segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O Declínio Contemporâneo da Pregação ~ Prof. Rev. Paulo Anglada

downloadA pregação, como uma forma distinta de comunicação da vontade de Deus revelada na sua Palavra, está em declínio. Em muitas igrejas ela tem sido substituída por um número cada vez maior de atividades, tais como representações, recitação de poemas, jograis, testemunhos, debates, discursos políticos, atividades sociais e administrativas, e especialmente pela música, incluindo corais, conjuntos, bandas, quintetos, quartetos, duetos, solos, etc. Cada vez mais tempo tem sido conferido a estas outras atividades e menos à pregação.

Cerca de 30 anos atrás, o Dr. Martyn Lloyd-Jones foi convidado a proferir uma série de conferências no Westminster Theological Seminary, na Filadélfia. Nestas palestras, publicadas em 1971, com o título Pregação & Pregadores, ele enfatizou que a pregação é a tarefa primordial da igreja e do ministro; e explicou que estava ressaltando isso, “por causa da tendência, hoje, de depreciar a pregação em prol de várias outras formas de atividade”.[1][2] A situação não melhorou. John J. Timmerman observou, quase vinte anos depois, que “em muitas igrejas, o sermão é uma ilha diminuindo cada vez mais em um mar turbulento de atividades”.[2][3]

Mesmo igrejas de tradição reformada parecem estar sucumbido paulatina, mas progressi­vamente à esta tendência; e o lugar da pregação no culto tem perdido importância. John Frame, teólogo de tradição reformada, professor no Westminster Theological Seminary na Califórnia, publicou há dois anos o livro Culto em Espírito e em Verdade; Um Estudo Estimulante dos Princípios e Práticas do Culto Bíblico. No livro o autor nega, entre outras coisas, que a pregação seja função restrita dos ministros da Palavra, ou mesmo dos presbíteros em geral; considera a dramatização e o diálogo métodos legítimos de ensino no culto público; e não vê razão pela qual um culto público não possa ser inteiramente musical.[3][4]

Há diversas razões para o declínio contemporâneo da pregação. Uma dela é de ordem tecnológica: o surgimento de novos meios de comunicação (cinema, televisão, vídeo cassete), e de novas mídias interativas (CD-ROM, Internet e TVs a cabo). Sustentar a pregação como forma admissível de comunicação nestes dias de tamanho avanço tecnológico parece um anacronismo para muitos nesta geração multimídia.[4][5]

Outra razão é a aversão do homem moderno à verdade objetiva. Vivemos numa sociedade pós-moderna, em que não há mais lugar para verdades concretas ou absolutas. Cada um tem a sua própria verdade. Klaas Runia, teólogo reformado holandês, publicou um livro, com o título O Sermão sob Ataque, no qual observa que a presente aversão à pregação é fruto do liberação intelectual ocidental. O homem moderno, afirma ele, “não quer que lhe digam o que é verdadeiro ou certo; ele quer descobri-lo por si mesmo e quer determinar por si mesmo o que deve fazer… Ele quer participar da discussão, mas o sermão não dá oportunidade para discussão”.[5][6] Esta filosofia relativista tem levado muitos pregadores a sentirem-se bastante desconfortáveis com a idéia de fazer declarações públicas autoritativas.[6][7]

A secularização da sociedade também contribuiu de modo decisivo para a depreciação da pregação. Os “cuidados do mundo e a fascinação das riquezas” têm desviado a atenção das pessoas das questões essenciais da vida: as questões filosóficas e espirituais. Mesmo quando, afligido pela própria sociedade secularizada em que vive, o homem moderno se volta para o espiritual, ele tende a tornar-se espiritualista, sincretista, supersticioso, animista, em conseqüência da sua ignorância espiritual.

Uma das principais razões para o que vem ocorrendo com a pregação, consiste no afastamento do cristianismo das Escrituras. O cristianismo moderno tem sido cada vez mais influenciado pelas filosofias correntes: o racionalismo, o subjetivismo, o pragmatismo; e se afastado da Palavra de Deus como regra suprema de fé e prática. As doutrinas reformadas da autoridade e suficiência das Escrituras não parecem ser levadas a sério. O racionalismo do século passado e da primeira metade deste século minou a autoridade das Escrituras e, consequentemente, da pregação. O subjetivismo deste século fez do indivíduo o centro de todas as coisas. O pragmatismo moderno justifica todos os meios, desde que se mostrem eficazes para a consecução dos objetivos desejados. Retornar às Escrituras implica em redescobrir a pregação. Afastar-se dela resulta sempre na depreciação da pregação.

A própria corrupção da pregação suscita reação adversa. A verdadeira pregação é insuportável para o pecador não humilhado. A pregação corrompida é insuportável para o crente sincero. Quando a pregação degenera em eloqüência de palavras, demonstração de sabedoria humana, elucubrações metafísicas, meio de entretenimento, ou embromação pastoral dominical, ela pode provocar aversão nos ouvintes; e outras coisas tendem a tomar o seu lugar. É compreensível! Se a voz de Deus não se faz ouvir no culto por meio da legítima pregação da Palavra, é natural que outros elementos e práticas tomem o seu lugar.

No livro Pregação e Pregadores, Lloyd-Jones menciona algumas razões bem particulares para a presente depreciação da pregação, que também merecem ser consideradas: os “pulpiteiros”, a ênfase moderna em aconselhamento pessoal (hoje degenerado em clínicas pastorais de aconselhamento psicológico), e o ritualismo. Por “pulpiteiros”, Lloyd-Jones se refere aos profissionais do púlpito do século passado e do início deste século, os quais davam valor exagerado à forma e ao estilo elaborado do sermão. Estes homens eram verdadeiros showmen, peritos em dominar e persuadir o auditório com sua presença, gestos, voz e linguagem elaboradas.

