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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sete caracteristicas de um falso convertido | Renato Vargens

O número de pessoas que frequentam as igrejas evangélicas em nossos dias é absurdamente elevado, no entanto, acredito que boa parte daqueles que se dizem cristãos, não nasceram de novo. Aliás, assusta-me o fato de saber que em nossas igrejas existem um número considerável de indivíduos que desconhecem as verdades inequívocas do evangelho, vivendo portanto um cristianismo desprovido de vida e santidade.

Isto posto, gostaria de elencar as principais características de um falso convertido:

1- O falso convertido apesar de conjugar o "evangeliquês" com propriedade, de entoar as canções gospel de cor e salteado, ama demasiadamente o pecado e em virtude disso não está disposto a abandoná-lo.

2- O falso convertido não ama a Palavra de Deus nem tampouco está disposto a obedece-la. Para o falso convertido as Escrituras não devem ser consideradas como a Palavra infalível de Deus.

3- O falso convertido não sente prazer na oração. Para ele o hábito de se relacionar com o Senhor em oração é um fardo pesado e desnecessário.

4- O falso convertido não sente falta da comunhão dos santos. Para o falso convertido o relacionamento entre os irmãos na igreja é dispensável, nessa perspectiva, ele prefere o futebol, as festas, as baladas e todo tipo de entretenimento à reunião dos santos de Deus.

5- O falso convertido não manifesta em sua vida frutos de arrependimento nem tampouco mudança de comportamento. Para o falso convertido tudo é válido desde que no final redunde em satisfação pessoal.

6- O falso convertido não persevera em sua fé, antes pelo contrário, ao enfrentar as batalhas da vida, desiste do Senhor, voltando assim a uma vida de pecados e transgressões.

7- O falso convertido não teme ao Senhor, antes pelo contrário, desenvolve uma espiritualidade focada em si mesmo, onde Deus na verdade não passa de um provedor de seus caprichos.

Pense nisso!

Fonte e Autor: Renato Vargens

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Somos Capazes de Cooperar: Semipelagianos | R.C. Sproul

Embora a controvérsia pelagiana tenha terminado com a condenação de Pelágio e seus seguidores, as concepções de Agostinho não foram universalmente aceitas em todos os seus detalhes. A oposição a alguns elementos do pensamento de Agostinho surgiu, primeiramente, na África do Norte. Alguns monges do monastério de Adrumetum, na África do Norte, fizeram uma objeção à visão de Agostinho da predestinação e à sua visão de que o homem caído é moralmente incapaz de se inclinar à graça de Deus. As questões levantadas nesse debate induziram Agostinho a escrever On Grace and Free Will e On Rebuke and Grace. Essas obras foram respondidas pelo abade do monastério, Valentino, de uma forma respeitosa e cordial.

Como a discussão continuava na Africa do Norte, uma oposição mais violenta aos pontos de vista de Agostinho estourou na França, particularmente no sul, em Massilia. Os amigos de Agostinho, Hilary e Próspero, o informaram a respeito dessa oposição e o persuadiram a escrever uma resposta. Agostinho assim o fez nas suas duas últimas obras, On the Predestination of the Saints e On the Gift of Perseverance. Nessas obras, Agostinho tratou seus críticos de forma mais gentil do que fez com Pelágio, considerando-os irmãos na fé. Essa atitude antecipou a aura das futuras controvérsias. Essencialmente, tanto os agostinianos quanto os semipelagianos tendem a considerar o pelagianismo como uma heresia tão séria a ponto de chamá-lo de não-cristão, enquanto a controvérsia em vigor entre os agostinianos e semipelagianos é um debate intramural entre crentes. Embora os temas envolvidos sejam tidos como completamente sérios por ambos os lados, não são considerados tão sérios a ponto de serem essenciais para a fé cristã.

O porta-voz do partido semipelagiano foi João Cassiano, abade do monastério de Massilia. Ele é tão identificado com o semipelagianismo que este, algumas vezes, é chamado de cassianismo. Cassiano curvou-se diante do mistério inescrutável dos decretos de Deus e foi relutante em investigar profundamente a questão da predestinação. Sua principal preocupação era salvaguardar a universalidade da graça de Deus e a responsabilidade moral real do homem caído.

