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sábado, 5 de julho de 2014

Daniel, um homem público incorruptível | Rev. Hernandes Dias Lopes

daniel

Deus tem usado homens incorruptíveis no meio de uma geração decadente para firmar os valores absolutos do seu reino. Um exemplo clássico é Daniel, um homem que viveu há 2.600 anos, mas cujo testemunho reverbera ainda hoje. Quem foi Daniel?

1. Um homem capaz de vencer os traumas do passado sem azedar o coração (Dn 1.1-6). Daniel foi arrancado da sua Pátria, da sua família ainda adolescente e levado cativo para a Babilônia. Ele perdeu sua nacionalidade, sua liberdade, seu nome e sua identidade, mas resolveu ser um influenciador em vez de sucumbir às circunstâncias adversas. O que na verdade mais importa não é o que as pessoas nos fazem, mas o que fazemos com o que elas nos fazem.

2. Um homem governado por um espírito excelente (Dn 6.4). Daniel não era apenas um homem culto, mas também um homem sábio. Ele olhava para a vida na perspectiva de Deus e buscava em tudo a direção divina. Ele viveu com discernimento em seu tempo e trouxe soluções divinas para os mais intrincados problemas do seu povo. Ele viveu acima do seu tempo.

3. Um homem íntegro cercado por um forte esquema de corrupção (Dn 6.5). Daniel estava cercado por uma horda de homens inescrupulosos, que encastelados no poder, buscavam seus próprios interesses e não os do povo. Os políticos haviam se corrompido de forma alarmante e viviam como ratazanas e sanguessugas, que se alimentavam do sangue da nação. A honestidade de Daniel incomodou os políticos corruptos e eles vasculharam sua vida privada e pública, para só descobrirem que ele era um homem impoluto e sem jaça.

4. Um homem piedoso cercado por uma geração perversa (Dn 6.10). Daniel era um político culto, ético e crente. Ele era um homem de oração. Sua religiosidade não era apenas de conveniência. Sua conduta privada e pública testificava sua integridade religiosa. Daniel manteve sua vida de oração, mesmo sabendo que seus inimigos haviam tramado contra ele para o matar. Homens honestos e piedosos incomodam o sistema. Mas, os políticos comprometidos com Deus e com as causas do povo não se intimidam com as ameaças de seus inimigos. Para estes, o ideal é maior do que a própria vida e por isso estão prontos a dar a vida pelo ideal.

5. Um homem duramente perseguido por causa de sua honestidade (Dn 6.4,7). Num contexto cercado por esquemas de corrupção, o homem público honesto será sempre perseguido. Com Daniel não foi diferente. Já que nada descobriam em sua vida para incrimina-lo, tentaram afastá-lo do caminho. O que é triste é perceber com isto a inversão dos valores: um homem ser perseguido por ser honesto, verdadeiro, defensor do erário público e lutar pelas causas justas.

6. Um homem protegido do ardiloso esquema dos homens maus (Dn 6.22). Daniel cuidou de sua piedade e Deus cuidou da sua reputação. Deus não apenas defendeu Daniel, mas, também o honrou. Ele foi jogado na cova dos leões, mas Deus o tirou da cova da morte e o alçou ao ponto culminante da honra. Os inimigos que urdiram e tramaram contra Daniel foram destruídos. A história deles foi manchada pela vergonha e pelo opróbrio, enquanto o testemunho de Daniel percorre o mundo.

7. Um homem abençoador e não vingativo (Dn 6.20,21). Daniel não era um político que destilava o veneno do ódio contra seus inimigos. Ele não vinga de seus inimigos nem pede vingança para eles. Da sua boca saem apenas palavras abençoadoras.

8. Um homem cuja influência foi conhecida em toda a terra (Dn 6.25-27). Daniel honrou a Deus e foi honrado por ele. Deus foi exaltado entre as nações pelo testemunho de Daniel. Deus é exaltado entre as nações quando os seus filhos permanecem fiéis no campo minado da sedução ou da perseguição. A Babilônia, com sua magnificente grandeza caiu, mas, Daniel permaneceu de pé. Daniel foi maior do que o próprio império babilônico. Que Deus nos dê homens públicos desse jaez!