Eles ainda existem, mas, de modo geral, a ênfase na qualidade do discurso foi substituída pela persuasão emocional. Lloyd-Jones considera abominável esta classe de pregadores, pois eles transformam a pregação em entretenimento intelectual ou emocional. Com relação ao aconselhamento pessoal, o pregador galês sugere que a ênfase moderna na necessidade de um tratamento individualizado dos problemas psicológicos, sociais, de relacionamento, etc. de cada pessoa em particular, também é responsável pela presente depreciação da pregação.[7][8] A reivindicação, observa ele, tem sido no sentido de que os ministros “…deveriam pregar menos e gastar mais tempo com um trabalho individual, aconselhando e conversando”.[8][9] Ele responde o argumento asseverando que a pregação lida de modo eficaz e insubstituível com os problemas pessoais da congregação.[9][10] Quanto ao ritualismo, Lloyd-Jones refere-se à tendência de enfatizar formas elaboradas de culto, atribuindo-lhes certa conotação religiosa. Creio que sua observação, a seguir, merece a nossa consideração:

À medida que a pregação desvanece, tem havido um crescimento do elemento formal no culto. É interessante observar como os membros de igrejas livres, não episcopais — seja como for que os chamem — têm progressivamente tomado emprestado essas idéias do tipo de culto episcopal, quando a pregação desvanece. Eles argumentam que as pessoas deveriam ter mais participação no culto e, assim, têm introduzido leituras responsivas, e mais e mais música, cânticos e canções. As maneiras de receber as ofertas têm se tornado mais elaboradas, os ministros e corais geralmente entram em procissão… a medida que a pregação declina, estas outras coisas têm sido enfatizadas… e as pessoas têm sentido que é mais dignificante dar maior atenção ao cerimonial, a forma, ao ritual.[10][11]

Tudo isso, fez com que o evangelicalismo moderno encarasse a pregação como uma atividade meramente humana, de eficácia, no mínimo, duvidosa.

Essas tendências e influências produziram resultados devastadores sobre a pregação nos meios evangélicos. Ela tornou-se como que um apêndice no culto público – e as conseqüências sem dúvida têm se feito sentir na vida da igreja. Na perspectiva reformada, o declínio do lugar da pregação no evangelicalismo moderno é uma constatação seriíssima. Se a teologia reformada com relação à pregação reflete o ensino bíblico, então muito do estado presente da igreja cristã certamente se explica como resultado desse declínio da pregação.

Por: Prof. Rev. Paulo Anglada

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[1][2] D. Martyn Lloyd-Jones, Preaching and Preachers (first published in 1971, reprint, London: Hodder and Stoughton, 1985), 26.

[2][3] John J. Timmerman, Through a Glass Lightly (Grand Rapids: Eerdmans, 1987). Citado em David J. Engelsma, “Preaching in Worship: Voice of God, Voice of Christ (1)”, SBearer 74, no. 8 (1998). http://www. prca.org/standard_bearer/1998jan15.html#PreachingInWorship. Internet; acessado em 05/09/98. Conferir também Paul Helm, “Preaching and Grace”, The Banner of Truth 117 (1973): 8.

[3][4] John M. Frame, Worship in Spirit and Truth; A Refreshing Study of the Principles and Practice of Biblical Worship (Presbyterian & Reformed, 1996), 91-94, 114. A posição de Frame tem sido contestada por outros teólogos reformados. David Engelsma, por exemplo, observa que com base na negação de qualquer distinção entre o culto público oficial e o culto familiar, John Frame faz uma interpretação tão ampla do princípio regulador reformado, que este acaba se tornando sem sentido (Engelsma, “Preaching in Worship: Voice of God, Voice of Christ (1)”). Para uma contestação do artigo de Frame, na mesma linha: “Some Questions about the Regulative principle”, Westminster Theological Journal 54, no. 2 (1992): 357-366, ver T. David Gordon, “Some Answers about the Regulative Principle”, WTJ 55, no. 2 (1993): 321-331.

[4][5] Ver, na mesma direção, comentário de John Armstrong, citado por Errol Wagner, “Counseling the Flock through Preaching”, Reformation Today 160 (1977): 14.

[5][6] Klaas Runia, The Sermon under Attack (Exeter: Paternoster, 1983). Citado por David J. Engelsma, “Preaching in Worship: Voice of God, Voice of Christ (1)”. Ver também Héber Carlos de Campos, “O Pluralismo do Pós-Modernismo”, Fides Reformata 2, no. 1 (1997): 5-28.

[6][7] Ver Wagner, “Counseling the Flock through Preaching”, 14.

[7][8] Lloyd-Jones, Preaching and Preachers, 17-18 e 36-40.

[8][9] Ibid., 37.

[9][10] Ibid. Para um artigo tratando da relação entre aconselhamento e pregação na mesma linha, ver também Wagner, “Counseling the Flock through Preaching”, 11-19.

[10][11] Lloyd-Jones, Preaching and Preachers, 16

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Aviso nº1 do livro “Avisos para a Igreja” | J.C. Ryle (Agosto de 1858)

igreja comunidade“Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la.” Mateus 16:18

Vivemos em um mundo no qual todas as coisas estão perecendo. Reinos, impérios, cidades, instituições, famílias, tudo é passível de mudanças e corrupção. Uma lei universal parece prevalecer em todo lugar. Há uma tendência, em todas as coisas criadas, a uma deterioração.

Há uma coisa triste e depressiva nisto. Que lucro tem um homem no trabalho de suas mãos? Haverá algo que permanecerá? Haverá algo que durará? Haverá algo que resistirá? Haverá algo na qual poderemos dizer: Isto continuará para sempre? Você terá as respostas a essas perguntas nas palavras de nosso texto. Nosso Senhor Jesus Cristo fala de algo que continuará e não passará. Há uma criação a qual é uma exceção para a regra universal da que tenho falado. Há uma coisa a qual nunca perecerá e nunca passará. Essa coisa é o edifício fundado sobre a rocha – a Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele declara, nas palavras que vocês ouviram esta noite: “Sobre essa pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la”.

Há cinco coisas nestas palavras que exigem sua atenção:

  • 1. Um edifício:Minha Igreja
  • 2. Um construtor: Cristo diz: “Edificarei minha igreja
  • 3. Uma fundação:Sobre essa pedra edificarei minha igreja”.
  • 4. Perigos implícitos: “As portas do hades”.
  • 5. Garantia afirmada:As portas do Hades não poderão vencê-las”.

Que Deus abençoe as palavras que serão proferidas. Possamos todos nós examinar nossos próprios corações esta noite, e saber se pertencemos ou não a essa Igreja. Possamos nós voltar todos para a casa para refletir e orar.

1. Primeiros vocês têm um “edifício” mencionado no texto. O Senhor Jesus Cristo fala da “Minha Igreja”.

Agora, qual é essa Igreja?: Poucas perguntas podem ser feitas de maior importância que estas. Pela necessidade da devida atenção a esse assunto, os erros que se faz notar na Igreja e no mundo não são poucos e nem pequenos.

