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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Como Passar o Dia Com Deus | Richard Baxter

Richard-Baxter

“Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra cousa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (I Cor 10.30)

Sono

Controle o tempo do seu sono apropriadamente, de modo que você não desperdice as preciosas horas da manhã preguiçosamente em sua cama. O tempo do seu sono deve ser determinado pela sua saúde e labor, e não pelo prazer da preguiça.

Primeiros Pensamentos

Dirijam a Deus os seus primeiros pensamentos ao acordar, elevem a Ele o coração com reverência e gratidão pelo descanso desfrutado durante a noite e confiem-se a Ele no dia que inicia.

Familiarizem-se tão consistentemente com isto, até que a consciência de vocês venha a acusá-los quando pensamentos ordinários queiram insurgir em primeiro lugar. Pensem na misericórdia de uma noite de descanso, mal acomodados, padecendo dores e enfermidades, cansados do corpo e da vida.

Pensem em quantas almas foram separadas dos seus corpos nesta noite, aterrorizadas por terem que se apresentar diante de Deus, e em quão rapidamente os dias e noites estão passando! Quão rapidamente a última noite e dia de vocês virão! Considerem no que está faltando no preparo da alma de vocês para tal momento e busquem isso sem demora.

Oração

Acostumem-se a orar sozinhos (ou com o cônjuge) antes da oração coletiva em família. Se possível, que isto seja feito antes de qualquer outra ocupação.

Culto Familiar

Realizem o culto familiar consistentemente e em uma hora em que é mais provável que a família não sofra interrupções.

Propósito Básico

Lembrem-se do propósito básico da vida de vocês, e quando estiverem se preparando para trabalhar ou realizar atividade neste mundo, que a inscrição santos para o Senhor esteja gravada no coração de vocês em tudo o que fizerem.

Não realizem nenhuma atividade que não possam considerar agradável a Deus, e que não possam verdadeiramente afirmar que Deus a aprova. Não façam nada neste mundo com nenhum outro propósito que não agradar a Deus, glorificá-lO e gozá-lO. O que quer que fizerdes, fazei tudo para a glória de Deus (1 Co.10:31).

Diligência na Vocação

Realizem as tarefas concernentes à ocupação de vocês cuidadosa e diligentemente. Assim fazendo:

1.Vocês demonstrarão que não são preguiçosos e escravos da carne (como aqueles que não podem negar-lhe o comodismo); e estarão mortificando todas as paixões e desejos que são alimentados pelo comodismo e preguiça.

2.Vocês estarão mantendo fora da mente os pensamentos indignos que fervilham nas mentes de pessoas desocupadas.

3.Vocês não estarão desperdiçando tempo precioso, algo do que pessoas desocupadas se tornam diariamente culpadas.

4.Vocês estarão num caminho de obediência a Deus, enquanto que os preguiçosos estão em constante pecado de omissão.

5.Vocês poderão dispor de mais tempo para empregar em deveres santos se realizarem suas tarefas com diligência. Pessoas desocupadas não têm tempo para os deveres espirituais, porque desperdiçam tempo demorando-se em seus trabalhos.

6.Vocês poderão esperar bênçãos da parte de Deus e provisões confortáveis para vocês e para as suas famílias.

7.Isto também pode exercitar o corpo de vocês, o que poderá habilitá-los mais para o serviço da alma.

Tentações e coisas que Corrompem

Estejam perfeitamente familiarizados com as tentações e coisas que tendem a corromper você, e sejam vigilantes o dia todo contra isso. Vocês devem estar alertas especialmente para as tentações que têm se mostrado mais perigosas e cuja presença ou emprego sejam inevitáveis.

Estejam alertas contra os pecados mestres da incredulidade: a hipocrisia, a auto-suficiência, o orgulho, o agradar a carne e o prazer excessivo nas coisas terrenas. Tenham cuidado para não se deixarem atrair para uma mente mundana, e para os cuidados excessivos , ou desejos cobiçosos pela abastança, sob a pretensão de serem diligentes no trabalho de vocês.

Se tiverem que negociar com outras pessoas, tenham cuidado contra o egoísmo ou qualquer coisa que se assemelhe à injustiça ou falta de caridade. Ao lidar com as pessoas, estejam alertas para não usarem de palavras vãs e desocupadas. Sejam vigilantes também com relação às pessoas que tentam vocês à ira (ou a qualquer tipo de pecado). Mantenham a modéstia e a clareza, no falar, que as leis da pureza requerem. Se tiverem que conviver com bajuladores, sejam vigilantes para não se deixarem inchar de orgulho.

Se tiverem de conviver com pessoas que desprezam ou injuriem vocês, resistam contra a impaciência e o orgulho vingativo.

No início estas coisas serão muito difíceis, enquanto o pecado for forte em vocês. Mas tão logo tiverem adquirido profunda compreensão do perigoso veneno de qualquer destes pecados, o coração de vocês irá pronta e facilmente evitá-los.

Meditação

Quando estiverem sozinhos nas ocupações de vocês, aprendam a remir o tempo em meditações práticas e benéficas. Meditem na infinita bondade e perfeições de Deus, em Cristo e na obra da redenção, nos céus e em quão indignos são de irem para lá e em como vocês merecem a miséria eterna do inferno.

Remindo o Tempo

Valorizem o tempo de vocês. Sejam mais cuidadosos em não desperdiçá-lo do que o são em não desperdiçar dinheiro. Não permitam que recreações inúteis, conversas vãs e companhias não proveitosas, ou o sono roubem o preciosos tempo de vocês.

Sejam mais cuidadosos em escapar das pessoas, ações ou situações da vida que tendem a roubar o tempo de vocês do que o seriam em escapar de ladrões ou salteadores.

Certifiquem-se não apenas de não estarem sendo desocupados, mas de estarem usado o tempo de vocês da maneira mais proveitosa possível. Não prefiram um caminho menos proveitosos à um outro de maior proveito.

Comer e Beber

Comam e bebam com moderação e gratidão, para serem saudáveis e não por prazer inútil. Jamais satisfaçam o apetite pela comida ou bebida quando isto tender a fazer mal à saúde de vocês.

Lembrem-se do pecado de Sodoma: “Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade, teve ela e suas filhas...” (Ez.16:49).

O Apóstolo Paulo chorou quando mencionou aqueles: “cujo destino é a destruição, cujo deus é o ventre, e cuja glória está na infâmia; visto que só se preocupam com as coisas terrenas”(Fp.3:19). Estes são chamados de inimigos da cruz de Cristo (v.18). “Porque se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas se pelo Espírito mortificardes os feitos do corpo, certamente vivereis” (Rm.8:13).

Pecados Prevalecentes (queda em pecado)

Se qualquer tentação prevalecer, e vocês vierem a cair em qualquer pecado adicional às deficiências habituais de vocês, lamentem imediatamente e confessem isto a Deus. Arrependam-se rapidamente, custe o que custar. Certamente custará mais ainda continuar no pecado e sem arrependimento.

Não façam pouco caso das falhas habituais de vocês, mas confessem-nas e esforcem-se diariamente contra elas, tendo cuidado para não agravá-las pela falta de arrependimento e pelo descaso.

Relacionamentos

Atentes diariamente para os deveres especiais relativos aos vários relacionamentos de vocês, seja na condição de maridos, esposas, filhos, patrões, empregados, pastores cidadãos ou autoridades.

Lembrem-se que cada relação tem seus deveres especiais e seus proveitos da realização de algum bem. Deus requer de vocês fidelidade nestes relacionamentos, bem como em quaisquer outros deveres.

Ao Final do Dia

Antes de dormir, é sábio e necessário relembrar as nossas atitudes e misericórdias recebidas durante o dia que termina, de maneira que sejam agradecidos por todas as misericórdias recebidas e humilhados por todos os pecados cometidos.

Isto é necessário a fim de que vocês possam renovar o arrependimento bem como ser mais resolutos na obediência, e a fim de que examinem a si mesmos, para ver se a alma de vocês progrediu ou piorou, para ver se o pecado foi diminuído e a graça aumentada; e para avaliar se vocês estão mais preparados para o sofrimento, para a morte e para e eternidade.

Conclusão

Que estas instruções sejam gravadas na mente de vocês e se tornem prática diária nas suas vidas. Se vocês observarem sinceramente estas instruções, elas conduzirão vocês à santidade, à frutificação, à tranquilidade na vida, e ainda acrescentarão a vocês uma morte confortável e em paz.

Tradução: Pr. Paulo Anglada

Extraído de: Reformando-me

sábado, 4 de maio de 2013

Sinais de Uma Vida Agradável a Deus | Rev. Richard Baxter

... Veja então se você vive buscando principalmente agradar a Deus ... : você pode descobrir através destes sinais.

