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segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Cristo Diante de Pilatos; Herodes e Pilatos se Reconciliam | J. C. Ryle

Leia Lucas 23.1-12

Primeiramente, vemos nestes versículos as falsas acusações que foram lançadas contra nosso Senhor. Os judeus O acusaram de perverter a “nação, vedando pagar tributo a César”. Sabemos que não havia nelas qualquer verdade. Eram apenas uma ingênua tentativa de tornar os sentimentos do governador contrários a nosso Senhor.

Falso testemunho e difamação são as duas armas favoritas do diabo. Ele é mentiroso desde o princípio e continua sendo o “pai da mentira” (Jo 8.44). Quando percebe que não pode obstruir a obra de Deus, seu próximo artifício é manchar o caráter dos servos de Deus e destruir o valor de seu testemunho. Com esta arma, ele investiu contra Davi, que disse: “Levantam-se iníquas testemunhas e me argúem de coisas que eu não sei” (Sl 35.11). Foi com esta mesma arma que ele agiu contra os profetas.

Elias foi chamado de “perturbador de Israel” (1Rs 18.17). Jeremias foi acusado de ser um homem que não procurava “o bem-estar para o povo, e sim o mal” (Jr 38.4). Satanás atacou os apóstolos utilizando a mesma arma. Eles eram “uma peste” e haviam “transtornado o mundo” (Atos 24.5; 17.6. Com essa arma, ele assediou nosso Senhor durante todo o seu mi­nistério. Ele despertou seus agentes para chamarem-No de “glutão e bebedor de vinho”, de “samaritano” e “demônio” (Lc 7.34; Jo 8.48 (refs2)). E nesta passagem nós o encontramos sacando a sua velha arma. Jesus foi levado a julgamento diante de Pilatos sob acusações que eram com­pletamente mentirosas.

O servo de Cristo não deve ficar surpreso se tiver de beber do mesmo cálice. Se Aquele que é santo, puro, inculpável foi perfidamente difamado, como podemos esperar que seremos isentos de tal coisa? “Se chamaram Belzebu ao dono da casa, quanto mais aos seus domésticos?” (Mt 10.25.) Contra os santos as pessoas afirmam muitas coisas más. Inocência perfeita não constitui uma proteção contra mentiras, calúnias e mal-entendidos. Um caráter irrepreensível não nos protegerá contra a língua mentirosa. Temos de suportar a provação com paciência. Faz parte da cruz de Cristo. Precisamos ficar quietos, descansar nas promessas de Deus e crer que a verdade prevalecerá. Davi afirmou: “Descansa no Senhor e espera nele. Fará sobressair a tua justiça como a luz e o teu direito, como o sol ao meio-dia” (Sl 37.6,7 (refs2)).

Em segundo, vemos nestes versículos os motivos estranhos e variados que influenciam os corações dos não-convertidos que ocupam posições importantes. Quando Pilatos enviou nosso Senhor a Herodes, rei da Galiléia, este, “vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou, pois havia muito queria vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; esperava também vê-lo fazer algum sinal”.

São palavras notáveis. Herodes era um homem mundano, lascivo; assassinara João Batista e vivia em pleno adultério com a esposa de seu ir­mão. Era o tipo de homem, poderíamos imaginar, que não manifestaria qualquer desejo de ver Cristo. Mas Herodes tinha uma consciência intranquila. Sem dúvida, o sangue do assassinato dos santos de Deus com frequência surgia em seus pensamentos, roubando-lhe a paz. A fama dos milagres e da pregação de nosso Senhor alcançara a corte de Herodes. Ali foi noticiado que outra testemunha contra o pecado havia surgido, uma testemunha ainda mais ousada e fiel do que João Batista, uma testemunha que confirmava seus ensinos por meio de obras que nem mesmo o poder dos reis era capaz de realizar. Os rumores deixaram Herodes perturbado, sem tranqüilidade. Não admiramos que sua curiosidade tenha sido aguçada e que ele tenha desejado ver Cristo.

Infelizmente, na História da Igreja existem muitos homens importantes e ricos, semelhantes a Herodes, homens sem Deus e sem fé, homens que vivem para si mesmos. Geralmente tais homens vivem em seu próprio ambiente, sendo bajulados e cortejados, mas nunca conhecendo a verdade sobre sua alma; homens tiranos e orgulhosos, que não conhecem qualquer outra vontade, exceto a deles mesmos. No entanto, esses homens às vezes possuem consciências atormentadas e sentem medo. Deus levanta algumas testemunhas ousadas contra os pecados deles, testemunhas cuja mensagem alcança-lhes os ouvidos. Imediatamente a curiosidade de tais homens é despertada. Sentem-se descobertos e embaraçados. Sentem-se atraídos ao ministério dessas testemunhas, assim como a mariposa voando ao redor de uma vela, e parecem incapazes de evitá-las, mesmo que não as obedeçam. Elogiam o talento das testemunhas e abertamente admiram o poder delas. No entanto, ficam somente nisso. Assim como Herodes, suas consciências produzem em seu íntimo uma mórbida curiosidade para ver e ouvir as testemunhas de Deus; porém, seus corações, tal como o daquele rei, estão acorrentados ao pecado com algemas de aço. Arremes­sados de um lado para o outro por tempestades de concupiscências e paixões descontroladas, tais pessoas nunca estão em paz, enquanto vivem, e, após toda a sua intermitente luta de consciência, finalmente morrem em seus pecados. Essa é uma história triste, mas é a história da alma de muitos homens ricos e de posição.

Aprendamos do ocorrido com Herodes a ter compaixão dos homens de posição. Com toda a sua importância e esplendor aparentes, são completamente infelizes em seu íntimo. Roupas finíssimas e mantos oficiais frequentemente encobrem corações que desconhecem a paz. O homem que deseja tornar-se rico não sabe o que está desejando. Oremos pelos ricos e deles tenhamos compaixão. Estão carregando um peso imenso que os impede na carreira para a vida eterna. Se forem salvos, será exclu­sivamente por intermédio de um grande milagre da graça divina. As palavras de nosso Senhor são bastante solenes: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus” (Mt 19.24).

Por último, vemos nestes versículos com que facilidade e disposição os incrédulos podem concordar em não apreciar nosso Senhor. Quando Pilatos O enviou como prisioneiro a Herodes: “Naquele mesmo dia, Herodes e Pilatos se reconciliaram, pois, antes, viviam inimizados um com o outro”. Não sabemos qual era a causa dessa inimizade. Talvez fosse alguma contenda insignificante, que às vezes surge entre os grandes e os pequenos. Qualquer que tenha sido a causa dessa inimizade, foi abandonada quando diante deles se colocou um objeto comum de desprezo, temor e ódio. Não importa sobre o que eles discordavam, mas Herodes e Pilatos concordaram em desprezar e perseguir a Cristo.

Este incidente é uma figura notável de um estado de coisas que sempre veremos no mundo. Homens de opiniões muito divergentes podem unir-se em oporem-se à verdade. Os ensinadores das mais contrárias doutrinas podem ter como objetivo comum o lutar contra o evangelho. Nos dias de nosso Senhor, os fariseus e saduceus juntaram suas forças para armar ciladas contra Jesus de Nazaré e assassiná-Lo. Em nossos dias, vemos os católicos romanos, os socinianos, os ímpios, os idólatras, os amantes dos prazeres, os ascetas, os que sustentam pontos de vista liberais e os mais determinados oponentes — todos eles — juntos contra o cristianismo evangélico. Um motivo comum de ódio está unindo-os. Odeiam a cruz de Cristo. Nas palavras do apóstolo: “Verdadeiramente se ajuntaram... contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel” (At 4.27). Todos estes odeiam-se mutuamente; todavia, odeiam muito mais ao Senhor Jesus.

O verdadeiro crente não deve considerar como algo estranho a inimizade do mundo. Não deve ficar admirado se, assim como ocorreu ao apóstolo Paulo em Roma, perceber que o caminho da vida “por toda parte” é impugnado (At 28.22). Se ele espera que, por meio de qualquer concessão, conquistará o favor dos homens, será grandemente desapontado. Seu coração não deve se perturbar. Seu dever é esperar o louvor da parte de Deus. Precisa ter sempre em seus pensamentos as palavras de nosso Senhor: “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia” (Jo 15.19).

J. C. Ryle

In: Meditações no Evangelho de Lucas 

Ed. Fiel

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

A Entrada Triunfal em Jerusalém | J. C. Ryle

Leia Lucas 19.28-40

Primeiramente, observemos nestes versículos o perfeito conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Nós O vemos enviando dois de seus dis­cípulos a uma aldeia e contando-lhes que, na entrada, encontrariam “preso um jumentinho que jamais homem algum montou”. Vemos o Senhor Jesus descrevendo o que os discípulos veriam e deveriam dizer; e Ele o fez com muita segurança, como se toda a transação tivesse sido previamente disposta. Em resumo, Jesus falou como alguém que via todas as coisas abertamente, alguém cujos olhos se encontravam em todo lugar, alguém que conhecia as coisas visíveis e as invisíveis.

Um leitor atento observará a mesma coisa em outras partes dos evan­gelhos. Certa passagem nos revela que Jesus conhecia “os pensamentos” de seus inimigos (Mt 12.25). Outra nos conta que Ele “mesmo sabia o que era a natureza humana” (Jo 2.25). E ainda outra passagem nos diz que Jesus “sabia, desde o princípio, quais eram os que não criam e quem o havia de trair” (Jo 6.64). Esse conhecimento é um atributo peculiar de Deus. Passagens bíblicas como essas têm o propósito de nos recordar que Jesus Cristo não foi apenas homem, mas, também, “Deus bendito para todo o sempre” (Rm 9.5).

