quarta-feira, 14 de março de 2012

Cinco Pecados que Ameaçam os Calvinistas: Parte 2 - O Pecado da Intolerância Fraternal | Solano Portela

O Pós-modernismo e a Tolerância
Uma das características do pós-modernismo é a excessivatolerância impingida a todas as opiniões, ou o que poderíamos chamar derelativização das verdades. Como brilhantemente já expôs o Dr. Héber Carlos deCampos,(6) o pós-modernismo caracteriza-se pelo pluralismo de idéias e pelapremissa que nenhuma verdade é a “verdade verdadeira” e que temos que sertolerantes, ou politicamente corretos, com todos os pontos de vista. Comocalvinistas acreditamos estarmos firmados na verdade, não em uma verdade sujeitaà compreensão subjetiva de cada um. Essa verdade é proposicional, objetiva,não-contraditória e inquestionável pois procede de revelação da parte de Deusao homem, representada pelas inerrantes Escrituras Sagradas - a Bíblia.

Pode parecer estranho, conseqüentemente, que estejamosclassificando intolerância como pecado, quando nossa própria compreensão dasverdades bíblicas nos impele em direção contrária ao pós-modernismo, exigindo anossa intolerância. Devemos fazer uma diferenciação, entretanto, entre tolerânciaexterna e a tolerância na fé, ou fraternal (entre irmãos da mesma fé). Nessesentido, o próprio Heber Campos declara: “Devemos ser politicamente corretosquando a verdade não está em jogo”. (7)

Intolerância vs. Intransigência
Nesse sentido, por uma questão de clareza, gostaria depropor que diferenciássemos as duas situações distintas, chamando aintolerância externa de intransigência. Assim, consideradas e verificadas aaceitação de certas verdades bíblicas, básicas e comuns, devemos ser tolerantes,mantendo, simultaneamente, a intransigência (intolerância externa).

Um dos grandes problemas que confrontamos é o de confundirintolerância com intransigência. Em muitas ocasiões somos intolerantes echegamos a nos orgulhar disso, como se fosse uma marca necessária às nossasconvicções teológicas. Definindo mais detalhadamente, intolerância fraternal, aatitude que não deveríamos ter, o pecado que deveríamos evitar, é:

· Falta de amor no trato com os nosso irmãos;
· Falta de discernimento das questões prioritárias, do que émais importante em nossa fé cristã.

O ensino de Paulo Sobre Tolerância Fraternal
Em Colossenses 3.12-16 temos ensinamento do apóstolo Paulosobre a necessidade de demonstração de tolerância fraternal. Diz-nos o texto:

12. Revestí-vos, pois, como eleitos de Deus, santos eamados, de coração compassivo, de benignidade, humildade, mansidão,longanimidade,
13. suportando-vos e perdoando-vos uns aos outros, se alguémtiver queixa contra outro; assim como o Senhor vos perdoou, assim fazei vóstambém.
14. E, sobre tudo isto, revestí-vos do amor, que é o vínculoda perfeição.
15. E a paz de Cristo, para a qual também fostes chamados emum corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos.
16. A palavra de Cristo habite em vós ricamente, em toda asabedoria; ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros, com salmos, hinos ecânticos espirituais, louvando a Deus com gratidão em vossos corações.

A orientação de Paulo é precisa e inquestionável. Da mesmaforma com que fomos perdoados e recebidos em extrema graça e tolerância, pornosso Senhor Jesus Cristo, assim também, seguindo o Seu exemplo, devemosdesenvolver semelhante atitude e testemunho para com os nossos irmãos (v. 13).O sentimento que deve ser notado pelos circunstantes, é o amor, o qual, ele noscomissiona, deve ser nossa vestimenta (“revesti-vos” – v. 14). Esse estilo devida é compatível e conduz à paz de Cristo (v. 15), gerando harmonia e ações degraças. Notem que, realisticamente, Paulo constata a possibilidade dediferenças de opiniões, situação em que é própria e cabível o ensino e aadmoestação (v. 16). Tais diferenças devem ser tratadas com a palavra deCristo, que deve habitar em nossos corações, resultando em amplo louvor ao nomede Deus.

