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sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O Fruto do Espírito | William Hendriksen

[...] Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra tais coisas não existe lei” (Gálatas 5:22,23).

Talvez possamos dividir estes noves preciosos dons em três grupos, perfazendo três frutos e cada grupo. Se este for o correto  de forma alguma tem-se certeza! , o primeiro grupo estaria referindo-se às qualidades espirituais mais básicas: amor, alegria, paz. O segundo grupo indicaria aquelas virtudes que se manifestam nas relações sociais. Pressupomos que considera os crentes em seus diversos contatos uns com os outros e com aqueles que não pertencem à comunidade cristã: longanimidade, benignidade, bondade. No último grupo, se bem que aqui há bastante espaço para divergência de opinião, o primeiro fruto poderia referir-se à relação dos crentes com Deus e sua vontade revelada na Bíblia: fidelidade ou lealdade. O segundo, presume-se, teria a ver com seu contato com os homens: mansidão. O último, à relação que cada crente tem consigo mesmo, ou seja, com seus próprios desejos e paixões: domínio próprio.

Encabeçando o primeiro grupo temos “o maior dos três maiores”, ou seja, o amor (1 Coríntios 13; Efésios 5:2; Colossenses 3:14). Para esta virtude, ver 5:6 e 5:13, acima. Não somente Paulo, mas também João estabelece prioridade a esta graça de abnegação (1 João 3:14; 4:8,19). E igualmente Pedro (1 Pedro 4:8). E assim eles estão seguindo o claro exemplo que lhes deu Cristo (João 13:1,34; 17:26). Apesar de que, assim como estas passagens o revelam, dificilmente seria legítimo limitar estritamente esta virtude tão básica ao “amor pelos irmãos”, todavia, por outro lado, no presente contexto (que fala de contendas, disputas e ciúmes, etc., ver também v.14) a referência pode muito bem ser especialmente a este afeto mútuo. Quando o amor se faz presente, a alegria não pode estar muito longe. Não nos disse o autor que o amor é o cumprimento da lei, e que fazer o que a lei de Deus manda traz deleite? (Salmos 119:16,24,35,47,70,174). Além disso, a verdade desta afirmação torna-se ainda mais clara quando se tem em mente que a capacidade para observar esta ordenança divina é um dom de Deus, sendo um elemento daquela maravilhosa salvação que em seu grande amor concedeu gratuitamente a seus filhos. Além disso, já que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Romanos 8:28), faz-se evidente que os crentes podem alegrar-se mesmo diante de circunstâncias as mais dolorosas, assim como Paulo mesmo comprovou muitas vezes (Atos 27:35; 2 Coríntios 6:10 “entristecidos, mas sempre alegres”; 12:9; Filipenses 1:12,12; 4:11; 2 Timóteo 4:6-8). Além do mais, sua alegria não é a deste mundo, que é uma diversão superficial e que fracassa em satisfazer as necessidades mais profundas da alma, mas a de Deus é uma “alegria indizível cheia de glória” (1 Pedro 1:8), e um antecipação da alegria radiante que está reservada para os seguidores de Cristo. A paz também é um resultado natural do exercício do amor, pois “grande paz têm os que amam a tua lei” (Salmos 119:165; cf. 29:11 ; 37:11; 85:8). Esta paz é a serenidade de coração, a porção de todos quantos, tendo sido justificados mediante a fé (Romanos 5:1), aspiram ser instrumentos nas mãos de Deus para fazerem que outros também possam compartilhar desta tranqüilidade. Portanto, o possuidor da paz torna-se também um promotor da paz (Mateus 5:9). Portanto, aquele que está realmente consciente desta grandiosa dádiva da paz, a qual recebeu de Deus como resultado da amarga morte de Cristo na cruz, envidará todo esforço para “preservar  dentro da comunidade cristã  a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Efésios 4:3).

A menção da paz é, por assim dizer, um liame natural entre o primeiro e o segundo grupo, porquanto esta virtude é com frequência contrastada com as contendas entre os homens, e porque este segundo grupo descreve aquelas virtudes que os crentes revelam em seus contatos entre si e com os demais homens. O primeiro dos frutos do Espírito mencionados neste segundo grupo é a longanimidade. Ela caracteriza a pessoa que, em relação àqueles que a aborrecem, se lhe opõem ou a molestam, exerce a paciência. Ela se recusa a entregar-se à paixão ou às explosões de ira. A longanimidade ou paciência não é apenas um atributo humano, mas também divino, visto que o mesmo é atribuído a Deus (Romanos 2:4; 9:22) e a Cristo (1 Timóteo 1:16), bem como ao homem (2 Coríntios 6:6; Efésios 4:2; Colossenses 3:12,13; 2 Timóteo 4:2). Como atributo humano, é inspirado pela confiança de que Deus cumprirá suas promessas (2 Timóteo 4:2,8; Hebreus 6:12). Os gálatas necessitavam muitíssimo de que se pusesse ênfase nesta virtude, já que eles, como já vimos, provavelmente estavam se dividindo pelas contendas e por um espírito partidário. Por outro lado, a longanimidade é uma grande arma contra a hostilidade do mundo em sua atitude para com a igreja. De mãos dadas com essa virtude está a benignidade. Esta é suave e terna. Os primeiros cristãos se recomendavam por meio dela (2 Coríntios 6:6). Este fruto, tal como exercido pelos crentes, nada mais é do que um pálido reflexo da benignidade primordial manifestada por Deus (Romanos 2:4; cf. 11:22). Além disso, somos admoestados a tornar-nos como Ele neste aspecto (Mateus 5:43-48; Lucas 6:27-38). Os Evangelhos contêm numerosas ilustrações da benignidade que Cristo demonstrou para com os pecadores. Para mencionar apenas algumas, ver Marcos 10:13-16; Lucas 7:11-17, 36-50; 8:40-56; 13:10-117; 18:15-17; 23:34; João 8:1-11; 19:25-27. A virtude que completa este grupo é a bondade, que é a excelência moral e espiritual, em todos os aspectos, criada pelo Espírito. No presente contexto, visto que é mencionada depois da benignidade, se refere especialmente à generosidade de coração e de ações.