1. Vocês terão mais interesse em entender as Escrituras e em saber tanto o que agrada, quanto o que desagrada a Deus.

2. Vocês terão mais interesse na realização de todos os seus deveres, com o propósito de agradar a Deus e não aos homens.

3. Vocês olharão para seus corações e não só para suas ações; para seus fins e pensamentos; para o seu homem interior e seu nível de espiritualidade.

4. Vocês atentarão para seus deveres secretos, tanto quanto para os públicos e, para aqueles que não são vistos pelos homens, tanto quanto para os que são.

5. Vocês respeitarão suas consciências e não as desprezarão; quando elas lhe mostrarem o desagrado de Deus, isto os inquietará; quando elas lhe mostrarem Sua aprovação, isto os confortará.

6. Suas companhias serão pessoas caridosas e piedosas, que buscam agradar a Deus, e não orgulhosas e ambiciosas, que buscam honra própria, nem ímpias, que desagradam a Deus.

7. Se os homens são agradados ou desagradados, ou a forma com que o julgam, ou como eles o chamam, parecerá um assunto pequeno para você, como o próprio interesse deles, em comparação ao julgamento de Deus. Você não vive para eles. Você pode suportar seus desagrados , censuras, e reprovações, se tão somente agradar a Deus. Estas serão suas evidências.

 

por: Rev. Richard Baxter

Fonte: Monergismo

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Livro: Quebrantamento: Espírito de Humilhação | Rev. Richard Baxter [eBook PDF]



Há um tempo atrás fizemos uma série de posts com a versão on-line do livro de Richard Baxter, "Quebrantamento: Espírito de Humilhação". Nesta postagem você confere todo o conteúdo da série em um só ebook disponível para download em PDF.


  
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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Quebrantamento: Espírito de Humilhação | Rev. Richard Baxter | Capítulo 04

Capítulo 4 | Conselho Principal: Não Recuse Ser Totalmente Humilhado


Tendo tratado amplamente da natureza e razões da verdadeira humilhação, eu quero concluir com o conselho que é minha principal intenção aqui: não recuse ser total e profun­damente humilhado. Não se canse da obra de humilhação do Espírito.

A aflição não é um convidado bem-vindo à natureza humana; mas a graça pode achar razão para lhe dar boas-vindas. A graça é sincera e não pode tomar consciência de impiedade sem se dispor a se lamentar por isso. Há alguma coisa de Deus na tristeza piedosa, por isso a alma a aceita, procura por ela e clama por ela. Sim, a alma até se entristece quando não consegue mais se entristecer. Não que a tristeza, como tal, seja desejável, mas como uma conseqüência necessária da nossa aflição por causa do pecado, e como um antecedente necessário para a restauração que se seguirá.

Assim como podemos nos submeter à própria morte com acalentada expectativa, porque ela é santificada para ser a passagem para a glória, embora seja dolorosa em si mesma para a natureza humana, assim muito mais nós podemos nos submeter à humilhação e ao quebrantamento do coração com um santo desejo, porque ela é santificada para que seja a entrada para o estado de graça.

A título de incentivo, considere o que se segue:

1. A maior parte dos seus sofrimentos ocorrerá apenas no início. Uma vez que você se estabeleça em um caminho santo, você encontrará mais paz e conforto do que em qualquer outro caminho que possa seguir. Eu sei que se você se envolver com o pecado novamente, ele provocará mais sofrimento em você. Mas uma vida piedosa é uma vida de retidão, conversão é um abandono do pecado e conseqüentemente um abandono da causa dos sofrimentos. Você não pode suportar tais sofrimentos por um pouco mais?

2. Considere de onde você está vindo. Não é de um estado de ira? Onde você esteve todo este tempo, não foi sob o poder de Satanás? O que você fez durante toda a sua vida, não foi se submeter à escravidão do pecado, e ofender o seu Senhor, e destruir-se a si mesmo? Seria próprio, seria razoável, seria sincero, vir de tal estado sem lamentar ter permanecido por tanto tempo nele?

3. Considere, também, que a humilhação é necessária a sua própria restauração e salvação. Você pensa que cometeria tão grande excesso, e então seria curado sem nenhum propósito? Você suportaria, para a saúde do seu corpo, o comprimido mais amargo, e o remédio mais repugnante, a dieta mais rigorosa, e até retirar o seu sangue, porque sabe que a sua vida depende disto e não há outro remédio. Não deveria você, então, suportar, para a salvação da sua alma, os sofrimentos mais amargos, as reprimendas mais duras, as confissões mais francas, e a abundância de lágrimas? O pecado não será vencido de modo mais fácil, o “eu” não será conquistado de outra maneira, o coração do pecado não será quebrado, até que o seu coração seja quebrado.

Nós sabemos que não há nenhum mérito em seus sofrimentos, e que não são eles que farão com que Deus perdoe seus pecados. Nem tão pouco a sua tristeza é requerida por ser o sangue de Cristo insuficiente. Mas ela é parte do fruto do Seu sangue sobre a sua alma. Se o sangue Dele não derreter e quebrar o seu coração, você não tem parte Nele. É preciso que você lamente por Aquele que você traspassou, e este fruto do Seu sangue é um preparativo para mais. É tão impossível você ser salvo sem fé, como sem arrependimento e humilhação.

Considere quanta ruindade havia nas suas obras; poderia você ser grato por isso? Quem foi que o trouxe a essa necessidade de sofrimento? Você passou toda a sua vida abusando da sua natureza, e causando o seu próprio mal, e agora você tem má vontade para com o transtorno necessário para a sua cura? A quem você acusaria, e em quem encontraria falta, senão em você mesmo? Não foi você quem pecou? Não foi você quem alimentou o fogo do seu sofrimento e semeou as sementes deste fruto amargo, e acariciou a causa dos seus próprios transtornos? Não foi Deus quem fez isto, foi você mesmo. Ele quer apenas desfazer aquilo que você fez. Não tenha, portanto, má vontade para com o Seu médico, se você precisa ser purgado, sangrado, e tem que passar pela mais rigorosa dieta, mas “agradeça” a si mesmo o ter que passar por isto.

4. Considere também que você tem um sábio e meigo médico, o qual conheceu Ele mesmo o que são a tristeza e o sofrimento, pois por sua causa Ele foi feito um homem de dores[16], e, portanto, pode se compadecer daqueles que estão em sofrimento. Ele não se deleita no seu sofrimento e dores, mas na sua cura e subseqüente consolação. Por conseguinte, você pode estar seguro de que Ele o tratará da maneira mais gentil e moderada, e não colocará sobre você mais do que o necessário para o seu próprio bem, nem lhe dará um cálice mais amargo do que a sua doença o requeira.

Quando Ele mostra a sua grande simpatia para com o contrito, é para que possa vivificar o seu coração. Além disto, Ele diz: “não contenderei para sempre, nem me indignarei continuamente; porque do contrário o espírito definharia diante de Mim e o fôlego da vida que Eu criei”[17]... Ele chama para Si “todos os que estão cansados e sobrecarregados, e Eu os aliviarei”[18]. Ele foi enviado para curar os quebrantados de coração; proclamar libertação aos cativos; para recobrar a vista aos cegos e para pôr em liberdade os algemados. Quando Ele quebrar o seu coração, Ele também o unirá da forma mais terna e segura do que você possa razoavelmente desejar.

Até mesmos os seus ministros, quando se esforçam para quebrar o coração de vocês, e humilhar vocês até o pó, não têm outro propósito que não o de trazê-los a Cristo, à vida e ao conforto. Embora eles fiquem felizes em ver os olhos chorosos dos seus ouvintes e em ouvir as suas confissões e lamentações, ainda assim, não é porque eles tenham prazer nas suas aflições, mas porque antevêem os seus frutos de salvação. Eles sabem ser isto necessário para a paz eterna de vocês. Você pode ler quais são os pensamentos deles nas palavras de Paulo: “Agora me alegro, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependi­mento; pois fostes contristados segundo Deus, para que de nossa parte nenhum dano sofrês­seis, pois a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte. Porque quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que segundo Deus fostes contristados! Que defesa, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vindita!”[19].

A verdade é que nem Cristo, nem seus ministros têm aquele amor tolo e apaixonado por vocês, e piedade de vocês, como vocês têm por si mesmos. Eles não são tão dóceis, a ponto de evitar que sofram as tristezas que são necessárias para livrá-los do inferno. Não obstante, eles não colocariam sobre vocês mais tristezas do que é necessário, nem têm vocês experimentado uma gota de vinagre ou fel, ou derramado uma lágrima, a não ser que tenha servido para o vosso conforto e salvação.

