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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

As Heresias do Período Apostólico | Augustus Nicodemos

Durante o período patrístico, diversas heresias desafiaram a compreensão da fé cristã e impulsionaram o desenvolvimento doutrinário da Igreja. O gnosticismo misturava elementos cristãos com filosofia helenística, negando a bondade do mundo material e promovendo a ideia de um conhecimento secreto como fonte de salvação. O marcionismo rejeitava o Antigo Testamento e o Deus nele revelado, separando radicalmente o Deus criador do Pai de Jesus. O montanismo, por sua vez, introduziu novas revelações supostamente superiores às Escrituras, desafiando a autoridade apostólica e promovendo um rigorismo moral extremo.

No campo cristológico, o arianismo negava a plena divindade de Cristo, afirmando que Ele era uma criatura superior, mas não coeterno com o Pai, enquanto o apolinarianismo comprometia a humanidade de Jesus ao ensinar que sua mente era substituída pelo Logos divino. O nestorianismo dividia Jesus em duas pessoas, uma divina e outra humana, e o monofisismo negava as duas naturezas de Cristo, afirmando que Ele tinha apenas uma natureza divina após a encarnação.

O donatismo surgia na esfera eclesiológica, defendendo que os sacramentos administrados por líderes que haviam negado a fé em tempos de perseguição eram inválidos. No campo da graça e da salvação, o pelagianismo negava o pecado original e ensinava que o homem poderia alcançar a salvação sem a graça divina, o que minava a centralidade da redenção em Cristo.

Essas heresias, combatidas por figuras como Irineu de Lyon, Tertuliano, Agostinho e outros pais da Igreja, foram decisivamente refutadas em concílios como Niceia, Éfeso e Calcedônia. Esses confrontos não apenas protegeram a fé cristã das distorções, mas também ajudaram a Igreja a articular com maior clareza doutrinas fundamentais, como a Trindade, a encarnação e a necessidade da graça para a salvação.

Augustus Nicodemus

sábado, 4 de setembro de 2021

Teologia Relacional: um novo deus no mercado | Rev. Augustus Nicodemus Lopes

As ondas gigantes que provocaram a tremenda catástrofe na Ásia no final de dezembro de 2004 afetaram também os arraiais evangélicos, levantando perguntas acerca de Deus, seu caráter, seu poder, seu conhecimento, seus sentimentos e seu relacionamento com o mundo e as pessoas diante de tragédias como aquela.

 Dentre as diferentes respostas a essas perguntas, uma chama a atenção pela ousadia de suas afirmações: Deus sofreu muito com a tragédia e certamente não a havia determinado ou previsto; ele simplesmente não pôde evitá-la, pois Deus não conhece o futuro, não controla ou guia a história, e não tem poder para fazer aquilo que gostaria. Esta é a concepção de Deus defendida por um movimento teológico conhecido como teologia relacional, ou ainda, teísmo aberto ou teologia da abertura de Deus.

A teologia relacional, como movimento, teve início em décadas recentes, embora seus conceitos sejam bem antigos. Ela ganhou popularidade por meio de escritores norte-americanos como Greg Boyd, John Sanders e Clark Pinnock. No Brasil, estas ideias têm sido assimiladas e difundidas por alguns líderes evangélicos, às vezes de forma aberta e explícita.

A teologia relacional considera a concepção tradicional de Deus como inadequada, ultrapassada e insuficiente para explicar a realidade, especialmente catástrofes como o tsunami de dezembro de 2004, e se apresenta como uma nova visão sobre Deus e sua maneira de se relacionar com a criação. Seus pontos principais podem ser resumidos desta forma:

