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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

A Entrada Triunfal em Jerusalém | J. C. Ryle

Leia Lucas 19.28-40

Primeiramente, observemos nestes versículos o perfeito conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Nós O vemos enviando dois de seus dis­cípulos a uma aldeia e contando-lhes que, na entrada, encontrariam “preso um jumentinho que jamais homem algum montou”. Vemos o Senhor Jesus descrevendo o que os discípulos veriam e deveriam dizer; e Ele o fez com muita segurança, como se toda a transação tivesse sido previamente disposta. Em resumo, Jesus falou como alguém que via todas as coisas abertamente, alguém cujos olhos se encontravam em todo lugar, alguém que conhecia as coisas visíveis e as invisíveis.

Um leitor atento observará a mesma coisa em outras partes dos evan­gelhos. Certa passagem nos revela que Jesus conhecia “os pensamentos” de seus inimigos (Mt 12.25). Outra nos conta que Ele “mesmo sabia o que era a natureza humana” (Jo 2.25). E ainda outra passagem nos diz que Jesus “sabia, desde o princípio, quais eram os que não criam e quem o havia de trair” (Jo 6.64). Esse conhecimento é um atributo peculiar de Deus. Passagens bíblicas como essas têm o propósito de nos recordar que Jesus Cristo não foi apenas homem, mas, também, “Deus bendito para todo o sempre” (Rm 9.5).

O pensamento sobre o perfeito conhecimento de Cristo deveria alarmar os pecadores e despertá-los ao arrependimento. O grande Cabeça da Igreja conhece todos eles e o que estão fazendo. O Juiz de todos os vê constantemente e registra todo os seus atos. “Não há trevas nem sombra assaz profunda, onde se escondam os que obram a iniquidade” (Jó 34.22). Se escondem-se em lugares secretos, os olhos de Cristo ali os contempla. Se, em particular, tramam perversidade e planejam impiedade, o Senhor Jesus sabe e os observa. Se eles falam em segredo contra o justo, Cristo os escuta. Durante toda a sua existência, podem enganar os homens, mas não podem enganar a Jesus. Virá o dia em que Deus julgará, “por meio de Cristo Jesus... os segredos dos homens, de conformidade com o evangelho” (Rm 2.16).

O pensamento sobre o perfeito conhecimento de Cristo deveria confortar todos os verdadeiros crentes e incentivá-los a crescerem diligentemente em boas obras. Sobre eles estão sempre os olhos do Senhor. Ele sabe quais as circunstâncias que envolvem os crentes, suas provações diárias e conhece as pessoas com quem eles andam. Não há uma palavra em seus lábios, ou um pensamento em seus corações, que Jesus não saiba completamente. Eles devem sentir-se encorajados, quando forem caluniados, mal entendidos e deturpados pelo mundo. Não importa o que as pessoas incrédulas são capazes de dizer, o Senhor sabe “todas as coisas” (Jo 21.17). O verdadeiro crente precisa andar resolutamente no caminho estreito, não se desviando para a direita ou para a esquerda. Quando os pecadores tentam induzi-lo e crentes fracos dizem: “Poupe a si mesmo”, o verdadeiro crente deve responder: “Meu Senhor está olhando para mim. Desejo viver e comportar-me como alguém que está sob o olhar de Cristo”.

Observemos também nestes versículos a publicidade da última entrada de nosso Senhor em Jerusalém. O evangelho nos conta que o Senhor Jesus montou sobre um jumentinho e entrou em Jerusalém, como se um rei estivesse visitando sua capital ou um conquistador retornasse em triunfo à sua terra natal. E, uma grande “multidão” o acompanhava, quando Ele entrou na cidade, e passou, “jubilosa, a louvar a Deus em alta voz”. É uma história diferente do teor geral da vida de nosso Senhor. Em outras ocasiões, nós O vemos evitando a observação pública, retirando-se para o deserto e ordenando aos que haviam sido curados por Ele que não o contassem a ninguém. Nesta ocasião, tudo aconteceu de maneira diferente. Ele abandonou por completo a privacidade e pareceu cortejar a observação do público. Parecia desejoso de que O vissem e observassem o que Ele estava fazendo.

Os motivos que justificam a conduta de nosso Senhor no clímax de seu ministério, à primeira vista, parecem difíceis de ser descobertos. Através de paciente meditação, eles se tornam claros e óbvios. Ele sabia que chegara o tempo em que deveria morrer pelos pecadores, na cruz. No que se refere ao seu ministério terreno, sua obra como grande Profeta estava quase terminada e completa. Sua obra como o sacrifício pelo pecado e como Substituto dos pecadores ainda estava por ser realizada. Antes de entregar-se como sacrifício, Ele desejava atrair para Si mesmo a atenção de toda a nação dos judeus. O Cordeiro de Deus estava para ser morto. A grande oferta pelo pecado estava para ser imolada. Era conveniente que os olhos de todos os judeus estivessem fixos nEle. A grandiosa obra não se realizaria sem notoriedade.

Devemos sempre bendizer a Deus porque a morte de nosso Senhor Jesus Cristo foi um acontecimento tão público e tão amplamente conhecido. Se Ele tivesse sido apedrejado em algum tumulto popular, ou decapitado na prisão, assim como João Batista, nunca faltariam judeus e gentios incrédulos negando que o Filho de Deus havia morrido. A sabedoria divina dispôs as coisas de tal modo que a negação do fato se tornou impossível. Não importa o que os homens pensem sobre a doutrina da morte expiatória de Cristo, eles jamais poderão negar o fato de que Cristo morreu. Publicamente, Ele se dirigiu a Jerusalém alguns dias antes de sua morte e, por um grande público, foi visto e ouvido na cidade até ao dia em que foi traído. Aos olhos de muitas pessoas, Ele foi trazido diante dos principais sacerdotes e de Pilatos; foi condenado, levado ao Calvário e crucificado. A pedra angular e o clímax do ministério de nosso Senhor foram sua morte pelos pecadores. De todos os eventos de seu ministério, a morte foi a mais pública e testemunhada por grande número de judeus. E aquela morte era a “vida do mundo” (Jo 6.51).

Esta passagem deve produzir em nós o estimulante pensamento de que a alegria dos discípulos de Cristo, por ocasião de sua entrada em Jerusalém, ao vir para ser crucificado, não é nada se comparado à alegria que seu povo desfrutará, quando Ele vier para reinar. Aquela primeira alegria logo se desfez, transformando-se em tristeza e amargas lágrimas. A segunda alegria não estará sujeita a qualquer interrupção. A segunda alegria será regozijo para todo o sempre. A primeira alegria frequentemente foi interrompida pela severa zombaria dos inimigos de Cristo, que planejavam perversidade. A segunda alegria não estará sujeita a qualquer interrupção. Nenhuma palavra será proferida contra o Rei, quando pela segunda vez Ele vier a Jerusalém — “Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho... e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor” (Fp 2.10­-11).

Por: J. C. Ryle 

Meditações no Evangelho de Lucas 

Editora Fiel 


quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

A MALIGNIDADE DO PECADO | John Flavel (1671)

Se a morte de Cristo foi aquilo que satisfez a Deus em favor de nossos pecados, existe uma infinita malignidade no pecado, visto que ele não pôde ser expiado de outro modo, senão por meio de uma satisfação infinita. Os tolos zombam do pecado, e existem poucas pessoas no mundo que se mostram verdadeiramente sensíveis a respeito de sua malignidade. No entanto, é certo que, se Deus exigisse de você a penalidade completa, os sofrimentos eternos não seriam capazes de expiar a malignidade que se encontra em um só pensamento pecaminoso. 

Talvez você pense que é muito severo o fato de que Deus sujeitaria as suas criaturas aos sofrimentos eternos por causa do pecado e nunca mais ficaria satisfeito com elas. Quando, porém, você considerar bem a verdade de que o Ser contra o qual você peca é o Deus infinitamente bendito e meditar em como Ele agiu em relação aos anjos que caíram, você mudará de ideia. Oh! Que malignidade profunda existe no pecado! Se você deseja entender quão grave e horrível é o pecado, avalie seus próprios pensamentos, quer à luz da infinita santidade e excelência de Deus, que é ofendido pelo pecado; quer à luz dos sofrimentos de Cristo, que morreu para oferecer satisfação pelo pecado. Então, você obterá compreensões profundas a respeito da gravidade do pecado. Se a morte de Cristo satisfez a Deus e, consequentemente, nos redimiu da maldição do pecado, a redenção de nossa alma é caríssima. As almas são preciosas e muito valiosas diante de Deus. 

Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo(1 Pe 1.18-19). 

Somente o sangue de Deus é um equivalente para a redenção de nossa alma. Ouro e prata podem redimirmos da servidão humana, mas não podem livrar-nos da prisão do inferno. 

Toda a criação não vale a redenção de uma única alma. As almas são muito preciosas; Aquele que pagou o preço da redenção delas pensou nisso. Mas os pecadores vendem por um valor muito baixo as suas próprias almas. Se a morte de Cristo satisfez a Deus no que diz respeito aos nossos pecados, quão incomparável é o amor de Deus para com pobres pecadores! Se Cristo, por meio de sua morte, consumou uma plena satisfação pelo pecado, Deus pode perdoar com segurança o maior dos pecadores que crer em Jesus.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Sete problemas com a expiação universal arminiana | Joel R. Beek

Na teologia do Arminianismo nos é dito que Cristo morreu para tornar possível queJRB todas as pessoas sejam salvas, se assim elas desejarem. Esta é uma rejeição da visão Reformada, que afirma que Cristo morreu para, verdadeiramente, salvar um povo em particular escolhido por Deus.

O Arminianismo é, de longe, a visão mais popular acerca da expiação na Igreja Cristã de hoje. Não obstante, sérias objeções devem ser apresentadas contra a redenção universal arminiana, que são estas:

1- Ela calunia os atributos de Deus, dentre os quais, o seu amor. O Arminianismo apresenta um amor que, na verdade, não salva. É um amor que ama e então, se recusado, transforma-se em ódio e ira. Não é o amor que permanece imutável de eternidade a eternidade. Ela calunia a sabedoria de Deus. Deus faria um plano para salvar todos, mas não o cumpriria? Ele seria tão tolo a ponto de seu Filho ter pagado a salvação para todas as pessoas se sabia que seu Filho não obteria aquilo pelo que pagou? Eu me sentiria tolo se eu fosse numa loja comprar algo, e então saísse sem ele. No entanto, o Arminianismo nos pede para acreditarmos que essa é a verdade da salvação – que o pagamento foi feito, uma redenção, e, ainda assim, o Senhor se afastou sem aqueles que ele redimiu. Essa visão calunia a sabedoria de Deus. Ela calunia o poder de Deus. O universalismo arminiano nos obriga a acreditar que Deus era capaz de realizar o aspecto de merecimento da salvação, mas que o aspecto de aplicação é dependente do homem e seu livre-arbítrio. Ele nos pede para acreditar que Deus operou a salvação de todas as pessoas, até certo ponto, mas não salvou ninguém. Ela calunia a justiça de Deus. Cristo satisfez a justiça de Deus para todas as pessoas? Será que Cristo recebeu a devida punição por todas as pessoas? Se sim, como Deus pode ainda punir alguém? É justiça punir uma pessoa pelos pecados de outra e mais tarde punir novamente o infrator inicial? Dupla punição é injustiça.

2- Ela desabilita a divindade de Cristo. Um Salvador derrotado não é Deus. Este erro ensina que Cristo tentou salvar todos, mas não obteve êxito. Ele nega o poder e a eficácia do sangue de Cristo, uma vez que nem todos aqueles por quem Ele morreu serão salvos. Assim, o sangue de Cristo foi desperdiçado quando derramado por Judas e Esaú. Grande parte da sua obra, lágrimas e sangue foi derramada em vão.