Detalhando o Conceito de Intransigência
Não obstante, as advertências acima, existe campo para aintransigência que não é pecado. Dentro da definição que propusemos,intransigência seria, então:
· zelo pela verdade
· compreensão das doutrinas prioritárias da Palavra de Deus
Intransigência é o contrário de transigir, ou sejaultrapassar os limites; quebrar as regras recebidas. Nesse sentido,intransigência deve ser característica de cada calvinista, de cada crenteconvicto das verdades bíblicas. Ele não pode abrir mão das doutrinas claras,declaradas na Palavra de Deus. Ele não pode ultrapassar os limites traçados porDeus.

O Ensino de Paulo sobre Intransigência
Um exemplo dessa atitude, que é correta e própria, éencontrado na pessoa de Paulo, conforme sua inspirada declaração, em Gálatas(1.6-10). Nesse trecho Paulo fala de crentes “não tão quentes” que estãodesenvolvendo um ministério paralelo ao seu, indo de igreja em igreja,pregando. A reação de Paulo é bastante diferente daquela expressa na carta aosFilipenses 1.12-18, onde foi bastante benevolente e tolerante. Os dez primeirosversos da carta aos Gálatas dizem o seguinte:

1. Paulo, apóstolo (não da parte dos homens, nem porintermédio de homem algum, mas sim por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que oressuscitou dentre os mortos),
2. e todos os irmãos que estão comigo, às igrejas daGalácia:
3. Graça a vós, e paz da parte de Deus nosso Pai, e doSenhor Jesus Cristo,
4. o qual se deu a si mesmo por nossos pecados, para noslivrar do presente século mau, segundo a vontade de nosso Deus e Pai,
5. a quem seja a glória para todo o sempre. Amém.
6. Estou admirado de que tão depressa estejais desertandodaquele que vos chamou na graça de Cristo, para outro evangelho,
7. o qual não é outro; senão que há alguns que vos perturbame querem perverter o evangelho de Cristo.
8. Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasseoutro evangelho além do que já vos pregamos, seja anátema.
9. Como antes temos dito, assim agora novamente o digo: Sealguém vos pregar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema.
10. Porventura procuro eu agora o favor de homens, ou o deDeus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servode Cristo.


Nos versículos 1 a 5, Paulo fez a sua apresentação,indicando a sua autoridade apostólica, demonstrando que ela vem de Deus e nãode homens. A carta foi primariamente dirigida à Igreja da Galácia, mas teveampla circulação entre as demais igrejas. Paulo dá glória a Deus e indica queJesus Cristo se deu por nós para nos livrar das maldades desta era, passando atratar de um problema que estava surgindo naquela igreja: a aceitação de umevangelho adulterado.

No v. 6 ele mostra uma profunda perturbação interna –"estou assombrado", diz, demonstrando grande admiração que os membrosdaquela igreja estivessem mudando rapidamente de convicções. A afeição e alealdade estava sendo colocada em outra doutrina, pois estavam dando ouvidos a"alguns" (v. 7) que perturbavam e queriam perverter o evangelho deCristo. Pregavam um outro evangelho (grego: heteros-- distinção com o outro, doverso seguinte, que é allos. Aqui, heteros = ouk allo, ou seja diferente, “nãooutro”). Paulo referia-se, sem dúvida, aos judaizantes que pretendiam adicionaralgumas coisas "palpáveis, visíveis", à simples pregação doevangelho. Quem sabe eles diziam que era apenas uma questão de método? Talvezfosse muito mais atraente, desse mais substância, ou talvez até, mais emoção aoevangelho. Estas pessoas se apresentavam com autoridade e se propunham adeclarar o método de salvação. Paulo mantém a designação "evangelho"porque era apresentado como tal, mas na realidade, diz ele, não é evangelhonenhum (sistema diferente, mensagem diferente, doutrina diferente)!

No v. 8, Paulo dirige-se ao fundo do seu extenso vocabuláriogrego para classificar estas pessoas e lança uma fortíssima condenação.Independentemente de quem quer que seja: estas pessoas, ele próprio, ou até umanjo do céu—se vier trazer um evangelho que vá além (note que não eranecessariamente diferente na aparência, mas com algumas coisas adicionadas)daquele que eles tinham previamente ouvido da parte dele, tal pessoa deveriaser considerada anátema (isto é: amaldiçoado). Estas palavras contêm umaterrível responsabilidade a nós que fomos comissionados a pregar e a transmitiras verdades de Deus.

