incontestável de nossa parte. Muitos calvinistas têm se deixado levarpela síndrome da descoberta da pólvora, passando a demonstrar o mais evidenteorgulho espiritual, no relacionamento com os irmãos, prejudicando o testemunhoda fé reformada.

Um Exemplo de Como o Orgulho Pode Tomar Conta de Nós
Vou citar o que me disse um grande amigo meu, e não gostariaque entendesse que eu o estou acusando de orgulho espiritual. Faço a citaçãoapenas como exemplo de como devemos nos guardar, porque às vezesimperceptivelmente, estamos nos colocando, como calvinistas, numa castaespecial de iluminados, cujo resultado será o desenvolvimento desse tãoperigoso orgulho espiritual do qual devemos fugir. Após haver lidoextensivamente vários trabalhos sobre justificação e de ter ouvido umabrilhante exposição desta doutrina, dentro da perspectiva bíblica/reformada,ele me disse: “Estou impressionado e chegando à conclusão de que ninguém sabena realidade o que é a justificação…” Continuando, disse: “o nosso povo não tema mínima idéia do que significa ser justificado.”

Notem que essas palavras foram ditas não com orgulho, mascom humildade e profunda admiração pelo trabalho de Cristo, mas quero chamaratenção para o fato de que essa apreensão doutrinária, e até essa apreciaçãodas doutrinas da graça, traz em si a semente latente e destruidora que podegerminar, sem muito esforço, em orgulho espiritual. Minha resposta, na ocasião,foi: “Sabem, meu irmão, elas sabem sim. Se uma pessoa foi realmente resgatadapelo precioso sangue de Cristo ela sabe experimentalmente o que éjustificação”.

A Experiência da Graça de Deus
Não estou colocando experiência acima da revelaçãoescriturada, mas estou fazendo uma distinção entre saber o que é, e saber realizaruma exposição lógica, sistemática e detalhada de uma doutrina. Não podemosnunca cair no engano de que a ignorância espiritual é algo que será arraigadopela visão que temos da soberania de Deus. Não podemos nunca menosprezar asimplicidade dos crentes comuns, resgatados que foram por Cristo Jesus, peloDeus soberano que todos amamos, predestinados desde a fundação do século,separados para a glória do Deus todo poderoso. Eles sabem o que é justificação,mesmo que nunca tenham ouvido falar de Lutero e Calvino, mesmo que não consigamdizer os cinco pontos do calvinismo, mesmo que não consigam explicar o que éjustificação. O Deus poderoso que salva, o faz soberanamente, não dependendo daperspicácia, lógica ou inteligência do escolhido.

O Exemplo do Cego de Jericó
Temos que nos mirar no exemplo do cego curado por Jesus, emJoão 9. Ele não sabia muitas coisas. Havia discernido autoridade, nas palavrasde Jesus, por isso fez o que ele mandou e o classificou como “profeta” (v. 17).Não sabia, entretanto, a razão da sua cura. Não sabia a procedência ou odestino do soberano que o curara (Vs. 12 e 25). Além do lodo com o qual haviasido untado, não sabia, obviamente, explicar como fora curado (vs. 11 e 27).Uma coisa porém ele sabia e isso lhe era suficiente naquela ocasião: “uma cousasei, eu era cego e agora vejo”.

Razões Para Nossa Ampla Comunhão
Por que podemos ter comunhão genuína com aqueles que não sãocalvinistas? Porque se verdadeiramente salvos, somos irmãos, filhos do mesmoDeus soberano. Porque apesar das inconsistências verificadas nas suasformulações teológicas, por mais que digam que a salvação foi fruto do pretenso“livre arbítrio” do homem; por mais que, em seus discursos, venham a inferiruma subordinação das ações de Deus a este “livre arbítrio”, quando se põem dejoelhos e oram, oram a um Deus soberano que tudo pode, a um Deus que é tudo eoram a ele reconhecendo que nada são.