5. Considere também que sofrimentos são aqueles que os presentes sofrimentos evitam, e que sofrimentos serão aqueles no inferno, os quais são evitados por estes sofrimentos que vêm de Deus, na terra. Comparados com os sofrimentos do inferno, os sofrimentos do arrependimento são alegrias. Os seus sofrimentos produzem esperança, mas os sofrimentos daqueles que perecem no inferno conduzem ao desespero. Os seus sofrimentos são pequenos e não mais do que uma gota, comparados com o oceano deles. Os seus curam, mas os deles atormentam. Os seus são a vara de um pai, mas os deles são instrumentos de tortura e forcas. Os seus estão misturados com amor, mas o deles não, antes oprimem-nos em confusão. Os seus são curtos, mas os deles não têm fim. Você preferiria o sofrimento deles, em vez do sofrimento que vem de Deus? Preferiria você uivar com os demônios e rebeldes, do que chorar com os santos e filhos? Preferiria você ser quebrado no inferno por tormentos, do que na terra pela graça?

Não é algo razoável de sua parte rebelar-se por causa dos sofrimentos que acabarão por salvá-lo, se você lembrar do que eles irão salvá-lo e do que sofrem todos aqueles que não são humilhados aqui pela graça! O quão diferente é o sofrimento que outros estão agora suportando. Não resmungue por causa da abertura de uma veia enquanto que muitos milhares estão agora sangrando até o coração.

6. Considere também que quanto mais você for corretamente humilhado, mais doce Cristo e todas as suas misericórdias serão para você enquanto viver. Uma prova do amor de Cristo fará com que você bendiga aqueles sofrimentos que o prepararam para isto. O próprio Cristo não é igualmente valorizado, nem mesmo por todos aqueles que Ele salvará. Não deveria você ser antes esvaziado de você mesmo mais e mais, para que seja mais cheio de Cristo daqui em diante? Quando você sentir os Seus braços envolvendo-o, e vê-Lo naquela postura em que se encontrava o pai do filho pródigo, você agradecerá àqueles sofrimentos que o habilitaram para os Seus braços.

Se você for totalmente humilhado, viverá todos os seus dias de modo muito mais seguro. A humilhação lhe fará odiar o pecado, por causa do qual você veio a sentir dor aguda, e lhe fará fugir de ocasiões que lhe foram tão caras.

O pecado do orgulho é um dos pecados mais mortais e danosos no mundo; e é a razão de milhares de mestres serem mal sucedidos. A humilhação é totalmente contrária a ele, e, portanto, precisa ser algo bem-vindo e desejável. Valeria a pena suportar todo o sofrimento que cem homens suportam aqui para salvá-lo deste perigoso pecado do orgulho.

7. Uma humilhação profunda é usualmente um sinal de uma maior exaltação futura. “Porque quem a si mesmo se exaltar, será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar, será exaltado”[20]. “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que Ele em tempo oportuno vos exalte”[21].

Quanto mais alto um homem pretenda construir, mais profundamente ele deve cavar para fazer o alicerce. As suas consolações serão provavelmente maiores quanto maiores forem seus sofrimentos. Você pode livrar-se daquelas hesitações que acompanham outros por todos os seus dias e que acabam fazendo com que nunca sejam verdadeiramente humilhados. Você não precisa estar ainda questionando, ou arrancando seus alicerces, como se você tivesse que começar tudo novamente. Se muitas coisas concorrem para o seu sofrimento, isto é um sinal de que você poderá ser grandemente usado. Paulo deve ter sido humilhado profundamente na sua conversão, a fim de que pudesse ser habilitado como um “instrumento escolhido para levar o Meu nome perante os gentios e reis”[22] .

Coloque tudo isto diante de você, e considere quantos motivos você tem para acalentar a obra de humilhação da graça, e não, ao invés disso, apagá-la.

Quando o seu coração começar a se afligir por causa do pecado, não procure a companhia dos tolos para beber ou se distrair, com o propósito de se esquecer da aflição do pecado. Não expulse estes sentimentos da sua mente, como se fossem indesejáveis, como se eles houvessem vindo para magoá-lo. Mas fique sozinho, e considere o assunto, e de joelho, em secreto, clame ao Senhor para visitá-lo e para quebrar o seu coração e para prepará-lo para estas consolações salvadoras, para que não o deixe neste Mar Vermelho, mas traga-o à outra margem e coloque em sua boca os cânticos de louvor.

* Digitado e revisado por Emir Bemerguy Filho.

[1] Versão on-line do livro Richard Baxter, Quebrantamento: Espírito de Humilhação, 2 ed., trad. Paulo R. B. Anglada (Belém-PA: Editora Classicos Evangélicos, 1991). Direitos da traduçào reservados.
[2] Esta é a introdução ao livro inteiro: Direções e Persuasões para uma Conversão Segura (Directions and Persuasions to a Sound Conversion)

[3] Is 29:13 | [4] 1 Jo 2:19 | [5] 2 Pe 1:1O | [6] Pv 5:3-5 | [7] Rm 8:2 | [8] Lc 15:18,19 | [9] Lc 18:13 | [10] 1 Pe 5:5 | [11] Sl 138:6 | [12] Is 57:15 | [13] Is 66:2 | [14] Sl 34:18 | [15] Sl 51:17 | [16] Is 53:3 | [17] Is 57:16 | [18] Mt 11:28 | [19] 2 Cor 7:9-11 | [20] Mt 23:12 | [21] 1 Pe 5:6 |[22] At 9:15

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Quebrantamento: Espírito de Humilhação | Rev. Richard Baxter | Capítulo 03

Capítulo 3 | Erros sobre a Humilhação a Serem Cuidadosamente Evitados

Pelo que já foi dito, você pode perceber quais os erros a serem cuidadosamente evitados com relação à sua humilhação, e com que cuidados ela deve ser buscada.

(1) Um erro com o qual você deve tomar cuidado, é o de não encarar a humilhação como algo irrelevante, ou como apenas um apêndice à fé, que pode ser dispensado. Não pense que uma alma não humilhada, enquanto tal, pode ser santificada. Alguns corações carnais supõem que apenas os pecadores mais atrozes precisam ser contristados e ter o coração quebrantado, mas que isto não é necessário para eles, que foram criados descente e religiosamente desde a mocidade. Mas é tão possível ser salvo sem fé e sem arrependimento quanto sem esta humilhação especial, a qual eu já descrevi, e que é parte da sua santificação.

(2) Outro erro a ser cuidadosamente evitado é o de colocar a sua humilhação somente ou principalmente na parte emocional, ou nas expressões externas dessas emoções. Eu me refiro tanto a uma dor aguda, como à tristeza de coração, ou ainda às lágrimas. Mas você deve se lembrar que o valor dela, como eu disse antes, está na sua reação ao julgamento e na vontade. Não é o grau de uma tristeza ou angústia de sentimentos que mostrará melhor o grau de sinceridade da sua humilhação, e muito menos as suas lágrimas ou expressões exteriores. Mas é a baixa avaliação que você faz de si próprio, e a aceitação em ser visto como vil aos olhos dos outros. É o seu descontentamento, e o desejo de gemer e chorar por causa do pecado o tanto quanto Deus gostaria que você o fizesse, juntamente com a aceitação do julgamento e vontade antes descritos que demonstram realmente a sua humilhação.

Há dois grandes perigos aqui, diante de você, a serem evitados. Há alguns que podem ter terríveis angústias de tristeza, e estão a ponto de arrancar os próprios cabelos, sim, e até mesmo de darem um fim a si próprios, como Judas, por causa do horror da sua consciência; e isto poderia lhes parecer que eles teriam verdadeira humilhação. Mas mesmo assim não a têm. Alguns podem chorar abundantemente em um sermão, ou em uma oração, ou ao mencionar seus pecados a outros, e, portanto, pensar que estão realmente humilhados; mas ainda assim podem não estar. Pois, se ao mesmo tempo, seu coração ama o pecado e prefere apegar-se a ele do que se livrar dele, ou não tem um ódio habitual pelo pecado e um amor predominantemente muito maior a Deus, a sua humilhação nada tem a ver com a obra de salvação. Os seus sentimentos e as suas lágrimas podem até ser forçados contra a sua vontade. Se você não deseja realmente odiar o pecado, os sentimentos e as lágrimas dificilmente significariam mais do que uma graça comum.