3- Ela mina a unidade da Trindade. Assim como os pais devem trabalhar juntos para conduzir uma família com eficácia, assim o Deus Triúno trabalhou, cada uma das três Pessoas, com propósitos e objetivos idênticos. Uma Pessoa não pode ter em mente salvar algumas pessoas, que a outra Pessoa não determinou salvar, mas é exatamente isso que, implicitamente, o universalismo arminiano ensina. Ele nega a eleição soberana do Pai, uma vez que Cristo teria morrido por mais pessoas do que Deus decretou salvar, fazendo, portanto, com que Cristo tenha uma agenda diferente da do Pai. Isso teria sido um anátema para Jesus, que afirmou que todo o seu ministério redentivo foi conscientemente designado para realizar um plano divinamente arranjado (João 6.38-39). Da mesma forma, a redenção arminiana nega o ministério salvador do Espírito Santo, uma vez que afirma que o sangue de Cristo tem uma aplicação mais ampla do que a obra salvífica do Espírito. Qualquer apresentação da salvação que faça com que a obra do Pai ou a obra do Espírito na salvação fiquem eclipsadas pela obra de Cristo contradiz a unidade inerente da Trindade. Deus não pode estar em contradição consigo mesmo. Arminianismo é universalismo inconsistente.

4- Ela rejeita todos os outros pontos do Calvinismo. A visão arminiana da expiação rejeita a doutrina da depravação total do homem, ensinando que o homem possuía dentro de si a capacidade para receber e aceitar a Cristo. Ela rejeita a eleição incondicional, ensinando que Deus elege com base na fé prevista. Ela rejeita a graça irresistível, ensinando que a vontade do homem é mais forte que a vontade de Deus. Ela rejeita a perseverança dos santos, ensinando que o homem pode apostatar da fé.

5- Ela diminui a glória de Deus. Se Deus faz todas as coisas na salvação, Ele recebe toda a glória. Mas se Deus pode fazer muito e não tudo, então a pessoa que completa a aplicação da salvação recebe ao menos alguma glória. É por isso que há tanta ênfase no evangelismo em massa sobre a livre vontade do homem. A expiação universal exalta a vontade do homem e avilta a glória de Deus.

6-  Ela perverte o evangelismo. Hoje em dia ouvimos repetidas vezes mensagens evangelísticas, que dizem: “Cristo morreu por você. O que você vai fazer por Ele?” Porém, nunca encontramos na Bíblia que a alguém seja dito pessoalmente: “Cristo morreu por você”. Em vez disso, encontramos a obra de Cristo explicada e seguida por um chamado a todas as pessoas: “Arrependei-vos e crede no evangelho”. A mensagem não é: “Creia que Cristo morreu por você” ou “Creia que você é um dos eleitos”. A mensagem é: “Creia no Senhor Jesus Cristo e você será salvo”.

7- Ela denigre a eficácia intrínseca da própria expiação. Os arminianos ensinam que a obra de Cristo induz o Pai a aceitar graciosamente o que Jesus realizou no lugar de uma completa satisfação da Sua justiça. É como se Jesus persuadisse ao Pai a aceitar alguma coisa menos do que demandado pela justiça. Foi por isso que Armínio afirmou que quando Deus salvou pecadores, Ele mudou-se do seu trono de justiça para o seu trono de graça. Todavia, Deus não possui dois tronos. O seu trono de justiça é o seu trono de graça (Salmo 85.10). O arminianismo esquece que a expiação não conquista o amor de Deus, mas, sim, que a expiação é a provisão do seu amor.

Por: Joel R. Beek

Ênfases acrescentadas por Evandro Marinho

 

FONTE: Cristão Reformado

ORIGINAL: www.joelbeeke.org/2013/03/954/ (Joel Beeke - Doctrine for Life...)

TÍTULO ORIGINAL: Seven Problems with Arminian Universal Redemption.

TRADUÇÃO: Rev. Alan Renne Alexandrino Lima

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O Caso Jesus | Pr. Ricardo Agreste

jesus

  • O caso Jesus | Afinal de contas quem era Jesus?

  • O Caso Jesus | Mas por que ele teria que morrer?

  • O Caso Jesus | Se ele está vivo, onde posso encontrá-lo?

Por: Pr. Ricardo Agreste

Fonte: Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera

terça-feira, 20 de agosto de 2013

A Doutrina da Eleição | João Calvino

eleição calvino A Doutrina da Eleição - Sermão pregado pelo Reformador

João Calvino

Em Genebra, Catedral de São Pedro

2 Timóteo 1:9-10 “Que nos salvou e nos chamou com santo chamado; não segundo as nossas obras, mas conforme seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos, e manifestada, agora, pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho”

Mostramos esta manhã, de acordo com o texto de São Paulo, que se quisermos conhecer a livre misericórdia de nosso Deus em nos salvar, temos de ir até o Seu conselho eterno, pelo qual Ele nos escolheu antes da fundação do mundo. Disso vemos que Ele não considerou nossas pessoas, nem a nossa dignidade, nem qualquer mérito que poderíamos possivelmente possuir. Antes de nascermos, fomos arrolados em Seu registro. Ele já havia nos adotado por Seus filhos. Portanto vamos conceder tudo a Sua misericórdia, sabendo que não podemos nos orgulhar de nós mesmos, a não ser que venhamos furtar Dele a honra que lhe pertence.

Os homens têm se esforçado em inventar sofismas para obscurecer a graça de Deus. Porque eles dizem que, apesar de Deus escolher os homens antes do inicio do mundo, ainda assim foi de acordo com sua presciência que um seria diferente do outro. As Escrituras demonstram claramente que Deus não esperou ver se os homens eram dignos ou não, quando Ele os escolheu, mas os sofistas, pensam que podem obscurecer a graça de Deus, dizendo que embora Ele não tenha considerado os méritos passados, Ele tinha um olho naqueles que estavam por vir. Pois dizem eles que embora Jacó e seu irmão Esaú não tivessem feito nem o bem nem o mal, e Deus tenha escolhido um e recusado a outro, ainda assim Ele previu, (como todas as coisas são presentes para Ele) que Esaú seria um homem vicioso, e que Jacó seria como se mostrou posteriormente.

Mas essas são especulações tolas, porque elas simplesmente fazem de São Paulo um mentiroso; os quais dizem que Deus não recompensa nossas obras quando Ele nos escolhe, porque Ele fez isso antes do inicio do mundo. Porém, embora a autoridade de São Paulo fosse abolida, ainda assim a questão é muito clara e evidente, não só nas Sagradas Escrituras, mas, também na razão, de modo que aqueles que fazem um escape desse tipo, se mostram homens vazios de toda a habilidade. Porque se buscarmos em nós mesmos à fundo, o que podemos encontrar de bom? Não foi toda a humanidade amaldiçoada? O que trazemos do ventre de nossa mãe, a não ser pecado?

Portanto, não diferimos nem um pouco uns dos outros, mas apraz a Deus tomar para Si aqueles que Ele quer. E por esse motivo, São Paulo usa estas palavras em outro lugar, quando diz que os homens não têm do que se regozijar, pois nenhum homem se encontra melhor do que seus companheiros, a não ser porque Deus o distingue. Então, se confessarmos que Deus nos escolheu antes do inicio do mundo, segue-se necessariamente que Deus nos preparou para receber a Sua graça. Porque Ele concedeu sobre nós a bondade, que não estava em nós anteriormente. Porque Ele não somente nos escolheu para sermos herdeiros do reino dos céus, mas também nos justifica e nos governa pelo Seu Espírito Santo. O cristão deve ser muito bem resolvido nesta doutrina, estando além de qualquer dúvida.

Há alguns homens nestes dias, que ficariam felizes se a verdade de Deus fosse destruída. Tais homens lutam contra o Espírito Santo, como bestas loucas, e se esforçam por suprimir as Sagradas Escrituras. Há mais honestidade nos papistas, do que nesses homens. Porque a doutrina dos papistas é muito melhor, mais santa, e concorda mais com as Escrituras Sagradas, do que a doutrina desses homens vis e perversos, os quais abatem a santa eleição de Deus; esses cães que latem para ela, e porcos que a dilaceram.

No entanto, sustentemos firmemente o que aqui nos é ensinado: Deus tendo nos escolhido antes do mundo ter seu inicio, devemos atribuir a causa da nossa salvação à Sua livre bondade. Devemos confessar que Ele não nos toma para sermos Seus filhos, por qualquer mérito de nós mesmos, pois não tínhamos nada para nos recomendar à seu favor. Portanto, devemos colocar a causa e a fonte da nossa salvação somente Nele e fundamentar a nós mesmos sobre isso, caso contrário, tudo que construirmos, virá a ser nada.

Devemos reparar aqui o que São Paulo conecta, a saber, a graça de Jesus Cristo, com o conselho eterno de Deus Pai, e então ele nos traz nosso chamado, para que nós possamos ter a certeza da bondade de Deus e da Sua vontade, que teria permanecida oculta de nós, a menos que tivéssemos um testemunho disso. São Paulo diz em primeiro lugar, que a graça que repousa sobre o propósito de Deus, e que é compreendida nele, é dada em nosso Senhor Jesus Cristo. Como se dissesse: “Vendo que nós merecemos ser rejeitados e odiados como inimigos mortais de Deus, era preciso que fossemos enxertados, por assim dizer, em Jesus Cristo, para que Deus pudesse nos conceder e nos reconhecer como sendo Seus filhos. Caso contrário, Deus não poderia olhar para nós, a não ser para nos odiar, porque não há nada senão miséria em nós; estamos cheios de pecado, e estufados, por assim dizer, com todos os tipos de iniqüidade.

Deus, que é a própria justiça, não pode consentir conosco, enquanto considera nossa natureza pecaminosa. Portanto, quando Ele quis nos adotar antes do inicio do mundo, foi requisitado que Jesus Cristo fosse colocado entre nós e Ele, para que fossemos escolhidos em Sua pessoa, pois Ele é o Filho mui amado: quando Deus nos uniu a Ele, fez como Lhe aprouve. Vamos aprender a ir diretamente a Jesus Cristo se nós quisermos não duvidar da eleição de Deus: porque Ele é o verdadeiro espelho onde devemos contemplar nossa adoção.

Se Jesus Cristo é tirado de nós, então Deus é um juiz de pecadores, de modo que não podemos esperar por qualquer bondade ou favor em Suas mãos, mas, ao invés, esperar a vingança, porque sem Jesus Cristo, Sua majestade será sempre terrível e temível para nós. Se ouvirmos menção ao seu propósito duradouro, não podemos deixar de ter medo, como se já estivesse armado para nos mergulhar na miséria. Mas quando sabemos que toda graça reside em Jesus Cristo, então podemos estar certos de que Deus nos amou, embora fossemos indignos.

Em segundo lugar, devemos notar que São Paulo não fala simplesmente da eleição de Deus, porque isso não nos deixaria acima de qualquer dúvida, mas, ao invés, permaneceríamos na perplexidade e na angústia. Mas ele acrescenta o chamado, pelo qual Deus tornou aberto Seu conselho, que antes era desconhecido para nós, e o qual não podíamos alcançar. Como saberemos então que Deus nos escolheu, para que possamos nos alegrar Nele, e nos gloriar da bondade que Ele concedeu a nós? Aqueles que falam contra a eleição de Deus, deixam o evangelho sozinho. Eles levam tudo o que Deus estendeu a nós, para nos levar até Ele; Todos os meios que Ele designou para nós, e que soube que era adequado e apropriado para nosso uso. Não devemos ir por esse caminho, porque de acordo com a regra de São Paulo, devemos conectar o chamado de Deus com a eleição eterna.

Diz-se que Ele nos chamou, e então temos essa segunda palavra “chamado”. Por isso, Deus nos chama: e como? Certamente, quando Lhe apraz nos certificar de nossa eleição, a qual não poderíamos alcançar de outra maneira. Porque, como diz o profeta Isaías e também o apóstolo Paulo, quem pode entrar no conselho de Deus? Mas quando apraz a Deus comunicar a Si mesmo a nós familiarmente, então recebemos o que sobrepuja o conhecimento de todos os homens, porque temos uma boa e fiel testemunha, que é o Espírito Santo, que nos eleva acima do mundo, e nos leva até aos maravilhosos segredos de Deus.

Não devemos falar precipitadamente da eleição de Deus, e dizer que somos predestinados, a não ser se completamente seguros da nossa salvação. Não devemos falar levianamente disso: se Deus nos tomou para sermos Seus filhos ou não. Como então? Olhando para o que está estabelecido no evangelho. Ali Deus nos mostra que Ele é nosso Pai, e que Ele nos trará à herança da vida, tendo nos marcado com o selo do Espírito Santo em nossos corações, que é um testemunho indubitável da nossa salvação, se o recebemos por fé.