O pensamento sobre o perfeito conhecimento de Cristo deveria alarmar os pecadores e despertá-los ao arrependimento. O grande Cabeça da Igreja conhece todos eles e o que estão fazendo. O Juiz de todos os vê constantemente e registra todo os seus atos. “Não há trevas nem sombra assaz profunda, onde se escondam os que obram a iniquidade” (Jó 34.22). Se escondem-se em lugares secretos, os olhos de Cristo ali os contempla. Se, em particular, tramam perversidade e planejam impiedade, o Senhor Jesus sabe e os observa. Se eles falam em segredo contra o justo, Cristo os escuta. Durante toda a sua existência, podem enganar os homens, mas não podem enganar a Jesus. Virá o dia em que Deus julgará, “por meio de Cristo Jesus... os segredos dos homens, de conformidade com o evangelho” (Rm 2.16).

O pensamento sobre o perfeito conhecimento de Cristo deveria confortar todos os verdadeiros crentes e incentivá-los a crescerem diligentemente em boas obras. Sobre eles estão sempre os olhos do Senhor. Ele sabe quais as circunstâncias que envolvem os crentes, suas provações diárias e conhece as pessoas com quem eles andam. Não há uma palavra em seus lábios, ou um pensamento em seus corações, que Jesus não saiba completamente. Eles devem sentir-se encorajados, quando forem caluniados, mal entendidos e deturpados pelo mundo. Não importa o que as pessoas incrédulas são capazes de dizer, o Senhor sabe “todas as coisas” (Jo 21.17). O verdadeiro crente precisa andar resolutamente no caminho estreito, não se desviando para a direita ou para a esquerda. Quando os pecadores tentam induzi-lo e crentes fracos dizem: “Poupe a si mesmo”, o verdadeiro crente deve responder: “Meu Senhor está olhando para mim. Desejo viver e comportar-me como alguém que está sob o olhar de Cristo”.

Observemos também nestes versículos a publicidade da última entrada de nosso Senhor em Jerusalém. O evangelho nos conta que o Senhor Jesus montou sobre um jumentinho e entrou em Jerusalém, como se um rei estivesse visitando sua capital ou um conquistador retornasse em triunfo à sua terra natal. E, uma grande “multidão” o acompanhava, quando Ele entrou na cidade, e passou, “jubilosa, a louvar a Deus em alta voz”. É uma história diferente do teor geral da vida de nosso Senhor. Em outras ocasiões, nós O vemos evitando a observação pública, retirando-se para o deserto e ordenando aos que haviam sido curados por Ele que não o contassem a ninguém. Nesta ocasião, tudo aconteceu de maneira diferente. Ele abandonou por completo a privacidade e pareceu cortejar a observação do público. Parecia desejoso de que O vissem e observassem o que Ele estava fazendo.

Os motivos que justificam a conduta de nosso Senhor no clímax de seu ministério, à primeira vista, parecem difíceis de ser descobertos. Através de paciente meditação, eles se tornam claros e óbvios. Ele sabia que chegara o tempo em que deveria morrer pelos pecadores, na cruz. No que se refere ao seu ministério terreno, sua obra como grande Profeta estava quase terminada e completa. Sua obra como o sacrifício pelo pecado e como Substituto dos pecadores ainda estava por ser realizada. Antes de entregar-se como sacrifício, Ele desejava atrair para Si mesmo a atenção de toda a nação dos judeus. O Cordeiro de Deus estava para ser morto. A grande oferta pelo pecado estava para ser imolada. Era conveniente que os olhos de todos os judeus estivessem fixos nEle. A grandiosa obra não se realizaria sem notoriedade.

Devemos sempre bendizer a Deus porque a morte de nosso Senhor Jesus Cristo foi um acontecimento tão público e tão amplamente conhecido. Se Ele tivesse sido apedrejado em algum tumulto popular, ou decapitado na prisão, assim como João Batista, nunca faltariam judeus e gentios incrédulos negando que o Filho de Deus havia morrido. A sabedoria divina dispôs as coisas de tal modo que a negação do fato se tornou impossível. Não importa o que os homens pensem sobre a doutrina da morte expiatória de Cristo, eles jamais poderão negar o fato de que Cristo morreu. Publicamente, Ele se dirigiu a Jerusalém alguns dias antes de sua morte e, por um grande público, foi visto e ouvido na cidade até ao dia em que foi traído. Aos olhos de muitas pessoas, Ele foi trazido diante dos principais sacerdotes e de Pilatos; foi condenado, levado ao Calvário e crucificado. A pedra angular e o clímax do ministério de nosso Senhor foram sua morte pelos pecadores. De todos os eventos de seu ministério, a morte foi a mais pública e testemunhada por grande número de judeus. E aquela morte era a “vida do mundo” (Jo 6.51).

Esta passagem deve produzir em nós o estimulante pensamento de que a alegria dos discípulos de Cristo, por ocasião de sua entrada em Jerusalém, ao vir para ser crucificado, não é nada se comparado à alegria que seu povo desfrutará, quando Ele vier para reinar. Aquela primeira alegria logo se desfez, transformando-se em tristeza e amargas lágrimas. A segunda alegria não estará sujeita a qualquer interrupção. A segunda alegria será regozijo para todo o sempre. A primeira alegria frequentemente foi interrompida pela severa zombaria dos inimigos de Cristo, que planejavam perversidade. A segunda alegria não estará sujeita a qualquer interrupção. Nenhuma palavra será proferida contra o Rei, quando pela segunda vez Ele vier a Jerusalém — “Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho... e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor” (Fp 2.10­-11).

Por: J. C. Ryle 

Meditações no Evangelho de Lucas 

Editora Fiel 


segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Para a glória de Deus | J. C. RYLE

A glória de Deus é a primeira coisa que os filhos de Deus deveriam desejar. É o objeto de uma das orações de nosso próprio Senhor: “Pai, glorifica o teu nome” (Jo 12.28). É o propósito pelo qual o mundo foi criado. É o fim pelo qual os santos são chamados e convertidos. É o principal alvo que devemos buscar, “para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo” (1Pe 4.11)… Tudo pelo qual possamos glorificar a Deus, um talento, nossos dons, nossa influência, dinheiro, conhecimento, saúde, força, tempo, sentidos, razão, intelecto, memória, afetos, privilégios como membros da Igreja de Cristo, nossas vantagens como possuidores da Bíblia — tudo, tudo isso é talento. De onde vieram tais coisas? Qual mão as concedeu? Por que somos o que somos? Por que não somos os vermes que rastejam pela terra? Só existe uma resposta a essas questões. Tudo que temos nos foi emprestado por Deus. Somos guardiões de Deus. Somos devedores a Deus. Que esse pensamento penetre profundamente em nossos corações!

J. C. RYLE
Fonte: Tiago J. Santos Filho, 
Devocional do Catecismo Nova Cidade: A Verdade de Deus para Nossos Corações e Mentes, Primeira Edição. (São José dos Campos, SP: Editora FIEL, 2017), 29–30.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

O Perigo da falta de posicionamento no Cristianismo | J.C.Ryle

Os tempos exigem visões precisas e claras da doutrina cristã. Não posso negar a minha convicção de que a igreja nominal é tão prejudicada pela frouxidão e falta de clareza internamente, como pelos céticos e incrédulos externamente. Milhares de cristãos hoje parecem totalmente incapazes de distinguir coisas diferentes. Assim como os daltônicos com relação às cores, eles não conseguem diferençar o que é verdadeiro ou falso, o que convém ou não. Se o pregador for esperto, eloqüente e fervoroso, acham-no perfeito, por mais estranhos e heterodoxos que sejam os seus sermões. São aparentemente desprovidos de bom-senso espiritual e não conseguem identificar o erro. A única coisa categórica sobre eles é que desprezam a precisão [doutrinária] e acham que todas as visões extremas, radicais e taxativas são grandemente censuráveis e muito erradas!

Essas pessoas vivem no meio de uma neblina ou nevoeiro. Não veem as coisas com clareza nem sabem no que creem. Não têm nenhuma convicção sobre as grandes questões do evangelho e parecem estar satisfeitas com serem membros honorários de toda e qualquer linha de pensamento. Ainda que a vida delas estivesse em jogo, não poderiam lhe dizer o que consideram como verdade sobre justificação, regeneração, santificação, Ceia do Senhor, batismo, fé ou conversão, inspiração, ou o estado futuro. São consumidas pelo medo doentio da controvérsia e pelo desprezo ignorante ao espírito partidário; nada obstante não conseguem definir de fato o que querem dizer com tais expressões. E assim, vivendo sem clareza e por demais obscurecidos, deixam-se descer à sepultura sem consolo na própria fé e, temo eu, muitas vezes sem esperança.
Não é difícil achar a explicação para essa condição espiritual que não tem ossos, nervos, conteúdo. Para começar, com relação à fé, o coração do homem está naturalmente nas trevas — sem o mínimo senso intuitivo da verdade — e carece verdadeiramente de instrução e iluminação. Além disso, o coração natural da maioria dos homens odeia a diligência religiosa e despreza sinceramente a inquirição paciente e esforçada. Acima de tudo, o coração natural gosta geralmente de ser louvado pelos outros, esquiva-se da controvérsia e adora ser considerado caridoso e liberal. O resultado geral é que uma espécie de amplo “agnosticismo” religioso se ajusta a grande número de pessoas, especialmente às mais jovens. Elas contentam-se em descartar como lixo toda questão controversa e quando acusadas de indecisão, respondem: “Não tenho a pretensão de entender de controvérsias. Recuso-me a examinar questões polêmicas. Acho que, no fim das contas, é tudo a mesma coisa”. Quem não sabe que pessoas assim infestam e enxameiam todos os lugares?
Assim, rogo a todos que se protejam desse estado mental indeciso relativo à fé. Ele é a peste que se propaga nas trevas e a destruição que assola ao meio-dia; é uma disposição espiritual preguiçosa e indolente que, obviamente, livra o homem do trabalho de pensar e de investigar, para o qual, entretanto, não há fundamento na Bíblia. Por amor à sua alma, ouse decidir-se sobre o que crê e atreva-se a tomar posições bem-definidas e claras sobre a verdade e o erro. Nunca, nunca mesmo, tenha medo de defender opiniões doutrinárias nítidas nem deixe que o medo a homens ou o terror mórbido de ser considerado um espírito partidário, bitolado ou afeito à controvérsia lhe torne acomodado e satisfeito com um cristianismo desprovido de sangue, de ossos, de cor, de calor, não dogmático.
Tome nota do que eu digo. Se quiser fazer o bem nos dias de hoje, ponha realmente a indecisão de lado e assuma uma fé doutrinariamente clara e incisiva. Se você acreditar pouco, aqueles a quem você procura fazer o bem não acreditarão nada. As vitórias do cristianismo foram sempre alcançadas pela teologia doutrinariamente clara; por se falar abertamente aos homens da morte vicária e do sacrifício de Cristo, constrangendo-os a crerem no Salvador crucificado; por se pregar a ruída do pecado, a redenção por Cristo, a regeneração pelo Espírito; por se levantar a serpente de bronze; por se advertir para que olhem e vivam — para que creiam, se arrependam e sejam convertidos. Esse, exatamente esse, é o único ensinamento que Deus tem honrado com o sucesso ao longo dos séculos e ainda hoje está honrando, tanto em casa como no estrangeiro.
É a doutrina — a doutrina, a doutrina clara e vibrante que, semelhante às trombetas em Jericó, derruba a oposição do diabo e do pecado. Não importa o que alguns gostem de dizer nestes dias, apeguemo-nos a visões doutrinais claras e faremos bem a nós mesmos, aos outros e à causa de Cristo no mundo.