Finalmente, o apóstolo menciona as três graças que concluem todo o sumário. Primeiro está a fidelidade. O termo como usado no original com freqüência se traduz corretamente pela palavra . Todavia, uma vez que aqui aparece depois de “benignidade” e “bondade”, parece ser mais correto traduzir-se por “fidelidade”. O seu significado é lealdadefidelidade. Uma vez que nesta mesma carta Paulo se queixa da falta de fidelidade para com ele, o que foi demonstrado através da conduta de muitos dos gálatas (4:16), percebemos que a menção desta virtude, aqui, é algo bastante apropriado. Contudo, em última análise não era tanto para com o próprio Paulo que havia falta de lealdade, e, sim, para com o evangelho  e, assim, para com Desu e sua Palavra , e tinha estado faltando em proporção elevada, como fica evidenciado por 1:6-9; 3:1; 5:7. Conseqüentemente, com toda probabilidade o que Paulo está recomendando aqui, como um fruto do Espírito, é a fidelidade a Deus e à sua vontade. Contudo, isto não exclui, antes inclui, a lealdade para com os homens. Parece-nos apropriado interpretar aqui o próximo item, ou seja, a mansidão, como sendo a gentileza uns para com os outros e para com todos os homens, principalmente se levarmos em consideração o contexto precedente, o qual fala das dissensões em suas várias manifestações (ver vv. 20 e 21). Cf. 1 Coríntios 4:21. Esta virtude também nos faz lembrar de Cristo (Mateus 11:29; e 2 Coríntios 10:1). A mansidão é o oposto extremo da veemência, da violência e da agressividade ou explosões de ira. A última virtude que Paulo menciona, e por implicação recomenda, é o domínio próprio, que é uma relação que alguém mantém consigo mesmo. A pessoa que tem a bênção de possuir esta qualidade, possui “o poder de conter-se a si mesma”, que é o sentido do termo usado no original. O fato de terem sido mencionadas previamente, entre os vícios enumerados (v. 19), a imoralidade, a impureza e a indecência, revela que era apropriado mencionar o domínio próprio como a virtude oposta. Fica claro que aqui temos referência a muito mais coisas que simplesmente a sexo. Aqueles que realmente exercem esta virtude levam todo o pensamento à submissão e obediência a Cristo (2 Coríntios 10:5).
E prossegue: contra tais coisas não existe lei. Uma vez que Paulo aqui completou uma lista de virtudes, que são coisas, não pessoas, é natural interpretar suas palavras como significando: “contra tais coisas  tais virtudes  não existe lei”. A gramática não proíbe tal construção. Também é óbvio que, à semelhança dos vícios enumerados, esta lista de virtude é apenas representativa. Não podemos mesmo afirmar que todas as excelências cristãs estão incluídas na lista. Portanto, Paulo diz: “contra tais... Ao dizer que contra tais coisas não existe lei, ele está encorajando a cada crente a manifestar estas qualidades, a fim de que, assim procedendo, os vícios possam ser aniquilados”.

incentivo de que precisamos para exibir estes excelentes traços do caráter foi fornecido por Cristo, pois é devido à gratidão que os crentes sentem para com Cristo que os usam para adornar sua conduta. O exemplo, também, em conexão com todos eles, foi dado por ele. E as próprias virtudes, associadas ao poder para exercê-las, são doadas pelo seu Espírito.

Embora Paulo tenha qualificado as virtudes enumeradas de “o fruto do Espírito”, agora ele desvia a ênfase do Espírito para Cristo. Se ele pôde fazer isso tão prontamente, é devido ao fato de que quando o Espírito ocupa o coração, Cristo também o faz (Efésios 3:16,17). Cristo e o Espírito não podem ser separados entre si. Cristo mesmo habita a vida interior dos crentes “no Espírito” (Romanos 8:9,10). O Espírito não foi dado por Cristo? (João 15:26; 2 Coríntios 3:17). A razão para esta mudança de ênfase é que o apóstolo lembrará os gálatas de que eles crucificaram a carne. Isso, naturalmente, chama a atenção imediatamente para Cristo e sua cruz. E assim Paulo prossegue [...]


Fonte: Extraído do excelente comentário de Gálatas de William Hendriksen, publicado pela Editora Cultura Cristã, páginas 321-325. Compre aqui!


sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Esforce-se para descansar | Jon Bloom

Se a Graça É um Favor Imerecido, Por Que Precisamos Nos esforçar?

O evangelho não é um convite para que nos aproximemos de Jesus e recebamos sua graciosa, inestimável e benevolente dádiva da salvação? Sim:

“Porque pela graça vocês foram salvos por meio da fé. E isso não é obra de vocês, é dom de Deus, não resultado de obras, para que ninguém se glorie.” (Ef. 2:8–9, NVI).

O evangelho não é um convite para que venhamos a Jesus para sermos aliviados dos fardos de nossas almas e recebermos seu incomparável descanso? Sim:

“― Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para a alma. Pois o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” (Mt. 11:28–30).

Então, como podemos conciliar essas declarações maravilhosas e reconfortantes sobre a passividade do evangelho com as seguintes exortações à ação rigorosa e incômoda da santificação?

“― Se alguém quiser vir após mim, negue se a si mesmo, tome a sua cruz e siga me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá, mas quem perder a própria vida por minha causa a encontrará.” (Mt. 16:24–25).
“Portanto, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês.” (Col. 3:5).
Ponham em prática a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem produz em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele.” (Filip. 2:12–13).
Portanto, esforcemo-nos para entrar nesse descanso [de Deus], a fim de que ninguém venha a cair, seguindo aquele exemplo de desobediência [como a da geração de Moisés].” (Heb. 4:11).
Busquem... a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor. Tomem cuidado para que ninguém se afaste da graça de Deus.” (Heb. 12:14–15).
Combata o bom combate da fé. Tome posse da vida eterna, para a qual você foi chamado.” (1 Tim. 6:12).

Como pode o recebimento passivo do “dom indescritível” da graça de Deus (2 Cor. 9:15), que Jesus obteve integralmente para nós por meio de sua obra de redenção (Rom. 3:23-24; Ef. 2:8–9; Gál. 6: 14), a fim de nos libertar de nossas próprias obras sem esperança, para que, pela fé, possamos descansar em Cristo (Mt. 11:28–30; Rom. 11:6; Gál. 3:2–3), exigir nosso ativo “avançando” e “prosseguir[indo] para alcança-lo” (Filip. 3:12–14)?

Se a salvação é um dom gratuito e gracioso de Deus para nós e “não é resultado de [nossas] obras”, por que precisamos “pôr em prática [nossa] salvação”? Será que isso é apenas a Bíblia falando da boca para fora?

Não. Estamos simplesmente nos deparando com uma genialidade de proporções surpreendentes – o projeto paradoxal de nossa redenção. Se o examinarmos com cuidado, veremos a peculiar, autoafirmativa e reveladora glória de Deus neste plano de salvação, um plano que os seres humanos não pensariam em inventar (e que nunca foi inventado em nenhuma religião criada pelo homem).