Muitos podem chorar por causa dos sentimentos, e por causa da natureza feminina sensível, e ainda assim permanecerem não humilhados, podendo até estar em um grau muito elevado de orgulho. Quão regularmente vemos tantos que são assim! As mulheres, especialmente, podem chorar mais em um culto ou conversa, do que alguém que está realmente quebrantado poderia fazê-lo em toda a sua vida, e ainda assim estarem tão longe de se verem vis aos seus próprios olhos e desejarem ser vistas assim aos olhos dos outros que elas odiarão, reprovarão e criticarão todos aqueles que as acusarem com as faltas que elas mesmas parecem se lamentar. Também, ao serem acusadas de horrendos pecados, estas pessoas se desculparão e suavizarão seus pecados, fazendo deles assunto de menor importância e se apegando àqueles que tenham um alto conceito delas. É assim que o pecado reina regularmente em seus corações: manifesta-se nas suas palavras e vidas; faz com que odeiem aqueles que com fidelidade as reprovam; e que vivam em contenda com qualquer um que venha a desonrá-las, apesar de todas as lágrimas que caem dos seus olhos. Assim, portanto, não julgue pelos sentimentos, ou apenas pelas lágrimas, mas pela reação aos julgamentos e pela vontade, como foi dito acima.

Um outro caso, que é muito melhor e mais feliz do que o primeiro, mas que produz grande dificuldade, é o erro daqueles que pensam que não têm uma verdadeira humilhação por não experimentarem tais sentimentos e liberdade de lágrimas como outros experimentam quando o coração deles é contristado, pois não conseguem derramar sequer uma lágrima.

Diga-me apenas isto: “Você se vê como vil aos seus próprios olhos por ser culpado de pecados, e isto contra o Senhor, a quem você realmente ama? Você odeia os seus pecados, por causa das suas abominações, e desejaria de coração sofrer quando estivesse pecando? E se você tivesse que escolher de novo, você preferiria sofrer do que pecar? Você sente o desejo de se entristecer por causa do pecado mesmo quando não pode sentir tristeza, e deseja chorar, ainda que não consiga? Pode você suportar calmamente quando é ofendido, porque sabe que é realmente vil? É você grato a um reprovador sincero, apesar dele lhe mostrar o mais terrível pecado? Você considera as suas próprias palavras e feitos indignos, e as palavras e feitos dos outros melhores, desde que haja a menor razão para isso? Você atribui justiça às aflições que vêm de Deus e às reprimendas verdadeiras de homens, e se considera indigno da comunhão dos santos, ou de ver a justiça de Deus se Ele viesse a condená-lo?”

Este é o estado de uma alma humilhada. Se você puder responder afirmativamente a estas perguntas, então não precisa duvidar da sua aceitação por parte de Deus, mesmo que você não derrame uma lágrima. Há mais humilhação em uma baixa estima de nós mesmos do que em mil lágrimas, e mais em uma vontade ou desejo de chorar pelo pecado do que nas lágrimas que vêm motivadas pelo terror, por uma consciência pesada, ou pelos sensíveis sentimentos naturais. Se a vontade estiver correta, você não precisa temer. É aquele que mais odeia o pecado e é mais severo para com o pecado que é humilhado por causa dele. Aquele que lamenta o pecado hoje e o comete amanhã é muito menos humilhado e penitente do que aquele que não é atraído para o pecado na esperança dos prazeres do mundo, nem o comete, mesmo que fosse para salvar sua vida.

(3) Para evitar isto alguns incorrem no erro oposto e pensam que a tristeza e lágrimas são desnecessárias, e que podem se arrepender com ou sem lágrimas. Estes, fundamentam tudo em alguns desejos vagos e ineficazes; e assim, pensam que o coração foi mudado. Mas certamente Deus não criou os sentimentos em vão. É impossível que um homem possa ter uma vontade santificada e as suas emoções não manifestem alguma correspondência, e sejam controladas pela vontade. Embora não possamos gemer naquele grau que desejaríamos, ainda assim terá de haver alguma tristeza sempre que o coração for verdadeiramente mudado, e, aparentemente, esta tristeza deveria ser grande. Ninguém pode crer de coração que o pecado é o maior mal para sua alma sem ser afligido por isto. Na verdade, os nossos sentimentos mais vivos deveriam ser afetados por estas coisas tão importantes. É uma vergonha ver um homem gemer por um amigo e lamentar por uma provação, que afeta apenas a carne, e, no entanto, ser tão insensível à praga do pecado, à ira do Senhor, e sorrir e gracejar com tais pesos sobre a sua alma.

Embora a tristeza e as lágrimas não sejam o coração e a parte principal de nossa humilhação, ainda assim elas devem ser buscadas como um dever. Sim, certo grau de tristeza é absolutamente necessário, e a falta de lágrimas não é um bom sinal naqueles que as derramam por outras coisas. Na verdade, a convicção da nossa loucura e crueldade deveria ser tão grande a ponto de quebrar o nosso coração de tristeza, derreter o nosso peito, e produzir rios de lágrimas dos nossos olhos. Se nós não podemos produzir isso em nós, devemos antes lamentar a dureza do nosso coração, ao invés de nos desculparmos.

(4) Neste item, trataremos de como responder à questão, se é possível a um homem ser humilhado e se arrepender em demasia.

A manifestação exterior da humilhação, que consiste nos atos que provêm do entendimento e da vontade, não podem ser maiores do que o próprio entendimento e a vontade que produziram estes atos. Se as manifestações externas forem maiores do que a própria vontade, elas não apenas serão erradas como também nada terão a ver com a verdadeira humilhação salvadora. Um homem pode se considerar pior do que ele realmente é, pensando falsamente de si mesmo como se ele fosse culpado de pecados dos quais realmente ele não é; e isto não é a mesma coisa que verdadeira humilhação. Mas, se ele tiver uma clara apreensão da maldade do seu pecado e da sua própria vileza, a isto ele não deve temer.

No âmbito da vontade é mais claro: nenhum homem pode estar querendo livrar-se do pecado em demasia, nem ter a mesma aversão ao pecado quanto o próprio Senhor o tem. Mas, quanto à outra parte da humilhação que consiste em aguda tristeza ou lágrimas, pode muito bem ocorrer em demasia, embora eu conheça muito poucos que incorrem neste erro ou precisem temer isso, pois o homem normal do mundo é estúpido e duro de coração, e até a maioria dos piedosos são lamentavelmente insensíveis.

Ainda assim, há alguns poucos que necessitam desse conselho, a fim de que não se agonizem em grau excessivo de tristeza. Permita que o seu coração se disponha o mais possível contra o pecado, mas permita também algum limite às suas tristezas e lágrimas. Este conselho é necessário aos seguintes tipos de pessoas: (1) Às pessoas melancólicas, as quais estão em perigo de serem perturbadas, e agirem de modo irracional e sem propósito por excessiva tristeza. Seus pensamentos são fixos, confusos, sombrios, escuros e cheios de temores, e acabam tornando as coisas piores do que já são, sendo mais profundamente afetadas por estes sentimentos do que suas cabeças podem suportar. (2) Este é o caso também de algumas mulheres fracas de espírito, as quais não são melancólicas, mas ainda assim, por fraqueza natural de seus cérebros e por serem altamente sensíveis, não têm condições de suportar estas comoções sentimentais sérias e profundas que outros podem desejar, pois a profundidade da sua sensibilidade e a intensidade das suas paixões representam um perigo de serem lesadas pelos seus julgamentos, e serem facilmente lançadas à melancolia, ou a algo ainda pior.

Ser destituído da razão é uma das grandes calamidades corporais nesta vida, e isto seria um grande problema tanto para a própria pessoa como para os que a cercam. Trata-se de uma questão de vergonha e desonra para o Evangelho aos olhos dos ímpios que não entendem o caso. Quando eles vêem alguma tristeza excessiva e desmesurada, ou alguém cair em perturbação, isto representa uma grande tentação para que fujam da religião, evitem a tristeza que vem de Deus e todos os pensamentos sérios a respeito das coisas celestiais. Faz com que os tolos escarnecedores digam que a religião torna o homem maluco, e que esta humilhação e conversão para as quais os conclamamos é o caminho para fazê-los perder o juízo. Assim sendo, por causa da tristeza dos piedosos, e do endurecimento dos impiedosos, o caso se reveste de seriedade a ponto de requerer nosso maior cuidado em evitá-lo.

Pergunta: Mas se é tão perigoso entristecer-se, tanto de modo insuficiente como em demasia, o que fará um pobre pecador em tal desfiladeiro, e como pode ele saber quando deve restringir sua tristeza?

Resposta: Há pouquíssimas pessoas no mundo que têm razão em temer o excesso deste tipo de tristeza. A situação geral do homem é ser insensível; a tristeza do mundo provoca muito mais melancolia e perturbação do que a tristeza que vem de Deus. Mas, para aqueles poucos que estão em perigo de excesso, eu primeiramente direi como discernir o perigo e, depois, como remediá-lo.