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FONTE: Monergismo
Tradução: Marcos Vasconcelos
titulo original: O Perigo da Complacência Cristã

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

A Incumbência Final Dada aos Discípulos | J.C. Ryle

Leia Mateus 28.11-20

Estes versículos formam a conclusão do evangelho de Mateus. Começam nos mostrando o quanto o preconceito cego prejudica o crente, antes que ele creia na verdade pura. Também nos mostram as fraquezas que havia nos corações de alguns discípulos, e como eles custaram a crer. A passagem se encerra contando-nos algumas das últimas pala­vras de nosso Senhor sobre a terra, palavras tão importantes que exigem e merecem toda nossa atenção.

Em primeiro lugar, devemos observar a honra conferida por Deus a nosso Senhor Jesus Cristo. Nosso Senhor diz: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra”. Essa também é uma verdade declarada por Paulo aos Filipenses: “Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome” (Fp 2.9). 

Essa é uma verdade que, sob hipótese alguma, contradiz a verdadeira noção da divindade de Cristo, conforme alguns, por ignorância, têm imaginado. Ela é simplesmente uma declaração de que, nos conselhos da Trindade eterna, Jesus, o Fi­lho do homem, é designado herdeiro de todas as coisas e Mediador entre Deus e os homens e de que a Ele cabe a salvação de todos os que são salvos; é uma declaração de que Ele é a grande fonte de misericórdia, graça, vida e paz. Foi por causa dessa “alegria que lhe estava proposta” que Ele “suportou a cruz” (Hb 12.2).

Com toda a reverência, apeguemo-nos decididamente a essa ver­dade. Cristo é aquele que tem as chaves da morte e do inferno. Cristo é o Sacerdote ungido, o único que pode absolver pecadores. Cristo é a fonte das águas vivas, o único que pode nos purificar. Cristo é o Prín­cipe e Salvador, o único que pode outorgar arrependimento e remissão de pecados. Nele habita toda a plenitude. Ele é o caminho, a porta, a luz, a vida, o Pastor, o altar de refúgio. Aquele que tem o Filho tem a vida, e quem não tem o Filho não tem a vida eterna. Que todos nós nos esforcemos para entender isto. É certo que os homens podem fa­cilmente pensar em termos pequenos demais acerca de Deus Pai e de Deus Espírito Santo, mas ninguém jamais pensou em termos demasia­damente grandes a respeito de Cristo.

Observemos, em segundo lugar, o dever de que Jesus incumbiu os seus discípulos. Jesus lhes disse: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações’’. Eles não deveriam reter para si mesmos o seu conhecimento de Jesus Cristo, e, sim, deveriam comunicá-lo a outras pessoas. Não deveriam supor que a salvação fora revelada exclusiva­mente para os judeus, e deviam fazê-la conhecida do mundo inteiro. Deveriam esforçar-se para fazer discípulos de todas as nações, e anun­ciar a todos os povos que Cristo havia morrido pelos pecadores.

Nunca nos esqueçamos de que essa solene determinação conti­nua ainda em pleno vigor. Continua sendo dever obrigatório de todo discípulo de Cristo fazer tudo quanto seja possível, pessoalmente, ou pela oração, para que outras pessoas venham a conhecer a Cristo. Se negligenciamos este dever, onde está a nossa fé? Onde está o nosso amor cristão? Se uma pessoa não tem o desejo de fazer o evangelho conhecido no mundo inteiro, bem se pode questionar se essa pessoa conhece mesmo o valor do evangelho.

Notemos, em terceiro lugar, a confissão pública que Jesus re­quer daqueles que creem em seu evangelho. Ele disse aos apóstolos para batizarem todos quantos recebessem como discípulos. Quando le­mos esse mandamento final de nosso Senhor, é muito difícil entender como os homens podem evitar a conclusão de que o batismo é necessário quando pode ser administrado. Parece impossível explicar o significado desta passagem como sendo outra coisa que não uma ordenança externa, a ser administrada a todos quantos se unem à igreja. 

Que o batismo externo não é algo absolutamente necessário para a salvação, fica cla­ramente demonstrado pelo caso do ladrão penitente que morreu ao lado de Jesus. Ele foi para o paraíso sem ter sido batizado. E que o batismo externo, apenas, não transmite qualquer benefício espiritual, o caso de Simão, o mago, o demonstra claramente. Embora batizado, ele per­manecia no “fel de amargura e laço de iniquidade” (At 8,23). Porém, a afirmação de que o batismo é uma questão totalmente indiferente e que nem mesmo precisa ser usado, parece algo que não concorda com as palavras de nosso Senhor nesta passagem.

A lição prática e clara, nestas palavras, é a necessidade de uma confissão pública de fé em Cristo. Não basta ser um discípulo secreto. Não devemos nos envergonhar por deixar que os homens vejam de quem somos e a quem servimos. Não devemos nos comportar como se não gostássemos de ser identificados como crentes; devemos tomar a nossa cruz e confessar o nosso Mestre perante o mundo. 

As palavras dEle são muito solenes: “Porque qualquer que... se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos” (Mc 8.38).

Em quarto lugar, sublinhemos a obediência que Jesus requer de todos os que se declaram seus discípulos. Ele disse aos apóstolos para ensinarem os novos discípulos a “guardar todas as cousas”, tudo o que Ele ordenou. Essa é uma expressão perscrutante que demonstra a inu­tilidade de um cristianismo apenas de nome e de aparência; demonstra que somente devem ser contados como verdadeiros cristãos aqueles que vivem em obediência prática à Palavra e se esforçam por cumprir as coisas que Ele ordenou. 

A água do batismo e o pão e vinho da Ceia do Senhor sozinhos, não salvarão a alma de ninguém. De nada adianta ir a uma igreja, e ouvir os ministros de Cristo, e concordar com o evan­gelho, se nossa religião não vai além disso. 
  • Como está a nossa vida? 
  • Qual é a nossa conduta diária, no lar e fora dele? 
  • O Sermão do Monte é a nossa regra e padrão de conduta? 
  • Nós nos esforçamos por copiar o exemplo de Cristo? 
  • Procuramos fazer as coisas que Ele ordenou? 
Es­tas são perguntas que precisam ser respondidas afirmativamente se somos realmente nascidos de novo e filhos de Deus. A obediência é a única prova dessa realidade. A fé sem obras, por si só está morta. “Vós sois meus amigos”, diz Jesus, “se fazeis o que eu vos mando” (Jo 15.14).

Em quinto lugar, assinalemos a solene menção à Trindade ben­dita, que nosso Senhor faz nestes versículos. Ele manda batizar “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Este é um daqueles gran­des textos bíblicos que direta e claramente ensinam a poderosa doutrina da Trindade. O texto fala do Pai, Filho e Espírito Santo como três pes­soas distintas, e todos os três como co-iguais. Assim como é o Pai, também é o Filho e o Espírito Santo. Não obstante, os três são um.

Essa verdade é para nós um grande mistério. Que nos seja su­ficiente receber e crer nessa doutrina, e que nos abstenhamos de qualquer tentativa de explicação. É tolice infantil recusar aceitação a alguma coisa, simplesmente porque não a entendemos. Nós somos como uns vermes que rastejam pelo chão, por breve tempo; quando muito, pouco conhe­cemos a respeito de Deus e da eternidade. Que seja suficiente recebermos no coração a doutrina da Trindade em Unidade, com uma atitude hu­milde e reverente, sem perguntas presunçosas. 

Creiamos que nenhuma única alma pecaminosa poderia ser salva sem a operação conjunta de todas as três pessoas na bendita Trindade; e regozijemo-nos, porque Pai, Filho e Espírito Santo, que cooperaram para criar o homem, tam­bém cooperam na salvação do mesmo. Convém que paremos por aqui. Podemos receber praticamente aquilo que não podemos explicar teori­camente.

Finalmente, observemos nestes versículos a graciosa promessa com que Jesus encerra suas palavras. Ele diz aos seus discípulos: “Es­tou convosco todos os dias até à consumação do século”. É impossível concebermos palavras mais consoladoras, fortalecedoras, animadoras e santificadoras do que essas. 

Embora deixados a sós, como crianças órfãs em um mundo frio e hostil, os discípulos não deveriam pensar que tivessem sido abandonados. O Mestre estaria sempre com eles (“con­vosco”). Embora comissionados a realizar uma obra tão dura quanto aquela para a qual Moisés fora enviado a Faraó, eles não deveriam ficar desencorajados. O Mestre certamente estaria “com eles”. Por conse­guinte, não havia palavras mais apropriadas para serem proferidas a quem o foram pela primeira vez. Nenhuma palavra poderia ser mais adequada à posição daqueles primeiros discípulos. Também não é pos­sível imaginar uma palavra mais consoladora para os crentes de todos os séculos.