Genialidade Surpreendente

Gostaria de destacar apenas um aspecto dessa glória. Embora sejamos salvos pela graça incondicional e eletiva de Deus (Ef. 1:4; 2:5), por meio do dom gratuito da fé (Ef. 2:8), as obras que nossa fé produz provam que nossa fé é real (Tg. 2:18). A fé é o dom gratuito da eleição; as obras são a evidência dessa eleição.

É por isso que, por um lado, Jesus diz: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair” (Jo. 6:44) – a dádiva gratuita da eleição – e, por outro lado, ele diz: “Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos.” (Jo. 14:15) – a evidência da eleição. Ele une as duas coisas quando diz: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz (eleição), e eu as conheço, e elas me seguem (evidência)” (Jo. 10:27).

A genialidade do projeto de Deus aqui é vista em algumas das parábolas de Jesus. Ele diz que quando a rede do evangelho é lançada no mar do mundo, ela “apanha toda sorte de peixes” (Mt. 13:47), alguns justos e outros maus. A igreja visível é sempre uma pescaria mista, ou sempre tem joio no meio do trigo (Mt. 13:24–30), ou sempre tem bodes no meio das ovelhas (Mt. 25:31–46). O que distingue os eleitos dos outros é sua fé dada por Deus, demonstrada por suas obras dependentes de Deus (Tg. 2:14–26; 1 Jo. 3:10). A fé opera por meio do amor (Gál. 5:6).

Falar é fácil. Jesus disse: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mt. 7:21).

Garanta Sua Escolha

Há muito mais glória a ser vista nesse projeto brilhante e paradoxal, que é o dom gratuito da graça salvadora de Deus, o qual se manifesta por meio de nossa vontade e obras (Filip. 2:13)! Poderíamos explorar como isso mostra a sabedoria e o poder de Deus de maneiras completamente imprevistas para os seres humanos orgulhosos (1 Cor. 1:27–31; 2:8), ou como isso dá testemunho público da realidade e do evangelho de Jesus (Jo. 13:35), ou como isso fortalece nossa fé concedida por Deus, aumenta nossa alegria Nele e nos santifica (Tg. 1:2–4; Heb. 12:11). Mas isso é assunto para outros artigos.

Não há contradição nos convites do evangelho para recebermos passivamente a dádiva gratuita da salvação de Deus e nas exortações do evangelho para que prossigamos para nos apropriarmos dessa dádiva. Nossas obras não são decisivas para nossa salvação. Elas são evidências da obra salvadora de Deus em nós.

E é por isso é dito “empenhem-se ainda mais para consolidar o [nosso] chamado e eleição” (2 Ped. 1:10), trabalhando em nossa salvação com temor e tremor.

sexta-feira, 15 de março de 2024

O DOM DE FICAR SOLTEIRO E PURO | Augustus Nicodemus

Em sua primeira carta aos Coríntios o apóstolo Paulo procura responder várias perguntas que eles haviam enviado sobre temas como alimentos sacrificados aos ídolos e dons espirituais. Entre as perguntas, havia algumas sobre o que seria melhor, casar ou ficar solteiro? Diante das circunstâncias que cercavam a igreja cristã naquela época, entre elas o risco permanente de prisão, tortura e morte por causa do Evangelho, Paulo responde assim:

"Quero que todos os homens sejam tais como também eu sou; no entanto, cada um tem de Deus o seu próprio dom; um, na verdade, de um modo; outro, de outro. E aos solteiros e viúvos digo que lhes seria bom se permanecessem no estado em que também eu vivo. Caso, porém, não se dominem, que se casem; porque é melhor casar do que viver abrasado" (1Co 7.7-9).

Eu gostaria de me deter no fato que Paulo se refere aos estados civis de casado ou solteiro como sendo um “dom” da parte de Deus. A palavra que ele usa para “dom” aqui é a mesma que ele usa para se referir aos dons espirituais (veja 1Co 12.4, 9, 28, etc.). Paulo não era casado. Não sabemos ao certo se era solteiro ou viúvo. É possível ainda que ele tinha sido casado, mas que sua esposa o abandonou por pressão da sinagoga após ele se tornar cristão. De qualquer forma, Paulo estava só e até mesmo queria que os cristãos de Corinto seguissem o seu exemplo em não procurar casamento (1Co 7.7). É claro que essa orientação, como já dissemos, se devia ao que Paulo chama de “angustiosa situação presente” (veja 1Co 7.26). 

Portanto, não podemos afirmar que, em qualquer situação, ficar solteiro sempre é melhor. Mas podemos afirmar outras coisas.

Primeira, está implícito que ficar solteiro inclui a abstinência sexual. É o que chamamos de celibato: solteiro e puro sexualmente. 

Segunda, o celibato deve ser visto como um dom da parte de Deus. Infelizmente, muitos que não casaram se sentem diminuídos e se achando inferior aos outros como se ficar solteiro representasse um fracasso pessoal. Se essas pessoas entenderem o celibato como um dom da parte de Deus, terão uma perspectiva melhor de si mesmas e perceberão, como Paulo diz, que “cada um tem de Deus o seu próprio dom; um, na verdade, de um modo; outro, de outro” (1Co 7.7).

Terceira, se é um dom da parte de Deus, significa que podemos aproveitar o fato de que não somos casados para empregar nosso tempo, que de outra forma teria de ser investido no casamento e criação de filhos, em servir ao Senhor mais intensamente. Paulo vai desenvolver esse argumento mais adiante. 

Quarta, se Deus nos conceder o dom do celibato, podemos confiar que ele haverá de suprir as necessidades que estão relacionados ao ficar sem casar, como o necessário controle do impulso sexual. Além disso, os que estão sozinhos precisam encontrar satisfação e contentamento em amizades significativas. Se ficar solteiro é um dom da parte de Deus, podemos confiar que ele haverá de suprir todas essas necessidades.

Por fim, se o celibato é um dom de Deus, não deveríamos pressionar indevidamente os jovens, viúvos e viúvas ou separados a que se casem; e muito menos deveríamos fazer bullying com os jovens adultos que não casaram. Se tiverem oportunidade de se casar, que casem! Casar é uma bênção. Mas nem todos os cristãos irão casar. A igreja e as famílias deveriam entender isso e parar de colocar uma pressão e um estigma na testa dos solteiros adultos e outros que estão sós.

Devemos valorizar o casamento e buscar que os nossos solteiros adultos se casem, mas sempre sabendo que cada um tem de Deus o seu próprio dom. E dessa forma, devemos estar abertos para sugerir aos solteiros adultos a opção do celibato e valorizar igualmente esse dom que vem de Deus.