O evangelho é pregado a um grande número, que não obstante, são réprobos. Sim, e Deus tem revelado e demonstrado que Ele os amaldiçoou, porque eles não têm parte nem porção em Seu reino, pois eles resistem ao evangelho, e rejeitaram a graça que lhes é oferecida. Mas, quando recebemos a doutrina de Deus, com obediência e fé, descansamos em Suas promessas e aceitamos a oferta que Ele nos faz, para nos tomar por Seus filhos, isso, eu digo, é a certeza da nossa eleição. Mas devemos salientar aqui, que quando temos conhecimento da nossa salvação, quando Deus nos chamou e nos iluminou na fé do Seu evangelho, isso não deve tornar nula a predestinação eterna que veio anteriormente. Há um grande número nestes dias que dirão: “Quem Deus escolheu, a não ser os fiéis?” Eu concordo com isso, mas eles tiram uma maligna conseqüência disso e dizem que a fé é a causa, sim, a primeira causa de nossa salvação. Se eles a chamassem de causa intermediária, isso seria, certamente, verdadeiro, pois a Escritura diz: “Pela graça sois salvos mediante a fé” (Ef 2:8). Mas devemos ir mais alto, pois se eles atribuem a fé ao livre-arbítrio dos homens, eles blasfemam contra Deus perversamente, e cometem um sacrilégio. Devemos ir ao que a Escritura nos demonstra, a saber, que quando Deus nos dá a fé, devemos saber que não somos capazes de receber o evangelho, a não ser que ele nos molde pelo Espírito Santo.

Não é suficiente para nós ouvirmos a voz do homem, a menos que Deus trabalhe dentro de nós, e fale em nós de uma forma secreta pelo Espírito Santo, e a partir daí vem a fé. Mas qual é a causa disso? Por que a fé é dada a um e não a outro? São Lucas nos mostra, dizendo: “Creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna.” (Atos 13: 48). Havia um grande número de ouvintes, e ainda assim apenas alguns deles receberam a promessa da salvação. E quem eram esses? Aqueles que foram designados para a salvação. São Paulo fala, mais uma vez, muito amplamente sobre esse assunto em sua epístola aos Efésios, de forma que não pode ser possível que os inimigos da predestinação de Deus não vejam uma coisa tão clara e evidente, a não ser que o diabo tenha arrancado seus olhos e eles tenham se tornado vazios de toda razão.

São Paulo diz que Deus nos chamou, e nos fez participantes de Seus tesouros e riquezas infinitas, que nos foram dadas por nosso Senhor Jesus Cristo, de acordo com [Sua vontade] de nos escolher antes da fundação do mundo. Quando dizemos que nós somos chamados à salvação, porque Deus nos deu a fé, não é por não existir uma causa maior e quem quer que não vá até à eleição eterna de Deus, toma um pouco do que é Dele, e reduz Sua honra. Isto é encontrado em quase toda parte nas Escrituras Sagradas.

Para que possamos fazer uma breve conclusão sobre este assunto, vamos ver de que maneira devemos nos manter. Quando perguntamos sobre a nossa salvação, não devemos começar por “somos escolhidos?” Não. Nunca podemos subir tão alto. Seríamos confundidos milhares de vezes, e teríamos nossos olhos ofuscados, antes de conseguirmos chegar ao conselho de Deus. O faremos então? Ouçamos o que é dito no evangelho. Quando Deus tem sido tão gracioso, ao nos fazer receber a promessa oferecida, sabemos que isso é como se Ele tivesse aberto todo Seu coração para nós, e registrado nossa eleição em nossas consciências!

Devemos estar certificados de que Deus nos tomou por Seus filhos, e que o reino dos céus é nosso; porque somos chamados em Jesus Cristo. Como podemos saber isso? Como nós mesmos devemos proceder em relação à doutrina que Deus colocou diante de nós? Devemos magnificar a graça de Deus, e saber que não podemos trazer nada para nos recomendar o Seu favor. Devemos nos tornar em nada aos nossos próprios olhos, porque nós não podemos reivindicar qualquer exaltação. Porém sabemos que Deus nos chamou para o evangelho, tendo nos escolhido antes da fundação do mundo. Esta eleição de Deus é, por assim dizer, uma carta fechada, naquilo que a consiste e em sua própria natureza, mas podemos lê-la, porque Deus dá um testemunho dela, quando Ele nos chama a Si mesmo por meio do evangelho e pela fé.

Pois assim como a original ou primeira cópia não tiram nada da carta ou do escrito que é lido, da mesma maneira devemos estar além de qualquer dúvida de nossa salvação. Quando Deus nos certifica pelo Evangelho que Ele nos toma por Seus filhos, este testemunho traz paz consigo, sendo assinado pelo sangue de nosso Senhor Jesus Cristo e selado pelo Espírito Santo. Quando temos este testemunho, não temos o suficiente para satisfazer nossas mentes? Portanto, a eleição de Deus está tão distante de ser contra isso, que antes confirma o testemunho que temos no evangelho. Não devemos duvidar, que Deus tem registrado os nossos nomes antes que o mundo fosse feito, entre Seus filhos escolhidos, mas o conhecimento do porquê disso Ele reservou para Si.

Devemos sempre ir a nosso Senhor Jesus Cristo, quando falarmos de nossa eleição, porque sem Ele (como já demonstrado), não podemos chegar a Deus. Quando falamos do seu decreto, também podemos ser surpreendidos como homens dignos de morte. Mas se Jesus Cristo for o nosso guia, podemos com alegria depender Dele, sabendo que Ele tem mérito suficiente em Si para fazer de todos nós membros amados de Deus Pai. Mérito que é suficiente por nós para que sejamos enxertados em Seu corpo, e feitos um com Ele. Assim devemos meditar sobre esta doutrina, se quisermos aproveitá-la corretamente, como é colocado por São Paulo, quando diz que a graça da salvação nos foi dada antes que da fundação do mundo. Devemos ir além da ordem da natureza, se quisermos saber como somos salvos, porque causa, e de onde vem a nossa salvação.

Deus não quis nos deixar em dúvida, nem ocultar Seu conselho, de forma que não pudéssemos saber como a nossa salvação foi assegurada; mas nos chamou a Si pelo Seu evangelho, e tem selado o testemunho da Sua bondade e amor paternal em nossos corações. Assim, com tal certeza, vamos glorificar a Deus, que nos chamou de Sua livre misericórdia. Descansemos sobre nosso Senhor Jesus Cristo, sabendo que Ele não nos enganou quando Ele fez com que fosse pregado que Ele deu a Si mesmo por nós e testemunhou isso pelo Espírito Santo. Pois a fé é um sinal indubitável de que Deus nos toma por Seus filhos, e assim somos levados a eleição eterna, conforme a qual Ele nos escolheu anteriormente.

Ele não diz que Deus nos escolheu porque temos ouvido o evangelho, mas por outro lado, Ele atribui a fé que nos é dada como a mais alta causa, a saber, porque Deus tem preordenado que Ele iria nos salvar, vendo que estávamos perdidos e rejeitados em Adão. Há alguns tolos que, para cegar os olhos dos simples e outros tais como eles mesmos, dizem que a graça da salvação nos foi dada porque Deus determinou que seu filho redimisse a humanidade e, portanto, isso é comum a todos Mas São Paulo fala aqui de outro tipo e os homens não podem por argumentos tão infantis desfigurar a doutrina do evangelho, pois é dito claramente que Deus nos salvou. Isso se refere a todos sem exceção? Não. Ele só fala dos fiéis. Novamente: São Paulo inclui todo o mundo? Alguns foram chamados pela pregação, e ainda se fizeram indignos da salvação que lhes foi oferecida, e por isso foram reprovados. Outros foram deixados por Deus em sua incredulidade, os quais nunca ouviram a pregação do evangelho. Portanto São Paulo se dirige clara e precisamente àqueles a quem Deus tinha escolhido e reservado para Si. A bondade de Deus nunca será vista na sua verdadeira luz, nem será honrada como merece, a não ser que nós saibamos que Ele não queria que permanecêssemos na destruição geral da humanidade, onde Ele deixou aqueles que eram como nós. Não somos diferentes desses, porque nós não somos melhores do que eles. Mas assim Deus se agradou em fazer. Portanto, todas as bocas devem ser fechadas. Os homens não devem presumir de tomar nada por si mesmos, exceto exaltar a Deus, confessando-se devedores a Ele por toda a Sua salvação.

Devemos fazer agora algumas observações sobre as palavras utilizadas por São Paulo neste lugar. É verdade que a Eleição de Deus nunca poderia ser aproveitável para nós, a não ser que saibamos por meio do evangelho, que por esse motivo Deus se agradou em revelar o que tinha mantido em segredo antes de todos os séculos. Mas, para declarar seu significado mais claramente, acrescenta que esta graça nos é revelada agora. E como? “Pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus”.

Quando ele diz que esta graça nos é revelada pelo aparecimento de Jesus Cristo, mostra que devemos ser muito ingratos, se não pudermos nos satisfazer e descansar na graça do Filho de Deus. O que podemos esperar mais? Se pudéssemos subir além das nuvens, e buscar os segredos de Deus, qual seria o resultado disso? Não seria saber que somos Seus filhos e herdeiros? Agora sabemos essas coisas, pois elas estão claramente definidas em Jesus Cristo. Porque é dito que todo aquele que Nele crê goza do privilégio de ser filho de Deus. Portanto, não devemos desviar dessas coisas nem um jota, se quisermos ter certeza de nossa eleição. São Paulo já nos tem mostrado que Deus nunca nos amou, nem nos escolheu, a não ser na pessoa do Seu Filho amado. Quando Jesus Cristo apareceu, Ele revelou vida para nós, caso contrário, jamais teríamos sido participantes dela. Ele nos fez conhecer o conselho eterno de Deus. Mas é presunção para os

homens tentar saber mais do que Deus quer que eles saibam.

Se andamos sóbria e reverentemente em obediência a Deus, ouvindo e recebendo o que Ele diz nas Sagradas Escrituras, o caminho será feito claro diante de nós. São Paulo diz que quando o Filho de Deus apareceu no mundo, Ele abriu nossos olhos, para que pudéssemos saber que Ele foi gracioso para conosco, antes que o mundo fosse feito. Fomos recebidos como Seus filhos, e considerados como justos, de forma que não precisamos duvidar que o reino dos céus esteja preparado para nós. Não que tenhamos isso por nossos méritos, pois ele pertence a Jesus Cristo, que nos faz participantes Consigo.

Quando São Paulo fala do aparecimento de Jesus Cristo ele diz, “Ele trouxe à luz a vida e a imortalidade através do evangelho”. Não é somente dito que Jesus Cristo é nosso Salvador, mas que Ele é enviado para ser um mediador, para nos reconciliar pelo sacrifício da Sua morte. Ele é enviado a nós como um cordeiro sem defeito, para nos purificar e fazer satisfação por todas as nossas transgressões. Ele é a nossa garantia, para nos livrar da condenação e da morte. Ele é a nossa justiça. Ele é o nosso advogado, que intercede com Deus para que Ele ouça nossas orações.

Temos de conceder que todas essas qualidades pertencem a Jesus Cristo, se quisermos saber corretamente como Ele apareceu. Devemos olhar para a substância contida no evangelho. Devemos saber que Jesus Cristo apareceu como nosso Salvador, e que Ele sofreu para nossa salvação, e que fomos reconciliados com Deus Pai através Dele. Porque temos sido limpos de todas as nossas manchas, e libertos da morte eterna. Se não soubermos que Ele é nosso advogado, que nos ouve quando oramos a Deus a fim de que nossas orações possam ser respondidas, o que será de nós? Que confiança podemos ter de invocar o nome de Deus, que é a fonte da nossa salvação? Mas diz São Paulo que Jesus Cristo cumpriu todas as coisas que eram necessárias para a redenção da humanidade.