A Igreja de nosso texto não é um edifício material. Não é um templo feito por mãos, de madeira, ou tijolos, ou pedras, ou mármores. Ela é um grupo de homens e mulheres. Ela não é uma particular igreja visível sobre a terra. Não é a igreja oriental ou ocidental. Não é a Igreja da Inglaterra ou da Escócia. Muito menos a de Roma. A igreja de nosso texto é uma que faz menos aos olhos do homem, mas faz mais importância aos olhos de Deus.

A Igreja de nosso texto é a edificação de todos os verdadeiros crentes no Senhor Jesus Cristo. Ela compreende todos os que se arrependeram dos seus pecados e se refugiaram em Cristo pela fé, e foram feitas novas criaturas nele. Ela consiste em todos eleitos de Deus, todos aqueles que têm recebidos a graça de Deus, todos aqueles que foram lavados no sangue de Jesus, todos aqueles que foram revestidos pela justiça de Cristo, todos aqueles que nasceram de novo e foram santificados pelo Espírito de Cristo. São os tais todos de cada nação, povo, e língua compõe a Igreja de nosso texto. Essa é a noiva. Essa é a esposa do cordeiro. Essa é a Igreja sobra a rocha.

Os membros desta Igreja não adoram Deus do mesmo modo, ou usam a mesma forma de governo. Nosso próprio 34º Artigo declara, “Não é necessário que as cerimônias sejam iguais ou semelhantes em todos os lugares”. Porém que todos adorem em um só coração. Sejam eles todos guiados por um Espírito. Sejam eles todos realmente e verdadeiramente santos. Possam eles cantar “Aleluia” e todos possam responder “Amém”.

Esta é aquela Igreja para quem todas as igrejas visíveis sobre a terra são servas. Sejam elas episcopais, independentes ou presbiterianas, todas elas servem ao interesse da verdadeira Igreja. Elas são andaimes atrás do qual o grande edifício é conduzido. Elas são as cascas sob a qual a semente viva cresce. Elas têm seus vários graus de utilidade. A melhor e a mais valiosa delas é aquela a qual são treinados os membros da verdadeira Igreja de Cristo. Mas nenhuma igreja visível tem o direito de dizer: “Nós somos a verdadeira Igreja. Somos os homens e a verdadeira sabedoria morrerá conosco”. Nenhuma igreja jamais deveria ousar a dizer “Permaneceremos para sempre. O inferno não prevalecerá contra nós”.

Esta é aquela Igreja que pertence as preciosas promessas do Senhor de preservação, continuidade, proteção e glória final. “Qualquer que seja” diz Hooker[1], “que leiamos nas escrituras, concernente ao eterno amor e misericórdia salvadora que Deus mostre a sua Igreja, o único justo assunto é esta Igreja, o qual nós propriamente chamamos de corpo místico de Cristo”. Pequena e desprezada como a verdadeira Igreja de Cristo possa ser neste mundo, ela é preciosa e honorável à vista de Deus. O templo de Salomão em toda a sua glória é nada comparado a Igreja que está edificada sobre a rocha.

Homens e irmãos, vejam que vocês retenham sãs a doutrina a respeito da “Igreja”. Um erro aqui pode os levar para o perigo e a ruína as almas. A Igreja que é composta de verdadeiros crentes é a Igreja para a qual nós, que somos ministros, somos ordenados especialmente para pregar. A Igreja que abrange todos aqueles que se arrependem e acreditam no evangelho, é a Igreja que nós desejamos que vocês pertençam. Nosso trabalho não está terminado e nossos corações ainda não estão satisfeitos, até vocês serem feitos novas criaturas e serem membros da verdadeira Igreja. Fora desta verdadeira Igreja não há salvação.

2. Passo ao segundo ponto, para qual eu proponho chamar a sua atenção. Nosso texto contém não meramente um edifício, mas também um construtor. Nosso Senhor Jesus Cristo declara: “Euedificarei minha Igreja”.

A verdadeira Igreja de Cristo está ternamente cuidada por todas as pessoas da bendita Trindade. Na economia da redenção, sem dúvida nenhuma, Deus o Pai escolhe, e o Deus Espírito Santo santifica cada membro do corpo místico de Cristo. Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, três pessoas e um só Deus, cooperam para a salvação de cada alma salva. Esta é a verdade, a qual não devemos jamais esquecer.

Não obstante, há um senso peculiar na qual a assistência da Igreja é depositada sobre Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é peculiar e preeminentemente o Redentor e o Salvador. Consequentemente, o encontramos dizendo em nosso texto, “Eu edificarei: o trabalho de edificação é minha obra especial”.

  • É Cristo que chama os membros da Igreja no seu devido tempo. Eles são “os chamados de Jesus Cristo”.
  • É Cristo que lhes dá vida. “O filho dá também a vida a quem ele quer”. João 5:21.
  • É Cristo quem lavou seus pecados. Aquele “que nos ama e libertou dos nossos pecados por meio do seu sangue”. Apocalipse 1:5.
  • É Cristo que lhes dá a paz. “Deixo-lhes a paz, a minha paz lhes dou”. João 14:27.
  • É Cristo que lhes dá a vida eterna. “Eu lhes dou a vida eterna e eles jamais perecerão”. João 10:28.
  • É Cristo que lhes assegura arrependimento. “E Deus o exaltou, colocando-o à sua direita como Príncipe e Salvador para dar a Israel arrependimento e perdão dos pecados”, Atos 5:31.
  • É Cristo que os capacita a se tornarem filhos de Deus. “Contudo, aos que o receberam e aos que creram em seu nome deu-lhes o direito de tornarem filhos de Deus”. João 1:12.
  • É Cristo que continua a obra neles quando ela começou. “Porque eu vivo, vocês também viverão” João 14:19.

Em resumo “Pois foi do agrado de Deus que nele {em Cristo} habitasse toda a plenitude”. Colossences 1:19. Ele é o autor e consumador da fé. Dele, toda a junta e membro do corpo místico dos cristãos é suprido. Através de Cristo eles são fortificados para o dever. Através Dele eles são guardados do fracasso. Cristo os preservará até o fim e os apresentará sem falta diante do trono do Pai com grande regozijo. Ele é todas as coisas, e tudo em todos para os crentes.

O agente poderoso pela qual o Senhor Jesus Cristo cumpre este trabalho em grande número de Igrejas é, sem dúvida nenhuma, o Espírito Santo. É Ele que aplica Cristo e seus benefícios para a alma. É ele que renova, desperta, convence, leva para a cruz, transformando, tirando do mundo, pedra após pedra, e adicionado-o para o corpo místico de Cristo.