Augustus Nicodemus

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terça-feira, 10 de outubro de 2023

O Dom de Profecia do Novo Testamento | John Piper

Definição, Teses e Sugestões

Teses

  1. Ainda é válido e útil para a igreja hoje. Esta é a clara implicação de 1 Coríntios 13:8-12 e Atos 2:17-18.
  2. É uma expressão solicitada e sustentada pelo Espírito, que tem sua raiz em uma revelação verdadeira (1 Coríntios 14:30), mas é falível porque a percepção da revelação pelo profeta, e seu raciocínio sobre a revelação, e relato da revelação são todos falíveis. É portanto similar ao dom de ensino, o qual é solicitado pelo Espírito, sustentado pelo Espírito, enraizado em uma revelação infalível (a Bíblia), e ainda assim é falível, mas muito útil à igreja.
  3. Ela não tem uma autoridade equivalente à Escritura, pois a Escritura é verbalmente inspirada, não somente solicitada e sustentada pelo Espírito. As próprias palavras dos autores bíblicos são as palavras de Deus (1 Coríntios 2:13; 2 Timóteo 3:16). Isto não é verdade sobre as palavras que vêm do "dom de profecia."
  4. O dom de profecia do Novo Testamento é uma "terceira categoria" de expressão profética entre as categorias 1) discurso inspirado verbalmente, intrinsecamente oficial, infalível discurso falado pelos semelhantes de Moisés, Jesus e os apóstolos; e 2) o discurso de falsos profetas falado presunçosamente, sem inspiração e passível de condenação (Deuteronômio 18:20). Essas duas categorias (absolutamente infalível versus falso) não esgotam todo o ensino bíblico sobre profecia.

Definição

A profecia nesta "terceira categoria" (o dom de profecia do Novo Testamento) é, de maneira regulada, uma 1 mensagem ou relato em palavras humanas2geralmente feito aos crentes reunidos3 baseado em uma revelação espontânea, pessoal do Espírito Santo4 com o propósito de edificação, encorajamento, consolo, convicção e direção5 mas não necessariamente livre de uma mistura de erro humano, e portanto necessitado de assistência6 com base no ensinamento apostólico (Bíblico)7 e sabedoria espiritual madura.8

Sugestões Práticas

  1. Reconhecer a completa soberania de Deus em livremente distribuir dons a quem ele quer (1 Coríntios 12:11; Hebreus 2:4).
  2. Reconhecer que nem todos se tornarão profetas (1 Coríntios 12:29).
  3. Desejar seriamente este dom (1 Coríntios 14:1,5,39). Orar por isso (1 Coríntios 14:13).
  4. Ser grato pelo dons que tem; usá-los ao máximo; alegrar-se no fato de que outros são diferentes de você; e evitar todo ciúme (1 Coríntios 12:14-29).
  5. Fazer do amor o seu alvo em todas as coisas; compreender que o amor é o grande milagre e o mais seguro sinal da bênção de Deus; crescer mais e mais em direção à maturidade bíblica sólida, estável (1 Coríntios 14:1,12,26,37; 2:14).
  6. Reunir a coragem para falar com ousadia sobre o que crê (com mais ou menos confiança) pode ser dada a você pelo Senhor em encontros voltados para esta expressão menos estruturada (1 Coríntios 14:26).
  7. Ter modestas expectativas de que a profecia não será tomada como uma palavra da Escritura, mas como uma palavra humana impelida pelo Espírito, a ser pesada pela Escritura, e por sabedoria espiritual madura. Para uma profecia ser aceita como válida ela deve encontrar um eco nos corações de pessoas espiritualmente maduras. Ela deve ser confirmada por uma compreensão biblicamente saturada. E ela deve encontrar ressonância nos corações e mentes daqueles que têm a mente de Cristo e são dirigidos por sua paz. (1 Tessalonicenses 5:19-21; Colossenses 1:9; 3:15; Efésios 5:15-17; Romanos 12:1-2; Filipenses 1:9-10).


1 1 Coríntios 14:32
2 1 Coríntios 14:3,29; Atos 21:4,11
3 1 Coríntios 14:4
4 1 Coríntios 14:30; Lucas 7:39; 22:64; João 4:19
5 1 Coríntios 14:3, 24-25; Atos 21:4; 16:6-10
6 1 Tessalonicenses 5:19-20; 1 Coríntios 14:29
7 1 Coríntios 14:36-38; 2 Tessalonicenses 2:1-3
8 Colossenses 1:9

Por John Piper

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sábado, 13 de julho de 2013

Os dons espirituais, dádivas de Deus à igreja | Rev. Hernandes Dias Lopes

images (1)Os dons espirituais são uma dádiva de Deus à sua igreja. Dádivas do Pai (1Co 12.6), dádivas do Filho (1Co 12.5) e dádivas do Espírito Santo (1Co 12.7).

Os dons espirituais são uma capacitação especial para o desempenho de um serviço ou ministério. Não há nenhum membro do corpo de Cristo sem dons e nenhum membro do corpo possui todos os dons.

Os dons espirituais não são distribuídos pela igreja, mas pelo Espírito Santo, conforme sua vontade e seus propósitos soberanos (1Co 12.11). O apóstolo Paulo usou quatro verbos-chaves que ilustram a soberania de Deus na distribuição dos dons espirituais. O Espírito Santo distribui (1Co 12.11), Deus dispõe (1Co 12.18), Deus coordena (1Co 12.24) e Deus estabelece (1Co 12.28). Do começo ao fim Deus está no controle. É Deus quem estabelece o corpo e quem coloca cada membro do corpo e distribui cada dom a cada pessoa conforme o seu propósito e soberana vontade. Do começo ao fim Deus está no controle. É isso que Paulo ensina à igreja. O propósito dos dons, portanto, não é para a exaltação de quem o exerce, mas para o serviço aos demais membros do corpo e tudo para a glória de Deus.

Quando Paulo fala da mutualidade do corpo, exorta a igreja sobre quatro questões importantes:

Em primeiro lugar, o perigo do complexo da inferioridade. Paulo escreve: "Se disser o pé: porque não sou mão, não sou do corpo; nem por isso deixa de ser do corpo. Se o ouvido disser: Porque não sou olho, não sou do corpo; nem por isso deixa de o ser" (1Co 12.15,16).

Quando alguém reclama de não ter este ou aquele dom espiritual, está questionando a sabedoria de Deus. Isso é questionar a unidade do corpo. Nenhum membro da igreja deve se comparar nem se contrastar com outro membro da igreja. Você é único. Você é singular no corpo. Deus colocou você no corpo como lhe aprouve.

Em segundo lugar, o perigo do complexo de superioridade. O apóstolo Paulo afirma: "Não podem os olhos dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não preciso de vós. Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos são necessários" (1Co 12.21,22).