Se o evangelho fosse lançado fora, de que vantagem seria para nós que o Filho de Deus tenha sofrido a morte e ressuscitado ao terceiro dia para nossa justificação? Nada disso nos beneficiaria. Sendo assim, o Evangelho nos coloca na posse dos benefícios que Jesus Cristo comprou para nós. E, portanto, apesar Dele estar ausente de nós no corpo, e não se relacionar conosco aqui na terra, não é que Ele tenha se afastado, como se não pudéssemos encontrá-Lo, pois o Sol que brilha não ilumina mais o mundo do que Jesus Cristo mostra-se abertamente para aqueles que têm os olhos da fé sobre ele, quando o evangelho é pregado. Por isso diz São Paulo que Jesus Cristo trouxe a vida à luz, sim, a vida eterna. Ele diz: "O Filho de Deus destruiu a morte." E como Ele a destruiu? Se Ele não tivesse oferecido um sacrifício eterno para apaziguar a ira de Deus, se não tivesse entrado até o abismo para dali nos tirar, se não tivesse tomado a nossa maldição sobre Si, se não tivesse tirado o fardo com o qual éramos esmagados, como estaríamos? Será que a morte teria sido destruída? Não. O pecado reinaria sobre nós, e a morte da mesma forma. E, de fato, se nós examinássemos a nós mesmos, veríamos que somos escravos de Satanás, que é o príncipe da morte. Assim estaríamos presos nesta escravidão miserável, se Deus não destruísse o diabo, o pecado e a morte. E isso é feito: mas como? Ele tirou nossos pecados pelo sangue de nosso Senhor Jesus Cristo.

Portanto, embora sejamos pobres pecadores, e em perigo do juízo de Deus, ainda assim o pecado não pode nos ferir. A picada venenosa é tão cegada que não pode nos ferir, porque Jesus Cristo ganhou a vitória sobre ela. Ele não sofreu o derramamento do Seu sangue em vão, mas foi uma purificação onde fomos lavados por meio do Espírito Santo, tal como é demonstrado por São Pedro. E assim vemos claramente que, quando São Paulo fala do Evangelho, onde Jesus Cristo apareceu, e aparece diariamente para nós, ele não esquece sua paixão e morte, nem as coisas que dizem respeito à salvação da humanidade.

Podemos ter a certeza de que na pessoa do nosso Senhor Jesus Cristo temos tudo o que possamos desejar: temos confiança total e perfeita na bondade de Deus, e no amor do qual Ele nos dá testemunho. Mas vemos que nossos pecados nos separam de Deus, e causam uma guerra em nossos membros e ainda assim temos uma expiação por nosso Senhor Jesus Cristo. E por quê? Porque Ele derramou Seu sangue para lavar os nossos pecados. Ele ofereceu um sacrifício pelo qual Deus se reconciliou conosco. Em resumo, Ele tirou a maldição, para que possamos ser abençoados por Deus. Além disso, Ele conquistou a morte e triunfou sobre ela, para que pudesse nos livrar da sua tirania, que de outra forma nos esmagaria completamente.

Assim, vemos que todas as coisas que pertencem a nossa salvação são realizadas em nosso Senhor Jesus Cristo. E para que possamos entrar em plena posse de todos esses benefícios sabemos que Ele aparece para nós diariamente por Seu evangelho. Embora habite em Sua glória celeste, se abrirmos os olhos da nossa fé, nós o contemplaremos. Devemos aprender a não separar o que o Espírito Santo tem unido. Vamos observar o que São Paulo queria dizer, por uma comparação, que amplifica a graça que Deus mostrou ao mundo após a vinda de nosso Senhor Jesus, como se dissesse "os antigos pais não tiveram essa vantagem: ter Jesus Cristo aparecendo para eles, como apareceu para nós". É verdade que eles tinham a mesma fé, que a herança dos Céus é deles bem como nossa, que Deus revelou Sua graça para eles assim como para nós, mas não na mesma medida, pois viam Jesus Cristo ao longe, sobre as figuras da Lei, como São Paulo diz aos Coríntios. O véu do templo ainda se estendia e os judeus não podiam chegar perto do santuário, isto é, o santuário material. Agora, porém, o véu do templo tendo sido removido, nos aproximamos da majestade do nosso Deus. Chegamos-nos mais familiarmente a Ele, em quem habita toda a perfeição e glória. Em suma: temos o corpo, enquanto eles tinham apenas a sombra (Colossenses 2:17).

Os antigos pais se submeteram totalmente a suportar a aflição de Jesus Cristo, como é dito no capítulo 11 de Hebreus. Porque não é dito que Moisés suportou a vergonha de Abraão, mas de Jesus Cristo. Assim, os antigos pais, apesar de viverem sob a Lei, ofereciam eles mesmos a Deus em sacrifícios, para suportar mais

pacientemente as aflições de Cristo. E agora, Jesus Cristo tendo ressuscitado dos mortos, trouxe à luz a vida. Se somos tão delicados que não podemos suportar as aflições do evangelho, não somos dignos de sermos apagados do livro de Deus, e sermos rejeitados? Portanto, devemos ser constantes na fé, e prontos para sofrer, o que quer que Deus queira, pelo nome de Jesus Cristo, porque a vida é colocada diante de nós, e nós temos um mais familiar conhecimento do que os antigos pais tiveram.

Sabemos o quanto os antigos pais eram atormentados pelos tiranos e inimigos da verdade, e como eles sofreram constantemente. A condição da igreja não é mais grave nestes dias do que foi outrora. Porque agora Jesus Cristo trouxe a vida e a imortalidade à luz através do evangelho. Todas as vezes que a graça de Deus é pregada a nós, é como se o reino dos céus se abrisse para nós, como se Deus estendesse Sua mão, e nos certificasse que a vida está próxima, e que Ele nos faz participantes da sua herança celestial. Mas quando olhamos para essa vida, que foi comprada para nós pelo nosso Senhor Jesus Cristo, não devemos hesitar em abandonar tudo o que temos neste mundo, para ir ao tesouro acima, que está nos céus Portanto, não sejamos voluntariamente cegos, vendo que Jesus Cristo coloca diariamente diante de nós a vida e a imortalidade, das quais falamos aqui. Quando São Paulo fala da vida, e acrescenta a imortalidade, é como se dissesse “Já entramos no reino do céu pela fé. Embora sejamos como estranhos aqui em baixo, a vida e a graça da qual fomos feitos participantes por meio de nosso Senhor Jesus Cristo trarão seus frutos no tempo

conveniente, a saber, quando Ele for enviado por Deus Pai para nos mostrar o efeito das coisas que são diariamente pregadas, as quais foram cumpridas em Sua pessoa quando Ele estava vestido com a humanidade.”

Fonte: Projeto Spugeon

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quinta-feira, 30 de maio de 2013

Como um homem pode ser justo diante de Deus? | Bob jennings, Charles Leiter.

TRANSCRIÇÃO DO VÍDEO

Como pode um homem ser justo diante de Deus? O que pode remover meus pecados? Nós costumávamos a cantar isso, eu cantava isto com as crianças… O que pode remover meus pecados? E eu falava: “Nada” O que pode remover meus pecados? “Nada…” “Nada além do sangue de Cristo.” Nada além do sangue de Cristo. Esse é o único caminho. Os nossos pecados foram atribuidos a Cristo, tudo foi cobrado na Sua conta e Ele pagou na íntegra. Ele realmente fez isso! Ele realmente levou os seus pecados e os meus pecados. Se você é um filho de Deus, Ele realmente levou todos os pecados em Seu próprio corpo na cruz. Os seus pecados não estão voando pelo ar. Você imagina as coisas mais perversas que você já fez, amados, os seus pecados não estão voando pelo ar. Os seus pecados caíram sobre Jesus Cristo e Ele pagou na íntegra! Essa é a unica maneira de ser achado justo diante de Deus.

Considere o Cordeiro de Deus em Sua ressurreição, Levantado com grande poder! não há força muscular, nenhuma força mecânica, nenhuma potência elétrica, nenhuma energia nuclear, que poderia tê-lO ressuscitado da morte, e esse mesmo poder está em você.

Eu não sou mais um criminoso debaixo da ira de Deus, que destá diante de um juiz furioso. Eu sou um filho que foi adotado por uma família. Você tem que lançar mão do fato de que você está em uma nova posição. Você está em uma posição de graça. Você é um filho.

Lembre-se que uma coisa surpreendente é que você não está realmente debaixo de um julgamento de um juiz. Quando você peca, crente, você não está diante de um juiz com uma seta apontada em sua cabeça. Você está diante de um pai. Você está diante de um pai que quer te levantar e fazer você andar novamente. Que mudança de status. Isso não é glorioso?

Quarenta e um anos que eu comecei a virar meus olhos para longe dos confins da terra e passei a olhar apenas para Jesus… E agora eu poderia estar de frente para o final e estou ainda mais grato que eu posso dirigir meus olhos para Jesus.

Quando alguém ainda está tentando se acertar com Deus guardando a Lei, quando as pessoas estão tentando merecer a salvação por alguma forma de obediência pelas coisas que elas fazem, então isso mostra que elas realmente acham que é possível, que elas podem de alguma forma merecer o seu caminho para Deus.

Sua justificação e sua aceitação por Deus não é baseado em seu desempenho. O quão bem você andou ontem. Você diz: “Oh, ontem eu orei o dia inteiro.” Bem, você sabe o que a Bíblia diz? Ela diz que as nossas orações são feitas aceitáveis pelo sangue de Jesus. Paulo começa em Romanos, ele diz, “Primeiramente dou graças ao meu Deus por meio de Jesus Cristo por causa de todos vocês…” (Rm 1:8a) Você não pode nem sequer agradecer a Deus a não ser através do sangue de Jesus Cristo. E nós somos chamados a oferecer sacrifícios espirituais agradáveis ​​a Deus através de Jesus Cristo. As melhores obras que poderíamos fazer não têm nada a ver com isso. O remorso não tem nada a ver com isso. “Mesmo que minhas lagrimas caiam para sempre, ou mesmo que meu zelo não conheça alívio algum, nada disso poderia expiar os meus pecados. Tu é quem tem que salvar e somente Tu.” [Trecho do hino Rocha das Eras/"Rock of Ages" de Augustus M. Toplady]

Vocês percebem cada vez mais, não é irmãos? Que o problema com este mundo não é econômico não é educacional, não é ambiental, não é político, não é governamental. O problema supremo da raça humana é o pecado. E o problema supremo que eu sempre vou ter que enfrentar é o pecado. Esse é o inimigo número um. É o pecado, em todas as suas formas. É isso que tem enchido nossos tribunais e nossas cadeias. Isso é o que tem enchido os cemitérios em cada cidade e em cada aldeia. Isso é o que fez com que o mundo de hoje seja um lugar de devastação em uma zona de guerra. Todo o crime, toda a dor, todas as lágrimas, todas as mortes, todos os lutos, todos os acidentes, todas as tristezas, e todas as perdas; Todas as tragédias são por causa do pecado. O pecado entrou no mundo e nós estamos sob o reinado do pecado e da morte. Ele está agitando o mundo, fazendo com que o próprio mundo sofra Os céus e a terra que gemem diante do peso do pecado [rf. Rm 8:22]. e o que o mundo precisa não é um filósofo, o mundo não precisa de um professor. O mundo não precisa, necessariamente,de um professor ou um algo do género. O que este mundo precisa é de um salvador. Seu nome será Jesus, porque Ele salvará. Ele deve salvar, tirar todos os pecados do mundo. e até mesmo os pagãos sabem disso, não é?

O maior pecado que alguém pode cometer é não dar valor a Deus e não apreciá-lO. Todos os outros pecados provêm desse. O primeiro mandamento é: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, alma, mente e força.” Essa é a primeira chamado a toda alma. É isso que tudo na criação chama você a fazer. Essa é a essência do universo é que Deus deve ser adorado, porque Ele é um Deus glorioso. E o que faz com que os cananeus sejam tão maus, é que por quatrocentos anos eles não cairam com o rosto por terra e disseram: “Eu Te amo senhor. Você fez o sol. Você fez a lua. Você fez meus filhos. Você fez este mundo glorioso. Perdoe-me dos meus pecados.”

E você criança, vocês que crescem em um lar cristão. A Palavra está perto de você. O caminho da salvação está perto de você hoje. Portanto, não digas no teu coração que você tem que esperar por uma determinada idade porque você pode crer em Cristo agora! Neste momento e ser salvo. E olhe para Ele agora.