Mas o grande chefe construtor, que elaborou o trabalho de redenção e trouxe-o para o seu cumprimento, é o Filho de Deus: o verbo que se fez carne. È Jesus que “edifica”.

Edificando a verdadeira Igreja, o Senhor Jesus permite usar muitos instrumentos subordinados. O ministério do evangelho, a exposição das Escrituras, a admoestação amiga, a palavra falada na estação certa, atraindo influência das aflições, todos são métodos pela qual seu trabalho continua. Mas Cristo é o grande superintendente, arquiteto, ordenando, guiando, dirigindo tudo o que é feito. O que o sol é para todo o sistema solar, Cristo é para todos os membros da verdadeira Igreja. “Paulo pode plantar, Apolo regar, mas Deus dá o crescimento”. Ministros podem pregar, os escritores podem escrever. Mas é só Jesus que pode edificar. E se ele não edificar, a obra permanece paralisada.

Grande é a sabedoria com a qual o Senhor Jesus edifica a sua Igreja. Tudo é feito no devido tempo, na forma correta. Cada pedra em sua Igreja é colocada no lugar devido. Às vezes ele escolhe grandes pedras, e às vezes escolhe pequenas pedras. Às vezes, a obra se move rapidamente, às vezes vagarosamente. O homem é frequentemente impaciente, e pensa que nada está acontecendo. Mas o tempo do homem não é o tempo de Deus. Mil anos para Deus representa apenas um dia. O grande construtor não comete erros. Ele sabe o que está fazendo. Desde o inicio faz conhecer o fim. Ele trabalha através de um plano perfeito, certo e inalterável.  As mais poderosas concepções de arquitetos, como Michelangelo, são meras brincadeiras de crianças, em comparação com os sábios conselhos de Cristo com respeito a sua Igreja.

Grande é a condescendência e a misericórdia que Cristo mostra na edificação de sua Igreja. Ele frequentemente escolhe as mais improváveis e ásperas pedras e ajusta-as na mais excelente obra. Ele não despreza e nem rejeita ninguém por conta dos seus antigos pecados e transgressões passadas. Ele se agrada e deleita em mostrar misericórdia. Ele frequentemente pega o mais negligente e incrédulo e transforma-o em cantos polidos do seu templo espiritual.

Grande é o poder que Cristo exibe na edificação de sua Igreja. Ele prossegue Sua obra apesar da oposição do mundo, da carne e de Satanás. Na tempestade, no caos, através de tempos turbulentos, silenciosamente, quietamente, sem barulho, sem agitação, sem excitação, o edifício avança como o templo de Salomão. “Eu trabalharei”, declara, “e ninguém interromperá”.

Irmãos, os filhos do mundo têm pouco ou nenhum interesse na edificação desta Igreja. Eles não se importam pela conversão das almas. O que são espíritos quebrantados e corações arrependidos para eles? Tudo é bobagem à seus olhos. Porém, enquanto os filhos deste mundo não se importam, há alegria na presença dos anjos de Deus. Porque na preservação dessa Igreja, as leis da natureza têm sido, às vezes, suspensas. Para o bem dessa Igreja, todos os negócios de Deus neste mundo são ordenados e organizados. Pelo amor dos eleitos, as guerras são encerradas, e a paz é dada para a nação. Estadistas, governantes, imperadores, reis, presidentes, Chefes de governos, têm seus esquemas e planos, e pensam que são de alta importância. Porém, há outra obra que está acontecendo, definitivamente, de muito maior significado, pelas quais eles todos são nada mais que machados e instrumentos nas mãos de Deus. Essa obra é o ajuntamento de pedras vivas na verdadeira Igreja. Quão pouco nos contam a palavra de Deus a respeito dos não convertidos comparado com que nos contam sobre os convertidos crentes. A história de Ninrode, o poderoso caçador, é descartada em poucas palavras. A História de Abraão, o pai da fé, ocupa diversas páginas. Nada nas escrituras é tão importante como a concernente à verdadeira Igreja. O mundo desdenha da Palavra de Deus. A Igreja e sua história a tem em alta consideração.

Vamos agradecer a Deus para sempre, meus amados irmãos, porque a edificação da verdadeira Igreja está colocada sobre os ombros Daquele que é poderoso. Vamos bendizer a Deus, que não faz cair essa responsabilidade sobre o homem. Vamos bendizer a Deus que não depende de missionários, ministros ou comissões. Cristo é o poderoso Construtor. Ele prosseguirá sua obra, embora nações e igrejas visíveis desconheçam seus deveres e obrigações. Cristo nunca falhará. O que ele começou ele certamente executará e completará.

3. Passo para o terceiro ponto, que propus a considerar. O fundamento sobre a qual esta Igreja está edificada. O Senhor Jesus Cristo nos diz; “sobre essa rocha edificarei a minha Igreja”.

O que quis dizer o Senhor Jesus Cristo quando ele falou deste fundamento? Referia-se ele ao apóstolo Pedro com quem estava falando? Eu tenho certeza que não. Não consigo ver razão, pois se ele referia-se a Pedro ele teria dito “sobre você” eu edificarei minha Igreja. Se ele estivesse referindo-se a Pedro ele teria dito, “Eu edificarei minha Igreja por seu intermédio”, tão claramente quanto ele disse: “Eu lhe darei as chaves”. Não, não é na pessoa do apóstolo Pedro, mas na boa confissão que o apóstolo tinha acabado de fazer. Não era Pedro, o vacilante, o homem instável. Mas a poderosa verdade que o Pai havia revelada a Pedro. Era a mediação de Cristo, o messianismo de Cristo. Era a abençoada verdade, que Jesus era o salvador prometido, a verdadeira Garantia, o real intercessor entre Deus e o homem. Essa era a rocha, e esse era o fundamento sobre a qual a Igreja de Cristo seria edificada.

Meus irmãos, esse fundamento foi colocado mediante a um alto preço. Foi necessário que o filho de Deus tomasse a nossa natureza sobre Ele e naquela natureza vivesse, sofresse e morresse, não pelos seus próprios pecados, mas pelos nossos. Foi necessário que naquela natureza Cristo fosse para o túmulo e ressuscitasse. Foi necessário que naquela natureza subisse ao céu, sentasse a mão direita de Deus, tendo obtido redenção eterna para todo o seu povo. Nenhum outro fundamento exceto esse poderia sustentar essa Igreja da qual o texto fala. Nenhum outro fundamento poderia conhecer a necessidade de um mundo de pecadores.