1. O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinados a este. Isto significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas.
2. Deus não é soberano. Só pode haver real relacionamento entre Deus e suas criaturas se estas tiverem, de fato, capacidade e liberdade para cooperarem ou contrariarem os desígnios últimos de Deus. Deus abriu mão de sua soberania para que isto ocorresse. Portanto, ele é incapaz de realizar tudo o que deseja, como impedir tragédias e erradicar o mal. Contudo, ele acaba se adequando às decisões humanas e, ao final, vai obter seus objetivos eternos, pois redesenha a história de acordo com estas decisões.
3. Deus ignora o futuro, pois ele vive no tempo, e não fora dele. Ele aprende com o passar do tempo. O futuro é determinado pela combinação do que Deus e suas criaturas decidem fazer. Neste sentido, o futuro inexiste, pois os seres humanos são absolutamente livres para decidir o que quiserem e Deus não sabe antecipadamente que decisão uma determinada pessoa haverá de tomar num determinado momento.
4. Deus se arrisca. Ao criar seres racionais livres, Deus estava se arriscando, pois não sabia qual seria a decisão dos anjos e de Adão e Eva. E continua a se arriscar diariamente. Deus corre riscos porque ama suas criaturas, respeita a liberdade delas e deseja relacionar-se com elas de forma significativa.
5. Deus é vulnerável. Ele é passível de sofrimento e de erros em seus conselhos e orientações. Em seu relacionamento com o homem, seus planos podem ser frustrados. Ele se frustra e expressa esta frustração quando os seres humanos não fazem o que ele gostaria.
6. Deus muda. Ele é imutável apenas em sua essência, mas muda de planos e até mesmo se arrepende de decisões tomadas. Ele muda de acordo com as decisões de suas criaturas, ao reagir a elas. Os textos bíblicos que falam do arrependimento de Deus não devem ser interpretados de forma figurada. Eles expressam o que realmente acontece com Deus.
Estes conceitos sobre Deus decorrem da lógica adotada pela teologia relacional quanto ao conceito da liberdade plena do homem, que é o ponto doutrinário central da sua estrutura, a sua “menina dos olhos”. De acordo com a teologia relacional, para que o homem tenha realmente pleno livre arbítrio suas decisões não podem sofrer qualquer tipo de influência externa ou interna. Portanto, Deus não pode ter decretado estas decisões e nem mesmo tê-las conhecido antecipadamente. Desta forma, a teologia relacional rejeita não somente o conceito de que Deus preordenou todas as coisas (calvinismo) como também o conceito de que Deus sabe todas as coisas antecipadamente (arminianismo tradicional). Neste sentido, o assunto deve ser entendido, não como uma discussão entre calvinistas e arminianos, mas destes dois contra a teologia relacional. Vários líderes calvinistas e arminianos no âmbito mundial têm considerado esta visão da teologia relacional como alheia ao cristianismo.
A teologia relacional traz um forte apelo a alguns evangélicos, pois diz que Deus está mais próximo de nós e se relaciona mais significativamente conosco do que tem sido apresentado pela teologia tradicional. Segundo os teólogos relacionais, o cristianismo histórico tem apresentado um Deus impassível, que não se sensibiliza com os dramas de suas criaturas. A teologia relacional, por sua vez, pretende apresentar um Deus mais humano, que constrói o futuro mediante o relacionamento com suas criaturas. Os seres humanos são, dessa forma, co-participantes com Deus na construção do futuro, podendo, na verdade, determiná-lo por suas atitudes.
Contudo, a teologia relacional não é novidade. Ela tem raízes em conceitos antigos de filósofos gregos, no socinianismo (que negava exatamente que Deus conhecia o futuro, pois atos livres não podem ser preditos) e especialmente em ideologias modernas, como a teologia do processo. O que ela tem de novo é que virou um movimento teológico composto de escritores e teólogos que se uniram em torno dos pontos comuns e estão dispostos a persuadir a igreja cristã a abandonar seu conceito tradicional de Deus e a convencê-la que esta “nova” visão de Deus é evangélica e bíblica.
Mesmo tendo surgido como uma reação a uma possível ênfase exagerada na impassividade e transcendência de Deus, a teologia relacional acaba sendo um problema para a igreja evangélica, especialmente em seu conceito sobre Deus. Embora os evangélicos tenham divergências profundas em algumas questões, reformados, arminianos, wesleyanos, pentecostais, tradicionais, neopentecostais e outros, todos concordam, no mínimo, que Deus conhece todas as coisas, que é onipotente e soberano. Entretanto, o Deus da teologia relacional é totalmente diferente daquele da teologia cristã. Não se pode afirmar que os adeptos da teologia relacional não são cristãos, mas que o conceito que eles têm de Deus é, no mínimo, estranho ao cristianismo histórico.