Eu sou aceito na família, pelo sangue de Jesus Cristo. Isso é imutável. Seu amor está em mim. Ele é para mim. Ele esta comigo. E eu sou novo. E eu realmente gosto de fazer justiça. E eu não tenho que viver como eu vivia antigamente. E eu não estou sozinho. E eu tenho autoridade… porque eu sou um filho de Deus.

Ele desceu do Seu trono; e Ele desceu para o meio de pecado e miséria, e lágrimas e Ele tocou as pessoas que nunca tinham sido tocadas; e Ele falou com pessoas com quem nunca se falava; e em Sua hora mais escura, Ele desceu ainda mais como um escravo em uma cruz e morreu sob a ira de Deus. E com uma vida derramada na morte, Ele te puxou para fora do buraco que você tinha cavado. É assim que o Senhor Jesus te amou. “…como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim.” (Jo 13:1b)

Diga-lhes, ‘Olha, se você acredita genuinamente, sinceramente, realmente, verdadeiramente, amorosamente, inteiramente neste Cordeiro de Deus, você entenderia que Ele pagou sua dívida de pecado. Você entenderia que Ele morreu por você Devemos proclamá-lo em todos os lugares. Diga a todos a boa notícia de que um Salvador morreu.

assinatura iilbests

quarta-feira, 17 de abril de 2013

A Cruz de Cristo | J.C. Ryle

imagescruzO que você pensa acerca da cruz de Cristo?

Talvez você considere esta questão como algo de somenos importância; não obstante, dela depende intensamente o bem-estar eterno de sua alma.

Há mil e oitocentos anos atrás, houve um homem que disse gloriar-se na cruz de Cristo. Foi alguém que revirou o mundo de cabeça para baixo pelas doutrinas que pregava. De todos os homens que já viveram neste mundo, foi ele quem mais contribuiu para o estabelecimento do Cristianismo. E mesmo assim, foi este homem quem disse aos Gálatas:

“Longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”, Epístola de Paulo Aos Gálatas 6.14

Leitor, a “cruz de Cristo” deve ser um assunto verdadeiramente importante para que um apóstolo inspirado fale de tal forma sobre ela. Deixe-me tentar demonstrá-lo o verdadeiro significado desta expressão. Uma vez reconhecendo o que significa a cruz de Cristo, com a ajuda de Deus você se tornará capaz de perceber a importância dela para a sua alma.

A palavra cruz, na Bíblia, algumas vezes faz referência à cruz de madeira na qual o Senhor Jesus foi cravado e posto para morrer, no Calvário. Isto é precisamente o que São Paulo tinha em sua mente quando falou aos Filipenses que Cristo “foi obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2.8).

Contudo, esta não era a cruz na qual São Paulo se gloriava. Ele esquivar-se-ia com horror da idéia de gloriar-se em um mero pedaço de madeira. Eu não tenho quaisquer dúvidas de que ele denunciaria a adoração católica romana do crucifixo como profana, blasfema e idolátrica.

A cruz, em outras vezes, é atinente às aflições e provações que os crentes atravessam pela causa da religião que professam, quando seguem a Cristo fielmente. Este é o sentido no qual nosso Senhor usa a palavra, quando diz: “Aquele que não toma a sua cruz, e segue-me, não é digno de mim” (Mt 10.38). Este também é o sentido no qual Paulo usa a palavra quando escreve aos Gálatas. Ele conhecia bem esta cruz. Deveras, ele a carregava pacientemente; no entanto, também não é sobre isto que ele está falando aqui.

Mas a palavra cruz também se refere, em alguns outros lugares da Escritura, à doutrina de que Cristo morreu pelos pecadores sobre a cruz, - a expiação que Ele fez pelos pecadores, por Seus sofrimentos em favor deles sobre a cruz – o completo e perfeito sacrifício pelo pecado que Jesus ofereceu quando deu Seu próprio corpo para ser crucificado. Em suma, este termo, “a cruz”, aponta para Cristo crucificado, o único Salvador. Este é o significado no qual Paulo usa a expressão, quando fala aos coríntios: “A pregação da cruz é loucura para os que perecem” (1 Co 1.18). E este também é o significado do que ele escreveu aos Gálatas: “Longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”. Ele está dizendo simplesmente isto:

“Eu não me glorio em nada mais, exceto em Cristo crucificado, como a salvação de minha alma”.

Leitor, Jesus Cristo crucificado era a alegria e o deleite, o conforto e a paz, a esperança e a confiança, a fundação e o lugar de descanso, a arca e o refúgio, o alimento e o remédio da alma de Paulo. Ele não considerava que teria de executar algo por si mesmo ou padecer por si mesmo. Ele não era mediado por sua própria bondade e nem por sua própria retidão. Ele amava pensar naquilo que Cristo havia feito, e naquilo que Cristo havia sofrido - a morte de Cristo, a justiça de Cristo, a expiação deCristo, o sangue de Cristo, a obra finalizada de Cristo. Nisto, sim, ele se gloriava. Este era o sol de sua alma.

Este era o assunto que sobre o qual ele amava pregar. O apóstolo Paulo foi um homem que percorreu a terra proclamando aos pecadores que o Filho de Deus havia derramado o sangue de Seu próprio coração para salvar-lhes. Ele caminhou por todos os lugares neste mundo falando às pessoas que Jesus Cristo as amava, a ponto de morrer pelos seus pecados sobre a cruz. Observe como ele diz aos coríntios: “Eu vos entreguei o que primeiro recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados” (1 Co 15.3); “eu me determinei a não saber de qualquer coisa entre vós, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado” (1 Co 2.2). Ele – um blasfemo, fariseu perseguidor – havia sido lavado no sangue de Cristo; de tal modo a não poder deixar de sustentar sua paz sobre este sangue. Por isso ele nunca se cansava de falar da história da cruz.

Este foi o tema sobre o qual ele amava alongar-se quando escrevia aos crentes. É maravilhoso observar como suas epístolas geralmente são repletas dos sofrimentos e da morte de Cristo - como elas discorrem sobre "pensamentos que inspiram e palavras que ardem" sobre o amor e o poder das agonias de Cristo. Seu coração parece cheio deste assunto: ele discorre sobre isto constantemente e retoma o tema continuamente. É o fio de ouro que perpassa todo seu ensino doutrinário, e todas as exortações práticas. Ele parece pensar que mesmo para o cristão mais maduro nunca é demais ouvir sobre a cruz.

Foi sobre isto que ele viveu toda sua vida, desde o tempo de sua conversão. Ele diz aos gálatas: “A vida que agora eu vivo na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, o qual me amou, e a si mesmo se deu por mim” (Gl 2.20).

  • O que o faz tão forte para o labor?
  • O que o faz tão disposto para a obra?
  • O que o faz tão incansável em esforçar-se para salvar alguns?
  • O que o faz tão perseverante e paciente?

Eu vou dizê-lo, qual o segredo disto tudo. Ele sempre se alimentava pela fé do corpo de Cristo e do sangue de Cristo. Jesus Cristo foi a comida e a bebida de sua alma.

E leitor, você pode estar convicto de que Paulo estava correto. Confiar nela, isto é, na cruz de Cristo, - a morte de Cristo sobre a cruz para fazer a expiação pelos pecadores – é a verdade central ao longo de toda a Bíblia. Esta é a verdade que encontramos logo ao abrirmos no livro do Gênesis. A semente da mulher que esmagaria a cabeça da serpente - isto não é outra coisa senão uma profecia de Cristo crucificado. Deveras, esta é a verdade que brilha, por trás do véu, em toda a lei de Moisés e na história dos judeus. Os sacrifícios diários, o cordeiro pascal, o contínuo derramamento de sangue no tabernáculo e no templo - tudo isto são sombras do Cristo crucificado. E esta é a verdade que também vemos ser honrada na visão do céu, antes do fechamento do livro das Revelações: “Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto”(Ap 5.6). De fato, mesmo em meio à glória celestial nós encontramos uma visão de Cristo crucificado.

Tire a cruz de Cristo, e a Bíblia será um livro obscuro. Ela seria como os hieróglifos egípcios, sem a chave que interpreta o seu significado – curiosa e maravilhosa, mas sem qualquer serventia real.

Leitor, observe bem o que eu lhe digo. Você pode conhecer uma boa porção da Bíblia. Pode conhecer os contornos das histórias nela contidas, e até a data dos eventos que a Bíblia descreve, assim como alguém pode conhecer a história da Inglaterra. Você pode conhecer os nomes dos homens e mulheres nela mencionados, assim como um homem conhece César, Alexandre o Grande, ou Napoleão. Você pode conhecer vários preceitos da Bíblia, e os admirar, assim como um homem admira Platão, Aristóteles, ou Sêneca. Mas se você ainda não descobriu que Cristo crucificado é o fundamento de cada livro, você tem lido a Bíblia até agora de modo muito pouco proveitoso. Sua religião é um céu sem um sol, um arco sem um fecho, um compasso sem uma agulha, um relógio sem molas ou valores, um candeeiro sem óleo. Ela não o confortará. Ela não livrará a sua alma do inferno.

Leitor, observe mais uma vez o que eu lhe digo. Você pode conhecer bastante acerca de Cristo, tendo alguma espécie de conhecimento intelectual. Você pode conhecer bem quem Ele foi, e onde Ele nasceu, e o que Ele fez. Você pode conhecer Seus milagres, Suas falas, Suas profecias, e Suas ordenanças. Você pode saber como Ele viveu, como Ele sofreu, e como Ele morreu. Contudo, pode-se conhecer o poder da cruz de Cristo experimentando-o; deveras - a menos que você saiba e reconheça que aquele sangue derramado sobre a cruz lavou seus próprios pecados particulares, e a menos que você esteja disposto a confessar que sua salvação depende inteiramente da obra que Cristo realizou sobre a cruz -, se não for esse o seu caso, Cristo não lhe será em nada proveitoso. Sim, o mero conhecimento do nome de Cristo jamais o salvará. Você deve conhecer a Sua cruz e o Seu sangue, ou então acabará morrendo em seus próprios pecados.

Leitor, enquanto você viver, tome cuidado com uma religião na qual não se ouve muito da cruz. Você vive em tempos nos quais a cautela, lamentavelmente, é necessária. Cuidado, eu repito, com uma religião sem a cruz.

Há centenas de lugares de adoração nestes dias, nos quais se encontram quase todas as coisas, exceto a cruz. Há carvalhos gravados, e pedras esculpidas; há vidros coloridos, e pinturas esplêndidas; há serviços solenes, e uma constante série de ordenanças; mas a cruz real de Cristo não há. Jesus crucificado não é proclamado no púlpito. O Cordeiro de Deus não é exaltado, e a salvação mediante a fé n’Ele não é livremente proclamada. E, por conseguinte, todos estes lugares estão em erro. Leitor, acautele-se de tais lugares de adoração. Eles não são apostólicos. Eles não haveriam de satisfazer a São Paulo.

Há milhares de livros religiosos publicados hodiernamente, nos quais se acham quase todas as coisas, exceto a cruz. Eles são plenos de direcionamentos sobre os sacramentos, e louvores da Igreja; eles abundam em exortações para uma vida santa, e em regras para a consecução da perfeição; eles apresentam fartura de fontes e cruzes, tanto interna quanto externamente; mas a cruz real de Cristo é deixada de fora. O Salvador e Seu amor agonizante tampouco são mencionados, ou o são de um modo anti-escriturístico. E, por conseguinte, todos estes livros são piores do que imprestáveis. Eles são não apostólicos. Eles jamais satisfariam a São Paulo.

Leitor, São Paulo não se gloriava em nada mais, a não ser na cruz. Esforce-se para também ser assim. Coloque Jesus crucificado sempre diante dos olhos de sua alma. Não ouça qualquer ensino que interponha algo entre você e Ele. Não caia no antigo erro dos gálatas. Não pense que alguém nestes dias seja melhor guia do que os apóstolos. Não se envergonhe das antigas veredas, nas quais percorreram homens que foram inspirados pelo Espírito Santo. Não deixe que a conversa vazia de homens que proferem grandes palavras dilatadas sobre a catolicidade, e a igreja, e o ministério, perturbem a sua paz, e o façam despreender-se da cruz. As igrejas, os ministros e os sacramentos são todos importantes a seu próprio modo, mas eles não são Cristo crucificado. Não dê a glória de Cristo a nenhum outro. “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”.