O fundamento, uma vez obtido, é muito forte. Ele pode sustentar o peso do pecado de todo o mundo. Ele tem sustentado o peso de todos os pecados de todos os crentes que edificaram sobre ele. Pecados do pensamento, pecados da imaginação, pecados do coração, pecados da cabeça, pecados que cada um tem visto, pecados que nenhum homem conhece, pecados contra Deus, e pecados contra o homem pecados de todos os tipos e descrições – essa poderosa rocha pode suportar o peso de todos esses pecados e não ceder. O serviço mediador de Cristo é um remédio suficiente para todos os pecados de todo o mundo.

A esse fundamento cada membro da verdadeira Igreja de Cristo está conectado. Em muitas coisas os crentes estão em desacordos e desunidos. Na questão do fundamento de suas almas eles são uma só alma. Todos eles são edificados na rocha. Pergunte onde eles obtêm a paz, a esperança, e as expectativas jubilantes das boas coisas que estão por vir. Vocês descobrirão que tudo flui daquela poderosa verdade – Cristo, o Mediador entre Deus e o homem, e o ofício que Cristo detem como Sumo Sacerdote e Promessa dos pecadores.

Aqui está o ponto de exige a nossa atenção. Estamos nós sobre a rocha? Estamos nós reunidos ao único fundamento? O que aquele velho temente homem, Leighton diz?

“Deus pôs esta preciosa pedra para este exato propósito, que os fadigados pecadores possam descansar sobre ela.”

A multidão de imaginários crentes jazem todos ao redor, mas eles não são melhores por causa disso, não mais que as pedras que jazem soltas em pilhas, perto do fundamento, mas não reunidas a ele. Não há benefícios para nós através de Cristo se não estamos firmados Nele.

Olhem para o fundamento em que se apóiam, amados irmãos, para saberem se são membros ou não da verdadeira Igreja. É uma questão que pode ser conhecida por vocês mesmos. Suas adorações públicas podemos ver, mas não podemos ver se vocês estão pessoalmente edificados sobre a rocha. Podemos ver a presença de vocês na ceia do Senhor, mas não podemos saber se vocês estão unidos a Cristo, um em Cristo e Cristo em todos.  Porém, tudo virá á luz um dia. Os segredos dos corações serão revelados. Talvez vocês venham a Igreja regularmente e você ora fielmente. Tudo isso é correto e bom. Mas, observe que você não erre sobre sua própria salvação. Observe se sua própria alma está sobre a rocha. Sem isto, tudo mais não significa nada (é nada). Sem isto, vocês jamais resistirão ao dia do julgamento. Muito melhor ser encontrado em uma cabana naquele dia, do que em um palácio sobre a areia.

4- Prossigo, em quarto lugar, falando das provações sugeridas da Igreja, a qual nosso texto refere. Há menção feita de “os portões do inferno”. Por essa expressão somos levados a entender a força de Satanás e do mal.

A história da verdadeira Igreja de Cristo sempre tem sido de conflito e guerra. Ela tem sido constantemente assediada por um inimigo mortal, Satanás, o príncipe deste mundo. Satanás odeia a verdadeira Igreja de Cristo com um eterno ódio. Ele está sempre incitando oposição contra todos os seus membros. Ele está sempre instigando os filhos deste mundo a fazerem sua vontade e injuria e atormenta o povo de Deus. Se ele não pode ferir o Cabeça, ele ferirá o calcanhar. Se ele não pode roubar o paraíso dos crentes, ele os agravará quando eles viajarem pela estrada do céu.

Por seiscentos anos esta hostilidade tem continuado. Milhões de ímpios têm sido agentes de Satanás, e feito as obras de satanás, embora eles não saibam disso. Os Faraós, os Herodes, os Neros, os Julianos, os Dioclesianos, as Marias Sanguinárias; foram instrumentos de Satanás, quando eles perseguiram os discípulos de Jesus Cristo.

As guerras com os poderes do inferno tem sido a experiência de todo o corpo de Cristo. Tem sido sempre uma sarça em chamas, embora não consumida – uma mulher fugindo no deserto, mas não devorada. As igrejas visíveis têm seus tempos de prosperidades e épocas de paz, mas nunca tem havido um tempo de paz para a verdadeira Igreja. Seu conflito é perpétuo. Sua batalha nunca termina.

Guerra com os poderes do inferno é uma experiência de cada membro individual de todo o corpo de Cristo. Cada um tem que lutar. O que são as vidas de todos os santos senão registros de suas batalhas? O Que foram tais homens como Paulo, Tiago, João, Policarpo, Inácio, Agostinho, Lutero, Calvino, Latimer, Baxter, senão soldados engajados em uma constante guerra? Às vezes suas pessoas foram atacadas, às vezes suas propriedades. Às vezes foram atormentados por calúnias, e às vezes por aberta perseguição. Assim, de uma forma ou de outra, Satanás tem estado continuamente guerreando contra a Igreja.

Homens e irmãos, nós que pregamos o Evangelho podemos estender as mãos para todos aqueles que venham a Cristo, ultrapassando grandes e preciosas promessas. Podemos oferecer ousadamente a vocês no nome de nosso Mestre, a paz de Deus que ultrapassa a todo o entendimento. Misericórdia, gratuita graça e plena salvação são oferecidas para todos que virem para Cristo e Nele acreditarem. Porém, não prometemos paz com o mundo, ou com Satanás. Avisamos a vocês, pelo contrário, que deve haver uma guerra, enquanto estiverem no corpo. Nós não os reemprederemos ou deteremos no serviço de Cristo. Mas vocês terão que levar em conta o preço e entender completamente o que o serviço de Cristo implica. O Inferno está atrás de vocês. O céu diante de vocês. O Lar se apresenta do outro lado do mar agitado. Milhares, dezenas de milhares atravessaram essa águas turbulentas, é apesar de toda a oposição alcançaram o porto. O inferno os atacou, mas não prevaleceu. Vão em frente, amados irmãos e não temam o adversário. Somente vinculem-se a Cristo e a vitória é certa.

Não estranhe no ódio das portas do inferno. “Se vocês estivessem no mundo, o mundo amaria vocês com se fossem os seus”. Enquanto o mundo for mundo, e Satanás ser Satanás, deve haver guerra, e os crentes em Cristo devem ser soldados. O mundo odiou a Cristo, e o mundo odiará os verdadeiros crentes, enquanto a terra durar. Como disse o grande reformador Lutero:

“Caim continuará assassinado Abel enquanto a igreja estiver sobre a terra”.