Para que não pairasse qualquer dúvida sobre o seu zelo,sobre sua posição, ele repete mais uma vez as mesmas palavras, no versículo 9.Não quer ser mal-entendido, não quer deixar "passar em branco", nãoquer parecer precipitado - é um pensamento depurado e destilado sob o fogo dozelo e sob o direcionamento sobrenatural do Espírito Santo.

Podemos negligenciar o aviso contido e pensar que Paulo sereferia somente à sua situação específica. Afinal, não temos mais judaizantesem nosso meio! Muitos de nós chegam a fazer, corretamente, a aplicação destaspalavras à pregação da Igreja Católica Romana, com suas adições e condiçõesanexadas à Graça salvadora de Cristo. Isto não basta, temos que analisar o queestá acontecendo no campo chamado "evangélico". Tristemente iremos,em muitas ocasiões, encontrar a proclamação de "outro" evangelho.

Paulo poderia ter particularizado a questão, especificadoquem ele combatia, mas quis o Espírito Santo, em sua soberania, deixar acolocação de forma genérica, de tal modo que o princípio fosse enfatizado — nãopodemos mexer com o cerne do evangelho.

Nesse sentido, devemos ser intransigentes porque, noversículo 11, ele coloca: “Faço-vos, porém, saber, irmãos, que o evangelho pormim anunciado não é segundo o homem; porque eu não o recebi, nem o aprendi dehomem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo”. Eis a razão de Paulo parater esta convicção: o evangelho não é doutrina de homens, mas sim revelação deJesus Cristo. Ele contraria a perspicácia, os desejos e as motivações carnaisdo homem. Temos que ter a coragem de "remar contra a maré" e proclamaro puro Evangelho de Cristo, sendo intransigentes nisso.

Uma Demonstração de Tolerância, na Vida de Paulo
Na epístola aos Filipenses (1.12-18), Paulo mostrou-sebastante tolerante com relação àqueles que pregavam a Cristo até com o motivoerrado, mas sem adulterar o conteúdo da mensagem. Não é que ele recomende afalta de sinceridade ou os motivos errados dos que se aproveitavam de suascadeias para pregar, mas ele é surpreendentemente tolerante. No entanto, não hánenhuma menção, no trecho, de que houvesse distorção no conteúdo da mensagem.Paulo sabia analisar os detalhes, discernir as prioridades e se concentrar nasquestões cruciais da fé cristã. Ele não temia ser conhecido e caracterizado porsua intransigência, quando o cerne do evangelho estava sendo adulterado.Entretanto, ele não queria ser classificado de intolerante, se este perigoestava ausente. Ele não queria ser “do contra” contra tudo, mas sim contra oque se merecia ser contra. A tolerância tem que ser uma atitude sempre presenteem nossa vida para com aqueles irmãos com os quais temos algumas diferenças. Anossa intransigência deve se conter àquelas coisas que estão perturbando ospontos fundamentais do evangelho, mas a caridade cristã, o amor de Cristo, deveser refletido em nossas atitudes, derramando-se sobre todos aqueles que foramresgatados pelo preciosos sangue de Cristo.


John Owen e Tolerância
Um dos maiores teólogos e expositores da Palavra de Deus quejá existiu, o puritano John Owen (1616-1683), viveu em uma era retratada pormuitos como uma época de intolerância. Owen era realmente intransigente, comrelação às doutrinas cardeais do evangelho, mas, surpreendentemente, ele eraextremamente tolerante com aqueles que não compartilhavam a sua interpretaçãoda Palavra de Deus. Naquela ocasião ele era conselheiro de governantes erespeitado por esses. Não seria inusitado, para a época, valer-se de suaposição de influência para promover expurgos e perseguições religiosas. Muitosassim o fizeram. Owen, entretanto, proferiu vários sermões e escritosdefendendo a tolerância e o tratamento amoroso da falta de entendimento demuitos.

Poderíamos dizer que Owen teve esta coragem de “remar contraa maré” da sua época, defendendo um tratamento meramente eclesiástico dasquestões religiosas, consciente de que o Senhor era o legítimo proprietário dasconsciências, a quem os homens haveriam de prestar contas por suas persuasões econvicções.