Quando uma controvérsia teológica surge, é sábio parar um pouco e perguntar, “Quais são os interesses?”. Tendo em foco os interesses de ambas as partes na disputa, criamos uma atmosfera na qual ambos os lados podem ser ouvidos imparcialmente. Os lados freqüentemente descobrem que compartilham interesses, mas têm diferentes modos de lidar com eles ou enfatizam diferentes áreas de importância. Por exemplo, Agostinho claramente tinha um forte desejo de manter a primazia da graça divina e da soberania. Os semipelagianos queriam preservar as mesmas verdades, mas eram também profundamente preocupados com a liberdade e a responsabilidade humanas assim como com a disponibilidade universal da graça salvadora.

Quando os interesses mútuos são declarados e mesmo quando ambos os lados compartilham certos interesses, isso não resolve automaticamente a questão. Encontrar pontos de concordância pode melhorar a atmosfera da discussão e fornecer uma base para a confiança mútua entre os contendores.

E, então, a discussão deve prosseguir finalmente para as questões nas quais os lados diferem.


O Semipelagianismo de Cassiano


As preocupações de Cassiano e de seus seguidores abrangem o que se segue:

1. As concepções de Agostinho são novas e representam um afastamento dos ensinos dos pais da igreja, especialmente Tertuliano, Ambrósio e Jerônimo. O próprio Cassiano foi aluno de Crisóstomo.

2. O ensino de Agostinho sobre a predestinação “mutila a força da pregação, reprovação e energia moral,... imerge os homens no desespero”, e introduz “uma certa necessidade fatal”. (1)

3. As fortes concepções de Agostinho não são necessárias para refutar as heresias de Pelágio e fugir delas.

4. Embora a graça de Deus seja necessária para a salvação e assista a vontade humana no fazer o bem, é o homem, não Deus, quem deve desejar o que é bom. A graça é dada “a fim de que aquele que começou a desejar, seja assistido”, não para dar “o poder de desejar”.(2)

5. Deus deseja salvar todas as pessoas e a propiciação da expiação de Cristo está disponível a todos.

6. A predestinação baseia-se na presciência divina.

7. Não há “um número definido de pessoas a serem eleitas ou rejeitadas”, desde que Deus “deseja que todos os homens sejam salvos, porém nem todos os homens são salvos”.(3)

Cassiano escreveu doze livros investigando as lutas e virtudes da vida monástica. No Collationes patrum, ele detalha suas diferenças tanto com Pelágio quanto com Agostinho. “Nessa obra, especialmente no décimo terceiro Colóquio, ele rejeita decididamente os erros de Pelágio e afirma a pecaminosidade universal dos homens, a introdução desta por meio da queda de Adão e a necessidade da graça divina para cada ato individual”, escreve Philip Schaff. “Mas, com referência evidente a Agostinho, sem o mencionar, ele combate as doutrinas da eleição e da operação particular e irresistível da graça, as quais estavam em conflito com a tradição da igreja, especialmente com a teologia oriental e com o seu próprio legalismo asceta sério”. (4)

Cassiano enfatizou a realidade tanto da pecaminosidade humana quanto da responsabilidade moral do homem. Ele manteve que o pecado de Adão é uma doença hereditária. Desde a queda de Adão tem havido um infirmitas liberi arbitrii.(5) Cassiano afirma a doutrina do pecado original na qual o homem é decaído em Adão. Mesmo o livre-arbítrio de Adão foi infectado pela queda, pelo menos a um grau que é agora “débil”. A vontade não foi destruída e nem ele é moralmente impotente de forma completa. Aqui, Cassiano rejeita o ponto de vista de Agostinho sobre a incapacidade moral da vontade em se inclinar para o bem ou para Deus.