Quando a sua tristeza é maior do que o seu julgamento pode suportar, com aparente perigo de perturbação ou de distúrbio melancólico e diminuição de seu entendimento, então a tristeza é certamente demasiada e deve ser restringida. Porque se você arruinar a sua razão, você se constituirá em opróbrio para a religião, e não estará habilitado para nada que seja realmente bom: nem para sua edificação, nem para o serviço do reino de Deus.

Se você estiver com uma séria doença a qual a tristeza poderia aumentar o risco para sua vida, você então tem razão para restringi-la; embora não deva abster-se de arrepender-se, ou descuidar-se da sua salvação; mas, o sentimento de tristeza, esta você deve moderar ou reduzir.

Quando a tristeza é tão grande a ponto de transtornar a sua mente, ou enfraquecer o seu corpo, de modo a incapacitá-lo para o serviço de Deus, e a torná-lo mais despreparado para fazer o bem, você tem razão então para moderar e restringir a tristeza.

Quando a intensidade da sua tristeza sobrepuja a medida necessária do seu amor, ou alegria, ou gratidão, deixando estes de lado, apossando-se mais do seu espírito do que deveria, não deixando espaço para os seus outros deveres, então esta tristeza é excessiva, e precisa ser restringida. Há alguns que se esforçariam e lutariam com seus corações para arrancar algumas lágrimas e aumentar sua tristeza, os quais, entretanto, fazem pouco caso de outros sentimentos e não se esforçariam a metade para aumentar sua fé, amor e alegria.

Quando o seu sofrimento, por causa da sua intensidade, o conduz à tentação ou ao desespero, ou a pensar que Deus e o Seu serviço são duros demais, ou a desvalorizar Sua graça e a satisfação de Cristo, como se fossem deficientes e insuficientes para você, neste caso, você tem razão para moderar e restringir o sofrimento.

Quando a sua tristeza é inoportuna e a vontade precisa de impulso em momentos quando você é conclamado à gratidão e à alegria, você tem então razão em moderá-la e restringi-la durante estas épocas. Não que devamos eliminar toda tristeza, seja qual for o dia de alegria ou gratidão, a menos que possamos suprimir todos os nossos pecados nos deveres daquele dia. Também não devemos suprimir todo conforto espiritual e prazer nos dias de maior humilhação. Porque assim como o nosso estado aqui é um misto de graça e pecado, assim também todos os nossos deveres religiosos devem ser um misto de alegria e tristeza. É apenas no céu que teremos alegria absoluta, assim como é apenas no inferno que há tristezas absolutas, ou, pelo menos, em nenhum estado de graça. Mas, por enquanto, por causa disso tudo, há épocas agora quando um destes sentimentos deve ser exercido de modo mais preponderante, e o outro em menor grau. Em tempos de calamidades, por exemplo, e após uma queda, nós somos tão conclamados à humilhação que o conforto deveria apenas moderar nossas tristezas, e o seu exercício deveria estar submisso nestas épocas. Assim também em épocas de especial misericórdia da parte do Senhor nós podemos ser conclamados a exercitar nossa gratidão, louvor e alegria tão preponderantemente que a tristeza deve nos manter humildes, e ser, por assim dizer, serviçal às nossas alegrias.

Quando graça e misericórdia são mais eminentes, então a alegria e o louvor deveriam ser predominantes, o que se verifica com mais freqüência em uma vida cristã que anda erguida a cuidadosamente com Deus. Quando pecado e julgamento são mais eminentes, a tristeza deve então ser predominante, visto ser um meio necessário para uma sólida alegria. Assim sendo, normalmente um pecador que ainda está passando pela obra de conversão, e é recém-chegado a Deus de um estado de rebelião, deve estimular mais tristeza, e se dar mais a gemidos e lágrimas do que posteriormente, quando for trazido à reconciliação com Deus, a andar com integridade.

Pergunta: Mas quando é, por outro lado, que eu posso saber que a minha humilhação é pequena demais, e que deveria me esforçar para aumentá-la?

(1) Quando, aparentemente, não há os perigos acima mencionados, quais sejam de destruir seu corpo, perturbar sua mente, transformar suas faculdades, afogar as outras graças, deveres, etc. Não havendo estes perigos você tem pouca razão de temer o excesso.

(2) Quando você não se humilhou o suficiente para levá-lo a valorizar o amor de Cristo, a ter estima pelo Seu sangue e seus efeitos, a ter fome e sede Dele e de Sua justiça e a mendigar ardentemente pelo perdão de seus pecados. Então você tem razão de desejar mais humilhação. Se você não sente grande necessidade de Cristo, mas passa por Ele tão desinteressadamente, como o estômago cheio passa pela comida, como se você pudesse passar muito bem sem Ele, então você pode estar certo de que precisa ser mais quebrantado. Se você não é tão movido pelo amor de Deus, a ponto de se desvencilhar de qualquer coisa para gozá-Lo, e de não considerar nada mais querido do que os céus, você necessita ficar sob convicção dos seus pecados e miséria um pouco mais, e de implorar ao Senhor que o salve do seu coração de pedra. Se você pode ouvir do amor e dos sofrimentos do seu Redentor sem ferver de amor por Ele novamente, e pode ler ou ouvir as promessas de graça, sobre os dons de Cristo, e sobre a vida eterna sem nenhuma considerável alegria ou gratidão, é tempo de implorar a Deus por um coração mais humilhado.

(3) Quando há muitos altos e baixos na obra da sua conversão, e você fica às vezes num bom estado, e novamente num mau estado, como se ainda estivesse irresoluto quanto a se deve mudar ou não; quando você hesita diante dos termos que Cristo estabelece quanto à autonegação, à crucificação da carne, e a abandonar tudo pela esperança da glória, e acha estas coisas duras, e está ainda considerando se deveria submeter-se a elas ou não, ou está ainda reservando secretamente alguma coisa para você mesmo. Isto tudo certamente mostra que você ainda não foi suficientemente humilhado, caso contrário você não estaria agindo tão levianamente para com Deus. Ele ainda deve colocar os seus pecados diante de você, e segurá-lo por um pouco sobre o fogo do inferno, e fazer soar em sua consciência tal estampido, a ponto de fazer com que você se submeta e acabe com suas dúvidas, e o ensine a não mais procrastinar com seu Criador.

O próprio Faraó ficava submisso e insubmisso a Deus, e às vezes deixava Israel ir, às vezes não, sendo necessário que Deus o humilhasse com praga sobre praga, até fazê-lo submeter-se e ficar até feliz em permitir que o povo partisse. Mesmo quando Deus usa dos meios de graça, quando o coração é duro, Ele faz tanto uso das tristezas quanto seja necessário para fazer com que o homem se submeta o mais cedo possível aos Seus termos e se alegre em obter misericórdia em tais termos.

(4) Quando você está insensível e desanimado quanto às ordenanças de Deus e a Escritura tem pouca vida ou doçura para você; quando se encontra quase que indiferente se invoca a Deus em secreto ou não, se vai à igreja ou não para ouvir a Palavra e unir-se em louvor a Deus na comunhão dos santos; quando não sente grande gosto nos cultos e nos sacramentos, mas pratica-os quase que meramente por costume, ou para aliviar a sua consciência, e não por uma grande necessidade que sinta dessas práticas, ou do bem que encontra nelas. Isto mostra, por certo, que você carece de mais um pouco da vara e da espora de Deus. Seu coração ainda não foi suficientemente quebrantado, mas Deus precisa tomá-lo novamente em Suas mãos.

(5) Quando você está esquecido de Deus, e da vida por vir, e esquece tanto dos seus pecados como do sangue do Salvador, e coloca os seus pensamentos quase que continuamente nas vaidades a nas coisas deste mundo, como se estivesse crescendo mais nestas coisas do que na sua necessidade de Cristo. Isto mostra que a pedra ainda está no seu coração, que Deus precisa fazer com que você se alimente de um cardápio mais difícil, para corrigir os seus apetites, e fazê-lo sentir o seu pecado e miséria até que Ele retire os pensamentos que você tem nas coisas que são na realidade pouco importantes, e o ensine a preocupar-se mais com o seu estado eterno. Se você começa a se esquecer do seu próprio estado e de Deus, é tempo de ser lembrado disto.

(6) Quando você começa a sentir mais doçura na criação, e a ser mais lisonjeado com aplausos a honras, e a sentir mais prazer na abundância, e mais impaciência com a pobreza ou necessidade, ou com os erros dos homens, e com as cruzes do mundo; quando você se dedica a ser bem sucedido, e está desejoso de se tornar rico e cai de amor pelo dinheiro; quando você se atira aos cuidados e negócios do mundo, e fica oprimido com muitas coisas por sua própria escolha. Isto mostra, na verdade, que você está perigosamente não humilhado. Se Deus tiver misericórdia de você, Ele o rebaixará e fará com que a sua riqueza se torne em amargura e absinto para você, abaterá o seu apetite e ensinará que uma coisa é realmente necessária: “Desejar ardentemente a comida que não perece”. Ensiná-lo-á daí em diante a escolher a melhor porção.