Rev. Hernandes Dias Lopes

domingo, 6 de abril de 2014

Na arena com Perpétua e Felicidade | Délnia Bastos

Era o início do terceiro século. O Império Romano tinha se fortificado em toda a região do Mediterrâneo. A sociedade gozava de estabilidade e privilégios — entre eles o de assistir aos jogos realizados no anfiteatro. Este compunha-se de uma estrutura oval, com algumas jaulas laterais para as feras, a arena no centro e um pequeno templo debaixo da arena. Ali, os gladiadores pediam as bênçãos dos deuses romanos para suas lutas, ao mesmo tempo em que os condenados pelo rei aguardavam sua sentença. Ao redor da arena, havia uma espécie de arquibancada para o público assistir confortavelmente aos espetáculos.

Naquela época, o imperador Sétimo Severo baixou um edito segundo o qual todos deveriam oferecer sacrifícios aos deuses romanos e ao próprio imperador. O infrator era sentenciado, juntamente com outros criminosos.

Vívia Perpétua, uma jovem senhora da nobreza, e sua empregada Felicidade eram cristãs. Aos 20 anos, grávida, Perpétua foi condenada, juntamente com Felicidade e mais três cristãos, por desobedecerem ao edito imperial. Em vão o pai de Perpétua tentou várias vezes convencê-la de desistir da fé e sacrificar aos deuses. “O que será do seu filho?”, o pai a advertiu, sem sucesso.

Assim, em 7 de março de 203, foi dado o veredicto final: “Perpétua, Felicidade, Revocato, Secúndulo, Saturnino e Saturo são condenados às bestas no Anfiteatro de Cartago”. Segundo a história, Saturo não estava entre os condenados, mas voluntariamente compartilhou do martírio de seus irmãos em Cristo. Perpétua havia feito um pedido especial a Deus, e foi atendida: deu à luz no dia anterior à sua morte e uma amiga cristã adotou seu pequeno filho.

Os condenados deveriam usar uma roupa designada para o espetáculo. Cada roupa fazia menção a um deus romano, de modo que o sentenciado era oferecido como sacrifício àquele deus. Perpétua e Felicidade, e depois seus companheiros, se negaram a usar a “roupa festiva”, como que num último fôlego de testemunho — nem mesmo sua morte se tornaria oferenda para os deuses. Eles entraram na arena com pouquíssima roupa, mas com um brilho e uma alegria de espírito humanamente inexplicáveis. Todos eles tinham consciência de que sua morte seria um testemunho público importante para o avanço da fé cristã. Felicidade dizia que seu martírio significava para ela não a morte, mas um segundo batismo.

Os homens foram os primeiros a entrar na arena. Dois deles deveriam passar por uma ponte com uma série de obstáculos, entre os quais algumas feras, como leões e tigres, até que chegassem aos gladiadores. Secúndulo morreu na prisão, antes mesmo de chegar à arena. Saturnino foi decapitado e os outros dois morreram durante o espetáculo.

Por último, entraram a jovem senhora e sua companheira. Para elas, foi designada uma bezerra, que investiu primeiramente em Perpétua e em seguida avançou para Felicidade. Perpétua, após recobrar a consciência, ajudou Felicidade a se levantar. Conta-se que escorria leite daquela que amamentara apenas um dia seu filhinho recém-nascido. Elas foram retiradas da arena feridas, para serem mortas pelos gladiadores. A platéia estava exaltada. Queria mais, e exigiu que a morte fosse pública. Elas então morreram na arena, pelas espadas dos gladiadores.

Esta história comovente certamente nos lembra a passagem bíblica que diz: “Eles, pois, venceram [Satanás] por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12.11). Segundo Tertuliano, o sangue dos mártires é a semente da igreja. Com efeito, o sangue de Perpétua, Felicidade e de seus irmãos em Cristo foi a semente da igreja no Norte da África. Sua morte deveria ser um presente do imperador Severo para seu filho César Geta. Mas foi muito mais um presente para a igreja.

Os poucos cristãos que vivem naquela região felizmente não estão mais sob o jugo opressor romano. Mas precisam da mesma ousadia e fé para “enxergar além do véu” e enfrentar os obstáculos de oposição e perseguição a que ainda estão sujeitos hoje.

Délnia Bastos, casada, três filhos, recentemente esteve no local onde Perpétua e Felicidade foram executadas, hoje Tunísia.