Incoerências Humanas
Temos que reconhecer que nós mesmos, como seres humanosfalíveis, nunca somos totalmente coerentes com nossas premissas. Querem umexemplo? Sabemos da importância do Dia do Senhor, do domingo. Temos a convicçãoque neste dia devemos nos reunir e adorarmos o nosso Deus. A maioria de nós,aqui, nunca pensaria esquecer o nosso culto dominical para nos envolvermos em,vamos dizer, uma partida de futebol. Entretanto muitos de nós torcemos bastantepor este ou aquele clube de futebol. Secretamente apoiamos tanto o divertimentoquanto o ganha-pão naquele dia, ou pelo menos fechamos os olhos e estabelecemosum duplo padrão de comportamento: um para nós e para os nossos filhos e outro,desculpável, para aqueles por quem nós torcemos. Chegamos até a inventar umacategoria de cristãos, “os atletas de Cristo”, que sacramentaliza, cristianizae justifica a atividade no domingo. Isto é: peça a nossa opinião e condenaremoso esporte dominical. Observe a nossa prática e condescendência e verificará umaaceitação tácita dos esportes praticados no Dia do Senhor. O que é isso?Incoerência humana, para sermos bem gentis, e Deus nos agüenta!

Por acaso achamos que poderemos encontrar total coerênciaentre o discurso e a prática nos demais cristãos? Digo isso apenas parareforçar que é bastante provável que venhamos a encontrar a fé genuínareformada em pessoas, mesmo quando o discurso externo estiver um poucoincoerente com a nossa fé reformada. Nunca devemos ser orgulhosos emenosprezadores daqueles que constituem a verdadeira igreja de Cristo, pelaqual ele deu o seu sangue. Conclamando calvinistas a ter um comportamentocordato e humilde, o Rev. Ian Hamilton, da Escócia, disse: “A graça de Deusdeveria adoçar nossas discordância. Existe um grande perigo de absolutizar anossa forma de fazer as coisas. Devemos nos apegar àqueles que se apegam aCristo”. (5)

O Amor que Aniquila o Orgulho
O apóstolo Pedro, escrevendo em sua primeira carta (1.22 e23) nos fala do amor cristão que aniquila o orgulho. Neste trecho lemos: Tendopurificado as vossas almas, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista oamor fraternal não fingido, amai-vos de coração uns aos outros, ardentemente,pois fostes regenerados, não de semente corruptível, mas de incorruptível,mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente.

A base deste amor é a regeneração comum (v. 23) que todos oscristãos têm em Cristo Jesus. Ele é também o nossos exemplo, pois no verso 17lemos que ele julga “sem acepção de pessoas”, isto é, com equidade detratamento. O amor comissionado no versículo 22 possui três características:
· É questão de obediência (“obediência à verdade”),
· Tem que ser sincero (“não fingido”) e
· Tem que ser intenso (“ardentemente”)

Tendo sido regenerados pelo Deus vivo e pela Palavra viva,de nada podemos nos orgulhar, nem mesmo da nossa compreensão de Deus e de Suamajestade, pois só dele procede a iluminação para o entendimento das verdadesespirituais e ele deseja que sejamos caridosos e pacientes na instrução da SuaPalavra. Que Ele nos livre do pecado do orgulho espiritual.

(4) Kenneth Scott Latourette, A History of Christianity (N.York: Harper & Row, 1953, 1975) pp. 26, 114, 123, 124.

(5) Ian Hamilton, palestra: “O Propósito que Governa o CultoReformado”, no VI Simpósio do Projeto Os Puritanos, Águas de Lindóia, 6-13 dejunho de 1997.

Sequência: [Introdução][1ªParte][2ªParte][3ªParte][4ªParte][5ªParte]

Por: Solano Portela
Fonte: solanoportela.com

Este livreto foi publicado no site da 1a Igreja Presbiteriana do Recife contendo uma versão preliminar publicana na revista "Os Puritanos". A versão publicada aqui é a completa. Este texto completo foi publicado pela Editora PES e pode ser adquirido através do site da editora:
http://www.editorapes.com.br