Que todos os verdadeiros crentes se apossem dessas palavras de Jesus e as tenham sempre em mente. Cristo está “conosco” todos os dias. Cristo está “conosco” em todo lugar que vamos. Quando nasceu neste mundo, Ele veio para ser “Emanuel, Deus conosco”. Agora, quando chega ao fim de seu ministério terrestre e está prestes a deixar o mundo, Ele declara que é Emanuel, sempre “conosco”. 
  • Ele está co­nosco diariamente para perdoar e absolver; 
  • conosco diariamente para santificar e fortalecer; 
  • conosco diariamente para defender e guardar; 
  • conosco diariamente para conduzir e guiar; 
  • conosco em tristezas e ale­grias; 
  • conosco em saúde ou enfermidade; 
  • conosco na vida e na morte; conosco no tempo e na eternidade.
Que maior consolação os crentes poderiam desejar do que esta? Não importa o que aconteça, nunca estamos completamente sozinhos ou sem amigos. Cristo está sempre conosco. 

Podemos olhar para den­tro da sepultura e dizer, com Davi: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo” (SI 23.4). Podemos olhar para além da sepultura e dizer, com Paulo: “Estaremos para sempre com o Senhor” (1 Ts 4.17). Jesus o disse e o cumprirá: “Estou convosco todos os dias até à consumação do sé­culo”. E, igualmente: “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei” (Hb 13.5). 

Não podríamos pedir mais do que isso! Prossigamos, confiando em Cristo e não tendo receio de coisa alguma. Ser um crente verdadeiro é tudo. Não há quem tenha semelhante Rei, um tal Sacerdote, um Companheiro tão constante e um Amigo assim, infalível, como têm os verdadeiros servos de Jesus Cristo.

Por J.C. Ryle 
In: Meditações no Evangelho de Mateus 
Editora Fiael

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Aviso nº1 do livro “Avisos para a Igreja” | J.C. Ryle (Agosto de 1858)

igreja comunidade“Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la.” Mateus 16:18

Vivemos em um mundo no qual todas as coisas estão perecendo. Reinos, impérios, cidades, instituições, famílias, tudo é passível de mudanças e corrupção. Uma lei universal parece prevalecer em todo lugar. Há uma tendência, em todas as coisas criadas, a uma deterioração.

Há uma coisa triste e depressiva nisto. Que lucro tem um homem no trabalho de suas mãos? Haverá algo que permanecerá? Haverá algo que durará? Haverá algo que resistirá? Haverá algo na qual poderemos dizer: Isto continuará para sempre? Você terá as respostas a essas perguntas nas palavras de nosso texto. Nosso Senhor Jesus Cristo fala de algo que continuará e não passará. Há uma criação a qual é uma exceção para a regra universal da que tenho falado. Há uma coisa a qual nunca perecerá e nunca passará. Essa coisa é o edifício fundado sobre a rocha – a Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele declara, nas palavras que vocês ouviram esta noite: “Sobre essa pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la”.

Há cinco coisas nestas palavras que exigem sua atenção:

  • 1. Um edifício:Minha Igreja
  • 2. Um construtor: Cristo diz: “Edificarei minha igreja
  • 3. Uma fundação:Sobre essa pedra edificarei minha igreja”.
  • 4. Perigos implícitos: “As portas do hades”.
  • 5. Garantia afirmada:As portas do Hades não poderão vencê-las”.

Que Deus abençoe as palavras que serão proferidas. Possamos todos nós examinar nossos próprios corações esta noite, e saber se pertencemos ou não a essa Igreja. Possamos nós voltar todos para a casa para refletir e orar.

1. Primeiros vocês têm um “edifício” mencionado no texto. O Senhor Jesus Cristo fala da “Minha Igreja”.

Agora, qual é essa Igreja?: Poucas perguntas podem ser feitas de maior importância que estas. Pela necessidade da devida atenção a esse assunto, os erros que se faz notar na Igreja e no mundo não são poucos e nem pequenos.

A Igreja de nosso texto não é um edifício material. Não é um templo feito por mãos, de madeira, ou tijolos, ou pedras, ou mármores. Ela é um grupo de homens e mulheres. Ela não é uma particular igreja visível sobre a terra. Não é a igreja oriental ou ocidental. Não é a Igreja da Inglaterra ou da Escócia. Muito menos a de Roma. A igreja de nosso texto é uma que faz menos aos olhos do homem, mas faz mais importância aos olhos de Deus.

A Igreja de nosso texto é a edificação de todos os verdadeiros crentes no Senhor Jesus Cristo. Ela compreende todos os que se arrependeram dos seus pecados e se refugiaram em Cristo pela fé, e foram feitas novas criaturas nele. Ela consiste em todos eleitos de Deus, todos aqueles que têm recebidos a graça de Deus, todos aqueles que foram lavados no sangue de Jesus, todos aqueles que foram revestidos pela justiça de Cristo, todos aqueles que nasceram de novo e foram santificados pelo Espírito de Cristo. São os tais todos de cada nação, povo, e língua compõe a Igreja de nosso texto. Essa é a noiva. Essa é a esposa do cordeiro. Essa é a Igreja sobra a rocha.

Os membros desta Igreja não adoram Deus do mesmo modo, ou usam a mesma forma de governo. Nosso próprio 34º Artigo declara, “Não é necessário que as cerimônias sejam iguais ou semelhantes em todos os lugares”. Porém que todos adorem em um só coração. Sejam eles todos guiados por um Espírito. Sejam eles todos realmente e verdadeiramente santos. Possam eles cantar “Aleluia” e todos possam responder “Amém”.

Esta é aquela Igreja para quem todas as igrejas visíveis sobre a terra são servas. Sejam elas episcopais, independentes ou presbiterianas, todas elas servem ao interesse da verdadeira Igreja. Elas são andaimes atrás do qual o grande edifício é conduzido. Elas são as cascas sob a qual a semente viva cresce. Elas têm seus vários graus de utilidade. A melhor e a mais valiosa delas é aquela a qual são treinados os membros da verdadeira Igreja de Cristo. Mas nenhuma igreja visível tem o direito de dizer: “Nós somos a verdadeira Igreja. Somos os homens e a verdadeira sabedoria morrerá conosco”. Nenhuma igreja jamais deveria ousar a dizer “Permaneceremos para sempre. O inferno não prevalecerá contra nós”.

Esta é aquela Igreja que pertence as preciosas promessas do Senhor de preservação, continuidade, proteção e glória final. “Qualquer que seja” diz Hooker[1], “que leiamos nas escrituras, concernente ao eterno amor e misericórdia salvadora que Deus mostre a sua Igreja, o único justo assunto é esta Igreja, o qual nós propriamente chamamos de corpo místico de Cristo”. Pequena e desprezada como a verdadeira Igreja de Cristo possa ser neste mundo, ela é preciosa e honorável à vista de Deus. O templo de Salomão em toda a sua glória é nada comparado a Igreja que está edificada sobre a rocha.

Homens e irmãos, vejam que vocês retenham sãs a doutrina a respeito da “Igreja”. Um erro aqui pode os levar para o perigo e a ruína as almas. A Igreja que é composta de verdadeiros crentes é a Igreja para a qual nós, que somos ministros, somos ordenados especialmente para pregar. A Igreja que abrange todos aqueles que se arrependem e acreditam no evangelho, é a Igreja que nós desejamos que vocês pertençam. Nosso trabalho não está terminado e nossos corações ainda não estão satisfeitos, até vocês serem feitos novas criaturas e serem membros da verdadeira Igreja. Fora desta verdadeira Igreja não há salvação.

2. Passo ao segundo ponto, para qual eu proponho chamar a sua atenção. Nosso texto contém não meramente um edifício, mas também um construtor. Nosso Senhor Jesus Cristo declara: “Euedificarei minha Igreja”.

A verdadeira Igreja de Cristo está ternamente cuidada por todas as pessoas da bendita Trindade. Na economia da redenção, sem dúvida nenhuma, Deus o Pai escolhe, e o Deus Espírito Santo santifica cada membro do corpo místico de Cristo. Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, três pessoas e um só Deus, cooperam para a salvação de cada alma salva. Esta é a verdade, a qual não devemos jamais esquecer.

Não obstante, há um senso peculiar na qual a assistência da Igreja é depositada sobre Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é peculiar e preeminentemente o Redentor e o Salvador. Consequentemente, o encontramos dizendo em nosso texto, “Eu edificarei: o trabalho de edificação é minha obra especial”.

  • É Cristo que chama os membros da Igreja no seu devido tempo. Eles são “os chamados de Jesus Cristo”.
  • É Cristo que lhes dá vida. “O filho dá também a vida a quem ele quer”. João 5:21.
  • É Cristo quem lavou seus pecados. Aquele “que nos ama e libertou dos nossos pecados por meio do seu sangue”. Apocalipse 1:5.
  • É Cristo que lhes dá a paz. “Deixo-lhes a paz, a minha paz lhes dou”. João 14:27.
  • É Cristo que lhes dá a vida eterna. “Eu lhes dou a vida eterna e eles jamais perecerão”. João 10:28.
  • É Cristo que lhes assegura arrependimento. “E Deus o exaltou, colocando-o à sua direita como Príncipe e Salvador para dar a Israel arrependimento e perdão dos pecados”, Atos 5:31.
  • É Cristo que os capacita a se tornarem filhos de Deus. “Contudo, aos que o receberam e aos que creram em seu nome deu-lhes o direito de tornarem filhos de Deus”. João 1:12.
  • É Cristo que continua a obra neles quando ela começou. “Porque eu vivo, vocês também viverão” João 14:19.

Em resumo “Pois foi do agrado de Deus que nele {em Cristo} habitasse toda a plenitude”. Colossences 1:19. Ele é o autor e consumador da fé. Dele, toda a junta e membro do corpo místico dos cristãos é suprido. Através de Cristo eles são fortificados para o dever. Através Dele eles são guardados do fracasso. Cristo os preservará até o fim e os apresentará sem falta diante do trono do Pai com grande regozijo. Ele é todas as coisas, e tudo em todos para os crentes.