Fonte: Ultimato

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Um Guia para a Formação Espiritual | Franklin Ferreira

discipuladoNas últimas duas décadas, a palavra discipulado foi suplantada pelo termoespiritualidade. O que aparentemente era algo restrito à devoção católica se tornou um dos aspectos centrais do interesse evangélico atual.

Uma definição mais básica de espiritualidade cristã é que esta seria o relacionamento profundo com Deus Pai, mediado pela cruz de Jesus Cristo, no poder do Espírito Santo. Indo um pouco além, Alister McGrath sugere que a espiritualidade cristã é:

A busca por uma existência cristã autêntica e satisfatória, envolvendo a união das ideias fundamentais do cristianismo com toda a experiência de vida baseada em e dentro do âmbito da fé cristã. (...) No cristianismo, a espiritualidade significa viver o encontro com Jesus Cristo. A expressão ‘espiritualidade cristã’ refere-se a como a vida cristã é entendida e às práticas devocionais explícitas desenvolvidas com vistas a nutrir e sustentar esse relacionamento com Cristo. A espiritualidade cristã pode, então, ser compreendida como a maneira pela qual indivíduos ou grupos cristãos buscam aprofundar sua experiência com Deus ou ‘praticar a presença de Deus’, para usar uma frase associada particularmente ao Irmão Lourenço.

Sublinhando a união entre as verdades cristãs e uma vida devota, ele escreve mais adiante:

A espiritualidade é a aplicação da verdade cristã à vida de fé. (...) Ela procura colocar Deus no coração e na mente. A espiritualidade ocupa-se do aprofundamento do conhecimento pessoal de Deus, ela se baseia em uma boa teologia, que alicerça a vida cristã. (...) Colocar uma barreira entre teologia e espiritualidade é pedir a duas pessoas apaixonadas que se relacionem friamente.

Assim sendo, de acordo com McGrath, a espiritualidade cristã é “um dos assuntos mais fascinantes que alguém pode estudar”.

Este livro se propõe a ser uma introdução à história da espiritualidade cristã, a partir da vida de trinta e dois importantes personagens da história da igreja. Em ordem cronológica, são eles: Policarpo de Esmirna, Irineu de Lião, Atanásio de Alexandria, Basílio de Cesaréia, Agostinho de Hipona, Leão Magno, Bento de Núrsia, Anselmo de Cantuária, João Wycliffe, João Huss, Tomás de Kempis, Martinho Lutero, Filipe Melanchthon, Ulrico Zuínglio, João Calvino, William Tyndale, Richard Baxter, John Bunyan, Blaise Pascal, Johann Sebastian Bach, Jonathan Edwards, John Wesley, William Carey, William Wilberforce, José Manoel da Conceição, Charles Spurgeon, Abraham Kuyper, Karl Barth, Dietrich Bonhoeffer, C. S. Lewis, Francis Schaeffer e D. M. Lloyd-Jones.

Muito já se escreveu sobre a espiritualidade cristã, sob os prismas devocionais ou pastorais. Em inglês, existem obras que cobrem a história da espiritualidade. Mas, em português, ainda que tenhamos bons livros publicados sobre devoção e espiritualidade, somente recentemente começou-se a publicar algumas obras sobre a história da espiritualidade. Este livro tenta preencher tal lacuna, na medida em que considera a vida de alguns dos principais pensadores cristãos como o terreno onde a devoção e a espiritualidade cristã foram formadas. Assim, busco demonstrar a ligação entre devoção disciplinada, erudição, produção teológica e renovação eclesial e social.

As personagens tratadas nesse livro foram escolhidas obedecendo a três critérios. O primeiro considerou a influência que certos personagens têm em toda a igreja cristã, não apenas uma denominação ou segmento. Aqui podemos destacar Irineu, Atanásio, Basílio, Agostinho, Leão, Anselmo, Lutero, Calvino e Barth, cujos escritos e influência permanecem até hoje conosco. A bibliografia produzida acerca destes personagens e de seus escritos teológicos é imensa, o que dá testemunho de sua influência duradoura. O segundo critério foi a influência salutar que alguns destes personagens podem desempenhar, se forem descobertos por pastores e líderes evangélicos no Brasil. Aqui podem ser nomeados Policarpo, Bento, Tomás de Kempis, Baxter, Bunyan, Edwards, Wilberforce, Conceição, Spurgeon, Kuyper, Lewis, Schaeffer e Lloyd-Jones. A vida e obra de cada um destes personagens merecem um estudo mais aprofundado por parte dos cristãos brasileiros. E o último critério foi o interesse desse autor em pesquisar mais sobre estes personagens. Obviamente, tal interesse se estende a todos os biografados. Mas pode-se citar, mais especificamente, Wycliffe, Huss, Melanchthon, Zuínglio, Tyndale, Pascal, Bach, Wesley, Carey e Bonhoeffer.