Completamente contra Pelágio, Cassiano insistiu que a graça e necessária para a justiça. Essa graça, no entanto, é resistível. Porque para ser efetiva, a vontade humana deve cooperar com ela. Cassiano estava essencialmente preocupado aqui em manter que somos incapazes de fazer qualquer bem sem a ajuda de Deus e que o nosso livre-arbítrio deve ser ativo.

Adolph Harnack resume a visão de Cassiano:

“A graça de Deus é a base da nossa salvação; cada começo deve ser traçado por ela, porquanto ela proporciona a chance da salvação e a possibilidade de se ser salvo. Mas essa é a graça exterior; a graça interior é a que se apodera do homem, aclara, purifica, santifica e penetra tanto na sua vontade quanto na sua inteligência. A virtude humana não pode crescer nem ser aperfeiçoada sem essa graça — logo, as virtudes dos pagãos são muito pequenas. Mas o início das boas decisões, bons pensamentos e fé — entendidos como a preparação para a graça — pode ser devido a nós mesmos. Conseqüentemente, a graça é absolutamente necessária para alcançarmos a salvação final (perfeição), mas não tanto para dar a partida. Ela nos acompanha em todos os estágios do nosso crescimento interior, e as nossas manifestações não são úteis sem ela (libero arbitrio semper co-operatur); mas ela apenas apóia e acompanha aquele que realmente se esforça... mesmo essa... ação da graça não é irresistível".(6)

Na visão de Cassiano, a diferença-chave com Agostinho se encontrava na graça irresistível. Para Agostinho, a vontade do homem, embora ainda capaz de fazer escolhas, é moralmente incapaz de se inclinar em direção ao bem. A vontade não é espiritualmente débil, mas espiritualmente morta. Apenas a graça eficaz de Deus pode liberar o pecador para crer. A diferença entre Agostinho e Cassiano é a diferença entre monergismo e sinergismo no começo da salvação. Cassiano e o semipelagianismo são, com relação ao passo inicial do pecador em direção à salvação, decididamente sinergísticos. Deus torna sua graça disponível ao pecador, mas o pecador deve, com sua vontade débil, cooperar com essa graça a fim de ter fé ou para ser regenerado. A fé precede a regeneração. Para Agostinho, a graça da regeneração é monergística. Isto é, a iniciativa divina é uma condição prévia necessária para a fé.

Quando Agostinho diz que a graça é irresistível, ele quer dizer que ela é eficaz. Ela é uma obra monergística de Deus que realiza o que ele pretende que ela realize. A graça divina muda o coração humano, ressuscitando o pecador da morte espiritual para a vida espiritual. A graça regeneradora faz com que o pecador deseje crer e se aproxime de Cristo. Anteriormente, o pecador não desejava e não estava inclinado a escolher Cristo, mas agora ele não apenas deseja, mas está ansioso por escolher Cristo. O pecador não é arrastado a Cristo contra a sua vontade ou forçado a escolher algo que não quer escolher. A graça divina da regeneração muda a disposição do coração de forma a levantar o pecador da morte para a vida, da incredulidade para a fé.

Essa concepção é claramente monergística no ponto inicial do movimento do pecador da incredulidade para a fé. O processo todo, no entanto, não é monergístico. Uma vez dada a graça operante da regeneração, o resto do processo é sinergístico. Isto é, depois da alma ter sido mudada pela graça irresistível ou eficaz, a própria pessoa escolhe Cristo. Deus não faz a escolha por ela. É a pessoa que crê, não Deus que crê por ela. De fato, o resto da vida cristã de santificação se revela num modelo sinergístico.

Há muita confusão sobre o debate entre o monergismo e o sinergismo. Quando o agostinianismo é definido como monergístico, devemos nos lembrar de que ele é monergístico com relação ao começo da salvação, não com relação a todo o processo. O agostinianismo não rejeita todo o sinergismo, mas rejeita um sinergismo que é todo sinergismo.