Leitor, pus tais pensamentos diante de sua mente. O que você pensa agora sobre a cruz de Cristo? Eu não posso dizer; mas não posso desejar a você algo melhor do que isto – que você possa ser capaz de dizer com o apóstolo Paulo, antes de você morrer ou apresentar-se ao Senhor, “Longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”. Amém.

 

Por: J.C. Ryle

Fonte: Monergismo.com

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Por que Cristo morreu? | John Stott

porquejesusmorreuPode ser útil responder a essa pergunta em quatro estágios, começando com o claro e não controverso, e, passo a passo, ir penetrando mais profundamente no mistério.

 

 

Primeiro, Cristo morreu por nós. Além de ser necessária e voluntária, sua morte foi altruísta e benéfica. Ele a empreendeu por nossa causa, não pela sua, e cria que através dela nos garantia um bem que não poderia ser garantido de nenhum outro modo. O Bom Pastor, disse ele, ia dar a sua vida pelas ovelhas, em benefício delas. Similarmente, as palavras que ele proferiu no cenáculo, ao dar o pão aos seus discípulos, foram: "Isto é o meu corpo oferecido por vós". Os apóstolos pegaram esse simples conceito e o repetiram, às vezes tornando-o mais pessoal, trocando a segunda pessoa pela primeira: "Cristo morreu por nós". Ainda não há nenhuma explicação e nenhuma identificação da bênção que ele nos assegurou mediante a sua morte, mas pelo menos concordamos quanto às expressões "por vós" e "por nós".

Segundo, Cristo morreu para conduzir-nos a Deus (1 Pedro 3:18). O foco do propósito benéfico da sua morte é a nossa reconciliação. Como diz o Credo Niceno: "por nós (geral) e por nossa salvação (particular) ele desceu do céu. . ." A salvação que ele conseguiu para nós mediante sua morte é retratada de vários modos. Às vezes é concebida negativamente como redenção, perdão ou libertação. Outras vezes é positiva — vida nova ou eterna, ou paz com Deus no gozo de seu favor e comunhão. No presente, o vocabulário preciso não importa. O ponto importante é que, em conseqüência da sua morte, Jesus é capaz de conferir-nos a grande bênção da salvação.

Terceiro, Cristo morreu por nossos pecados. Nossos pecados eram o obstáculo que nos impedia de receber o dom que ele desejava darnos. De modo que eles tinham de ser removidos antes que a salvação nos fosse outorgada. E ele ocupou-se dos nossos pecados, ou os levou, na sua morte. A expressão: "por nossos pecados" (ou fraseado muito similar) é usada pela maioria dos escritores do Novo Testamento; parece que eles tinham certeza de que — de um modo ainda não determinado — a morte de Cristo e nossos pecados se relacionavam. Eis uma amostra de citações:

"Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras" (Paulo); "Cristo morreu pelos pecados uma vez por todas" (Pedro); "Ele apareceu de uma vez por todas. . . para desfazer o pecado mediante o sacrifício de si mesmo", e ele "ofereceu de uma vez por todas um sacrifício pelos pecados"(Hebreus); "o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo o pecado" (João); "àquele que nos ama e nos libertou de nossos pecados através do seu sangue. . . seja a glória" (Apocalipse).

Todos estes versículos (e muitos mais) ligam a morte de Jesus aos nossos pecados. Que elo é esse?

Quarto, Cristo sofreu a nossa morte, ao morrer por nossos pecados. Isso quer dizer que se a sua morte e os nossos pecados estão ligados, esse elo não é efeito de mera conseqüência (ele foi vítima de nossa brutalidade humana), mas de penalidade (ele suportou em sua pessoa inocente a pena que nossos pecados mereciam). Pois segundo a Escritura, a morte se relaciona com o pecado como sua justa recompensa: "o salário do pecado é a morte"(Romanos 6:23).

A Bíblia toda vê a morte humana não como um evento natural, mas penal. E uma invasão alienígena do bom mundo de Deus, e não faz parte de sua intenção original para a humanidade. É certo que o registro fóssil indica que a pilhagem e a morte existiam no reino animal antes da criação do homem. Porém parece que Deus tinha em mente um fim mais nobre para os seres humanos portadores de sua imagem, fim talvez semelhante ao traslado que Enoque e Elias experimentaram, e à "transformação" que ocorrerá com aqueles que estiverem vivos na volta de Jesus.

Através de toda a Escritura, pois, a morte (tanto física como espiritual) é vista como juízo divino sobre a desobediência humana. Daí as expressões de horror com relação à morte, a sensação de anomalia de que o homem se tivesse tornado como as bestas que perecem, uma vez que o mesmo destino aguarda a todos. Daí também a violenta indignação de que Jesus foi alvo em seu confronto com a morte ao lado do túmulo de Lázaro. A morte era um corpo estranho. Jesus resistiu-lhe; ele não pôde aceitá-la.

Se, pois, a morte é a pena do pecado, e se Jesus não tinha pecado próprio em sua natureza, caráter e conduta, não devemos dizer que ele não precisava ter morrido? Não poderia ele, em vez de morrer, ter sido trasladado? Quando o seu corpo se tornou translúcido durante a transfiguração no monte, não tiveram os apóstolos uma previsão do seu corpo da ressurreição (daí a instrução de a ninguém contarem acerca desse acontecimento até que ele ressurgisse dentre os mortos, Marcos 9:9)? Não podia ele naquele momento ter entrado no céu e escapado à morte? Mas ele voltou ao nosso mundo a fim de ir voluntariamente à cruz. Ninguém lhe tiraria a vida, insistia ele; ele ia dá-la de sua própria vontade. De modo que quando o momento da morte chegou, Lucas a representou como um ato autodeterminado do Senhor. "Pai", disse ele, "nas tuas mãos entrego o meu espírito". Tudo isso significa que a simples afirmativa do Novo Testamento: "ele morreu por nossos pecados" diz muito mais do que aparenta na superfície. Afirma que Jesus Cristo, sendo sem pecado e não tendo necessidade de morrer, sofreu a nossa morte, a morte que nossos pecados mereciam.

  • John Stott
  • In: A Cruz de Cristo.
  • Extraído do Blog: Cinco Solas

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Grátis! Grátis! Grátis! Eu sou livre! | John Piper

gratis

Eu estava ouvindo a A narrativa interessante da vida de Olaudah Equiano (1745-1797). No meio do capítulo sete do escravo obtém sua liberdade. Era 1766.

Sua própria descrição de seu êxtase sacudiu-me em uma experiência alegre da minha própria liberdade - a minha alforria impressionante do poder do pecado a Deus através da morte de Cristo. Aqui é a sua descrição incrível de sua alegria.

Minha imaginação era tudo o êxtase quando eu voei para o cartório. . . . Eu mal podia acreditar que eu estava acordado. Céus! Quem poderia fazer justiça aos meus sentimentos neste momento!

- Nem heróis conquistadores próprios, no meio de um triunfo
- Nem a mãe do concurso que acabou recuperou seu filho há muito perdido, e pressiona-lo para seu coração
- Nem marinheiro o cansado com fome, à vista do porto desejado amigável,
- Nem o amante, quando ele mais uma vez abraça a sua amada, depois de ela ter sido raptada de seus braços!

Tudo dentro do meu peito estava tumultuado, selvageria e delírio! Meus pés mal tocavam o chão, pois eles foram asas com alegria, e, assim como Elias, como ele subiu para o céu, eles foram com o relâmpago correu como eu fui. "

Cada um que eu conheci eu disse da minha felicidade, e brilhou sobre a virtude de meu mestre amável e Senhor. (Olaudah Equiano. a narrativa interessante da vida de Olaudah Equiano, Ou Vassa Gustavus, A África, escrito por ele mesmo[Locais Kindle 1848-1855]).

Quando li isso, senti minha própria liberdade incrível. Eu nunca estive em cativeiro humano como ele foi. Mas eu estava na pior - o horrível ofuscante, escravizando poder, condenatório do pecado. Sua alegria incrível me fez sentir o que eu deveria sentir.

  • "Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres" ( João 8:36 ).

  • "A lei do Espírito da vida, te livrou em Cristo Jesus da lei do pecado e da morte" (Romanos 8:02 ).

  • "Nós não somos filhos da escrava, mas da livre" ( Gálatas 4:31 ).

  • "Para a liberdade Cristo nos libertou" ( Gálatas 5:1 ).

Pense na sua antiga escravidão. Pense na sua liberdade. Pense em seu Libertador ("a virtude amável de meu mestre amável e Senhor"). Então deixe Olaudah, o ex-escravo, dar-lhe as palavras.

Por: John Piper

Tradução: Evandro Marinho

Fonte: DesirigGod

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Salvação Completa | Bob Jennings

Eu gosto de um Salvador que realmente fez sua obra por completo. E tratou com os meus pecados. Se qualquer homem peca, temos de lembrar, temos um advogado, não se preocupe com o que você fez ou não fez. Você tem que olhar para o Salvador. Você tem um advogado. Sem Ele, estamos em todos os tipos de problemas com o Deus vivo. Nós temos o melhor dos advogados. Ele nunca perdeu um caso. Ele nunca falhou. Jesus Cristo, o Justo.

Não, não é uma questão do que nós fizemos, você não poderia ir e juntar-se com aqueles nas selvas da África e oferecer porcos e galinhas por seu pecado; isso não tornaria você nem um pouco bom. Você poderia ir para as montanhas dos Andes e oferecer jovens virgens para o seu pecado, isso não o tornaria nenhum um pouco bom, Você poderia oferecer rios de azeite e milhares de animais, isso não o tornaria nenhum um pouco bom, Miquéias diz. Você poderia ir lá e ganhar mil almas para Cristo e não o tornaria nenhum um pouco bom, para encontrar graça diante de Deus, para encontrar um alívio de Deus. Não há nada, nada!

E assim nós temos que vir a Cristo, Nada na minha mão eu trago, nada Senhor! Não há esperança para mim estar em pé diante do Deus vivo, naquele grande dia, a despeito do que você é e do que você fez. Cristo e este crucificado, esse é o evangelho da glória. Não é uma questão de quem fez o quê, é a questão de uma pessoa, e por isso estamos colocando nossa confiança em Jesus Cristo. Essa pessoa e o que Ele fez na cruz, Jesus Cristo, o Justo. Essa é a nossa confiança. Sim, temos um advogado muito bom, temos Jesus Cristo, o Justo.

Que não conheceu pecado, Ele não cometeu pecado, Ele não tinha pecado, Nele não havia pecado! Ele andou uma vida perfeita, Ele morreu uma morte perfeita, Ele ressuscitou em poder. Jesus disse: “Está consumado.” (João 19:30) e Deus diz: “Está muito bem feito”, e Ele ressuscitou dentre os mortos. Fez Ele sentar à sua mão direita, com toda a autoridade e colocando tudo em Suas mãos. Ele é o homem, Jesus de Nazaré, a Ele tem sido dada autoridade sobre toda a carne para dar a vida eterna a todos quantos o Pai Lhe deu. E eu estou dizendo: “Senhor Jesus, eu confio, eu acredito, eu acredito que você morreu por mim.” “Você realmente propiciou e removeu a ira de Deus!” “E firme devo me levantar naquele grande dia, por causa do que Jesus fez.” Nenhum homem tem amor maior do que este, de alguém dar a sua vida por seu amigo. Essa é a maior manifestação do amor de Deus para você como crente. “Amor tão incrível, tão divino, requer minha vida, minha alma, meu tudo!” Sabe, Jesus morreria pessoalmente por mim, pessoalmente. C.T. Studd diz: “Se Cristo é Deus e morreu por mim, não há sacrifício tão grande que eu possa fazer por ele.”