Nessa nova edição há dois capítulos inéditos, que tratam de Karl Barth e Dietrich Bonhoeffer. Preciso, nesse ponto, oferecer uma explicação da inclusão destes dois personagens nessa obra.

Ao fim do século xix, as igrejas reformadas e luteranas na Suíça e na Alemanha haviam sido seduzidas pela teologia liberal. Karl Barth não apenas rompeu com este método teológico, mas também o criticou de forma veemente e definitiva, e ele deve receber o crédito por este feito. Ele escreveu o comentário à Carta aos Romanos, considerado um dos mais importantes tratados teológicos do século xx, no qual criticou impiedosamente o liberalismo teológico e o sentimentalismo religioso.

Curiosamente, na atualidade, alguns tentam buscar respaldo em Barth para justificar posições liberais, opostas às doutrinas centrais da fé cristã. Estes tomam um elemento isolado dos escritos de Barth e a empregam para fazer conexões com, por exemplo, a teologia da esperança - a qual ele não conseguia diferenciar do “princípio esperança” marxista. Este é um tipo de apropriação que ele, sem dúvida, repudiaria.

Barth ainda é um teólogo influente na atualidade, ensinando a muitos a fazer teologia confessional, a escrever em diálogo com os Pais da Igreja e os reformadores do século xvi, a basear as formulações dogmáticas numa exegese do texto bíblico centrada em Cristo Jesus e a ambicionar uma teologia sistemática esteticamente bonita.

Portanto, ainda que discordemos da interpretação de Barth sobre a Criação, de sua compreensão da inspiração da Escritura, e de sua explicação da predestinação, deve-se admitir que ele foi um dos grandes teólogos do século passado. Michael Horton avaliou judiciosamente a importância deste escritor para a igreja cristã:

Quaisquer sejam suas deficiências com respeito a sua própria doutrina das Escrituras, o projeto de Barth ao menos representa uma revolução copérnica na história da teologia moderna no que diz respeito ao menos a este ponto: opondo-se ao antropocentrismo do neo-protestantismo com um teocentrismo absoluto que direcionou novamente a luz sobre a iniciativa divina. Deus não apenas determina a resposta, mas também as perguntas. Temos todas as razões para desafiar a doutrina da Palavra de Deus de Barth, mas no que diz respeito à fonte da teologia, estamos juntos: a Escritura, e não a igreja ou a cultura é a norma normans non normata (a norma que normatiza, mas ela própria não é normatizada).

Baseando-se na herança do pietismo, (…) outros [autores] que defendem um evangelicalismo pós-conservador normalmente exibem uma visão mais schleiermachiana que bartiana das Escrituras e da doutrina. Enquanto Barth falou claramente sobre pecado e graça, a pregação e a teologia evangélica de hoje tendem a falar em termos de disfunção e recuperação, distendendo a missão de Cristo ao ‘encarnar’ seu amor e vida transformadora. Barth estava convencido que seres humanos não poderiam contribuir para sua própria redenção e que nada menos que um ato soberano da misericórdia divina era necessário [para tal]. Por contraste, o evangelicalismo está sendo crescentemente inundado por um pelagianismo prático que justifica a avaliação de Bonhoeffer de que o cristianismo americano é um ‘protestantismo sem reforma’. Atualmente, um número crescente de teólogos evangélicos compartilha o antigo desconforto liberal com a doutrina do sacrifício substitutivo de Cristo, enquanto (...) estudantes e admiradores de Barth o defendem.