(7) Quando você percebe que poderia voltar a brincar com as circunstâncias propícias ao pecado, ou a olhar para elas com disposição na mente como se ainda tivesse a mente voltada para isso e quase que pudesse voltar o seu coração querendo novamente aquilo; quando você começa a ter a mente novamente voltada para suas velhas companhias e caminhos, ou começa a se aproximar o mais possível novamente dessas coisas, e a olhar com fixação para a isca na tentativa de provar daquilo que é proibido, e quase que não pode dizer como negar as suas inclinações, apetites, sentimentos e desejos. Isto mostra que você carece de uma obra de despertamento. Parece que Deus precisa ler para você mais um pouco da Palavra, e fazer com que você soletre aquelas linhas de sangue, as quais, ao que parece, você se esqueceu. Ele precisa acender o fogo da sua consciência, até que você sinta e entenda se é realmente bom brincar com o pecado, com a ira de Deus, e com o fogo eterno.

(8) Quando você começa a se tornar indiferente com relação a sua comunhão com Deus. Você começa a não pensar mais muito se Ele lhe aceitou realmente e se de fato lhe manifestou o Seu amor, mas começa a deixar de lado as suas orações e a não mais atentar para elas ou ao que acontece com elas. Passa a fazer uso dos sacramentos raramente questionando o resultado desta prática. Quando você pode dispensar o consolo espiritual dos santos e extrai pouco conforto espiritual de Cristo e dos céus, e cada vez mais dos seus amigos, bens, prosperidade e situações materiais, talvez comece a sentir-se tão bem na companhia de pessoas do mundo, falando e agindo como elas, com a mesma satisfação que antes tinha ao meditar no amor de Cristo. Isto mostra que você ainda não tem um real senso do perigo que corre. A humilhação ainda tem uma grande obra a realizar em você. Você precisa ser ensinado a conhecer mais a sua casa, a ter mais prazer em seu Pai, a conhecer mais o seu marido, seus irmãos em Cristo, mais a sua herança, do que os estranhos ou inimigos de Deus e seus.

(9) Quando você começa a fazer pouco caso das ordenanças ou de outras misericórdias, e ao invés de recebê-las com gratidão e se alimentar delas passa a queixar-se delas, e nada lhe agrada, dizendo: “O pastor é muito fraco”, ou “o pastor é muito exigente”, ou “o pastor é muito formal”, “isso deveria ser desse ou daquele modo”, “o culto é muito ou pouco formal”, “ele gesticula muito ou pouco”, “esta ordem não está boa”, “isto ou aquilo não é apropriado”. Isto tudo mostra que você carece ser humilhado, e que você está mais preparado para a vara do que para o alimento. Se Deus pudesse apenas abrir a porta do seu coração e mostrar claramente a maldade e o vazio que há nele, você veria que o erro não está no pastor nem no culto, e mesmo que houvesse erro neles, o erro maior ainda seria o seu. A causa da sua relutância e contenda com o mundo está no seu próprio estômago cheio, e Deus precisa lhe dar um remédio, que faça o seu coração doer antes que Ele termine a Sua obra. Então o seu apetite será corrigido, a sua frivolidade terá fim, e aquilo que você antes criticava passará a lhe ser doce.

(10) Quando você começa a tufar de orgulho, a pensar muito alto de si mesmo, a ter bons conceitos sobre o seu próprio talento e desempenho, ter prazer em ser notado e visto como alguém que desponta entre os piedosos, e não pode suportar ser esquecido ou ser deixado de lado. Quando você considera os talentos e desempenho dos outros inferiores em comparação com os seus, se considera tão sábio quanto seus mestres e passa a ouvi-los como se fosse juiz deles, com espírito de julgamento, e achando que poderia fazer tão bem quanto eles. Quando você começa a encontrar falta naquilo que deveria estar lhe nutrindo, e não encontra nada em cada sermão a não ser defeitos, e a acha que não cometeria tais erros. Quando você deseja veementemente ser seu próprio mestre e se considera mais habilitado a pregar do que a aprender, a dirigir do que ser dirigido, a responder do que a perguntar. Quando você pensa tão bem de si mesmo que a igreja não é mais boa nem pura o suficiente para sua companhia, embora Cristo não seja ali negado, e você não seja ali induzido a pecar. Quando você se torna crítico e passa a agravar mais e mais a falta dos outros, diminuindo as suas virtudes. Pode ver um cisco nos olhos dos outros, mas não consegue discernir as virtudes deles, a não ser que sejam altas como uma montanha, e ninguém pode passar por piedoso ao seu julgamento, a não ser os santos mais eminentes. Quando você passa a desejar veementemente as novidades na religião e a se achar mais sábio do que a igreja presente e antiga, e se considera excepcional por não ser como os demais. Quando você não pode ouvir nem este nem aquele pastor, embora sejam na verdade ministros de Cristo. Quando você fica batendo sempre na mesma tecla: “Saí dentre eles, e separai-vos deles”, como se Cristo houvesse chamado você a sair da igreja, quando na verdade o chama a sair da companhia dos infiéis. Tudo isso indica que você necessita de mais humilhação.

Você tem um inchaço que precisa ser aberto para permitir que o ar saia e ele seque. Para que você não venha a se perder, para que não venha a ser abandonado por Deus e ser entregue a si mesmo, você precisa ser trazido à humilhação novamente com um testemunho. Quando Deus lhe revirar e lhe mostrar que você é um pobre, miserável, cego e nu, e que está inchado sem razão e se enchendo de si mesmo, Ele fará você parar diante daqueles que você despreza. Ele fará você se considerar indigno da comunhão com aqueles que antes você julgava indignos de você. Fará com que se considere indigno de ouvir aqueles pastores aos quais você antes virava as costas. Ele jogará por terra o seu ensino, coisas tolas, e o tornará feliz em ser ensinado de novo. Numa só palavra, por meio da conversão Ele o fará novamente como criança, ou você nunca entrará no reino dos céus.

Este orgulho espiritual é uma doença lamentável, e consiste em algo excessivamente triste. Para muitos, é o prelúdio de condenação e apostasia. Deus os entrega aos seus próprios conceitos e à sabedoria que eles tanto estimam, até que estes os levem à perdição. E dentre aqueles que são curados, há muitos que o são da maneira mais triste, pois é comum Deus deixá-los sozinhos até que se lancem a erros abomináveis ou caiam em algum pecado vergonhoso e escandaloso, até que se tornem objeto de escândalo e comentários entre os homens. Esta vergonha e confusão podem, entretanto, despertá-los, a fim de que venham a compreender o que foi que os tornou tão orgulhosos, e a reconhecerem que não passam de simples vermes.

Desse modo eu mostrei quando é que você deve buscar uma humilhação mais profunda, e quando pode concluir que ainda não foi suficientemente humilhado. Sim, quando uma humilhação em maior grau é necessária à sua alma.

Pergunta: Bem, mas ainda assim, você ainda não nos disse que caminho um pobre pecador deveria tomar em tal desfiladeiro, quando não sabe se sua humilhação, no que diz respeito à parte emocional, é insuficiente ou demasiada.

Resposta: 1. Vocês mesmos podem discernir parcialmente pelo que foi dito, se têm necessidade de mais ou menos humilhação, apenas testando o coração por essas indicações. 2. Mas, ainda assim, eu os aconselharia e persuadiria veementemente, em caso de dificuldade, a recorrerem a algum ministro capaz e fiel, para uma resolução.

Se você sente que a tristeza se apodera demasiadamente do seu espírito, que põe em perigo o seu entendimento ou a sua saúde, especialmente se você é uma mulher sentimental ou uma pessoa melancólica, não permaneça neste estado por muito tempo, para que a demora não venha a fazer aquilo que não poderá ser facilmente desfeito, mas vá e converse sobre o seu caso, e peça conselho. Esta é uma das principais funções dos pastores: que você possa tê-los à disposição para se aconselhar com eles a respeito das doenças e perigos da sua alma, assim como você faz com os médicos com relação às doenças e perigos do corpo. Desvencilhe-se de toda timidez pecaminosa, e não continue a confiar em si mesmo e nas suas habilidades, mas vá àqueles aos quais Deus designou com superintendência sobre você para estas situações, e conte-lhes o seu caso.