Esteja preparado para a hostilidade das portas do inferno. Revista-se de toda a armadura de Deus. A torre de Davi tem mil escudos, todos prontos para o uso do povo de Deus. As armas de nossa guerra têm sido experimentadas por milhões de pobres e miseráveis pecadores como nós mesmos, e nunca se depararam com o fracasso.

Sejam pacientes sob o espinheiro das portas do inferno. Tudo isso coopera para o nosso bem. Isso tende a nos santificar. Mantêm vocês desperto. Isso faz vocês humildes. Isso os leva a estar mais próximos do Senhor Jesus Cristo. Isso os leva ao desapego do mundo. Isso ajuda vocês a orarem mais. Acima de tudo, faz vocês ansiarem pelo céu, e dizer com o coração e também com os lábios: “Venha Senhor Jesus”.

Não se perturbem pelo ódio do inferno. A guerra dos verdadeiros filhos de Deus é tanto uma marca da graça quanto a paz interior que ele goza. (desfruta). Sem cruz, sem coroa.

Sem conflito, sem salvação cristã! “Bendito são,” disse o Senhor Jesus Cristo, “quando as pessoas insultarem vocês, perseguir-los, e falsamente acusá-los de toda a sorte de maldade contra vocês por causa de mim”.

5- Ainda permanece algo em acréscimo para ser considerado: A segurança da verdadeira Igreja de Deus. Há uma gloriosa promessa dada pelo poderoso Construtor, “As portas do inferno não prevalecerão”.  Ele que não pode mentir, assegura com sua real palavra, que todos os poderes do inferno nunca derrubarão Sua Igreja. Ela continuará e permanecerá a despeito de cada ataque. Ela jamais será vencida. Todas as outras coisas perecerão, exceto a Igreja de Cristo. A mão da violência exterior, ou a traça da deterioração interior prevalecem sobre qualquer outra coisa mais, mas não sobre a Igreja que Cristo edifica.

Impérios se levantaram em rápida sucessão. Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia, Tiro, Cartago, Roma, Grécia, Veneza – Onde estão todas elas agora? Todas elas foram edificações feitas por mãos humanas, e passaram. Porém, a Igreja de Cristo vive.

As mais poderosas cidades se tornaram um amontoado de ruínas. Os amplos muros da Babilônia estão afundados na terra. Os palácios de Níneve são um amontoado de poeira. As centenas de portões de Tebes são somente assuntos da história. Tiro é um lugar onde os pescadores penduram suas redes. Cartago é uma desolação. Entretanto, todo esse tempo a verdadeira Igreja permanece. As portas do inferno não prevalecerão contra ela.

As mais antigas igrejas visíveis têm, em muitos casos, apostatado e perecido. Onde estão as Igrejas de Éfeso e a Igreja de Antioquia? Onde está a Igreja de Alexandria e a Igreja de Constantinopla? Onde estão as igrejas de Corinto, de Filipos e Tessalônica? Onde, de fato, estão todas elas? Elas se desviaram da Palavra de Deus. Elas estavam orgulhosas de seus bispos, dos seus sínodos, das suas cerimoniais, dos seus ensinos e tradições. Eles não se gloriaram na verdadeira cruz de Cristo. Elas não se apegaram ao Evangelho. Elas não deram a Jesus, ou mesmo a fé, o seu devido lugar. Elas estão, agora, entre as coisas que já foram. Seus candelabros foram retirados. Porém durante todo esse tempo a verdadeira Igreja de Cristo tem permanecido viva. Tem a verdadeira Igreja sido perseguida em seu país? Tem sido ela pisoteada e oprimida em algum solo? Foi plantada e floresceu em outro clima. Fogo, espada, prisões, multas, penalidades nunca foram capazes de destruir sua vitalidade. Seus perseguidores têm morrido e ido para seus próprios lugares, mas a palavra de Deus vive, cresce e se multiplica. Por mais a verdadeira Igreja que pareça fraca aos olhos do homem, ela é uma bigorna que tem quebrado a muitos, e talvez quebre a muitos outros antes do fim. Aquele que põe as mãos nela, está tocando a menina dos olhos de Deus.

A promessa de nosso texto aplica-se verdadeiramente a todo o corpo da verdadeira Igreja de Cristo. Cristo nunca estará sem uma testemunha no mundo. Ele tem tido um povo nos piores tempos. Ele teve 7.000 em Israel nos dia do rei Acabe. Há alguns agora, acredito eu, nos lugares escuros da Igreja Católica Romana e nas Igrejas Ortodoxas Gregas, que apesar de muita fraqueza, estão servindo Cristo. Satanás pode enfurecer-se terrivelmente. A igreja pode ser espezinhada em alguns países. Porém, as portas do inferno não prevalecerão completamente.

A promessa de nosso texto se aplica verdadeiramente a cada membro da Igreja. Alguns do povo de Deus têm sido humilhados, para que se desesperassem da sua esperança. Alguns têm caído de forma triste, como Pedro e Davi. Alguns deixaram a fé por algum tempo. Muitos têm sido tentados pelas dúvidas cruéis e pelo medo. Mas, finalmente todos chegaram seguros ao lar, tanto o velho quanto o jovem, tanto o mais fraco quanto o mais forte. E assim será no fim. Vocês podem impedir que o sol nasça amanhã? Vocês podem evitar a maré no fluxo e refluxo? Vocês podem evitar que os planetas se movam em suas respectivas órbitas? E então, somente então vocês poderão evitar a salvação de qualquer crente, embora fraco – ou de qualquer pedra viva nessa Igreja que está edificada na rocha, por pequena ou insignificante essa pedra possa parecer.

A verdadeira Igreja é o corpo de Cristo. Nenhum osso nesse corpo místico jamais será quebrado.

A verdadeira Igreja é a noiva. Aqueles a quem Deus reuniu no último pacto jamais serão separados.

A verdadeira Igreja é o rebanho de Cristo. Quando o leão veio e pegou um cordeiro do rebanho de Davi, Davi levantou-se e livrou o cordeiro de sua boca. Cristo fará o mesmo. Ele é o grande filho de Davi. Nenhum cordeiro sequer no rebanho de Cristo perecerá. Ele dirá a seu pai no último dia: “Eu não perdi nenhum daqueles que me deste”.

A verdadeira Igreja é o trigo da terra. Ele pode ser peneirado, joirado, aparado, arremessado daqui e dali. Mas nenhum deles será perdido. Os joios e as palhas serão queimados. E o trigo será ajuntado no celeiro.