Por outro lado, o semipelagianismo é todo sinergismo. Isto é, é sinergístico desde o começo. Reinhold Seeberg comenta:

A idéia de Cassiano é que a vontade humana foi, de fato, mutilada pelo pecado, mas que uma certa liberdade permaneceu nela. Por causa disso, ela é capaz de se voltar para Deus e, justamente como Deus tinha primeiramente se voltado para ela, é capaz, com a assistência da graça divina colocando a lei diante dela e infundindo o poder necessário, de desejar e fazer o que é bom. Conseqüentemente, o pecador não está mono, mas ferido. A graça surge à vista, não como operans, mas como cooperans; a ela não deve ser atribuída a atividade exclusiva, mas sinergia... Isso foi uma tentativa instrutiva de preservar a relação pessoal e espiritual do homem com Deus. Mas a tentativa da necessidade rendeu-se ao que era melhor em Agostinho — o sola gratia. (7)

Um resumo similar é oferecido por Schaff:

Em oposição a ambos os sistemas [pelagianismo e agostinianismo], ele [Cassiano] pensava que a imagem divina e a liberdade humana não haviam sido aniquiladas, mas apenas enfraquecidas pela queda; em outras palavras, que o homem estava doente mas não morto, que não podia, de fato, ajudar-se, mas podia desejar a ajuda de um médico e aceitá-la ou recusá-la quando oferecida, e que ele devia cooperar com a graça de Deus na sua salvação. À questão sobre qual dos dois fatores tem a iniciativa, ele responde de forma completamente empírica: que algumas vezes, e, de fato normalmente, a vontade humana, como nos casos do Filho Pródigo, Zaqueu, do Ladrão Penitente e de Cornélio, orienta-se para a conversão; algumas vezes a graça a antecipa e, como com Mateus e Paulo, retira a vontade resistente — porém, mesmo nesse caso, sem coerção — a Deus. Aqui, conseqüentemente, a gratia praeveniens é manifestamente negligenciada. (8)

Schaff é um pouco impreciso quando conclui que Agostinho ensinou que a queda “aniquilou” a liberdade humana. Nós nos lembramos da distinção de Agostinho entre autonomia (livre-arbítrio) e liberdade. O livre-arbítrio não foi aniquilado no sentido de que a vontade foi obliterada ou destruída. O poder moral de se inclinar para o bem é que foi aniquilado. De acordo com Agostinho, a liberdade foi aniquilada, não o livre-arbítrio. Para Cassiano, a graça que Deus dá ao pecador, com a qual o pecador deve cooperar para ser salvo, é essencialmente a graça da iluminação ou instrução. A conversão é efetivada deste modo: “...quando ele observa em nós o início de uma boa vontade, [Deus] imediatamente a ilumina, conforta e incita rumo à salvação, conferindo um aumento sobre o que ele mesmo implantou ou viu surgir a partir de nosso próprio esforço”.(9) O ponto crucial é que o início da salvação depende de um movimento inicial de boa vontade dentro do pecador caído. Deus concede a assistência da graça àqueles que fazem esse bom movimento inicial. Para Agostinho, nenhum pecador pode fazer esse bom movimento inicial a não ser que Deus primeiramente o liberte.

Resistência ao Semipelagianismo

Contra a obra de Cassiano, o amigo de Agostinho, Próspero de Aquitaine, escreveu um livro sobre graça e liberdade em 432. Cassiano teve como aliados o monge Vicente de Lerins, Fausto de Riez, Genádio de Massilia e Arnóbio. O debate continuou a vociferar por décadas. O semipelagianismo venceu na Gália nos Sínodos de Arles (471) e Lyons (475). Enquanto isso, o agostinianismo foi sendo atenuado pelos sucessores de Agostinho. Em 496, o papa Gelásio 1 sancionou os escritos de Agostinho e Próspero e condenou os de Cassiano e Fausto. O debate alcançou o seu clímax em 529 no Sínodo de Orange, o qual condenou o sistema do semipelagianismo. Schaff fornece uma lista das proposições cruciais estabelecidas pela igreja no Sínodo de Orange:

• O pecado de Adão não prejudicou apenas o corpo, mas também a alma do homem.

• O pecado de Adão trouxe o pecado e a morte sobre a humanidade.

•A graça não é meramente conferida quando oramos por ela, mas é a própria graça quem nos faz orar por ela.