Este é o modo de Deus, e Ele abençoará a Sua própria ordenança. Pessoas melancólicas, sensíveis e irritadiças não são juízes habilitados para avaliar sua própria situação. Neste caso, você deve desconfiar do seu próprio entendimento e não ser orgulhoso, nem se agarrar obstinadamente a cada capricho que venha à sua cabeça, mas, ao sentir a sua fraqueza, confie-se à direção dos seus fiéis ministros, até que o seu problema seja superado, e você se torne mais capaz de discernir por você mesmo.

Outro erro do qual você será aqui alertado é o de pensar que a tristeza e as lágrimas são desejáveis em si mesmas. Elas são desejáveis apenas como expressão de uma disposição sincera da vontade, e quando elas ajudam a atingir o fim para o qual a humilhação é designada. Assim, aqui você poderá aprender o caminho pelo qual deve buscá-las.

(1) Você não deve colocar a ênfase da sua religião nelas, como se fôssemos chamados pelo Evangelho apenas para uma vida de tristeza. Mas deve fazer da tristeza e das lágrimas servas da sua fé, amor, e alegria no Espírito Santo, e de outras graças. Assim como o uso da agulha é apenas para abrir caminho para a linha, e então é a linha, e não a agulha, que faz a costura, assim, a nossa tristeza serve apenas como preparação para a fé e amor, sendo estes os que unem a alma a Cristo. É, portanto, um triste erro que alguns fiquem muito preocupados por sua falta de tristeza, mas pouco preocupados por sua falta de fé e amor, e orem e se esforcem para quebrar seus corações, ou chorem pelos pecados, sem, contudo, fazerem o mesmo para obter aquelas graças maiores, às quais a tristeza deveria conduzi-los. Um deveria ser feito sem se deixar de lado o outro.

(2) Visto que as lágrimas são uma expressão do coração, elas deveriam ser espontâneas e sinceras, fluindo voluntariamente do sentimento interior por causa do mal que lamentamos. Se você vier a chorar bastante, meramente por pensar que as lágrimas são em si mesmas necessárias, e não por causa do ódio que sente pelo pecado e pelo sentimento da sua natureza vil e assassina, isto não tem nada a ver com a verdadeira humilhação. Se o coração estiver humilhado diante do Senhor, não é a falta de lágrimas que fará com que Deus o despreze. Alguns são, por natureza, tão pouco dados ao choro que não podem chorar por nenhuma coisa externa, nem pela perda do mais querido amigo, embora fossem capazes de fazer dez vezes mais para salvar a vida dele do que alguns que choram à vontade. Gemidos, assim como as lágrimas, também são expressões de tristeza, mas a rejeição e ódio sinceros ao pecado, são evidências ainda melhores do que ambos.

Quando, entretanto, a pessoa tem uma disposição natural para chorar, mesmo que seja por dificuldades materiais, e ainda assim não pode derramar uma lágrima pelo pecado, aí o caso é mais questionável.

(3) A razão principal pela qual vocês devem se esforçar para ter uma tristeza mais profunda é para que possam obter o fim ao qual a tristeza deveria levar: que o pecado vos seja mais odioso e mortificado com mais efetividade; que o “eu” seja humilhado, para que Cristo possa ser mais valorizado, desejado e exaltado, e para que você seja melhor habilitado a uma maior comunhão com Deus no tempo por vir, seja salvo do orgulho, e mantido vigilante.

Pelo que foi dito, você tem uma regra pela qual pode acertadamente discernir que grau de humilhação deve ser alcançado: ela deve ir tão profundamente a ponto de minar o nosso orgulho. O coração deve ser tão quebrantado quanto necessário para nos afastar do pecado e nos desvencilhar do “eu” carnal. Se isso não for alcançado, ainda que você chore os próprios olhos, isso não valerá nada. Você precisa ser rebaixado a tal ponto que o sangue de Cristo e o favor de Deus venham a ser mais preciosos a seus olhos do que o mundo inteiro, e em seu próprio coração preferira antes aqueles do que este. Aí, então, você pode estar seguro de que a sua humilhação é sincera, quer você derrame lágrimas ou não.

Pelo que foi dito, você também pode concluir que deve fugir da idéia de atribuir às suas próprias humilhações qualquer valor da honra devida apenas a Cristo. Não pense que você pode satisfazer a justiça da lei ou merecer qualquer coisa da parte de Deus pelo valor dos seus sofrimentos, mesmo que você venha a chorar lágrimas de sangue. Isto não será uma verdadeira humilhação, se não consistir no senso de reconhecimento da sua indignidade e merecida condenação, e se não levá-lo a buscar por perdão e vida em Cristo, e se não levá-lo a se ver perdido e totalmente incapaz em si mesmo. Portanto, seria clara contradição se a verdadeira humilhação viesse a ser tida como satisfação ou mérito, ou algo em que confiar ao invés de Cristo.

Richard Baxter 



segunda-feira, 30 de julho de 2012

Quebrantamento: Espírito de Humilhação | Rev. Richard Baxter | Capítulo 01

Capítulo 1 | A Verdadeira Natureza da Humilhação
Há uma humilhação preparatória que acontece antes de uma transformação salvífica, que não deve ser desprezada, visto que nos aproxima de Deus, mas que, contudo, não consiste numa total submissão a Ele.
Esta humilhação preparatória, a qual muitos vêem fenecer, consiste principalmente nas seguintes coisas: em primeiro lugar, ela reside principalmente no temor de ser condenado este temor se assemelha mais à sensação de medo. Consiste também em uma certa apreensão da grandeza dos nossos pecados, da ira de Deus que ameaça cair sobre nossas cabeças, e do perigo em que nos encontramos de sermos condenados para sempre. Ela consiste ainda em certa compreensão da loucura da qual somos culpados ao pecar, e de algum arrependimento por ter um dia cometido tais coisas, e algum remorso de consciência por isto.

A isto pode se unir um certo sentimento de tristeza, sendo este expresso através de gemidos e lágrimas. Isso tudo pode ser acompanhado com confissões de pecado a Deus e a homens, lamentações por nossa miséria; em alguns, isto precede o próprio desespero. E, finalmente, isto pode levar a uma indignação contra nós mesmos, e à adoção de uma atitude de severa vingança sobre nós mesmos; sim, mais do que Deus levaria o homem a adotar; como Judas fez em se autodestruir. Este desespero e auto-execução não são parte da humilhação preparatória, mas o excesso, o seu erro, e a entrada do inferno.

Mas há também uma humilhação que é própria ao convertido, a qual acompanha a salvação, e que inclui tudo o que há na anterior, e muito mais - assim como a alma racional inclui o sensitivo, o vegetativo, e muito mais. Esta humilhação salvífica consiste nos seguintes particulares: ela começa no entendimento, e é enraizada na vontade. Opera nos sentimentos e, quando há oportunidade, manifesta-se em expressões e atitudes exteriores.

1. A humilhação do entendimento consiste em uma baixa apreciação de nós mesmos, num auto-rebaixamento, e num auto-julgamento condenatório; e isto nas seguintes particularidades:

Consiste numa apreensão profunda, sólida, habitual e real da hediondez dos nossos próprios pecados, e de nós mesmos por causa deles; isto porque eles são contrários à bendita natureza e lei de Deus, e tão contrários à nossa própria perfeição e bem principal. Também consiste em uma sólida e fixa apreensão da nossa própria ruína por causa desses pecados, de tal modo que os nossos julgamentos subscrevem a eqüidade da sentença condenatória da lei, e nos julgamos indignos da menor misericórdia, e dignos de punição eterna. Consiste em uma apreensão da nossa condição arruinada e miserável: visto que nós não apenas somos herdeiros de tormento, como também, destituídos da imagem e Espírito de Deus, perdemos Seu favor, estamos debaixo do Seu desagrado e inimizade. Por causa do nosso pecado, perdemos o direito da nossa parte na glória eterna, e grande é nossa incapacidade de nos ajudar a nós mesmos.

Isto se dá em tal medida, que nós julgamos realmente os nossos pecados e a nós mesmos, por causa do pecado, mais odiosos do que qualquer outra coisa que algum outro mal pudesse nos tornar. Consideramos a nossa miséria, por causa do pecado nas particularidades referidas anteriormente, maior do que qualquer calamidade exterior na carne, e do que qualquer perda terrena que viesse a nos atingir. Isto nós apreendemos através de um julgamento prático e não apenas por mera especulação ineficaz. A fonte disto está em um certo conhecimento do próprio Deus, cuja majestade é tão gloriosa, e cuja sabedoria é tão infinita. O qual é tão bom em Si mesmo e para conosco, cuja santa natureza é contrária ao pecado. O qual tem em nós uma propriedade absoluta, e também é soberano sobre nós. Isto é também proveniente de um conhecimento do verdadeiro estado da felicidade humana, que foi arruinada pelo homem em conseqüência do pecado, a qual consiste em agradar, glorificar e gozar a Deus em amor, deliciar-se Nele, e louvá-Lo para sempre, e em ter uma natureza perfeitamente santa e adequada a este propósito. Ver que o pecado é contrário a esta felicidade e que nos tem privado dela, é uma das fontes da verdadeira humilhação.