Ao declarar que o atributo mais importante de Deus é o amor, a teologia relacional perde o equilíbrio entre as qualidades de Deus apresentadas na Bíblia, dentre as quais o amor é apenas uma delas. Ao dizer que Deus ignora o futuro, é vulnerável e mutável, deixa sem explicação adequada dezenas de passagens bíblicas que falam da soberania, do senhorio, da onipotência e da onisciência de Deus (Is 46.10a; Jó 28; Jó 42.2; Sl 90; Sl 139; Rm 8.29; Ef 1; Tg 1.17; Ml 3.6; Gn 17.1 etc).

Ao dizer que Deus não sabia qual a decisão de Adão e Eva no Éden, e que mesmo assim arriscou-se em criá-los com livre arbítrio, a teologia relacional o transforma num ser irresponsável. Ao falar do homem como co-construtor de Deus de um futuro que inexiste, a teologia relacional esquece tudo o que a Bíblia ensina sobre a queda e a corrupção do homem. Ao fim, parece-nos que na tentativa extrema de resguardar a plena liberdade do arbítrio humano, a teologia relacional está disposta a sacrificar a divindade de Deus.

 Ao limitar sua soberania e seu pleno conhecimento, entroniza o homem livre, todo-poderoso, no trono do universo, e desta forma, deixa-nos o desespero como única alternativa diante das tragédias e catástrofes deste mundo e o ceticismo como única atitude diante da realidade do mal no universo, roubando-nos o final feliz prometido na Bíblia. Pois, afinal, poderá este Deus ignorante, fraco, mutável, vulnerável e limitado cumprir tudo o que prometeu?

Com certeza a visão tradicional de Deus adotada pelo cristianismo histórico por séculos não é capaz de responder exaustivamente a todos os questionamentos sobre o ser e os planos de Deus. Ela própria é a primeira a admitir este ponto. Contudo, é preferível permanecer com perguntas não respondidas a aceitar respostas que contrariem conceitos claros das Escrituras. Como já havia declarado Jó há milênios (42.2,3): “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade, falei do que não entendia; cousas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia.”


Fonte: Revista Ultimato

Sugestão de Leitura  
A TEOLOGIA RELACIONAL: SUAS CONEXÕES COM O TEÍSMO ABERTO E IMPLICAÇÕES PARA A IGREJA CONTEMPORÂNEA
Por Valdeci da Silva Santos (Clique no Link Abaixo)

Revista Fides Reformata

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Sete problemas com a expiação universal arminiana | Joel R. Beek

Na teologia do Arminianismo nos é dito que Cristo morreu para tornar possível queJRB todas as pessoas sejam salvas, se assim elas desejarem. Esta é uma rejeição da visão Reformada, que afirma que Cristo morreu para, verdadeiramente, salvar um povo em particular escolhido por Deus.

O Arminianismo é, de longe, a visão mais popular acerca da expiação na Igreja Cristã de hoje. Não obstante, sérias objeções devem ser apresentadas contra a redenção universal arminiana, que são estas:

1- Ela calunia os atributos de Deus, dentre os quais, o seu amor. O Arminianismo apresenta um amor que, na verdade, não salva. É um amor que ama e então, se recusado, transforma-se em ódio e ira. Não é o amor que permanece imutável de eternidade a eternidade. Ela calunia a sabedoria de Deus. Deus faria um plano para salvar todos, mas não o cumpriria? Ele seria tão tolo a ponto de seu Filho ter pagado a salvação para todas as pessoas se sabia que seu Filho não obteria aquilo pelo que pagou? Eu me sentiria tolo se eu fosse numa loja comprar algo, e então saísse sem ele. No entanto, o Arminianismo nos pede para acreditarmos que essa é a verdade da salvação – que o pagamento foi feito, uma redenção, e, ainda assim, o Senhor se afastou sem aqueles que ele redimiu. Essa visão calunia a sabedoria de Deus. Ela calunia o poder de Deus. O universalismo arminiano nos obriga a acreditar que Deus era capaz de realizar o aspecto de merecimento da salvação, mas que o aspecto de aplicação é dependente do homem e seu livre-arbítrio. Ele nos pede para acreditar que Deus operou a salvação de todas as pessoas, até certo ponto, mas não salvou ninguém. Ela calunia a justiça de Deus. Cristo satisfez a justiça de Deus para todas as pessoas? Será que Cristo recebeu a devida punição por todas as pessoas? Se sim, como Deus pode ainda punir alguém? É justiça punir uma pessoa pelos pecados de outra e mais tarde punir novamente o infrator inicial? Dupla punição é injustiça.