• Até mesmo o início da fé, a disposição para crer, é efetivada pela graça.

• Todos os bons pensamentos e obras são dons de Deus.

• Mesmo os regenerados e santos precisam continuamente da ajuda divina.

• O que Deus ama em nós não é nosso mérito, mas seu próprio dom.

• O livre-arbítrio enfraquecido em Adão só pode ser restaurado pela graça do batismo.

• Todo o bem que possuímos é dom de Deus e, conseqüentemente, ninguém deveria vangloriar-se.

• Quando o homem peca, ele faz a sua própria vontade; quando ele faz o bem, ele executa a vontade de Deus, mas voluntariamente.

• Com a queda, o livre-arbítrio foi tão enfraquecido que sem a graça preveniente ninguém pode amar a Deus, crer nele ou fazer o bem em nome de Deus....

• Em cada boa obra, o início não procede de nós, mas Deus inspira em nos a fé e o amor a ele, sem mérito precedente de nossa parte, para que desejemos o batismo e, após o mesmo possamos, com a sua ajuda, cumprir a sua vontade.(10)

A igreja Católica Romana estava claramente rejeitando a visão de que o ponto de partida da fé é a vontade caída. A capacidade para fazer o bem procede da graça, a graça concedida na regeneração. Deve ser notado aqui que, tanto quanto em Agostinho, a graça da regeneração é efetivada pelo sacramento do batismo. A regeneração batismal foi, mais tarde, categoricamente rejeitada pelos calvinistas e também pela maioria do outros protestantes.

A predestinação e a graça irresistível foram mais ou menos omitidas nos pronunciamentos dos sínodos. A igreja adotou um caminho mais agostiniano do que pelagiano. Alguns têm referido-se a ele mais como semiagostinianismo do que semipelagianismo, achando-o mais próximo de Agostinho do que de Cassiano.
Por: R.C. Sproul
NOTAS:

1. Reinhold Seeberg, Text-Book of the History of Doctrines, vol. 1, History of Doctrines in the Ancient Church, trad. por Charles E. Hay (1905; Grand Rapids: Baker, 1977), p. 369.

2. Ibid.

3. Ibid.

4.Philip Schaff, History of the Christian Church, 8 vols. (1907-10; Grand Rapids: Eerdmans, 1952-53), 3:861.

5.Seeberg, History of Doctrines, 1:370. Seeberg cita João Cassiano, Collationum, 3.12.

6.Adolph Harnack, History of Dogma, parte 2, livro 2, trad. por James MilIar (1898: Nova York: Dover, 1961), p. 247.

7.Seeberg, History of Doctrines, 1:37 1-72.

8. Schaff, History of the Christian Church, 3:861.

9.João Cassiano, Collationum, 13.8, 7. Citado por Seeberg, History of Doctrines, 1:371.

10.Schaff, History of the Christian Church, 3:867, 869.


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Fonte: Sola Gratia – A controvérsia sobre o livre-arbítrio na História. – R.C.Sproul
Editora Cultura Cristã – 1a Edição – 2001 – 3.000 exemplares – Tradução: Mauro Meister
Extraido do: Monergismo.com

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Adoradores ou Consumidores?

O Outro Lado da Herança de Charles 

G. Finney

A palavra "evangélicos" tem se tornado tão inclusiva que corre o
perigo de se tornar totalmente vazia de significado — R. C. Sproul


Em certa ocasião o Senhor Jesus teve de fazer uma escolha entre ter 5 mil pessoas que o seguiam por causa dos benefícios que poderiam obter dele, ou ter doze seguidores leais, que o seguiam pelo motivo certo (e mesmo assim, um deles o traiu). Em outras palavras, uma decisão entre muitos consumidores e poucos fiéis discípulos. 

Refiro-me ao evento da multiplicação dos pães narrado em João 6. Lemos que a multidão, extasiada com o milagre, quis proclamar Jesus como rei, mas ele recusou-se (João 6.15). No dia seguinte, Jesus também se recusa a fazer mais milagres diante da multidão pois percebe que o estão seguindo por causa dos pães que comeram (6.26,30). Sua palavra acerca do pão da vida afugenta quase que todos da multidão (6.60,66), à exceção dos doze discípulos, que afirmam segui-lo por saber que ele é o Salvador, o que tem as palavras de vida eterna (6.67-69).