Alguns evangélicos contemporâneos demonstram uma maior abertura a outras religiões como fontes de revelação redentiva, enxergando o evangelho em termos de seguir o exemplo de Cristo (...). Qualquer que seja nossa posição sobre as tendências ‘otimistas’ de Barth em direção ao universalismo, elas são embasadas em sua visão da graça e eleição divina, com Cristo somente como o fundamento. Em outras palavras, o monergismo do cristianismo reformado tem Barth como seu defensor corajoso, em contraste com o evangelicalismo (...). Na terra do ‘protestantismo sem a reforma’, Barth é, de fato, uma voz revigorante. Eu me junto à galeria dos admiradores, especialmente quando as alternativas são o liberalismo ou o fundamentalismo, movimentos que têm mais em comum um com o outro (a saber, a herança pietista) que com o cristianismo reformado. Cristãos reformados confessionais podem aprender muito de Barth (...). No entanto, estou convicto de que onde estas estradas divergem, ocorre um declínio ao invés de uma renovação do legado reformado. Barth permanece como uma figura importante com que se pode contar, não para ser levianamente desconsiderado, nem para ser abraçado sem crítica. Para o bem ou para o mal, sua voz ainda é ouvida entre nós.

Então, usando as palavras de Barth com uma ênfase um pouco diferente, nos entristecemos em discordar dele, contudo somos compelidos a isto em obediência às Escrituras. Mas isso não anula sua importância para a história da igreja e o estudo da fé cristã.

Sobre Dietrich Bonhoeffer, é necessário lembrar que foi somente após 1950 que seus escritos ocasionais e fragmentários foram redescobertos. E estes foram interpretados muitas vezes por meio de especulação ou mera projeção. Infelizmente, como disse Ernesto Bernhoeft, “muitas expressões [de Bonhoeffer, especialmente em Resistência e submissão,] foram interpretadas erroneamente ou sequer foram entendidas”. Então, de acordo com Eberhard Bethge, intérpretes liberais falharam em manter uma continuidade entre seus escritos mais antigos, cujo teor ele mantinha integralmente, e suas cartas da prisão, extrapolando suas ideias “no interesse do marxismo”, citadas como inspiradoras de metodologias teológicas tão díspares como as teologias da libertação latino-americanas e a teologia da morte de Deus anglo-saxônica.

Muitos evangélicos rejeitam os escritos de Bonhoeffer, tratando-os como mera variante do liberalismo teológico do século xix. Com isso, estes deixam de se beneficiar de livros valiosos para a fé cristã, como Vidaem comunhão e Discipulado, e perdem de vista percepções instigantes e provocadoras, como: a religião como idolatria; o tenso equilíbrio entre o viver no mundo “como se Deus não existisse” e a necessidade da “disciplina do segredo” (disciplina arcani) por parte da igreja; e a fraqueza de Deus em Cristo revelada na cruz.

No entanto, de seus escritos emerge um quadro teológico com nuances e complexidades, e tanto evangélicos como liberais permanecem desconfortáveis diante do quadro maior, no qual a sua oposição política ao nazismo foi resultado direto de sua teologia. Mas a pergunta importante é: o que podemos aprender dos escritos de Bonhoeffer para sermos melhores cristãos? Logo, ainda que discordando de algumas de suas posições, reconheço que ele foi um seguidor de Cristo, que cria no evangelho, e que a nossa fé pode ser encorajada pela leitura de suas obras e do estudo de sua vida.

Ainda que este livro tenha uma perspectiva histórica, os estudos de tais biografias, juntas, nos fornecem pistas para uma teologia da espiritualidade cristã. Mas, antes, é necessário fazer um alerta ao leitor: estas personagens nos lembram da imagem bíblica de que a vida cristã é uma peregrinação (1Pe 2.11), e, como peregrinos, exemplificam a multiforme sabedoria de Deus (Ef 3.10) e combatem a popular ideia de que há um modelo único, normativo, de espiritualidade cristã.

Levando-se em consideração que se tornou tão comum criar categorias rígidas para julgar a devoção – com o surgimento de rótulos banais e superficiais –, essas vidas lembram que nossa peregrinação cristã é individualizada e não pode ser resumida a chavões. Cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus. Por isso, não existe um modelo pelo qual nossa espiritualidade deva ser medida. A devoção não pode ser resumida a caricaturas simplistas ou reducionistas. Em outras palavras, não existe um modelo único de espiritualidade cristã. O que devemos aprender de mais importante é que a espiritualidade e a devoção não devem ser exibidas (Mt 6.1-8). As personalidades retratadas neste livro não gastaram seu tempo falando das próprias experiências com Deus, mas empreenderam a vida para promover a glória de Deus no sacrifício de seu Filho bendito, recebido por meio do Espírito e ensinado e afirmado na Escritura.