Você tem que fugir da ira vindoura! E dizer: “Senhor Jesus, eu acredito, eu acredito que você morreu pelos pecadores, eu acredito que você morreu por pecadores como eu, Estou indo para o inferno, sem nenhuma razão para você me levar para o céu, mas eu estou confiando que você morreu e realmente pagou a dívida do pecado.” Esse é o evangelho. A boa notícia… é que, embora eu seja um pecador merecedor do inferno, agora posso me apresentar perfeito e ter graça aos olhos de Deus! Essa é a boa notícia. Por causa do que Jesus fez. Glória a Deus! E Glória ao Cordeiro para sempre! A Ele seja glória, poder, honra e domínio pelos séculos dos séculos, por causa do que Ele fez.

por Bob Jennings

Trazendo o Evangelho para a conversa | Mike Riccardi

Um dos desejos que o Espírito Santo cria no coração do recém convertido é o desejo de compartilhar com os outros as Boas Novas pelas quais nós fomos salvos. Entretanto, como todos nós sabemos muito bem, esse desejo pode ser ofuscado por várias coisas. Talvez temamos ser vistos como estranhos, ingênuos ou tolos. Talvez sintamos que ainda não conseguimos formular a mensagem do Evangelho de uma forma perfeitamente apresentável. Pode até ser que nosso orgulho ou egocentrismo tenham diminuído nossas afeições pela glória de Cristo e nosso amor pelos perdidos.

Às vezes, entretanto, nada disso é problema. A lembrança da glória de Cristo em Sua Palavra reacende em nossos corações a chama da proclamação. Essa visão da glória extingue nosso temor dos homens. Já estudamos e entendemos as bases do Evangelho e até já memorizamos algumas passagens de referência da Escritura. Mesmo quando estamos nesse estado, às vezes é simplesmente difícil introduzir o assunto em uma conversa.

Em alguns casos, a conversa com um colega de trabalho ou vizinho acaba naturalmente envolvendo o Evangelho. Louve a Deus por essas oportunidades.  Ore por mais delas. Na maior parte do tempo, entretanto, uma conversa não se move nessa direção a não ser a direcionemos ativamente. E eu penso que muitos Cristãos acabam desperdiçando oportunidades de levar uma conversa com um amigo em direção a coisas mais profundas porque simplesmente não sabem como fazer isso de uma forma que não seja muito abrupta, rude ou até brega.

Uma forma potencialmente útil de direcionar uma conversa rumo ao Evangelho é prestar estar atento a temas básicos. Alguns já conceituaram a história da redenção baseada nos quatro temas básicos da Criação, Queda, Redenção e Consumação. Já me ocorreu, refletindo nessas categorias, que muitas das experiências da nossa vida também podem ser vistas pelas lentes desses temas. Assim, estar atento a esses temas em uma conversa com um não crente pode prover uma transição natural para uma conversa sobre o Evangelho. Pense nisso comigo.

Criação

Ao criar os céus e a terra, Deus foi muito bom com toda a humanidade – Ele envia a chuva e o sol tanto para o justo como para o ímpio. Notar um ponto da conversa em que um não crente faz qualquer menção de aproveitar alguma parte da criação pode levar a uma transição suave para o Evangelho. Um comentário de um amigo sobre o clima agradável, a apreciação de um belo pôr-do-sol, a dúvida sobre a forma de uma nuvem ou mesmo a admiração perante o intrincado desenho de uma flor – tudo isso provê oportunidades para louvarmos o Criado que ordenou toda essa beleza à existência.

“Poxa, hoje está um clima muito bom, não é mesmo?”

“Com certeza. É muita bondade de Deus nos dar um dia tão bonito para aproveitarmos!”

“É… Acho que sim… Eu não sou muito religioso.”

“Entendo. Você nunca parou pra pensar nas coisas que Jesus disse que era, então?”

Uma outra forma que o tema da criação se conecta com as nossas vidas diárias é a nossa própria criatividade. Toda vez que alguém cria algo, eles imitam o Criado, mesmo que de uma forma pequena e caída. Criar é parte de sermos feitos à imagem de Deus. Isso vai desde o artístico – como pintura, fotografia, poesia, escultura – ao mais “mundano” – projetos arquitetônicos, decoração de interiores, jardinagem ou trabalhos de colagem. Cada uma dessas atividades provê oportunidades de louvar a Deus por Sua graça comum – Sua misericórdia em dar esses bons dons a tanto seus amigos como seus inimigos.

Se um não crente compartilha um interesse em alguma atividade criativa, seria muito bom dizer algo como:

“Você realmente parece gostar de escrever. Você já parou pra pensar no porquê disso?”

“Acho que é só uma coisa que eu comecei quando era mais novo e tenho gostado de fazer, desde então. Para falar a verdade, nunca pensei muito a fundo nisso.”

“Isso pode soar estranho, mas eu acredito que a nossa criatividade reflete a criatividade de Deus, que criou o mundo inteiro. A Bíblia diz que Deus criou a humanidade à Sua imagem, e assim podemos refleti-la de diversas formas. Você se importaria se eu falasse mais sobre isso?”

Queda

Por outro lado, as evidências da queda da humanidade no pecado estão em todo lugar. Circunstâncias injustas, relacionamentos pessoais prejudicados, esperanças e expectativas frustradas e mesmo várias outras tragédias nos dão evidências de que nosso mundo foi quebrado pelo pecado. Esses tópicos provêem oportunidades para falar do Deus que criou esse mundo “muito bom” e da rebelião da humanidade contra Deus que trouxe a maldição.

Oportunidades para conectar o tema da Queda com as nossas vidas são, literalmente, constantes. Uma das atividades preferidas da nossa geração é a reclamação. De fato, Paulo nota que as reclamações e murmurações são tão comuns em nosso mundo que, ao não exercitarmos essas atividades, nós nos destacaríamos como estrelas no universo (Filipenses 2.15). Do carro que quebrou de novo à artrite, das brigas constantes com o cônjuge ao reconhecimento simples de que as coisas não aconteceram de acordo com o planejado, todos nós temos um senso de que as coisas em nosso mundo estão terrivelmente erradas. Se um amigo não crente reclama de algo para você, é possível reconhecer, de forma sensibilizada, que essa experiência confirma o que a Bíblia ensina sobre o mundo ser caído. É um caminho curto daí até a razão pela qual o mundo caiu: o pecado – a rebelião contra Deus na qual todos nós tomamos parte diariamente. E, é claro, é mais uma curta caminhada daí até a solução para o sofrimento: a obra redentora de Jesus Cristo. É o que vem a seguir.

Redenção

Mesmo que nosso mundo seja caído, Deus ainda nos permite graciosamente experimentar a correção de alguns erros, a reconciliação de alguns relacionamentos, a resolução de alguns conflitos. Quando amigos não crentes experimentam essas expressões da graça comum, podemos celebrar com eles. Aqui está uma oportunidade de falar da graça comum de Deus e do tema da redenção que é completa em Cristo, o Redentor.

Se uma amiga que esteve falando para você sobre problemas matrimoniais repentinamente te conta que ela e o marido resolveram algumas questões e se reconciliaram, você tem uma oportunidade de celebrar a “redenção” do relacionamento. Se um amigo estava incapacitado por uma doença ou ferimento, mas agora se recuperou, você pode celebrar a “redenção” da saúde dele. E ao fazê-lo, ao louvar a Deus por ser misericordioso em geral, você também pode apontar para como esses acontecimentos de redenção são imagens, imersas na experiência humana, projetadas para nos levar à história suprema de redenção que Deus realizou em Cristo.

“Jen, estou muito feliz que você e o Ron estão se acertando. Tenho orado por vocês desde que você comentou pela primeira vez que as coisas estavam meio complicadas.”

“Ah, muito obrigada! Eu estou muito feliz, também. É muito ruim se sentir distante de alguém que deveria ser a pessoa mais próxima, seu melhor amigo, sabe?”

“É, entendo. E é interessante você colocar dessa forma, porque foi exatamente assim que eu me senti quando Deus se reconciliou comigo por meio do relacionamento com Jesus Cristo. Eu realmente gostaria de falar disso com você, você se importa?”

Consumação

Finalmente, o tema da consumação passa por qualquer experiência humana de realização, qualquer senso de antecipação que finalmente se completou.

Pense no quão ansiosa uma criança aguarda pela manha de Natal, mal conseguindo dormir na noite anterior, por conta do desejo de ganhar aqueles presentes que ela vem pedindo o ano inteiro. Ou pense na excitação e senso de dever cumprido ao subir naquele palco e finalmente receber aquele diploma que você trabalhou tanto, e por tanto tempo, para obter. Talvez algum amigo que você conheça sabe o que é ter trabalhado por anos em um manuscrito para finalmente receber a primeira cópia do livro publicado em uma manhã e segurá-lo em suas mãos pela primeira vez. E todos nós sabemos do prazer de finalmente reencontrar um velho amigo ou um parente amado após um longo tempo de separação. Os olhos arregalados, o sorriso de orelha a orelha e a recepção de braços abertos são testemunho da consumação da antecipação de se encontrar novamente.

Cada uma dessas experiências são ecos da consumação final de todas as coisas, quando o Senhor Jesus finalmente retornará para destruir Seus inimigos, para redimir Seu povo e recebê-los para Si mesmo e para governar sobre Sua criação em justiça. Como crentes em cristo, nós aguardamos por esse momento como uma criança espera pelo Natal. Quando ouvirmos “servo bom e fiel”, sentiremos como se recebêssemos aquele diploma, mas de uma forma infinitamente mais profunda. E quando finalmente vermos Jesus, bem, palavras não podem capturar adequadamente a alegria e o prazer consumado que sentiremos eternamente.

Conclusão

Sou movido a adorar quando penso no quanto Deus aparentemente imbuiu os grandes temas do Evangelho nas experiências da vida. Eu oro para que o mesmo aconteça com você. Mas essa adoração não deve permanecer no nível da admiração passiva. Ela deve nos levar a tirarmos vantagem dessa realidade como uma estratégia para testemunharmos aos nossos amigos não crentes.

Medite nesses temas e pense em como aplicá-los estrategicamente em suas próprias conversas. Ore pra que Deus graciosamente lhe conceda um cuidado genuíno pelos não crentes que Ele traz até você. Seu amor por eles irá guiá-lo a falar de uma forma que demonstre sua preocupação genuína pelas almas deles.

No contexto de desenvolver esses relacionamentos e cultivar o amor pelos perdidos, se mantivermos os ouvidos abertos para os temas da Criação, Queda, Redenção e Consumação, poderemos encontrar mais oportunidades de levarmos nossas conversas em direção ao Evangelho.

Traduzido por Filipe Schulz | iPródigo.com | Original aqui

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Trindade: Da Teoria à Prática | Leandro Lima [4/5]

Aspectos Teológicos da doutrina da Trindade 

Falar sobre a base teológica da doutrina da Trindade significa estabelecer conceitos que nos ajudem a entender melhor a doutrina. É claro que jamais podemos nos esquecer que estamos lidando com algo que ultrapassa em muito o nosso entendimento. As palavras de Calvino sobre a Trindade são muito instrutivas nesse sentido, e servem de advertência contra especulações:
 
Entendamos que se nos secretos mistérios das Escrituras nos convém ser sóbrios e modestos, certamente este que tratamos no presente não requer menor modéstia e sobriedade; mas é preciso estar de sobreaviso, para que, nem nosso entendimento, nem nossa língua vá além do que a Palavra de Deus nos tem demonstrado. Por que, como poderá o entendimento humano compreender, com sua débil capacidade, a imensa essência de Deus, quando nem se quer consegue determinar com certeza qual é o corpo do sol, mesmo que todos os dias o vê com seus olhos? Assim mesmo, como poderá penetrar por si só a essência de Deus, uma vez que não conhece nem a sua própria? Portanto, deixemos a Deus o poder de conhecer-se.8
 
Definições
 
Podemos definir a doutrina da Trindade dizendo que há somente um Deus em essência, mas que este Deus subsiste em três pessoas distintas. Não há analogia ou ilustração que possa nos ajudar a entender como isso é possível. No passado, os Pais da igreja acostumaram-se a usar analogias para ajudar a entender a unidade dentro da Trindade. Falava-se, por exemplo, da união da luz, calor e esplendor em uma só substância do sol; da raiz, tronco e folhas de uma planta, ou mesmo do intelecto, vontade e sentimentos na alma humana. O fato é que todas as ilustrações conseguem acrescentar muito pouco, e às vezes, só mesmo distorcer a doutrina da Trindade.
 