O Senhor Jesus poderia ter satisfeito às necessidades da multidão e saciado o desejo dela de ter mais milagres, sinais e pão. Teria sido feito rei, e teria o povo ao seu lado. Mas o Senhor preferiu ter um punhado de pessoas que o seguiam pelos motivos certos, a ter uma vasta multidão que o fazia pelos motivos errados. Preferiu discípulos a consumidores.


Infelizmente, parece prevalecer em nossos dias uma mentalidade entre os evangélicos bem semelhante à da multidão nos dias de Jesus. Parece-nos que muitos, à semelhança da sociedade em que vivemos, tem uma mentalidade de consumidores quando se trata das coisas do Reino de Deus. O consumismo característico da nossa época parece ter achado a porta da igreja evangélica, tem entrado com toda a força, e para ficar.


Por consumismo quero dizer o impulso de satisfazer as necessidades, reais ou não, pelo uso de bens ou serviços prestados por outrem. No consumismo, as necessidades pessoais são o centro; e a "escolha" das pessoas, o mais respeitado de seus direitos. Tudo gira em torno da pessoa, e tudo existe para satisfazer as suas necessidades. As coisas ganham importância, validade e relevância à medida em que são capazes de atender estas necessidades.


Esta mentalidade tem permeado, em grande medida, as programações das igrejas, a forma e o conteúdo das pregações, a escolha das músicas, o tipo de liturgia, e as estratégias para crescimento de comunidades locais. Tudo é feito com o objetivo de satisfazer as necessidades emocionais, psicológicas, físicas e materiais das pessoas. E neste afã, prevalece o fim sobre os meios. Métodos são justificados à medida em que se prestam para atrair mais freqüentadores, e torná-los mais felizes, mais alegres, mais satisfeitos, e dispostos a continuar a freqüentar as igrejas.


Esta mentalidade consumista por parte de evangélicos se mostra por vários ângulos. Numa pesquisa recente feita pelo Instituto Gallup nos Estados Unidos constatou-se que 4 em cada 10 americanos estão envolvidos em pequenos grupos que se reúnem semanalmente buscando saída para o envolvimento com drogas, problemas familiares, solidão e isolacionismo. Embora evidentemente muitos estarão em busca de uma oportunidade para aprofundar a experiência cristã e crescer no conhecimento de Deus, a maioria, segundo Gallup, busca satisfazer suas necessidades pessoais. 

De acordo com a revista Newsweek, 1 em cada 5 americanos sofre de alguma forma de doença mental (incluindo ansiedade, depressão clínica, esquizofrenia, etc.) durante o curso de um ano. E disso se aproveitam os espertos. Uma denúncia contra a indústria evangélica de saúde mental foi feita ano passado por Steve Rabey em Christianity Today. Cada vez mais cresce o marketing nas igrejas na área de aconselhamento, com um número alarmante de profissionais cristãos oferecendo ajuda psicológica através de métodos seculares. A indústria de música cristã tem crescido assustadoramente, abandonando por vezes seu propósito inicial de difundir o Evangelho, e tornando-se cada vez mais um mercado rentável como outro qualquer. A maioria das gravadoras evangélicas nos Estados Unidos pertence às corporações seculares de entretenimento. As estrelas do gospel music cobram cachês altíssimos para suas apresentações. Num recente artigo em Strategies for Today’s Leader, Gary McIntosh defende abertamente que "o negócio das igrejas é servir ao povo". Ele defende que a igreja deve ter uma mentalidade voltada para o "cliente", e traçar seus planos e estratégias visando suas necessidades básicas, e especialmente faze-los sentir-se bem.