Esta humilhação no entendimento provém também de um conhecimento pela fé de Cristo crucificado, o qual foi morto pelos nossos pecados, o qual declarou na maneira mais viva possível ao mundo através de Sua cruz e sofrimentos o que é o pecado, o que ele faz, e a situação em que nós nos colocamos.

Assim, muito da humilhação salvífica se processa no entendimento.

2. A sede principal desta humilhação é na vontade, e aí ela consiste nos seguintes atos: ao pensarmos humildemente a respeito de nós mesmos, nós temos um constante desagrado por nós mesmos e pelos nossos pecados, e uma certa indignação contra nós por causa das nossas abominações. Um pecador humilhado é um inquiridor de si mesmo, e como ele é mau, seu coração é contra ele próprio.

Há também na vontade um profundo arrependimento por termos pecado, ofendido a Deus, abusado da Sua graça, e por termos nos colocados em tal situação; de tal modo que a alma humilhada desejaria gastar seus dias na prisão, a esmolar, ou em miséria corporal, ao invés de gastá-los no pecado; e se pudesse começar de novo, ela preferiria escolher uma vida de vergonha e calamidade no mundo, do que uma vida de pecado, e ficaria alegre pela troca.

Uma alma humilhada deseja realmente se entristecer por causa dos pecados que cometeu, e por causa deles ser sensível e afligida tão profundamente quanto fosse agradável a Deus. Mesmo quando ela não pode derramar uma lágrima, ainda assim a sua vontade é derramá-las. Quando ela não consegue sentir nenhuma profunda aflição por causa do pecado, seu sincero desejo é que possa senti-la. Ela preferiria cem vezes chorar no desejo, quando não o faz em ato.

Uma alma humilhada deseja realmente mortificar a própria carne pelo uso daqueles meios indicados como sendo aqueles através dos quais Deus a subjuga, como através do jejum, abstinência, vestuário simples, trabalho duro e negando-se prazeres desnecessários.

É uma dúvida digna de consideração se quaisquer destes atos de humilhação devem ser usados propositadamente em revide contra nós mesmos por causa do pecado. A isto respondo que nós não podemos fazer nada, a título de revide, que Deus não o permita, ou que torne nossos corpos menos habilitados para o Seu serviço, pois esta atitude receberia revide de Deus e da nossa alma. Mas aqueles meios de humilhação necessários para domar o corpo podem bem ser usados com dupla intenção: primeiro e especialmente, como um meio para nossa segurança e como precaução, a fim de que a carne não venha a prevalecer; e então, paralelamente, nós deveríamos ficar mais contentes em ver mais sofrimento ser imposto à carne, porque ela foi e ainda é um grande inimigo de Deus e nosso, e a causa de todo o nosso pecado e miséria. Este é o revide que é permitido ao penitente, e que alguns pensam ser tencionado.

Visto que a alma humilhada tem pensamentos humildes de si mesma, então ela deseja que outros a avaliem e a considerem desse modo, mesmo que seja um pecador vil e indigno, desde que a sua desgraça não prejudique o Evangelho ou a outros, ou venha a desonrar a Deus. Seu orgulho é humilhado a tal ponto que ela não pode suportar ser depreciada com alguma condescendência. Não que aprove o pecado de qualquer homem que faça isso maliciosamente, mas consentindo com o julgamento e repreensão daqueles que façam isto com sinceridade, e consentindo com o julgamento de Deus, ainda que através daqueles que o façam maliciosamente. A alma humilhada não fica se defendendo e atenuando injustamente seus pecados, se desculpando, e se inflamando contra o reprovador; o que quer que ela faça em uma tentação, se esta atitude for predominante, seu orgulho, e não humilhação, acabará por predominar. Mas ela se julga a si mesma o tanto quanto outros possam justamente julgá-la, e humildemente consente em ser humilhada aos olhos humanos até que Deus venha a levantá-la e a recuperar sua dignidade.

A raiz de toda essa humilhação na vontade é um amor a Deus, a quem ofendemos, um ódio ao pecado que O ofendeu, e que nos fez odiosos; um senso confiante do amor e dos sofrimentos de Cristo, O qual condenou o pecado na Sua carne.

Assim vocês vêem no que consiste a humilhação da vontade, a qual é a própria vida e alma da verdadeira humilhação.

3. A humilhação também inclui os sentimentos: uma genuína tristeza pelo pecado que cometemos; pela corrupção que há no pecado; uma vergonha por estes pecados; um santo temor a Deus quando nós O ofendemos, e dos Seus julgamentos os quais merecemos, e uma apropriada aversão aos nossos pecados. Mas, como mostrarei adiante, não é pelo grau, mas pela sinceridade destes sentimentos que você deve fazer um julgamento do seu estado; e isto dificilmente será discernido pelos próprios sentimentos. Assim, portanto, a vontade é o meio mais seguro através do qual podemos nos avaliar.

4. A humilhação também consiste expressivamente em ações exteriores, quando é oferecida oportunidade. Não há humilhação verdadeira no coração, se ela se recusa a aparecer no exterior, quando Deus a requer no seu curso ordinário. Os atos exteriores da humilhação são: uma confissão voluntária dos pecados a Deus e aos homens, quando Deus o requer, isto é, quando isto se torna necessário à Sua honra, ao bem daqueles a quem ofendemos, e satisfação do ofendido. Isto deve ser feito pelo menos quando confessamos os pecados abertamente a Deus na presença dos homens. Uma alma não humilhada se recusaria a fazê-lo por vergonha; mas o humilhado aceitaria livremente ser envergonhado, se isso viesse a advertir seus irmãos, e justificar a Deus, e Lhe dar glória. “Se confessarmos os nossos pecados Ele é fiel e justo para nos perdoar...” (1 Jo 1:9). “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para serdes curados...” (Tg 5:16). “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia” (Prov 28:13). Não que a pessoa precise confessar seus pecados secretos a outros, a não ser quando não possa alcançar alívio; não que a pessoa deva publicar as suas ofensas, vindo a desonrar a Deus ainda mais, e a ser empecilho para o Evangelho. Mas quando o pecado já é público e especialmente quando a ofensa de outros, o endurecimento dos ímpios, a satisfação da igreja com relação ao nosso arrependimento, requer nossa confissão e lamentação pública, então a alma humilde deve e se submeterá a isto.

O homem de coração corrompido, hipócrita, não humilhado, entretanto, confessará apenas nos seguintes casos: quando o sigilo da confissão, ou a insignificância da falta, ou a freqüência de tal confissão não traga grande vergonha sobre si. Ou quando a falta já é tão pública que seria vã qualquer tentativa de escondê-la, e a confissão não aumentaria em nada a sua desgraça. Ou quando a consciência está pesada, ou à beira da morte, ou forçado por algum terrível julgamento de Deus. Em todos estes casos o ímpio pode confessar seus pecados. Assim Judas confessou: “Pequei traindo sangue inocente” (Mt 27:4). Faraó confessou: “Eu e o meu povo somos ímpios” (Ex 9:27). Um ladrão à beira da forca confessará; e o mais vil e desprezível ser, no seu leito de morte, também confessará. Mas nós temos mais confissões no leito de morte do que confissões voluntárias diante da igreja. Infelizmente,o orgulho e a hipocrisia têm prevalecido de tal modo, e a antiga disciplina da igreja tem sido tão negligenciada, que eu penso que na maioria dos lugares na Inglaterra há muito mais pessoas que fazem confissão na forca do que pessoalmente em uma congregação.

A humilhação também deve ser expressa através de todos aqueles meios e sinais externos, aos quais Deus, através das Escrituras ou da nossa própria natureza, nos conclama. Como, por exemplo, através de lágrimas e gemidos, tanto quanto oportunamente nos ocorra; através de jejum, e da atitude de prostrar-se por causa de nossa pompa e tolice mundanas, e uso de roupas humildes, porém decentes; condescendendo com os mais desfavorecidos, e se sujeitando aos mais humildes; usando linguagem e carruagem simples; e perdoando outros, por sermos sensíveis à grandeza dos nossos débitos para com Deus.

Assim eu mostrei brevemente a vocês a verdadeira natureza da humilhação, a fim de que possam saber a que lhes estou persuadindo, e a que precisam submeter os seus corações.