O agente poderoso pela qual o Senhor Jesus Cristo cumpre este trabalho em grande número de Igrejas é, sem dúvida nenhuma, o Espírito Santo. É Ele que aplica Cristo e seus benefícios para a alma. É ele que renova, desperta, convence, leva para a cruz, transformando, tirando do mundo, pedra após pedra, e adicionado-o para o corpo místico de Cristo.

Mas o grande chefe construtor, que elaborou o trabalho de redenção e trouxe-o para o seu cumprimento, é o Filho de Deus: o verbo que se fez carne. È Jesus que “edifica”.

Edificando a verdadeira Igreja, o Senhor Jesus permite usar muitos instrumentos subordinados. O ministério do evangelho, a exposição das Escrituras, a admoestação amiga, a palavra falada na estação certa, atraindo influência das aflições, todos são métodos pela qual seu trabalho continua. Mas Cristo é o grande superintendente, arquiteto, ordenando, guiando, dirigindo tudo o que é feito. O que o sol é para todo o sistema solar, Cristo é para todos os membros da verdadeira Igreja. “Paulo pode plantar, Apolo regar, mas Deus dá o crescimento”. Ministros podem pregar, os escritores podem escrever. Mas é só Jesus que pode edificar. E se ele não edificar, a obra permanece paralisada.

Grande é a sabedoria com a qual o Senhor Jesus edifica a sua Igreja. Tudo é feito no devido tempo, na forma correta. Cada pedra em sua Igreja é colocada no lugar devido. Às vezes ele escolhe grandes pedras, e às vezes escolhe pequenas pedras. Às vezes, a obra se move rapidamente, às vezes vagarosamente. O homem é frequentemente impaciente, e pensa que nada está acontecendo. Mas o tempo do homem não é o tempo de Deus. Mil anos para Deus representa apenas um dia. O grande construtor não comete erros. Ele sabe o que está fazendo. Desde o inicio faz conhecer o fim. Ele trabalha através de um plano perfeito, certo e inalterável.  As mais poderosas concepções de arquitetos, como Michelangelo, são meras brincadeiras de crianças, em comparação com os sábios conselhos de Cristo com respeito a sua Igreja.

Grande é a condescendência e a misericórdia que Cristo mostra na edificação de sua Igreja. Ele frequentemente escolhe as mais improváveis e ásperas pedras e ajusta-as na mais excelente obra. Ele não despreza e nem rejeita ninguém por conta dos seus antigos pecados e transgressões passadas. Ele se agrada e deleita em mostrar misericórdia. Ele frequentemente pega o mais negligente e incrédulo e transforma-o em cantos polidos do seu templo espiritual.

Grande é o poder que Cristo exibe na edificação de sua Igreja. Ele prossegue Sua obra apesar da oposição do mundo, da carne e de Satanás. Na tempestade, no caos, através de tempos turbulentos, silenciosamente, quietamente, sem barulho, sem agitação, sem excitação, o edifício avança como o templo de Salomão. “Eu trabalharei”, declara, “e ninguém interromperá”.

Irmãos, os filhos do mundo têm pouco ou nenhum interesse na edificação desta Igreja. Eles não se importam pela conversão das almas. O que são espíritos quebrantados e corações arrependidos para eles? Tudo é bobagem à seus olhos. Porém, enquanto os filhos deste mundo não se importam, há alegria na presença dos anjos de Deus. Porque na preservação dessa Igreja, as leis da natureza têm sido, às vezes, suspensas. Para o bem dessa Igreja, todos os negócios de Deus neste mundo são ordenados e organizados. Pelo amor dos eleitos, as guerras são encerradas, e a paz é dada para a nação. Estadistas, governantes, imperadores, reis, presidentes, Chefes de governos, têm seus esquemas e planos, e pensam que são de alta importância. Porém, há outra obra que está acontecendo, definitivamente, de muito maior significado, pelas quais eles todos são nada mais que machados e instrumentos nas mãos de Deus. Essa obra é o ajuntamento de pedras vivas na verdadeira Igreja. Quão pouco nos contam a palavra de Deus a respeito dos não convertidos comparado com que nos contam sobre os convertidos crentes. A história de Ninrode, o poderoso caçador, é descartada em poucas palavras. A História de Abraão, o pai da fé, ocupa diversas páginas. Nada nas escrituras é tão importante como a concernente à verdadeira Igreja. O mundo desdenha da Palavra de Deus. A Igreja e sua história a tem em alta consideração.

Vamos agradecer a Deus para sempre, meus amados irmãos, porque a edificação da verdadeira Igreja está colocada sobre os ombros Daquele que é poderoso. Vamos bendizer a Deus, que não faz cair essa responsabilidade sobre o homem. Vamos bendizer a Deus que não depende de missionários, ministros ou comissões. Cristo é o poderoso Construtor. Ele prosseguirá sua obra, embora nações e igrejas visíveis desconheçam seus deveres e obrigações. Cristo nunca falhará. O que ele começou ele certamente executará e completará.

3. Passo para o terceiro ponto, que propus a considerar. O fundamento sobre a qual esta Igreja está edificada. O Senhor Jesus Cristo nos diz; “sobre essa rocha edificarei a minha Igreja”.

O que quis dizer o Senhor Jesus Cristo quando ele falou deste fundamento? Referia-se ele ao apóstolo Pedro com quem estava falando? Eu tenho certeza que não. Não consigo ver razão, pois se ele referia-se a Pedro ele teria dito “sobre você” eu edificarei minha Igreja. Se ele estivesse referindo-se a Pedro ele teria dito, “Eu edificarei minha Igreja por seu intermédio”, tão claramente quanto ele disse: “Eu lhe darei as chaves”. Não, não é na pessoa do apóstolo Pedro, mas na boa confissão que o apóstolo tinha acabado de fazer. Não era Pedro, o vacilante, o homem instável. Mas a poderosa verdade que o Pai havia revelada a Pedro. Era a mediação de Cristo, o messianismo de Cristo. Era a abençoada verdade, que Jesus era o salvador prometido, a verdadeira Garantia, o real intercessor entre Deus e o homem. Essa era a rocha, e esse era o fundamento sobre a qual a Igreja de Cristo seria edificada.

Meus irmãos, esse fundamento foi colocado mediante a um alto preço. Foi necessário que o filho de Deus tomasse a nossa natureza sobre Ele e naquela natureza vivesse, sofresse e morresse, não pelos seus próprios pecados, mas pelos nossos. Foi necessário que naquela natureza Cristo fosse para o túmulo e ressuscitasse. Foi necessário que naquela natureza subisse ao céu, sentasse a mão direita de Deus, tendo obtido redenção eterna para todo o seu povo. Nenhum outro fundamento exceto esse poderia sustentar essa Igreja da qual o texto fala. Nenhum outro fundamento poderia conhecer a necessidade de um mundo de pecadores.

O fundamento, uma vez obtido, é muito forte. Ele pode sustentar o peso do pecado de todo o mundo. Ele tem sustentado o peso de todos os pecados de todos os crentes que edificaram sobre ele. Pecados do pensamento, pecados da imaginação, pecados do coração, pecados da cabeça, pecados que cada um tem visto, pecados que nenhum homem conhece, pecados contra Deus, e pecados contra o homem pecados de todos os tipos e descrições – essa poderosa rocha pode suportar o peso de todos esses pecados e não ceder. O serviço mediador de Cristo é um remédio suficiente para todos os pecados de todo o mundo.

A esse fundamento cada membro da verdadeira Igreja de Cristo está conectado. Em muitas coisas os crentes estão em desacordos e desunidos. Na questão do fundamento de suas almas eles são uma só alma. Todos eles são edificados na rocha. Pergunte onde eles obtêm a paz, a esperança, e as expectativas jubilantes das boas coisas que estão por vir. Vocês descobrirão que tudo flui daquela poderosa verdade – Cristo, o Mediador entre Deus e o homem, e o ofício que Cristo detem como Sumo Sacerdote e Promessa dos pecadores.

Aqui está o ponto de exige a nossa atenção. Estamos nós sobre a rocha? Estamos nós reunidos ao único fundamento? O que aquele velho temente homem, Leighton diz?

“Deus pôs esta preciosa pedra para este exato propósito, que os fadigados pecadores possam descansar sobre ela.”

A multidão de imaginários crentes jazem todos ao redor, mas eles não são melhores por causa disso, não mais que as pedras que jazem soltas em pilhas, perto do fundamento, mas não reunidas a ele. Não há benefícios para nós através de Cristo se não estamos firmados Nele.

Olhem para o fundamento em que se apóiam, amados irmãos, para saberem se são membros ou não da verdadeira Igreja. É uma questão que pode ser conhecida por vocês mesmos. Suas adorações públicas podemos ver, mas não podemos ver se vocês estão pessoalmente edificados sobre a rocha. Podemos ver a presença de vocês na ceia do Senhor, mas não podemos saber se vocês estão unidos a Cristo, um em Cristo e Cristo em todos.  Porém, tudo virá á luz um dia. Os segredos dos corações serão revelados. Talvez vocês venham a Igreja regularmente e você ora fielmente. Tudo isso é correto e bom. Mas, observe que você não erre sobre sua própria salvação. Observe se sua própria alma está sobre a rocha. Sem isto, tudo mais não significa nada (é nada). Sem isto, vocês jamais resistirão ao dia do julgamento. Muito melhor ser encontrado em uma cabana naquele dia, do que em um palácio sobre a areia.

4- Prossigo, em quarto lugar, falando das provações sugeridas da Igreja, a qual nosso texto refere. Há menção feita de “os portões do inferno”. Por essa expressão somos levados a entender a força de Satanás e do mal.