Um efeito da mentalidade consumista das igrejas é o que tem sido chamado de "a síndrome da porta de vai-e-vem". As igrejas estão repletas de pessoas buscando sentido para a vida, alívio para suas ansiedades e preocupações. Assim, elas escolhem igrejas como escolhem refrigerantes. Tão logo a igreja que freqüentam deixa de satisfazer as suas necessidades, elas saem pela porta tão facilmente quanto entraram. As pessoas buscam igrejas onde se sintam confortáveis, e se esquecem de que precisam na verdade de uma igreja que as faça crescer em Cristo e no amor para com os outros.


Creio que há vários fatores que provocaram a presente situação. Ao meu ver, um dos mais decisivos é a influência da teologia e dos métodos de Charles G. Finney no evangelicalismo moderno. Houve uma profunda mudança no conceito de evangelização ocorrida no século passado, devido ao trabalho de Charles Finney. Mais do que a teologia do próprio Karl Barth, a teologia e os métodos de Finney têm moldado o moderno evangelicalismo. Ele é o herói de Jerry Falwell, Bill Bright e de Billy Graham; é o celebrado campeão de Keith Green, do movimento de sinais e prodígios, do movimento neopentecostal, e do movimento de crescimento da igreja. Michael Horton afirma que grande parte das dificuldades que a igreja evangélica moderna passa é devida à influência de Finney, particularmente de alguns dos seus desvios teológicos: "Para demonstrar o débito do evangelicalismo moderno a Finney, devemos observar em primeiro lugar os desvios teológicos de Finney. Estes desvios fizeram de Finney o pai dos fatores antecedentes aos grandes desafios dentro da própria igreja evangélica hoje: o movimento de crescimento de igrejas, o neopentecostalismo, e o reavivalismo político".


Para muitos no Brasil seria uma surpresa tomar conhecimento do pensamento teológico de Finney. Ele é tido como um dos grandes evangelistas da Igreja Cristã, e estimado e venerado por evangélicos no Brasil como modelo de fé e vida. E não poderia ser diferente, visto que se tem publicado no Brasil apenas obras que exaltam Finney. Desconheço qualquer obra em português que apresente o outro lado. Meu alvo, neste artigo, não é escrever extensamente sobre o assunto, mas mostrar a relação de causa e efeito que existe entre o ensino e métodos de Finney e a mentalidade consumista dos evangélicos hoje.


Em sua obra sobre teologia sistemática (Systematic Theology [Bethany, 1976]), escrita pelo fim de seu ministério, quando era professor do seminário de Oberlin, Finney revela ter abraçado ensinos estranhos ao Cristianismo histórico. Ele ensina que a perfeição moral é condição para justificação, e que ninguém poderá ser justificado de seus pecados enquanto tiver pecado em si (p. 57); afirma que o verdadeiro cristão perde sua justificação (e conseqüentemente, a salvação) toda vez que peca (p. 46); demonstra que não acredita em pecado original e nem na depravação inerente ao ser humano (p. 179); afirma que o homem é perfeitamente capaz de aceitar por si mesmo, sem a ajuda do Espírito Santo, a oferta do Evangelho. Mais surpreendente ainda, Finney nega que Cristo morreu para pagar os pecados de alguém; ele havia morrido com um propósito, o de reafirmar o governo moral de Deus, e nos dar o exemplo de como agradar a Deus (pp. 206-217). Finney nega ainda, de forma veemente, a imputação dos méritos de Cristo ao pecador, e rejeita a idéia da justificação com base da obra de Cristo em lugar dos pecadores (pp. 320-333). Quanto à aplicação da redenção, Finney nega a idéia de que o novo nascimento é um milagre operado sobrenaturalmente por Deus na alma humana. Para ele, "regeneração consiste no pecador mudar sua escolha última, sua intenção e suas preferência; ou ainda, mudar do egoísmo para o amor e a benevolência", e tudo isto movido pela influência moral do exemplo de Cristo ao morrer na cruz (p. 224).


Finney, reagindo contra a influência calvinista que predominava no Grande Avivamento ocorrido na Nova Inglaterra do século passado, mudou a ênfase que havia à pregação doutrinária para uma ênfase à fazer com que as pessoas "tomassem uma decisão", ou que fizessem uma escolha. No prefácio da sua Systematic Theology ele declara a base da sua metodologia: "Um reavivamento não é um milagre ou não depende de um milagre, em qualquer sentido. É meramente o resultado filosófico da aplicação correta dos métodos."