Em um de seus sermões ele retrata bem a intransigência dePaulo, quando declara: “Algumas coisas, na realidade, estão tão claramenteestabelecidas nas escrituras e tão bem determinadas, que não é possívelquestioná-las ou negá-las” .(8) Owen continua, entretanto, e se posiciona emdefesa da tolerância, refletindo uma atitude que, comparada com a nossaintolerância contumaz, deveria nos envergonhar, tamanha é a sua sensibilidade.Escreve ele:
…mas, geralmente, erros ocorrem em coisas de difícilcompreensão, que não são tão claras e evidentes… Com relação a tais, é muitodifícil classificá-las de heresias.
A sensibilidade de nossos próprios males, falhas,incompreensões, escuridão e o nosso conhecimento parcial, deveria operar em nósuma opinião caridosa para com as pobres criaturas que, encontrando-se em erro,assim estão com os corações sinceros e retos, com postura semelhante aos queestão com a verdade. (9)
Em 1648 Owen pregou um extenso sermão no ParlamentoBritânico, na Câmara dos Comuns, intitulado “Sobre Tolerância”, no qualdefendeu, mais uma vez a demonstração do amor cristão e a não-intervenção dospoderes governamentais nas diferenças de opiniões eclesiásticas. (10)

A Tolerância de Cristo
O grande exemplo de tolerância, nos é fornecido pelo próprioCristo. Em Mateus 20.20-28 lemos sobre o incidente onde Jesus recebe o pedidoda mulher de Zebedeu, para que seus filhos (Tiago e João) tivessem lugar deproeminência no reino que Ele havia acabado de anunciar. Possivelmente possuídade um conceito errado sobre a natureza desse reino e pleiteando cargos deimportância política, ela funda a instituição do “lobby governamental”. Comessa atitude, ela demonstra uma ampla falta de percepção espiritual, mas essafalha não era só dela. Seus filhos parecem apoiá-la e participar ativamente dopedido. Em sua resposta, Jesus diz que eles estão “por fora”, ou seja, “nãosabem o que pedem”.

Depois de estarem por tanto tempo tão próximos a Jesus,ouvindo os Seus ensinamentos, podemos até pensar, como é que eles erraram oalvo dessa maneira? Como é possível que não se aperceberam da naturezaespiritual do reino e da postura de servos que deveriam ter? Mas a situação émais grave ainda, porque os outros dez, passaram a demonstrar igual atitude deinveja e ira, com relação àquele pedido inoportuno. Se eles estivessem imbuídosda atitude de servos, conscientes de que deveriam, cada um, “considerar osoutros maiores do que a si mesmo”, certamente teriam dito a Jesus – “realmente,eles parecem ser bem qualificados para terem um lugar de importância no reino!Não nos importamos se eles forem nomeados”. Mas não, eles estavam, com certeza,pensando: “Por que eles, e não nós?” Repentinamente, depois de tantosensinamentos, Jesus viu todos os Seus auxiliares imediatos, os homens com osquais deixaria a Sua igreja, envolvidos em uma disputa rasteira sobre cargos einfluência pessoal… Como Ele deve ter se entristecido. Qual foi sua reação?

Registra o texto que Jesus, pacientemente, chamou a todos aolado e passou a ensinar-lhes, mais uma vez, a natureza do Seu reinadoespiritual, a verdadeira missão que lhes seria confiada. Que demonstração de amore de tolerância com a falta de entendimento daqueles irmãos. Que exemplo depaciência, para nós, e que incentivo para que sejamos mais tolerantes ecaridosos com os nossos irmãos. Que Deus nos livre do pecado da intolerância.

(6) Heber Carlos de Campos, O Pluralismo do Pós-Modernismo,Fides Reformata (São Paulo: Seminário Presbiteriano José Manoel da Conceição,1997), 2/1, 5-28.

(7) Campos, palestra realizada no VI Simpósio do Projeto OsPuritanos, Águas de Lindóia, São Paulo, 6-13 de junho de 1997.

(8) JohnOwen, Sermão: “A Prática do Governo da Igreja” em The Works of John Owen(Londres: The Banner of Truth Trust, 1967) Vol. VIII, 60.

(9) Owen, Works, VIII, 61.

(10) Owen, “Of Toleration”, Works, VIII, 163-206.

Sequência: [Introdução][1ªParte][2ªParte][3ªParte][4ªParte][5ªParte]

Por: Solano Portela
Fonte: solanoportela.com

Este livreto foi publicado no site da 1a Igreja Presbiteriana do Recife contendo uma versão preliminar publicana na revista "Os Puritanos". A versão publicada aqui é a completa. Este texto completo foi publicado pela Editora PES e pode ser adquirido através do site da editora:
http://www.editorapes.com.br