A história da verdadeira Igreja de Cristo sempre tem sido de conflito e guerra. Ela tem sido constantemente assediada por um inimigo mortal, Satanás, o príncipe deste mundo. Satanás odeia a verdadeira Igreja de Cristo com um eterno ódio. Ele está sempre incitando oposição contra todos os seus membros. Ele está sempre instigando os filhos deste mundo a fazerem sua vontade e injuria e atormenta o povo de Deus. Se ele não pode ferir o Cabeça, ele ferirá o calcanhar. Se ele não pode roubar o paraíso dos crentes, ele os agravará quando eles viajarem pela estrada do céu.

Por seiscentos anos esta hostilidade tem continuado. Milhões de ímpios têm sido agentes de Satanás, e feito as obras de satanás, embora eles não saibam disso. Os Faraós, os Herodes, os Neros, os Julianos, os Dioclesianos, as Marias Sanguinárias; foram instrumentos de Satanás, quando eles perseguiram os discípulos de Jesus Cristo.

As guerras com os poderes do inferno tem sido a experiência de todo o corpo de Cristo. Tem sido sempre uma sarça em chamas, embora não consumida – uma mulher fugindo no deserto, mas não devorada. As igrejas visíveis têm seus tempos de prosperidades e épocas de paz, mas nunca tem havido um tempo de paz para a verdadeira Igreja. Seu conflito é perpétuo. Sua batalha nunca termina.

Guerra com os poderes do inferno é uma experiência de cada membro individual de todo o corpo de Cristo. Cada um tem que lutar. O que são as vidas de todos os santos senão registros de suas batalhas? O Que foram tais homens como Paulo, Tiago, João, Policarpo, Inácio, Agostinho, Lutero, Calvino, Latimer, Baxter, senão soldados engajados em uma constante guerra? Às vezes suas pessoas foram atacadas, às vezes suas propriedades. Às vezes foram atormentados por calúnias, e às vezes por aberta perseguição. Assim, de uma forma ou de outra, Satanás tem estado continuamente guerreando contra a Igreja.

Homens e irmãos, nós que pregamos o Evangelho podemos estender as mãos para todos aqueles que venham a Cristo, ultrapassando grandes e preciosas promessas. Podemos oferecer ousadamente a vocês no nome de nosso Mestre, a paz de Deus que ultrapassa a todo o entendimento. Misericórdia, gratuita graça e plena salvação são oferecidas para todos que virem para Cristo e Nele acreditarem. Porém, não prometemos paz com o mundo, ou com Satanás. Avisamos a vocês, pelo contrário, que deve haver uma guerra, enquanto estiverem no corpo. Nós não os reemprederemos ou deteremos no serviço de Cristo. Mas vocês terão que levar em conta o preço e entender completamente o que o serviço de Cristo implica. O Inferno está atrás de vocês. O céu diante de vocês. O Lar se apresenta do outro lado do mar agitado. Milhares, dezenas de milhares atravessaram essa águas turbulentas, é apesar de toda a oposição alcançaram o porto. O inferno os atacou, mas não prevaleceu. Vão em frente, amados irmãos e não temam o adversário. Somente vinculem-se a Cristo e a vitória é certa.

Não estranhe no ódio das portas do inferno. “Se vocês estivessem no mundo, o mundo amaria vocês com se fossem os seus”. Enquanto o mundo for mundo, e Satanás ser Satanás, deve haver guerra, e os crentes em Cristo devem ser soldados. O mundo odiou a Cristo, e o mundo odiará os verdadeiros crentes, enquanto a terra durar. Como disse o grande reformador Lutero:

“Caim continuará assassinado Abel enquanto a igreja estiver sobre a terra”.

Esteja preparado para a hostilidade das portas do inferno. Revista-se de toda a armadura de Deus. A torre de Davi tem mil escudos, todos prontos para o uso do povo de Deus. As armas de nossa guerra têm sido experimentadas por milhões de pobres e miseráveis pecadores como nós mesmos, e nunca se depararam com o fracasso.

Sejam pacientes sob o espinheiro das portas do inferno. Tudo isso coopera para o nosso bem. Isso tende a nos santificar. Mantêm vocês desperto. Isso faz vocês humildes. Isso os leva a estar mais próximos do Senhor Jesus Cristo. Isso os leva ao desapego do mundo. Isso ajuda vocês a orarem mais. Acima de tudo, faz vocês ansiarem pelo céu, e dizer com o coração e também com os lábios: “Venha Senhor Jesus”.

Não se perturbem pelo ódio do inferno. A guerra dos verdadeiros filhos de Deus é tanto uma marca da graça quanto a paz interior que ele goza. (desfruta). Sem cruz, sem coroa.

Sem conflito, sem salvação cristã! “Bendito são,” disse o Senhor Jesus Cristo, “quando as pessoas insultarem vocês, perseguir-los, e falsamente acusá-los de toda a sorte de maldade contra vocês por causa de mim”.

5- Ainda permanece algo em acréscimo para ser considerado: A segurança da verdadeira Igreja de Deus. Há uma gloriosa promessa dada pelo poderoso Construtor, “As portas do inferno não prevalecerão”.  Ele que não pode mentir, assegura com sua real palavra, que todos os poderes do inferno nunca derrubarão Sua Igreja. Ela continuará e permanecerá a despeito de cada ataque. Ela jamais será vencida. Todas as outras coisas perecerão, exceto a Igreja de Cristo. A mão da violência exterior, ou a traça da deterioração interior prevalecem sobre qualquer outra coisa mais, mas não sobre a Igreja que Cristo edifica.

Impérios se levantaram em rápida sucessão. Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia, Tiro, Cartago, Roma, Grécia, Veneza – Onde estão todas elas agora? Todas elas foram edificações feitas por mãos humanas, e passaram. Porém, a Igreja de Cristo vive.

As mais poderosas cidades se tornaram um amontoado de ruínas. Os amplos muros da Babilônia estão afundados na terra. Os palácios de Níneve são um amontoado de poeira. As centenas de portões de Tebes são somente assuntos da história. Tiro é um lugar onde os pescadores penduram suas redes. Cartago é uma desolação. Entretanto, todo esse tempo a verdadeira Igreja permanece. As portas do inferno não prevalecerão contra ela.

As mais antigas igrejas visíveis têm, em muitos casos, apostatado e perecido. Onde estão as Igrejas de Éfeso e a Igreja de Antioquia? Onde está a Igreja de Alexandria e a Igreja de Constantinopla? Onde estão as igrejas de Corinto, de Filipos e Tessalônica? Onde, de fato, estão todas elas? Elas se desviaram da Palavra de Deus. Elas estavam orgulhosas de seus bispos, dos seus sínodos, das suas cerimoniais, dos seus ensinos e tradições. Eles não se gloriaram na verdadeira cruz de Cristo. Elas não se apegaram ao Evangelho. Elas não deram a Jesus, ou mesmo a fé, o seu devido lugar. Elas estão, agora, entre as coisas que já foram. Seus candelabros foram retirados. Porém durante todo esse tempo a verdadeira Igreja de Cristo tem permanecido viva. Tem a verdadeira Igreja sido perseguida em seu país? Tem sido ela pisoteada e oprimida em algum solo? Foi plantada e floresceu em outro clima. Fogo, espada, prisões, multas, penalidades nunca foram capazes de destruir sua vitalidade. Seus perseguidores têm morrido e ido para seus próprios lugares, mas a palavra de Deus vive, cresce e se multiplica. Por mais a verdadeira Igreja que pareça fraca aos olhos do homem, ela é uma bigorna que tem quebrado a muitos, e talvez quebre a muitos outros antes do fim. Aquele que põe as mãos nela, está tocando a menina dos olhos de Deus.

A promessa de nosso texto aplica-se verdadeiramente a todo o corpo da verdadeira Igreja de Cristo. Cristo nunca estará sem uma testemunha no mundo. Ele tem tido um povo nos piores tempos. Ele teve 7.000 em Israel nos dia do rei Acabe. Há alguns agora, acredito eu, nos lugares escuros da Igreja Católica Romana e nas Igrejas Ortodoxas Gregas, que apesar de muita fraqueza, estão servindo Cristo. Satanás pode enfurecer-se terrivelmente. A igreja pode ser espezinhada em alguns países. Porém, as portas do inferno não prevalecerão completamente.

A promessa de nosso texto se aplica verdadeiramente a cada membro da Igreja. Alguns do povo de Deus têm sido humilhados, para que se desesperassem da sua esperança. Alguns têm caído de forma triste, como Pedro e Davi. Alguns deixaram a fé por algum tempo. Muitos têm sido tentados pelas dúvidas cruéis e pelo medo. Mas, finalmente todos chegaram seguros ao lar, tanto o velho quanto o jovem, tanto o mais fraco quanto o mais forte. E assim será no fim. Vocês podem impedir que o sol nasça amanhã? Vocês podem evitar a maré no fluxo e refluxo? Vocês podem evitar que os planetas se movam em suas respectivas órbitas? E então, somente então vocês poderão evitar a salvação de qualquer crente, embora fraco – ou de qualquer pedra viva nessa Igreja que está edificada na rocha, por pequena ou insignificante essa pedra possa parecer.

A verdadeira Igreja é o corpo de Cristo. Nenhum osso nesse corpo místico jamais será quebrado.

A verdadeira Igreja é a noiva. Aqueles a quem Deus reuniu no último pacto jamais serão separados.

A verdadeira Igreja é o rebanho de Cristo. Quando o leão veio e pegou um cordeiro do rebanho de Davi, Davi levantou-se e livrou o cordeiro de sua boca. Cristo fará o mesmo. Ele é o grande filho de Davi. Nenhum cordeiro sequer no rebanho de Cristo perecerá. Ele dirá a seu pai no último dia: “Eu não perdi nenhum daqueles que me deste”.

A verdadeira Igreja é o trigo da terra. Ele pode ser peneirado, joirado, aparado, arremessado daqui e dali. Mas nenhum deles será perdido. Os joios e as palhas serão queimados. E o trigo será ajuntado no celeiro.