2- Ela desabilita a divindade de Cristo. Um Salvador derrotado não é Deus. Este erro ensina que Cristo tentou salvar todos, mas não obteve êxito. Ele nega o poder e a eficácia do sangue de Cristo, uma vez que nem todos aqueles por quem Ele morreu serão salvos. Assim, o sangue de Cristo foi desperdiçado quando derramado por Judas e Esaú. Grande parte da sua obra, lágrimas e sangue foi derramada em vão.

3- Ela mina a unidade da Trindade. Assim como os pais devem trabalhar juntos para conduzir uma família com eficácia, assim o Deus Triúno trabalhou, cada uma das três Pessoas, com propósitos e objetivos idênticos. Uma Pessoa não pode ter em mente salvar algumas pessoas, que a outra Pessoa não determinou salvar, mas é exatamente isso que, implicitamente, o universalismo arminiano ensina. Ele nega a eleição soberana do Pai, uma vez que Cristo teria morrido por mais pessoas do que Deus decretou salvar, fazendo, portanto, com que Cristo tenha uma agenda diferente da do Pai. Isso teria sido um anátema para Jesus, que afirmou que todo o seu ministério redentivo foi conscientemente designado para realizar um plano divinamente arranjado (João 6.38-39). Da mesma forma, a redenção arminiana nega o ministério salvador do Espírito Santo, uma vez que afirma que o sangue de Cristo tem uma aplicação mais ampla do que a obra salvífica do Espírito. Qualquer apresentação da salvação que faça com que a obra do Pai ou a obra do Espírito na salvação fiquem eclipsadas pela obra de Cristo contradiz a unidade inerente da Trindade. Deus não pode estar em contradição consigo mesmo. Arminianismo é universalismo inconsistente.

4- Ela rejeita todos os outros pontos do Calvinismo. A visão arminiana da expiação rejeita a doutrina da depravação total do homem, ensinando que o homem possuía dentro de si a capacidade para receber e aceitar a Cristo. Ela rejeita a eleição incondicional, ensinando que Deus elege com base na fé prevista. Ela rejeita a graça irresistível, ensinando que a vontade do homem é mais forte que a vontade de Deus. Ela rejeita a perseverança dos santos, ensinando que o homem pode apostatar da fé.

5- Ela diminui a glória de Deus. Se Deus faz todas as coisas na salvação, Ele recebe toda a glória. Mas se Deus pode fazer muito e não tudo, então a pessoa que completa a aplicação da salvação recebe ao menos alguma glória. É por isso que há tanta ênfase no evangelismo em massa sobre a livre vontade do homem. A expiação universal exalta a vontade do homem e avilta a glória de Deus.

6-  Ela perverte o evangelismo. Hoje em dia ouvimos repetidas vezes mensagens evangelísticas, que dizem: “Cristo morreu por você. O que você vai fazer por Ele?” Porém, nunca encontramos na Bíblia que a alguém seja dito pessoalmente: “Cristo morreu por você”. Em vez disso, encontramos a obra de Cristo explicada e seguida por um chamado a todas as pessoas: “Arrependei-vos e crede no evangelho”. A mensagem não é: “Creia que Cristo morreu por você” ou “Creia que você é um dos eleitos”. A mensagem é: “Creia no Senhor Jesus Cristo e você será salvo”.