A igreja de Deus não tem espaço para disputa de prestígio. A igreja não é uma feira de vaidades. Nenhum membro da igreja pode envaidecer-se pelos dons que recebeu, pois tudo que temos, recebemos de Deus e ninguém pode vangloriar-se por aquilo que recebeu (1Co 4.7).

Em terceiro lugar, a necessidade da mútua cooperação. Paulo ainda prossegue em seu argumento: "Para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros" (1Co 12.25). A igreja é como uma família. Na igreja cada um está buscando meios e formas de cooperar, de ajudar, de abençoar, de enlevar, de edificar a todos.

O propósito do dom é para que não haja divisão no corpo. Você não está competindo nem disputando com ninguém na igreja, mas cooperando.

Em quarto lugar, a necessidade de empatia na alegria e na tristeza. Paulo escreve: "De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam" (1 Co 12.26). A psicologia revela que é mais fácil chorar com os que choram do que se alegrar com os que se alegram. São poucas as pessoas que têm a capacidade de celebrar a vitória do outro. Precisamos aprender a ter empatia, a sofrer com os que sofrem e a nos alegrarmos com os que se alegram.

Não estamos num campeonato dentro da igreja disputando quem é o mais talentoso, o mais dotado, o mais espiritual. Somos uma família, somos um corpo. Devemos celebrar as vitórias uns dos outros e chorar as tristezas uns dos outros.

Rev. Hernandes Dias Lopes

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O que a Bíblia diz sobre: Dom de Línguas e Batismo do Espírito Santo | Pr. Wilson Porte Jr.

Por: Wilson Porte Jr. 

Fonte: Igreja Batista Liberdade

O que a Bíblia diz sobre o Batismo do Espírito Santo e o Dom de Línguas? Nesta pregação, Pr. Wilson analisa o texto bíblico e o compara com as "manifestações" extraordinárias de nossos dias.

domingo, 11 de março de 2012

Pneumatologia Reformada, de Verdade! Definições e Desafios Contemporâneos | Augustus Nicodemus Lopes

O que é ser "reformado"?

A primeira questão com a qual nos defrontamos ao abordar o tema desse pequeno ensaio é a de definir exatamente sobre o que estamos falando. O nosso assunto gira em torno da compreensão reformada sobre a pessoa e a obra do Espírito Santo. Mas, o que queremos dizer por "reformada"?

Não existe unanimidade entre os que se consideram herdeiros da Reforma protestante quanto ao sentido do termo. Historicamente, o termo "reformados" foi usado a princípio indistintamente para todos os protestantes, calvinistas, luteranos e zwinglianos. Com as controvérsias entre eles sobre a Ceia, "reformados" passou a designar zwinglianos e calvinistas somente, em contraponto aos luteranos. E com o arrefecimento da importância de Zwinglio no cenário protestante, "reformados" passou a designar os calvinistas. Portanto, é historicamente correto afirmar que um entendimento reformado sobre o Espírito Santo tem a ver primaria e basicamente com a teologia calvinista sobre o Espírito Santo. Hoje em dia, muitas igrejas e denominações se utilizam do nome "reformada", mesmo que já tenham abandonado em grande medida partes fundamentais da teologia calvinista, inclusive a pneumatologia. O mesmo acontece com alguns pastores que consideram-se reformados apesar do fato de que não são calvinistas em sua doutrina. Assim, embora para alguns hoje ser reformado seja pertencer a uma igreja que historicamente descende da reforma protestante, ou ainda manter o espírito reformista que marcou os reformadores, é mais exato dizer que o conceito está ligado às principais convicções doutrinárias dos reformadores, particularmente às de João Calvino.

Consequentemente, uma pneumatologia reformada é necessariamente aquela adotada pelas igrejas que são herdeiras do Cristianismo bíblico. É uma pneumatologia originada nas Escrituras e defendida por Agostinho, Calvino, e os puritanos, tendo sua expressão adequada nas confissões de fé reformadas. É uma pneumatologia derivada de uma leitura das Escrituras a partir dos pressupostos principais que guiaram esses homens, a começar com o alto apreço pelas Escrituras como Palavra de Deus, inspirada e infalível, e única regra de fé e prática da Igreja. À luz desta visão podemos definir pneumatologia reformada como sendo aquela compreensão da pessoa e da obra do Espírito Santo que parte da revelação divina grafada nas Escrituras, lida e interpretada da ótica da hermenêutica reformada, tendo como alvo a glória de Deus e o avanço do seu reino neste mundo.

Se considerarmos que apenas os que se mantém leais aos principais pontos da doutrina calvinista podem ser realmente chamados de reformados, verificaremos que são poucos os verdadeiros reformados. Escreve o ex-calvinista Clark Pinnock:

Tenho a forte impressão, confirmada até mesmo pelos que discordam dela, que o pensamento de Agostinho está perdendo sua influência nos evangélicos de hoje. Não são apenas os evangelistas que estão pregando um evangelho arminiano. É difícil até mesmo achar um teólogo calvinista hoje que esteja disposto a defender a teologia reformada em seus detalhes mais peculiares, em particular as opiniões de Calvino e Lutero. Eu não estou sozinho, especialmente agora que Gordon Clark faleceu e John Gerstner aposentou-se.

Numa época em que o número de "reformados" comprometidos com a teologia calvinista é tão pequeno, não é de se estranhar que tendências teológicas, filosóficas e hermenêuticas, trazidas no bojo do pós-modernismo e do crescente movimento neopentecostal, se infiltrem nas igrejas historicamente reformadas, e descaracterizem, onde aceitas, a compreensão correta acerca do Espírito Santo. Tais ameaças já estão presentes, e que aparentemente vieram para ficar por um longo tempo. Entende-las agora é essencial para a preservação da identidade reformada quanto à obra do Espírito Santo no mundo e na Igreja. No que se segue, procuro detectar e analisar alguns destes desafios

O Desafio Teológico: Pelagianismo

O que é o Pelagianismo? 

O primeiro desafio vem da área teológica, representado pelo pelagianismo, heresia antiga e já condenada pela Igreja, mas jamais erradicada do seu meio. O pelagianismo sustenta basicamente que todo homem nasce moralmente neutro, e que é capaz, por si mesmo, sem qualquer influência externa, de converter-se a Deus e obedecer à sua vontade, quando assim o deseje. Uma das grandes disputas durante a Reforma protestante versou sobre a natureza e a extensão do pecado original. Ele afetou Adão somente, ou todo o gênero humano? A vontade do homem decaído é ainda livre ou escravizada ao pecado? No século V Pelágio havia debatido ferozmente com Agostinho sobre este assunto. Agostinho mantinha que o pecado original de Adão foi herdado por toda a humanidade e que, mesmo que o homem caído retenha a habilidade para escolher, ele está escravizado ao pecado e não pode não pecar. Por outro lado, Pelágio insistia que a queda de Adão afetara apenas a Adão, e que se Deus exige das pessoas que vivam vidas perfeitas, Ele também dá a habilidade moral para que elas possam fazer assim. Ele reivindicou mais adiante que a graça divina era desnecessária para salvação, embora facilitasse a obediência.