A verdadeira Igreja é o exército de Deus. O Capitão de nossa salvação não perderá nenhum de seus soldados. Seus planos nunca serão frustrados. Sua provisão nunca faltará. Seu recrutamento é a mesmo no fim, como era no começo. Dos homens que marcharam audazmente da Inglaterra, há poucos anos atrás, para a guerra da Criméia[2], muitos não voltaram. Regimentos que foram adiante, fortes e animados, com as mãos acenando e bandeiras tremulando, deixaram seus ossos em uma terra estrangeira, e nunca retornaram para seu país de origem. Mas o mesmo não acontece com o exercito de Cristo. Nenhum de seus soldados se perderá no fim. Ele próprio declara: “Eles nunca perecerão”.

Satanás poderá lançar alguns membros da verdadeira Igreja na prisão. Ele pode matar, queimar, tortura e enforcar. Porém, após ter matado o corpo, não há mais nada que ele possa fazer. Ele não pode ferir a alma. Quando as tropas francesas ocuparam Roma há poucos anos atrás, eles acharam na parede de uma cela da prisão, sob a Inquisição, as palavras de um prisioneiro. Quem ele era, não sabemos. Mas, vale a pena lembrar suas palavras. Embora morto, ele ainda fala. Ele escreveu nas paredes, muito provavelmente após um injusto julgamento, e ainda uma injusta excomunhão, as seguintes palavras: “Bendito Jesus, eles não podem me lançar fora de Sua verdadeira Igreja”. Esse registro é verdadeiro. Nem toda a força de Satanás pode lançar fora da verdadeira Igreja de Cristo um crente sequer.

Os filhos deste mundo podem conduzir um feroz combate contra a Igreja, mas eles não podem parar a obra da salvação. O que o sorriso escarnecedor do Imperador Juliano disse, nos primórdios da Igreja, “O que o filho do carpinteiro está fazendo?”. Um cristão idoso responde: “Ele está fazendo um caixão para o próprio Juliano”. Passado alguns meses, com toda a sua pompa e poder, o imperador Juliano morreu em batalha. Onde estava Cristo quando as fogueiras de Smithfield foram acesas, e quando Latimer e Ridley foram queimados?[3] O que estava Cristo fazendo então? Ele ainda estava prosseguindo sua obra de edificação. Esse trabalho sempre prosseguirá, mesmo em tempos turbulentos.

Não temais, amados irmãos, em começar a servir Cristo. Aquele a quem vocês confiam suas almas, tem todo o poder no céu e na terra e Ele lhes guardará. Ele nunca permitirá que vocês sejam lançados fora. Parentes podem se opor a vocês. Os vizinhos poderem zombar. O mundo pode caluniar e rir escarnecendo. Não temais! Não temais!  Os poderes do inferno jamais prevalecerão contra a sua alma. Maior é aquele que está em vocês, do que todos aqueles que estão contra vocês.

Não temais pela Igreja de Cristo, meus irmãos, quando ministros morrerem e os santos serem levados. Cristo sempre pode manter sua própria causa; Ele levantará estrelas melhores e mais brilhantes. As estrelas estão todas em sua mão direita. Deixe todos os pensamentos ansiosos sobre o futuro. Não se perturbem pelas medidas dos estadistas, ou de complôs dos lobos em pele de cordeiro. Cristo sempre proverá a sua própria Igreja. Cristo cuidará para que as portas do inferno não prevaleçam contra ela. Tudo irá bem, embora nossos olhos possam não ver. Os reinos deste mundo ainda se tornarão os reinos do nosso Deus e do seu Cristo.

Permitam-me dizer algumas palavras de aplicação prática desse sermão. Eu falo para muitos, pela primeira vez. Falo, talvez, para muitos, pela ultima vez. Que não se permita que este culto se conclua sem um esforço de aplicarem, em cada coração, este sermão.

1 . Minha primeira palavra de aplicação será uma pergunta Qual será esta pergunta? Como eu abordarei vocês? Que perguntarei? Eu pergunto se vocês são membros da verdadeira Igreja de Cristo? São vocês, no mais alto e no melhor dos sentidos, um verdadeiro “Homem da Igreja”[4] aos olhos do Senhor? Vocês sabem o que quero dizer? Estou olhando muito além da Igreja da Inglaterra. Eu falo da Igreja edificada sobre a rocha. Pergunto-lhes, com toda solenidade: são vocês membros dessa Igreja de Cristo? Vocês estão conectados no grande fundamento? Vocês já receberam o Espírito Santo? O Espírito Santo testifica com seu espírito que vocês são um em Cristo e Cristo com vocês? Eu peço a vocês, em nome de Deus, que apliquem seus corações a esta questão e reflitam bem nela.

Acautelai-vos por vocês mesmos, queridos irmãos, se não puderem dar uma resposta satisfatória para pergunta. Considerem, considerem, para que não naufraguem na fé. Acautelai-vos, a fim de que as portas do inferno não prevaleçam contra vocês, que Satanás reivindique vocês com sua propriedade, e vocês sejam lançados fora para sempre. Acautelai-vos, a fim de que vocês não desçam para o poço da terra da Bíblia e da completa luz do Evangelho de Cristo.

2 . Minha segunda palavra será um convite. Eu a endereço a todos aqueles que não são verdadeiros crentes. Digo a vocês, venham e juntem-se à verdadeira Igreja, sem demora. Venham e juntem-se ao Senhor Jesus Cristo em um eterno pacto para não serem esquecidos. Venham para Jesus e serão salvos. O dia da decisão deve chegar em algum tempo. Porque não nesta noite. Porque não hoje, enquanto é chamado hoje? Porque não, bem nesta noite, antes do sol nascer amanhã de manhã? Venham a Ele, a quem eu sirvo. Venham ao meu mestre, Jesus Cristo. Venham, Eu digo, porque todas as coisa estão prontas agora. Misericórdia esta pronta para vocês, o céu está pronto para vocês, anjos estão prontos regozijando por vocês, Cristo está pronto para recebê-los. Cristo receberá vocês alegremente, e dará boas-vindas a vocês entre seus filhos. Entrem na arca, o dilúvio da ira de Deus breve romperá sobre a terra, venham para a arca e estejam seguros.

Venham para o barco salva-vidas. O velho mundo breve se quebrará em pedaços! Vocês não sentem o tremor dele? O mundo não é senão um Navio naufragado e emperrado nas areias. A noite declina – as ondas estão começando. Mas o bote salva-vidas é lançado, e nós, os ministros do evangelho, pedimos a vocês que entrem no barco salva-vidas e sejam salvos.

Vocês perguntam como posso vir se meus pecados são muitos? Vocês perguntam como virão? Ouçam as palavras deste maravilhoso hino:

“Apenas como estou: sem nem um pedido; Exceto que o seu sangue foi derramado, E que Tu ofereceste me vir a Ti, Ó Cordeiro de Deus Eu vou”

Este é o caminho para vir a Cristo. Vocês devem vir, sem esperar nada, e não se retardando por nada. Vocês devem vir, como um pecador faminto, para serem satisfeitos, como um pobre pecador para ser enriquecido, como um infeliz, pecador injusto para ser revestido com justiça. Assim, vindo, Cristo receberá vocês. “aquele que vir a Cristo”, Ele “não lançará fora.

3. Por último, permita-me dar uma apalavra de exortação para meus ouvintes crente;

Vivam uma vida santa, meus irmãos. Andem dignamente, pela Igreja que vocês pertencem.

Vivam como cidadãos dos céus. Deixem sua luz brilhar diante dos homens, para que o mundo possa beneficiar-se pela conduta de vocês. Deixem-nos conhecerem quem vocês são, e a quem vocês servem. Sejam cartas de Cristo, conhecidas e lidas por todos os homens; escritas em tal clareza, que ninguém possa dizer: nós não sabemos se ele é ou não um membro da Igreja de Cristo.

Vivam uma vida corajosa, meus irmãos. Confessem Cristo diante dos homens. Seja qual for o posto que ocupem, neste posto professem Cristo. Porque deveriam envergonharem-se dele? Ele não se envergonhou de vocês na cruz. Ele está pronto para confessar vocês diante do Pai nos céu. Porque deveriam vocês se envergonhar dele? Sejam corajosos. Tenham muita coragem. O bom soldado não se envergonha do seu uniforme. O verdadeiro crente nunca deve estar envergonhado de Cristo.

Vivam uma vida exultante, meus irmãos. Vivam como homens que procuram por essa abençoada esperança – a segunda vinda de Jesus Cristo. Este é a expectativa a qual nós todos devemos esperar ansiosamente. Não é tanto o pensamento de ir para o céu, mas de o céu vir para nós, que deveria preencher nossas mentes. Há um bom tempo vindo para todo o povo de Deus – um bom tempo para toda a Igreja de Cristo – um bom tempo para todos os crentes – mau tempo para os impenitentes e incrédulos – para todos aqueles que servirem suas próprias luxúrias, e virarem as costas para o Senhor, mas um bom tempo para os verdadeiros cristãos. Para esse bom tempo vamos esperar, vigiar e orar.

Os andaimes serão em breve derrubados – a última pedra será breve revelada – a pedra principal será colocada sobre o edifício. Ainda, em pouco tempo e a plena beleza da edificação será claramente vista.

O grande mestre construtor breve viráem pessoa. Umedifício será mostrado para o mundo reunido, no qual não haverá imperfeição. O Salvador e os salvos se alegrarão juntos. O universo inteiro reconhecerá que no edifício da Igreja de Cristo tudo estava bem feito. Amém.

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NOTA: Por mais de um século, J. C. Ryle ficou mais conhecido por seus textos claros e vivos, que falavam sobre temas práticos e espirituais.  Seu grande objetivo, durante seu ministério, foi encorajar uma vida cristã firme e séria.  Entretanto, Ryle não era ingênuo e sabia como esse encorajamento deveria ser feito.  Ele reconheceu que, como pastor do rebanho de Deus, tinha a responsabilidade de proteger as ovelhas de Cristo e alertá-las sempre que visse algum perigo se aproximando.  Seus intensos comentários são tão sábio e relevantes hoje, quanto foram quando ele os primeiro escreveu.  Seus sermões e outros escritos tem sido constantemente reconhecidos e sua utilidade e impacto continuam até hoje, mesmo no inglês obsoleto da época do autor.