A verdadeira Igreja é o exército de Deus. O Capitão de nossa salvação não perderá nenhum de seus soldados. Seus planos nunca serão frustrados. Sua provisão nunca faltará. Seu recrutamento é a mesmo no fim, como era no começo. Dos homens que marcharam audazmente da Inglaterra, há poucos anos atrás, para a guerra da Criméia[2], muitos não voltaram. Regimentos que foram adiante, fortes e animados, com as mãos acenando e bandeiras tremulando, deixaram seus ossos em uma terra estrangeira, e nunca retornaram para seu país de origem. Mas o mesmo não acontece com o exercito de Cristo. Nenhum de seus soldados se perderá no fim. Ele próprio declara: “Eles nunca perecerão”.

Satanás poderá lançar alguns membros da verdadeira Igreja na prisão. Ele pode matar, queimar, tortura e enforcar. Porém, após ter matado o corpo, não há mais nada que ele possa fazer. Ele não pode ferir a alma. Quando as tropas francesas ocuparam Roma há poucos anos atrás, eles acharam na parede de uma cela da prisão, sob a Inquisição, as palavras de um prisioneiro. Quem ele era, não sabemos. Mas, vale a pena lembrar suas palavras. Embora morto, ele ainda fala. Ele escreveu nas paredes, muito provavelmente após um injusto julgamento, e ainda uma injusta excomunhão, as seguintes palavras: “Bendito Jesus, eles não podem me lançar fora de Sua verdadeira Igreja”. Esse registro é verdadeiro. Nem toda a força de Satanás pode lançar fora da verdadeira Igreja de Cristo um crente sequer.

Os filhos deste mundo podem conduzir um feroz combate contra a Igreja, mas eles não podem parar a obra da salvação. O que o sorriso escarnecedor do Imperador Juliano disse, nos primórdios da Igreja, “O que o filho do carpinteiro está fazendo?”. Um cristão idoso responde: “Ele está fazendo um caixão para o próprio Juliano”. Passado alguns meses, com toda a sua pompa e poder, o imperador Juliano morreu em batalha. Onde estava Cristo quando as fogueiras de Smithfield foram acesas, e quando Latimer e Ridley foram queimados?[3] O que estava Cristo fazendo então? Ele ainda estava prosseguindo sua obra de edificação. Esse trabalho sempre prosseguirá, mesmo em tempos turbulentos.

Não temais, amados irmãos, em começar a servir Cristo. Aquele a quem vocês confiam suas almas, tem todo o poder no céu e na terra e Ele lhes guardará. Ele nunca permitirá que vocês sejam lançados fora. Parentes podem se opor a vocês. Os vizinhos poderem zombar. O mundo pode caluniar e rir escarnecendo. Não temais! Não temais!  Os poderes do inferno jamais prevalecerão contra a sua alma. Maior é aquele que está em vocês, do que todos aqueles que estão contra vocês.

Não temais pela Igreja de Cristo, meus irmãos, quando ministros morrerem e os santos serem levados. Cristo sempre pode manter sua própria causa; Ele levantará estrelas melhores e mais brilhantes. As estrelas estão todas em sua mão direita. Deixe todos os pensamentos ansiosos sobre o futuro. Não se perturbem pelas medidas dos estadistas, ou de complôs dos lobos em pele de cordeiro. Cristo sempre proverá a sua própria Igreja. Cristo cuidará para que as portas do inferno não prevaleçam contra ela. Tudo irá bem, embora nossos olhos possam não ver. Os reinos deste mundo ainda se tornarão os reinos do nosso Deus e do seu Cristo.

Permitam-me dizer algumas palavras de aplicação prática desse sermão. Eu falo para muitos, pela primeira vez. Falo, talvez, para muitos, pela ultima vez. Que não se permita que este culto se conclua sem um esforço de aplicarem, em cada coração, este sermão.

1 . Minha primeira palavra de aplicação será uma pergunta Qual será esta pergunta? Como eu abordarei vocês? Que perguntarei? Eu pergunto se vocês são membros da verdadeira Igreja de Cristo? São vocês, no mais alto e no melhor dos sentidos, um verdadeiro “Homem da Igreja”[4] aos olhos do Senhor? Vocês sabem o que quero dizer? Estou olhando muito além da Igreja da Inglaterra. Eu falo da Igreja edificada sobre a rocha. Pergunto-lhes, com toda solenidade: são vocês membros dessa Igreja de Cristo? Vocês estão conectados no grande fundamento? Vocês já receberam o Espírito Santo? O Espírito Santo testifica com seu espírito que vocês são um em Cristo e Cristo com vocês? Eu peço a vocês, em nome de Deus, que apliquem seus corações a esta questão e reflitam bem nela.

Acautelai-vos por vocês mesmos, queridos irmãos, se não puderem dar uma resposta satisfatória para pergunta. Considerem, considerem, para que não naufraguem na fé. Acautelai-vos, a fim de que as portas do inferno não prevaleçam contra vocês, que Satanás reivindique vocês com sua propriedade, e vocês sejam lançados fora para sempre. Acautelai-vos, a fim de que vocês não desçam para o poço da terra da Bíblia e da completa luz do Evangelho de Cristo.

2 . Minha segunda palavra será um convite. Eu a endereço a todos aqueles que não são verdadeiros crentes. Digo a vocês, venham e juntem-se à verdadeira Igreja, sem demora. Venham e juntem-se ao Senhor Jesus Cristo em um eterno pacto para não serem esquecidos. Venham para Jesus e serão salvos. O dia da decisão deve chegar em algum tempo. Porque não nesta noite. Porque não hoje, enquanto é chamado hoje? Porque não, bem nesta noite, antes do sol nascer amanhã de manhã? Venham a Ele, a quem eu sirvo. Venham ao meu mestre, Jesus Cristo. Venham, Eu digo, porque todas as coisa estão prontas agora. Misericórdia esta pronta para vocês, o céu está pronto para vocês, anjos estão prontos regozijando por vocês, Cristo está pronto para recebê-los. Cristo receberá vocês alegremente, e dará boas-vindas a vocês entre seus filhos. Entrem na arca, o dilúvio da ira de Deus breve romperá sobre a terra, venham para a arca e estejam seguros.