Agostinho teve sucesso refutando Pelágio, mas o pelagianismo não morreu. Várias formas de pelagianismo recorreram periodicamente através dos séculos. Lutero escreveu um livro "A Escravidão da Vontade" em resposta a uma diatribe de Erasmo, onde o mesmo defendia conceitos pelagianos. Lutero acreditava que Erasmo era "um inimigo de Deus e da religião Cristã" por causa do ensino dele sobre o pecado original. É bom notar que o Catolicismo medieval, sob a influência de Aquino, adotara um semi-pelagianismo, mesmo que na antigüidade houvesse rejeitado o pelagianismo puro. Neste sistema, acreditava-se que o homem cooperava com a graça de Deus para a salvação.

No século XVIII, uma forma nova e levemente modificada de pelagianismo, apareceu, que foi o arminianismo. Existem algumas diferenças entre as duas posições, mas ambas são sinergistas (o homem coopera para sua salvação) e mantém o mesmo conceito de fé (uma decisão puramente humana de receber a Jesus Cristo, e não como um dom misericordioso de Deus).

A influência de Charles Finney

No século XIX, o evangelista americano Charles Grandison Finney reavivou o puro pelagianismo. Ele repudiou abertamente quase todas as principais doutrinas calvinistas (mesmo que tenha sido ordenado na Igreja Presbiteriana), em particular a doutrina de pecado original e da depravação total. É um grave erro histórico e teológico considerar Finney como "reformado" (alguns, exagerando, diga-se, nem desejam considerá-lo como evangélico). A metodologia evangelística de Finney teve tanto êxito, que ele se tornou um modelo para os evangelistas mais recentes. Embora o evangelicalismo americano não tivesse aceitado integralmente o pelagianismo de Finney, abraçou, entretanto, sua metodologia, uma forma de semi-pelagianismo que infectou a alma da sua teologia até o dia de hoje. Vários movimentos nasceram conscientemente da teologia de Finney, como a teoria do governo moral.

Ameaças à doutrina do Espírito Santo

O pelagianismo, em suas variadas formas contemporâneas, ameaça a doutrina reformada do Espírito Santo especialmente nas áreas da regeneração e da chamada eficaz, das seguintes maneiras:

a) Reduz a regeneração do pecador a uma decisão de sua própria vontade. Finney rejeitou a idéia de que a regeneração fosse um milagre, uma transformação sobrenatural produzida pela ação soberana do Espírito no coração dos eleitos. Para ele, regeneração era a decisão do pecador em se voltar para Deus e obedecê-lo. Não poderia haver nenhuma transformação miraculosa, pois não havia o que transformar, já que o pecador é moralmente capaz de obedecer a Deus. Após a negação de pecado original, foi somente um passo para que Finney negasse a doutrina da regeneração sobrenatural. O sermão mais popular de Finney, pregado na Igreja da Rua do Parque, em Boston, foi intitulado "Os Pecadores Devem Mudar os Próprios Corações". Para ele, não há nada na religião que ultrapasse os poderes ordinários de natureza. "Religião é obra do homem", disse ele. "Consiste tão somente no emprego apropriado dos poderes naturais. É somente isso e nada mais"

b) Reduz a chamada eficaz do Espírito Santo a uma mera persuasão moral. Para Finney, a obra do Espírito limita-se ao exercício de influências morais no pecador, mas "a conversão em si ... é ato do próprio pecador", afirma ele em sua Teologia Sistemática (p. 236). O ensino calvinista é que o Espírito de Deus, através do ministério da Palavra, chama irresistivelmente o eleito, regenerando-o e assim habilitando-o a responder positivamente em fé à oferta das boas novas do Evangelho. Essa chamada é irresistível, embora não se constitua uma violação da vontade do pecador. No conceito pelagiano (ou semi-pelagiano), o Espírito de Deus apenas se esforça para persuadir os pecadores, cabendo a estes em última análise a decisão e a capacidade de converter-se e tornar para Deus, exercendo fé em Cristo.

O desafio do pelagianismo em suas formas contemporâneas para a identidade reformada é alarmante. O pentecostalismo, em seu crescimento assombroso na América Latina e no Brasil, traz em seu bojo, além de várias outras ameaças e desafios, os principais conceitos do antigo pelagianismo, e desafia as igrejas reformadas a rever o conceito calvinista da atuação do Espírito Santo na regeneração e salvação do pecador. Os pentecostais são hoje mais de 450 milhões no mundo. Com o crescimento do pelagianismo no Brasil, a identidade reformada das igrejas que assim se consideram fica ameaçada, no que respeita à obra do Espírito Santo na conversão dos pecadores.

Mas o desafio maior vem de dentro das próprias igrejas históricas. Não são muitos os "reformados" que aderem coerentemente à doutrina calvinista da depravação total. Embora possam afirmá-la em princípio, acabam sendo incoerentes por também acreditar que o pecador tem a "capacidade moral de se voltar para Deus". Praticamente ninguém hoje declararia, "eu sou um pelagiano, ou semi-pelagiano", primeiro, por que toda a Cristandade condenou no passado essa heresia, e segundo, por que poucos que adotam esta linha têm idéia do que o pelagianismo significa. Muitos ministros de igrejas reformadas provavelmente ofereceriam as respostas corretas em um exame teológico, entretanto, operam em seus ministério como se essas convicções não tivessem absolutamente nenhuma conseqüência.

Os Desafios Filosóficos: Pluralismo e Pragmatismo

O pluralismo religioso

Um outro desafio de imensas proporções vem de duas filosofias características do período pós-moderno em que vivemos. A primeira delas é o pluralismo. Como o nome já indica, essa filosofia defende a pluralidade da verdade, ou seja, que não existe uma verdade absoluta, mas sim verdades diferentes para cada pessoa. Esse conceito é ambíguo, mas definitivamente já faz parte integrante da nossa cultura presente. Ele defende o relacionamento de pessoas com ideologias diferentes, sem que uma tenha de sujeitar suas convicções ao domínio da outra. A idéia de converter alguém às suas próprias convicções é politicamente incorreto. A chave está na valorização da negociação e da cooperação em lugar de se tentar provar que se está certo ou errado.