Por que, então, exposições já tão bem sucedidas e memoráveis, provadas úteis, precisam de adaptação, revisão e reedição? A resposta é clara.  Para aumentar sua utilidade para leitores atuais. A linguagem com a qual foi originalmente escrita, precisa de atualização.

Por mais que seus sermões, da forma com que foram escritos pelo autor no século XIX, tenham servido para outras gerações, eles podem se perder nas gerações presente e futura, simplesmente porque, para eles, a linguagem não é facilmente e nem completamente entendível.

Meu intuito, entretanto, não é reduzir o escrito original ao vernáculo dos nossos dias.  Ele surgiu primeiramente para você, que deseja ler e estudar de modo confortável e fácil, na linguagem do seu tempo.  Obviamente, apenas terminologias arcaicas e passagens obscurecidas por expressões que não nos são familiar foram revisadas.    Contudo, nem a intenção de Ryle, tampouco seu propósito foram adulterados.

Tony Capoccia

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ORE PARA QUE O ESPIRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO DE PECADORES.

FONTE

  • Esse manuscrito atualizado e revisitado é de direitos autorais de © 1998 por Tony Capoccia.
  • Todos os direitos reservados.
  • Todo direito de tradução em português protegido por lei internacional de domínio público
  • Tradução: Paulo da Silva
  • Revisão: Armando Marcos Pinto
  • Capa: Victor Silva

 Projeto Ryle – Anunciando a verdade Evangélica.

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[1] Richard Hooker (1554 – 1600) foi um pastor Anglicano e um influente teólogo reformado. A ênfase de Hooker na razão e na tolerância influenciaram bastante o desenvolvimento de Anglicanismo. (Wikipédia)

[2] A Guerra da Criméia foi um conflito que se estendeu de 1853 a 1856, na península da Crimeia (no mar Negro, ao sul da atual Ucrânia), no sul da Rússia e nos Bálcãs. Envolveu, de um lado o Império Russo e, de outro, uma coligação integrada pelo Reino Unido, a França, o Reino da Sardenha – formando a Aliança Anglo-Franco-Sarda – e o Império Otomano (Wikipédia)

[3] Fogueiras de Smithfield: referência a diversos mártires protestantes que foram executados nesse local em Londres pela Rainha Maria, a Sanguinária

[4] Em inglês, o termo que Ryle usa é “Churchmam” que muitas vezes é usado como referência aos clérigos e sacerdotes da Igreja da Inglaterra, reforçando assim a ideia de Ryle.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Santificação | J.C. Ryle

A santificação não consiste na casual realização de ações corretas. Antes, é a operaçãojcryle habitual de um novo princípio celestial que atua no íntimo, influenciando toda a conduta diária de uma pessoa, tanto nas grandes quanto nas pequenas coisas. A sua sede é o coração, e, tal como o coração físico, exerce influência regular sobre cada aspecto do caráter de uma pessoa. Não se assemelha a uma bomba de água que só fornece água quando alguém a aciona; mas parece-se mais com uma fonte perpétua, de onde a torrente jorra perene e espontaneamente, com naturalidade. Herodes ouvia João Batista "de boa mente", ao mesmo tempo em que seu coração era inteiramente mau aos olhos de Deus (Mc 6.20).

Por semelhante modo, há dezenas de pessoas hoje em dia que parecem ter ataques espasmódicos de "atos de bondade", conforme os poderíamos chamar, e que fazem muitas coisas boas sob a influência da enfermidade, da aflição de morte na família, das calamidades públicas ou de alguma súbita agonia da consciência. Contudo, o tempo todo qualquer pessoa inteligente poderá observar claramente que tais pessoas não se converteram e que elas nada conhecem acerca da "santificação." Um verdadeiro santo, tal como Ezequias (2 Cr 31.21), age "de todo o coração" e poderá dizer, juntamente com o salmista: "Por meio dos teus preceitos consigo entendimento; por isso detesto todo caminho de falsidade" (Sl 119.104).

... Desafio qualquer pessoa a ler cuidadosamente os escritos do apóstolo Paulo para neles encontrar grande número de claras orientações práticas, atinentes ao dever do cristão, em cada relacionamento da vida, e acerca de nossos hábitos diários, de nosso temperamento e de nossa conduta de uns para com os outros. Essas orientações foram registradas por inspiração divina, para orientação perpétua dos crentes professos. Aquele que não dá atenção a essas normas talvez seja aceito como membro de uma igreja ou denominação evangélica, mas certamente não será aquele que a Bíblia chama de homem "santificado."

Por J.C. Ryle

Uma Parte da série Fe Para Hoje

Tradução por Editora Fiel

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Por que Cristo veio ao mundo? | J.C. Ryle

ryleCristo não veio ao mundo apenas para ensinar uma nova moralidade ou ser um exemplo de santidade e autonegação, ou fundador de novas cerimônias como alguns tem afirmado. Ele deixou os céus e habitou trinta e três anos na terra por um propósito mais sublime do que estes.
O Senhor Jesus veio para obter vida éter ao custo de sua própria morte vicária na cruz, e para tornar-se uma inesgotável fonte de vida espiritual para todos os homens, da qual pecadores pedem beber pela fé e, bebendo, viver para sempre.
Por intermédio de Moisés vieram a lei, as ordenanças, as regras, e as cerimônias. Por meio de Cristo vieram a graça, a verdade e a vida eterna.  
Por. J.C. Ryle
In. Meditações no Evangelho de João. (pg. 129)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Definindo Santidade | J.I.Packer

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1. Santidade é o hábito de ser de uma só mente com Deus, de acordo com o que as Escrituras descrevem como sendo a mente dele.

2. Um homem SANTO se esforçará para evitar cada pecado conhecido, e guardar cada mandamento revelado. A inclinação de sua mente será decisivamente direcionada para Deus. O desejo do seu coração será o de fazer a vontade do Pai. Ele temerá muito mais a desaprovação divina do que a do mundo e terá o mesmo sentimento que Paulo teve quando disse: “Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus” (Rm 7.22).

3. Um homem SANTO se esforçará para ser como o Senhor Jesus Cristo. Ele não somente viverá uma vida de fé nele, e dele receberá paz e força para vier o dia-a-dia, mas também trabalhará para ter a mente de Cristo e ser conforme à sua imagem (Rm. 8.29). O seu objetivo em relação ás outras pessoas será o de andar ao lado delas, perdoá-las... ser generoso... caminhar em amor... ser manso e humilde... Ele guardará no coração as palavras de João: “Aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou” (1Jo. 2.6).

4. Um homem santo buscará mansidão, longanimidade, bondade, paciência, gentileza e controle de sua língua. Dará um bom testemunho, será muito paciente, tolerante para com os outros, e também não se apressará em exigir os seus direitos.

5. Um homem SANTO buscará temperança e autonegação. Lutará para mortificar os seus desejos carnais, crucificar sua carne com suas tentações e lascívias, fugir das paixões e controlar suas inclinações carnais, sempre que elas se manifestarem. (Lc. 21.34 e 1Co. 9.27).

6. Um homem santo buscará praticar a caridade e a fraternidade. Ele se esforçará por fazer para os outros o que gostaria que os outros fizessem para ele e falará dos outros o que gostaria que os outros falassem dele... Abominará toda a mentira, difamação, maledicência, engano, desonestidade e injustiça, mesmo nas pequenas coisas.

7. Um homem santo buscará misericórdia e bondade no trato com os outros... Será como Dorcas, “notável pelas boas obras e esmolas que fazia”, que não somente se propôs a fazer ou falou a respeito das boas obras, mas as praticou (At 9.36).

8. Um homem santo buscará a pureza de coração. Temerá toda a corrupção e impureza de espírito e tentará evitar todas as coisas que podem levá-lo a se contaminar. Ele sabe que o seu coração facilmente se inflama, e tentará cuidadosamente evitar a brasa da tentação.

9. Um homem SANTO buscará o temor a Deus. Não me refiro ao temor de um escravo, que somente trabalha para evitar a punição que receberá, caso seja descoberto sem fazer nada. Ao contrário, penso no temor de uma criança, que deseja viver e se locomover como se estivesse sempre com o seu vigilante pai por perto, porque sabe que ele a ama.

10. Um homem SANTO buscará humildade. Desejará, em sua mente simples e caridosa, ter os outros em mais alta estima do que a si mesmo. Também perceberá mais o mal existente em seu coração do que em qualquer outro neste mundo.

11. Um homem SANTO buscará fidelidade em todos os seus deveres e relacionamentos. Por seus motivos serem os mais sublimes, e contando com o adicional da ajuda divina, ele não se contentará apenas em cumprir suas obrigações, mas, melhor ainda, tentará ajudar aqueles que não se preocupam com a sua alma. Pessoas santas devem, em todos os momentos, desejar praticar o bem, e devem se envergonhar se algo de mal acontecer a alguém que elas poderiam ter ajudado. Elas devem lutar por ser boas esposas e bons maridos, bons pais e bons filhos, bons patrões e bons empregados, bons vizinhos, bons amigos, bons cidadãos, bons em particular e em público, bons no local de trabalho e no ambiente familiar. O Senhor Jesus perguntou ao seu povo algo que exige reflexão, quando diz: “Que fazeis demais” (Mt. 5.47).

12. Por fim um homem SANTO encherá sua mente com coisas espirituais. Tentará se concentrar inteiramente nas coisas do alto, não se apegando às coisas deste mundo... Ele buscará viver como alguém cujos tesouros estão no céu e cuja permanência nesta terra é vista apenas como a de um peregrino, que viaja para a sua casa. Sua maior fonte de prazer está na comunhão com Deus por meio da oração, da leitura da Palavra e da reunião do seu povo. Ele dará valor a cada coisa, lugar e relacionamentos, uma vez que esses fatores o trazem mais para perto de Deus.

Esta lista clássica de 12 pontos de uma pessoa santa foi esboçada pelo Bispo Anglicano: John Charles Ryle
Extraído do Livro: Redescoberta da Santidade
Autor: J.I.Packer
Editora Cultura Cristã