Essência é a tradução da palavra grega “ousia” que também pode significar substância9, e refere-se à natureza divina. Essa natureza essencial é compartilhada pelas três pessoas da Trindade. Quando pensamos na raça humana, sabemos que todos compartilham a mesma natureza, a humana, mas, cada um é um indivíduo autônomo. Compartilhamos a mesma natureza, mas somos seres diferentes. Na Trindade há apenas uma natureza, pois há apenas um ser. Há três pessoas, mas apenas um ser. Cada uma das três pessoas da Trindade compartilha da mesma natureza divina, a qual é numericamente uma. São três pessoas distintas, mas não separadas. Há apenas uma vontade, um poder, uma mente, uma determinação, um sentimento, um ser. A essência de Deus não é dividida entre as três pessoas da Trindade, ela é absoluta, completa e perfeita em cada uma delas. Não são três partes de um só Deus, nem três deuses, é um Deus, uma substância e três pessoas.
 
Pessoa é tradução dos termos gregos “prosopon” e “hypostasis” ou o latino “persona” que foram usados pelos escritores antigos para indicar as distinções da Divindade. Modernamente tem se falado em subsistência como um termo mais adequado e livre de ambigüidades. Na verdade, muito tempo foi gasto na tentativa de encontrar uma palavra que melhor definisse o sentido da distinção, e isso por si só, já mostra o quanto todas são na verdade inadequadas. O importante é que o termo essência nos fala da unidade de Deus, enquanto que o termo pessoa ou subsistência nos fala das distinções que existem no ser divino. Pessoa é o elemento diferenciador na Trindade. Essência é uma, pessoas são três. Não são três modos de manifestações, mas três existências, ou subsistências reais dentro de um único ser. No Ser de Deus unidade e diversidade não são antônimas. Deus, em seu ser, pode ser tripessoal, sem deixar de ser um.
 
A Trindade em essência (ontológica)
 
Dentro da Trindade existe absoluta igualdade de essência, logo, não existe qualquer grau de subordinação, nem mesmo de honra. O Pai não é maior em essência do que o Filho e nem o Filho maior do que o Espírito Santo. O Pai não deve ser mais adorado do que o Espírito, ou o Espírito mais do que o Filho. Entretanto, há características próprias em cada uma das pessoas da Trindade, as quais não encontramos nas demais. Estamos falando da Paternidade, da Filiação e da Processão.
 
A paternidade é uma característica exclusiva do Pai. Nesse sentido não podemos chamar o Logos de Pai e nem o Espírito de Pai. A paternidade do Pai é diferente da que os homens concebem por ser eterna. Não houve um tempo em que Deus não fosse Pai. Desde toda a eternidade ele é o Pai do Filho. O Pai se difere do Filho e do Espírito Santo por não ser gerado e nem proceder de ninguém, e por ser o único que gera.
 
O Filho possui a característica exclusiva de ser gerado. Somente o Filho é filho do Pai. Não houve um tempo em que o Filho não existia (Mq 5.2), ele é eternamente gerado da essência do Pai. A igreja tem historicamente afirmado que a geração do Filho é desde toda a eternidade como um ato atemporal. Se o Pai gerou o Filho em algum momento da história, então, isso significa que ele mudou de essência e que o Filho não é eterno em essência. A geração do Filho não cria uma nova essência na Trindade, pois é a mesma essência que é compartilhada tanto pelo Pai quanto pelo Filho. A Geração é uma comunicação da essência do Pai ao Filho, num ato atemporal, que faz com que tanto o Pai, quanto o Filho tenham vida em si mesmos (Jo 5.26).
 
Berkhof dá a seguinte definição da geração do Filho:
“É ato eterno e necessário da primeira pessoa da Trindade, pelo qual ele, dentro do Ser Divino, é a base de uma segunda subsistência pessoal, semelhante à Sua própria, e dá a esta segunda pessoa posse da essência divina completa, sem nenhuma divisão, alienação ou mudança”10.
 
Em geral os argumentos mais usados para dizer que Cristo não é eterno são os textos de Colossenses 1.15 e Apocalipse 3.14 que falam respectivamente de Jesus como o “primogênito” e o “princípio” da criação de Deus. Dizem os unitários, especialmente as Testemunhas de Jeová, que esses termos colocam Cristo como a primeira criatura de Deus, não sendo, portanto eterna. Em Colossenses 1.15 “primogênito” da criação não pode se referir ao primeiro ser criado, pois subentenderia que Cristo é o primeiro filho da própria Criação, e isso não faz sentido. A interpretação mais provável é que Cristo é o herdeiro de toda a Criação de Deus. Do mesmo modo em Apocalipse 3.14 falar de Cristo como o primeiro por causa da palavra “princípio” não faz justiça ao uso dessa palavra no próprio livro do Apocalipse, pois o próprio Deus é chamado de princípio (Ap 1.8; 21.6; 22.13). Faz muito mais sentido pensar que o texto está falando de Cristo como o mais proeminente de toda a criação, o principal, o mais importante, o chefe (Ver Cl 1.18).
“Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia,”
O Pai gera o Filho, o Filho é eternamente “gerado” do Pai, e o Espírito Santo “procede” eternamente do Pai e do Filho. Nas línguas grega e hebraica as palavras “pneuma” e “ruach”, que são traduzidas como “espírito”, derivam de raízes que significam “soprar, respirar, vento”. Daí a idéia do Espírito ser soprado por Deus (Jo 20.22). A doutrina de que o Espírito “procede” do Pai e do Filho levou algum tempo para ser formulada pela igreja, sendo que somente em 589 no Sínodo de Toledo foi formulada a seguinte declaração de fé: “Cremos no Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho”11.
 
A base bíblica de que o Espírito procede do Pai e do Filho é João 15.26, e os textos onde o Espírito é chamado de Espírito de Cristo ou de Espírito do Filho (Rm 8.9; Gl 4.6; Fp 1.19; 1Pe 1.11).
Berkhof define a “espiração” do Espírito como sendo:
“O eterno e necessário ato da primeira e da segunda pessoas da Trindade pelo qual elas, dentro do Ser Divino, vêm a ser a base da subsistência pessoal do Espírito Santo, e propiciam à terceira pessoa a posse da substância total da essência divina, sem nenhuma divisão, alienação ou mudança”12.
 
A Trindade no trabalho (econômica)
 
Uma maneira interessante de ver a Trindade é entender a forma como a Trindade age, não em relação a si mesma, mas em relação à criação. Quando falamos em essência, vimos que embora haja características próprias em cada pessoa da Trindade, não existe qualquer grau de subordinação entre elas. Porém, quando falamos em trabalho (economia) da Trindade, percebemos que há uma ordem como Deus trabalha. Isso nos revela bastante do caráter Trinitário.
 
Jesus fez algumas declarações que certamente poderiam nos deixar confusos se não entendêssemos a diferença de Trindade em essência (ontológica) e Trindade econômica. Já vimos que ele disse ser um com seu Pai, porém, em outros textos ele afirmou ser submisso ao Pai, como por exemplo, João 6.38:  
“Porque desci do céu não para fazer a minha própria vontade; e, sim, a vontade daquele que me enviou”. E também noutra ocasião ele disse: “O Pai é maior do que eu” (Jo 14.28).
 
Já dissemos que de acordo com a Bíblia há igualdade absoluta entre as pessoas da Trindade, mas então, por que Jesus disse que o Pai era maior do que ele?


Certamente porque se referia a sua encarnação e a obra que precisava fazer. Ele foi submisso ao Pai nesse sentido, e portanto, inferior em função, mas não em essência. Estamos agora falando das obras que se realizam, não dentro do ser divino, mas em relação à criação, providência e redenção. Vemos nas Escrituras algumas obras sendo mais atribuídas a uma das pessoas da Trindade do que a outra. Entretanto, devemos tomar o cuidado para não exagerarmos nas distinções, pois de certa forma, a Trindade participa conjuntamente de todas as obras externas.
 
Não precisamos temer falar de uma subordinação econômica do Filho ao Pai, desde que entendamos que não há qualquer subordinação de essência. É por isso que Paulo diz: “Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo” (1Co 11.3). No contexto ele está tratando da diferença que existe entre o homem e a mulher, e da subordinação que a mulher deve ao homem. Ele não está dizendo que a mulher é inferior ao homem, mas que deve ser submissa e guardar as diferenças proporcionais13

Da mesma forma o Pai é o cabeça de Cristo, mas isso não quer dizer que ele é superior, pois a essência é a mesma. A questão está nas funções que são diferentes.
 
Devemos evitar a formulação simplista de que o Pai é o responsável pela Criação, o Filho pela Redenção, e o Espírito pela santificação, pois a Trindade participa conjuntamente de tudo isso. A distinção que podemos fazer é a seguinte: Ao Pai pertence mais o ato de planejar, ao Filho o de mediar, e ao Espírito o de agir. Isso pode ser visto no relato da criação.
 
No texto de Gênesis 1.1-3 as três pessoas da Trindade estão agindo. O texto diz: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Note que a criação é atribuída a Deus. Entretanto, em seguida veja algumas manifestações diferentes desse Deus: “A terra, porém, era sem forma e vazia, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1.2). Aí está a Terceira Pessoa, o “Espírito de Deus”. A maioria dos comentaristas concorda que o Espírito Santo está numa função de “energizar” a matéria, sendo, portanto, o ponto de contato entre Deus e a matéria. Mas, e onde está o Filho? O Filho é a “palavra” de Deus. Foi João quem chamou Jesus de o “verbo” de Deus (Jo 1.1). Ele é a Palavra proferida, o “haja luz”, é o instrumento através do qual todas as coisas foram criadas. A Bíblia afirma isso categoricamente:
“Pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.16).
 
Portanto, podemos dizer que na obra da criação, o Pai fala, o Filho é a Palavra falada – Mediador, e o Espírito Santo é o agente direto sobre a matéria. Em termos semelhantes, a Trindade trabalha na Redenção, cada pessoa executando uma tarefa particular. O Texto de 1Pedro 1.2 é claro nesse sentido, pois diz que os crentes são: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo”. Aqui também o Pai é o idealizador da salvação, pois a ele pertence o ato de escolher os que devem ser salvos. Nesse sentido, o Pai é o autor da eleição. O Filho está novamente na função de Mediador, ele possibilita a obediência a Deus através da aspersão de seu sangue. Já ao Espírito Santo é indicada a tarefa de santificar, ou seja, separar para si os eleitos. Então, o Pai elegeu, o filho salvou e o Espírito aplicou a salvação.
 
Na verdade essa ordem de funções pode ser vista por toda a Escritura: 
  • O Pai planejando a salvação (Jo 6.37-38) e escolhendo os eleitos (Ef 1.3-4), 
  • o Filho executando o plano de Deus (Jo 17.4; Ef 1.7), 
  • e o Espírito Santo confirmando essa obra sobre os crentes (Ef 1.13-14).
De fato, como declara Lloyd-Jones, 

“essa é uma ideia atordoante, ou seja, que estas três bem-aventuradas Pessoas, na bem-aventurada santíssima Trindade, para minha salvação, quiseram dividir assim o trabalho”.14

Referências: 
8 João Calvino. Institutas, I, 13, 21.
9 Berkhof fala da diferença entre “essência” e “substância” e da tendência moderna de não usar os dois termos como sinônimo pelo fato de que na igreja Oriental “substância” traduzia tanto “ousia” como “hipostasis”, sendo, portanto, um termo ambíguo (Ver L. Berkhof. Teologia Sistemática, p. 88-89).
10 Louis Berkhof. Teologia Sistemática, p. 95.
11 A igreja Oriental (Católica Ortodoxa) nunca aceitou essa formulação.
12 Louis Berkhof. Teologia Sistemática, p. 98.
13 Ver Augustus N. Lopes. O Culto Espiritual, p. 64-65.
14 D. M. Lhoyd-Jones. Deus o Pai, Deus o Filho, p. 122-123.

Série Completa:

1º Parte - A Trindade: Da Teoria à Prática
2º Parte - Aspectos históricos da doutrina da Trindade
3º Parte - Aspectos Bíblicos da doutrina da Trindade
4º Parte - Aspectos Teológicos da doutrina da Trindade
5º Parte - Aspectos práticos da doutrina da Trindade

Autor: Rev. Leandro Lima