O pluralismo religioso, por sua vez, prega o abandono da "arrogância" teológica do cristianismo, nega que exista verdade religiosa absoluta, e exalta a experiência religiosa individual como critério último para cada um. Por exemplo, o padre católico Raimundo Panikkar, descendente de hindus, escreveu um artigo onde defende que isolacionismo já não é mais possível na sociedade globalista em que vivemos. Embora afirme que aceitar o pluralismo religioso não signifique o mesmo que aceitar o relativismo, deixa claro que a experiência religiosa individual é a chave para a convivência pluralista. Diz ele, "No momento eu estou experimentando o amor de Deus por mim em Cristo Jesus, e por este motivo eu sei com perfeita clareza que ele é o caminho, a verdade e a vida".

O pluralismo religioso defende uma nova teoria missiológica, onde não mais se prega a necessidade de conversão de outras religiões ao cristianismo, e sim a cooperação entre todas as religiões, naquilo que têm em comum. O pressuposto é que o cristianismo não é o único caminho para Deus, embora seja o melhor, e que Deus está agindo salvadoramente no âmbito de outras religiões, como as religiões orientais.

O pragmatismo religioso

A outra filosofia é o pragmatismo. Seu popularizador, o psicólogo americano William James, afirmou que idéias humanas eram verdadeiras se funcionassem ou fossem úteis para resolver problemas. Já que o funcionamento e utilidade das idéias variam de contexto para contexto, segue-se que a verdade é relativa. No dizer de Francis Schaeffer, é um sistema de pensamento que faz das conseqüências práticas de uma crença o critério supremo da sua verdade. O pragmatismo dominou rapidamente a cultura americana e estendeu-se para além das suas fronteiras. Adotar as coisas que realmente preservam a paz individual e uma situação financeira confortável, sem qualquer preocupação com princípios fixos de certo ou errado é evidentemente a idéia que controla procedimentos internacionais, domésticos e individuais. Princípios absolutos tem pouco ou nenhum lugar no pensamento ocidental moderno.

Não devemos, portanto, pensar que o pragmatismo é um fenômeno ocidental. Seu princípio fundamental é inerente ao coração humano. Uma das quatro premissas básicas do substrato filosófico e religioso da Ásia, por exemplo, pode ser resumida neste parágrafo: "É direito de cada pessoa religiosa aceitar e praticar qualquer maneira de viver que achar útil ao seu modo de pensar e às suas circunstâncias sociais peculiares".

Desafios do Pluralismo e do Pragmatismo para a doutrina do Espírito Santo

O pluralismo e o pragmatismo andam geralmente de mãos dadas. Onde o conceito de verdade absoluta deixa de existir (pluralismo), as pessoas e as organizações passam a orientar as suas decisões em termos daquilo que mais satisfaz as suas necessidades (pragmatismo). A combinação destas duas filosofias aparece claramente em vários movimentos presentes nas igrejas evangélicas, e representam um novo desafio ao cristianismo em geral e aos calvinistas em particular. A pergunta que as pessoas fazem com relação ao cristianismo não é se ele é a verdade ou não, mas simplesmente se funciona. Elas querem saber se vai mudar a vida delas para melhor, se Cristo realmente é poderoso para transformá-las, e pode dar-lhes paz, alegria, esperança e propósito às suas existências.

Ambas as filosofias trazem sérios desafios a alguns aspectos da pessoa e obra do Espírito Santo:

1) Quanto à extensão da operação ou atividade salvadora do Espírito Santo. O calvinismo ensina uma distinção nas operações do Espírito Santo, que está relacionada com os conceitos de graça comum e de graça especial. A graça comum refere-se à atuação do Espírito Santo no mundo em geral, preservando valores morais e trazendo benefícios materiais, sobre todos os homens indistintamente de suas crenças religiosas. A graça especial refere-se à operação salvadora do Espírito, restrita apenas aos eleitos, regenerando-os, iluminando-os e santificando-os pelo Evangelho de Cristo. O pluralismo religioso ameaça esse conceito, pois ensina que o Espírito de Deus age salvadoramente em todos os homens indistintamente de suas religiões, sem se restringir ao âmbito do cristianismo. Um exemplo de pluralista cristão que defende esse ponto é o ex-calvinista Clark Pinnock.

2) Quanto à relação entre a Palavra e o Espírito. O calvinismo ensina a relação indissolúvel entre a atuação do Espírito Santo e a Palavra de Deus. O Espírito atua graciosamente através da Palavra; por sua vez, a Palavra funciona como critério para reconhecermos a atividade do Espírito, em contraste com a atividade de espíritos malignos ou do espírito humano. O pluralismo e o pragmatismo ameaçam este conceito. O primeiro, porque divorcia a atuação salvadora do Espírito da verdade bíblica, como vimos no item anterior. E o segundo por enfatizar a validade de experiências religiosas à parte de seus conteúdos teológicos, ameaçando assim da mesma forma a relação entre o Espírito e a Palavra.

3) Quanto à soberania do Espírito de Deus em converter pecadores e aumentar a Igreja. Segundo o ensino calvinista, o aumento da Igreja através da conversão de pecadores é uma obra soberana do Espírito Santo, através dos meios secundários que Deus mesmo determinou. A Igreja deve evangelizar ardorosamente, dependendo porém da operação soberana do Espírito Santo quanto aos resultados. O pragmatismo representa um desafio para essa convicção calvinista, pois enfatiza o emprego de métodos, estratégias e técnicas tiradas do marketing secular e de ciências sociais como sociologia e psicologia, através das quais a igreja poderá crescer. O sucesso ou fracasso de igrejas locais no aumentar o número de seus membros é relacionado, não à soberania do Espírito de Deus, mas ao uso desses métodos. Embora calvinistas defendam o planejamento das atividades missionárias e evangelísticas da Igreja, têm entretanto sérias reservas quanto ao planejamento de resultados, uma estratégia que faz parte do pragmatismo do moderno movimento de crescimento de igrejas.

Influência generalizada do pluralismo e do pragmatismo entre os protestantes

O pluralismo e o pragmatismo têm infectado o cristianismo mundialmente. O tema da salvação em outras religiões foi discutido recentemente na Assembléia Geral do Concílio Mundial de Igrejas. O relatório apresentado trouxe debate considerável. Uma consulta teológica na suíça patrocinada pelo CMI, composta por 25 teólogos, trouxe as seguintes conclusões:

Através da história, pessoas tem encontrado a Deus no contexto de várias religiões e culturas diferentes.

Todas as tradições religiosas são ambíguas, isto é, uma combinação do que é bom e do que é ruim.