Finney não estava descobrindo uma nova verdade, mas abraçando um erro antigo, defendido por Pelágio no século IV, e condenado como herético pela Igreja, ou seja, que nenhum de nós nasce pecador; o homem, por nascimento, é neutro, e capaz de fazer escolhas para o bem e para o mal com inteira liberdade. Finney tem sido corretamente descrito por estudiosos evangélicos como sendo semi-pelagiano (ou mesmo, pelagiano) em sua doutrina, e um dos responsáveis maiores pela disseminação deste erro antigo entre as igrejas modernas.


Na teologia de Finney, Deus não é soberano, o homem não é um pecador por natureza, a expiação de Cristo não é um pagamento válido pelo pecado, a doutrina da justificação pela imputação é insultante à razão e à moralidade, o novo nascimento é produzido simplesmente por técnicas bem sucedidas, e avivamento é o resultado de campanhas bem planejadas com os métodos corretos.


Antes de Finney, os evangelistas reformados aguardavam sinais ou evidências da operação do Espírito Santo nos pecadores, trazendo-os debaixo de convicção de pecado, para então guiá-los à Cristo. Não colocavam pressão sobre a vontade dos pecadores, por meio psicológicos, com receio de produzir falsas conversões. Finney, porém, seguiu caminho oposto, e seu caminho prevaleceu. Já que acreditava na capacidade inerente da vontade humana de tomar decisões espirituais quando o desejasse, suas campanhas de evangelismo e de reavivamento passaram a girar em torno de um simples propósito: levar os pecadores a fazer uma escolha imediata de seguir a Cristo. Com isto, introduziu novos métodos nos seus cultos, como o "banco dos ansiosos" (de onde veio a prática de se fazer apelos ao final da mensagem), o uso de qualquer medidas que provocassem um estado emocional propício ao pecador para escolher a Deus, o que incluía apelos emocionais e denúncias terríveis do pecado e do juízo.


O impacto dos métodos reavivalistas de Finney no evangelicalismo moderno são tremendos. Seus sucessores têm perpetuado estes métodos e mantido as características do fundador: o apelo por decisões imediatas, baseadas na vontade humana; o estímulo das emoções como alvo do culto; o desprezo pela doutrina; e a ênfase que se dá na pregação a se fazer uma escolha, em vez da ênfase às grandes doutrinas da graça. As igrejas evangélicas de hoje, influenciadas pela teologia e pelos métodos de Finney, acreditando que reavivamentos podem ser produzidos, e que pecadores podem decidir seguir a Cristo quando o desejarem, têm adotado táticas e práticas em que as pessoas são vistas como clientes, e que promovem a mentalidade consumista nas igrejas evangélicas.


A relação entre os métodos de Finney e o espírito consumista moderno foi corretamente notado por Rodney Clapp, em recente artigo na Christianity Today (Outubro de 1966): "Ao enfatizar a importância de se tomar uma decisão para Cristo, Charles Finney e outros reavivalistas ajudaram na sacramentalização da ‘escolha’, elemento chave do consumismo capitalista de hoje. O reavivalismo [de Finney] encorajava sentimentos de êxtase e a abertura do indivíduo para mudanças costumeiras de conversão e reconversão" (p. 22).


O Senhor Jesus preferiu doze seguidores genuínos a ter uma multidão de consumidores. Creio que a igreja evangélica brasileira precisa seguir a Cristo também aqui. É preciso que reconheçamos que as tendências modernas em alguns quartéis evangélicos é a de produzir consumidores, muito mais que reais discípulos de Cristo, pela forma de culto, liturgias, atrações, e eventos que promovem. Um retorno às antigas doutrinas da graça, pregadas pelos apóstolos e pelos reformadores, enfatizando a busca da glória de Deus como alvo maior do homem, poderá melhorar esse estado de coisas.


Por: Rev. Augustus Nicodemus Lopes