7- Ela denigre a eficácia intrínseca da própria expiação. Os arminianos ensinam que a obra de Cristo induz o Pai a aceitar graciosamente o que Jesus realizou no lugar de uma completa satisfação da Sua justiça. É como se Jesus persuadisse ao Pai a aceitar alguma coisa menos do que demandado pela justiça. Foi por isso que Armínio afirmou que quando Deus salvou pecadores, Ele mudou-se do seu trono de justiça para o seu trono de graça. Todavia, Deus não possui dois tronos. O seu trono de justiça é o seu trono de graça (Salmo 85.10). O arminianismo esquece que a expiação não conquista o amor de Deus, mas, sim, que a expiação é a provisão do seu amor.

Por: Joel R. Beek

Ênfases acrescentadas por Evandro Marinho

 

FONTE: Cristão Reformado

ORIGINAL: www.joelbeeke.org/2013/03/954/ (Joel Beeke - Doctrine for Life...)

TÍTULO ORIGINAL: Seven Problems with Arminian Universal Redemption.

TRADUÇÃO: Rev. Alan Renne Alexandrino Lima

terça-feira, 29 de maio de 2012

Deus é (de fato) o Salvador de todos os homens | Cinco Solas



Temos posto a nossa esperança no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, especialmente dos que crêem. 1Tm 4:10 TB

Na falta de versículos que declarem o livre-arbítrio do homem e fazendo pouco caso das várias declarações bíblicas da eleição graciosa e soberana, os arminianos gostam de desafiar os monergistas a explicar passagens que apresentam alguma dificuldade para o esquema calvinista. E é claro, não negamos a existência de dificuldades e reconhecemos que nem sempre temos uma explicação que as remove completamente. Porém, permanece o fato de que o peso das evidências bíblicas em favor da soberania divina na salvação é algo esmagador.


O texto em epígrafe é um dos que apresentam certa dificuldade, embora não seja insuperável. O texto diz que Deus “é o Salvador de todos os homens”, no que enseja muitos a verem nele uma declaração positiva do universalismo, seja real ou hipotético. De qualquer modo, uma explicação universalista não é a única possível, na verdade é a menos provável. 


Paulo usa dez vezes o termo Salvador nas pastorais, seis delas em referência a Deus Pai. Em nove vezes o termo é um título (soteros), mas em uma delas, exatamente no verso em questão, é um predicativo (soter). Creio que isto coloca a ênfase na pessoa de Deus e dá força ao que Ele faz. Quando o texto diz que Deus "é o Salvador de todos os homens, especialmente dos que crêem", está declarando o que Ele efetivamente faz, não o que pode fazer. Dizer que Deus é o Salvador potencial de todos os homens e o Salvador real dos crentes não faz justiça à força da expressão paulina.


Consideremos a hipótese de que Deus é o Salvador no sentido de levar a pessoa para o céu. Temos duas dificuldades aqui. A primeira, é que todos os homens serão levados para o céu, mesmo aqueles que não creem em Cristo, pois Deus é o Salvador de todos eles. A segunda é que a frase "especialmente dos que crêem" fica vazia de sentido, pois se o descrente é levado para o céu, como o crente pode ser "especialmente" levado ao mesmo céu?


Uma explicação mais simples, ao meu ver, pode ser encontrada a partir do significado mais amplo de Salvador e dos versos anteriores, especialmente o 8. A palavra soter também significa libertador, preservador, como atestam inúmeros especialistas. E o verso 8 faz referência à "vida presente e da que há de vir". Neste contexto, é coerente entender que Deus é o Doador e o Preservador da vida de todos os homens, uma vez que "nele vivemos, e nos movemos, e existimos" (At 17:28). E no que diz respeito aos crentes, o cuidado de Deus é especial, pois inclui não apenas suas necessidades físicas, mas também e especialmente seu bem estar espiritual.


Estou ciente que muitos entendem que Deus é o Salvador de todos os homens no sentido de intencionar levar a todos para o céu. Mas isso torna Deus um Salvador potencial, e não um Salvador de fato. E como vimos, o termo Salvador como predicativo requer mais do que apenas querer fazer alguma coisa, mas se refere a quem efetivamente o faz.


Soli Deo Gloria 
Fonte: Cinco Solas