É necessário progredir além de uma teologia que confina a salvação a um compromisso pessoal explícito com Jesus Cristo.

Em algumas denominações o pluralismo tem sido proposto como filosofia oficial, como na Igreja Metodista Unida, dos Estados Unidos. Nas igrejas brasileiras que se consideram reformadas, a ameaça vem por diversas avenidas, trazendo sérios desafios à doutrina calvinista do Espírito Santo. Eis algumas dessas maneiras pelas quais o pragmatismo e o pluralismo têm invadido as igrejas históricas:

a) A adoção de uma liturgia neopentecostal, particularmente a ênfase na experiência. O culto hoje em igrejas evangélicas que adotaram esta ênfase, é geralmente uma adaptação comunitária do pragmatismo americano, onde todos fazem o que gostam, e todos gostam do que fazem.

b) O impacto do movimento de crescimento de igreja na área de missões e evangelização das denominações, missões paraeclesiásticas, e das igrejas locais. Mesmo as igrejas reformadas não tem escapado à penetração dessas influências mencionadas acima. Embora o movimento tenha levado a Igreja a repensar mais corretamente a sua metodologia missionária, por outro lado, tem provocado reações por parte de calvinistas quanto à seus pressupostos semi-pelagianos e sua metodologia claramente pragmatista.

A influência dessas filosofias pós-modernas pode ser percebida ainda de outra maneira. Uma equipe de pesquisa composta de 60 estudiosos e mais de 100 sócios completou um estudo sobre o presbiterianismo americano, no seminário presbiteriano de Louisville, nos EUA. Uma das suas conclusões é que no século XX a denominação sofreu de uma doença teológica, com muitos presbiterianos evitando posições firmes e claras na área teológica porque diferenças doutrinais tendem a produzir conflito ou divisão. Essa é a razão por que eles tentaram em anos recentes resolver problemas potencialmente divisivos em termos políticos e não teológicos.

A diversidade de perspectivas teológicas dentro das denominações presbiterianas tem origem na escolha enfrentada em 1927 pela Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos de América (PCUSA). A denominação teve que decidir entre subscrever a um conjunto fixo de doutrinas ou permitir uma diferença maior entre opiniões teológicas. A Igreja decidiu por não delinear as doutrinas exatas que todos os presbiterianos teriam que aceitar, uma decisão consistente com o presbiterianismo histórico daquele país. Debates doutrinários haviam sido freqüentes no passado, com divisões acontecendo sempre que as disparidades ficavam intoleráveis. A pergunta agora é se o pluralismo teológico produziu alguma teologia que tenha bastante substância. O pluralismo promete enriquecer a teologia mas na realidade tende a dilui-la em opções múltiplas que não são coerentes nem persuasivas. E a identidade reformada quanto à ação do Espírito tende a desaparecer.

O Desafio Hermenêutico: Neopentecostalismo

O que é o neopentecostalismo?

Por neopentecostalismo quero dizer aqueles movimentos surgidos em décadas recentes, que são desdobramentos do pentecostalismo clássico do início do século, mesmo que abandonaram algumas de suas ênfases características e adquiriram marcas próprias, como ênfase em revelações diretas, curas, batalha espiritual, e particularmente uma maneira sobrenaturalista de encarar a realidade espiritual.

A hermenêutica destes movimentos é caracterizada por uma leitura das Escrituras e da realidade sempre em termos da ação sobrenatural de Deus. Deus é percebido somente em termos de sua ação extraordinária. Para o neopentecostal típico, Deus o guia na vida diária através de impulsos, sonhos, visões, palavras proféticas, e dá soluções aos seus problemas sempre de forma miraculosa, como libertações, livramentos, exorcismos e curas. A doutrina que define, mais que qualquer outra, as igrejas evangélicas no Brasil hoje, é a crença em milagres. É claro que não estou dizendo que crer em milagres seja errado. O que estou dizendo é que, na hora que a crença em milagres contemporâneos e diários passa a ser a característica maior da igreja evangélica, algo está errado.

Desafios para a doutrina do Espírito Santo

A hermenêutica sobrenaturalista do neopentecostalismo representa um desafio para a identidade reformada pois tende a menosprezar uma das doutrinas típicas do calvinismo, que é a providência de Deus. Partindo das Escrituras, os reformados usam o termo providência para se referir à ação de Deus, pelo seu Espírito, agindo no mundo através de pessoas e circunstâncias da vida para atingir seus propósitos. Esses meios não são intervenções miraculosas ou extraordinárias de Deus na vida humana, mas simplesmente meios naturais secundários. Os calvinistas reconhecem que Deus intervém miraculosamente neste mundo, mas sempre em regime de exceção. Normalmente, ele age através dos meios naturais.

O neopentecostalismo, por enfatizar a ação sobrenatural e miraculosa de Deus no mundo (a qual não negamos, diga-se), acaba por negligenciar a importância da operação do Espírito Santo através de meios secundários e naturais. Essa negligência torna-se mais séria quando nos conscientizamos que o Espírito normalmente trabalha através de meios secundários e naturais para salvar os pecadores. Acredito não ser difícil de provar que a esmagadora maioria dos cristãos foram salvos através de meios naturais – como o testemunho de alguém, a leitura da Bíblia, a pregação da Palavra – e não através de intervenções miraculosas e extraordinárias, como foi a conversão de Paulo.

Como resultado do sobrenaturalismo neopentecostal, as igrejas reformadas por ele afetadas tendem a considerar os meios naturais como sendo espiritualmente inferiores. Um bom exemplo é a tendência de não se tomar remédios, como sendo falta de fé. Um outro resultado é a diminuição da pregação do Evangelho como meio de salvação dos pecadores, e a ênfase nos milagres como meio evangelístico. Assim, a obra do Espírito na Igreja e no mundo através dos meios naturais secundários é negligenciada, com graves e perniciosos efeitos nas vidas dos que abraçam a cosmovisão neopentecostal.

Conclusão

Esses desafios à identidade reformada quanto à ação do Espírito Santo já se encontram presentes em nosso meio, e prometem persistir por ainda muito tempo. Alguns dos movimentos contemporâneos que trazem no bojo de seus pressupostos e de sua metodologia esses desafios, continuam a crescer no Brasil, e a influenciar as igreja reformadas. Esses movimentos, como o reavivalismo, crescimento de igrejas, batalha espiritual e ecumenismo forçam as igrejas reformadas a reavaliar o que crêem quanto à ação do Espírito na Igreja e no mundo. O desafio é que façamos isso procurando cada vez mais conformar essas crenças com o ensino das Escrituras Sagradas, a Palavra de Deus, e com a nossa tradição calvinista.

Por: Augustus Nicodemus