Venham para o barco salva-vidas. O velho mundo breve se quebrará em pedaços! Vocês não sentem o tremor dele? O mundo não é senão um Navio naufragado e emperrado nas areias. A noite declina – as ondas estão começando. Mas o bote salva-vidas é lançado, e nós, os ministros do evangelho, pedimos a vocês que entrem no barco salva-vidas e sejam salvos.

Vocês perguntam como posso vir se meus pecados são muitos? Vocês perguntam como virão? Ouçam as palavras deste maravilhoso hino:

“Apenas como estou: sem nem um pedido; Exceto que o seu sangue foi derramado, E que Tu ofereceste me vir a Ti, Ó Cordeiro de Deus Eu vou”

Este é o caminho para vir a Cristo. Vocês devem vir, sem esperar nada, e não se retardando por nada. Vocês devem vir, como um pecador faminto, para serem satisfeitos, como um pobre pecador para ser enriquecido, como um infeliz, pecador injusto para ser revestido com justiça. Assim, vindo, Cristo receberá vocês. “aquele que vir a Cristo”, Ele “não lançará fora.

3. Por último, permita-me dar uma apalavra de exortação para meus ouvintes crente;

Vivam uma vida santa, meus irmãos. Andem dignamente, pela Igreja que vocês pertencem.

Vivam como cidadãos dos céus. Deixem sua luz brilhar diante dos homens, para que o mundo possa beneficiar-se pela conduta de vocês. Deixem-nos conhecerem quem vocês são, e a quem vocês servem. Sejam cartas de Cristo, conhecidas e lidas por todos os homens; escritas em tal clareza, que ninguém possa dizer: nós não sabemos se ele é ou não um membro da Igreja de Cristo.

Vivam uma vida corajosa, meus irmãos. Confessem Cristo diante dos homens. Seja qual for o posto que ocupem, neste posto professem Cristo. Porque deveriam envergonharem-se dele? Ele não se envergonhou de vocês na cruz. Ele está pronto para confessar vocês diante do Pai nos céu. Porque deveriam vocês se envergonhar dele? Sejam corajosos. Tenham muita coragem. O bom soldado não se envergonha do seu uniforme. O verdadeiro crente nunca deve estar envergonhado de Cristo.

Vivam uma vida exultante, meus irmãos. Vivam como homens que procuram por essa abençoada esperança – a segunda vinda de Jesus Cristo. Este é a expectativa a qual nós todos devemos esperar ansiosamente. Não é tanto o pensamento de ir para o céu, mas de o céu vir para nós, que deveria preencher nossas mentes. Há um bom tempo vindo para todo o povo de Deus – um bom tempo para toda a Igreja de Cristo – um bom tempo para todos os crentes – mau tempo para os impenitentes e incrédulos – para todos aqueles que servirem suas próprias luxúrias, e virarem as costas para o Senhor, mas um bom tempo para os verdadeiros cristãos. Para esse bom tempo vamos esperar, vigiar e orar.

Os andaimes serão em breve derrubados – a última pedra será breve revelada – a pedra principal será colocada sobre o edifício. Ainda, em pouco tempo e a plena beleza da edificação será claramente vista.

O grande mestre construtor breve viráem pessoa. Umedifício será mostrado para o mundo reunido, no qual não haverá imperfeição. O Salvador e os salvos se alegrarão juntos. O universo inteiro reconhecerá que no edifício da Igreja de Cristo tudo estava bem feito. Amém.

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NOTA: Por mais de um século, J. C. Ryle ficou mais conhecido por seus textos claros e vivos, que falavam sobre temas práticos e espirituais.  Seu grande objetivo, durante seu ministério, foi encorajar uma vida cristã firme e séria.  Entretanto, Ryle não era ingênuo e sabia como esse encorajamento deveria ser feito.  Ele reconheceu que, como pastor do rebanho de Deus, tinha a responsabilidade de proteger as ovelhas de Cristo e alertá-las sempre que visse algum perigo se aproximando.  Seus intensos comentários são tão sábio e relevantes hoje, quanto foram quando ele os primeiro escreveu.  Seus sermões e outros escritos tem sido constantemente reconhecidos e sua utilidade e impacto continuam até hoje, mesmo no inglês obsoleto da época do autor.

Por que, então, exposições já tão bem sucedidas e memoráveis, provadas úteis, precisam de adaptação, revisão e reedição? A resposta é clara.  Para aumentar sua utilidade para leitores atuais. A linguagem com a qual foi originalmente escrita, precisa de atualização.

Por mais que seus sermões, da forma com que foram escritos pelo autor no século XIX, tenham servido para outras gerações, eles podem se perder nas gerações presente e futura, simplesmente porque, para eles, a linguagem não é facilmente e nem completamente entendível.

Meu intuito, entretanto, não é reduzir o escrito original ao vernáculo dos nossos dias.  Ele surgiu primeiramente para você, que deseja ler e estudar de modo confortável e fácil, na linguagem do seu tempo.  Obviamente, apenas terminologias arcaicas e passagens obscurecidas por expressões que não nos são familiar foram revisadas.    Contudo, nem a intenção de Ryle, tampouco seu propósito foram adulterados.

Tony Capoccia

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ORE PARA QUE O ESPIRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO DE PECADORES.

FONTE

  • Esse manuscrito atualizado e revisitado é de direitos autorais de © 1998 por Tony Capoccia.
  • Todos os direitos reservados.
  • Todo direito de tradução em português protegido por lei internacional de domínio público
  • Tradução: Paulo da Silva
  • Revisão: Armando Marcos Pinto
  • Capa: Victor Silva

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[1] Richard Hooker (1554 – 1600) foi um pastor Anglicano e um influente teólogo reformado. A ênfase de Hooker na razão e na tolerância influenciaram bastante o desenvolvimento de Anglicanismo. (Wikipédia)

[2] A Guerra da Criméia foi um conflito que se estendeu de 1853 a 1856, na península da Crimeia (no mar Negro, ao sul da atual Ucrânia), no sul da Rússia e nos Bálcãs. Envolveu, de um lado o Império Russo e, de outro, uma coligação integrada pelo Reino Unido, a França, o Reino da Sardenha – formando a Aliança Anglo-Franco-Sarda – e o Império Otomano (Wikipédia)

[3] Fogueiras de Smithfield: referência a diversos mártires protestantes que foram executados nesse local em Londres pela Rainha Maria, a Sanguinária

[4] Em inglês, o termo que Ryle usa é “Churchmam” que muitas vezes é usado como referência aos clérigos e sacerdotes da Igreja da Inglaterra, reforçando assim a ideia de Ryle.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014