Podemos, então, resumir dez princípios teológicos que emergem deste estudo histórico.

  1. O primeiro princípio é que na vida de todas as personagens aqui estudadas é enfatizada a conversão do pecado, como fruto da graça livre e soberana de Deus. Isso é exemplificado especialmente na vida de Agostinho, Lutero, Pascal, Wesley e Lewis. Como resultado, esses homens se percebiam peregrinos, cuja pátria está nos céus. A grande ambição da vida deles era a glória de Deus, e para isso viveram, escreveram, pregaram e serviram ao bem comum.
  2. Podemos constatar que a espiritualidade na vida dos nossos biografados é moldada pela Escritura. Deus revela seu amado Filho nas Escrituras, inspiradas pelo Espírito Santo e, por isso, sem erro. Kenneth Kantzer nos diz que a Bíblia, assim como Martinho Lutero nos ensinou muitos anos atrás, é o berço pelo qual Cristo vem a nós. Se tirássemos o bebê do berço e o colocássemos na rua, ele morreria. E se o berço fosse instável e fraco, prejudicaria a segurança do bebê. Da mesma maneira, a doutrina da inerrância é a salvaguarda de uma fé cristã saudável e completa. Em conexão com isto, nossas personagens enfatizaram fortemente uma teologia exegética e bíblica. George Eldon Ladd nos diz que:

    A teologia bíblica é a disciplina que estrutura a mensagem dos livros da Bíblia em seu ambiente formativo histórico. A teologia bíblica é primariamente uma disciplina descritiva, cuja abrangência não busca primeiramente o significado final dos ensinos da Bíblia ou sua relevância para os dias atuais, uma tarefa da teologia sistemática. A tarefa da teologia bíblica é expor a teologia encontrada na Bíblia em seu contexto histórico, com seus principais termos, categorias e formas de pensamento. Opropósito óbvio da Bíblia é contar a história a respeito de Deus e de seus atos na história para a salvação da humanidade.

    Ainda que concordando com a definição de Ladd, devemos ir além, e afirmar que o propósito da teologia bíblica não é ser meramente descritiva. A teologia bíblica tem um papel também normativo, uma vez que demonstra o significado do texto e sua relevância para a vida cristã. Isso pode ser exemplificado nas Institutas da religião cristã, de João Calvino. Exposta de maneira sistemática, a teologia presente nesta obra, desenvolvida em torno do Credo dos Apóstolos, começa com a compreensão do texto bíblico em seu contexto histórico. Por esta característica, as Institutas se tornaram, nas palavras de Alister McGrath, “uma declaração definitiva sobre a natureza da fé cristã (...), a obra teológica de maior influência da Reforma Protestante”.

    Essa teologia também está unida à pregação e ao uso da imaginação. Como modelo de teólogos criativos e bíblicos, temos Irineu, Basílio, Agostinho, Leão, Lutero, Calvino, Edwards e até mesmo Barth. Nos textos deles, o uso das ferramentas filosóficas está a serviço do estudo das Escrituras. Por outro lado, em Lloyd-Jones, Spurgeon e Wesley temos modelos de grandes pregadores, cuja mensagem era centrada em Cristo Jesus, morto e ressurreto, e que construíram sobre o legado de seus predecessores. E em Bunyan, Bach e Lewis temos modelos do uso da imaginação, saturada da linguagem das Escrituras, sempre para a edificação da igreja e para a glória de Deus.

  3. Outra característica que se destaca é um forte senso de inadequação para o ministério cristão, e isso está presente em quase todos os biografados, mas é exemplificado especialmente na vida de Atanásio, Agostinho e Calvino. Quando completou oitenta anos, Karl Barth comparou seu próprio trabalho como teólogo ao jumento que carregou Jesus Cristo para Jerusalém (Mt 21.1-3):

    Se fiz alguma coisa nesta minha vida, o fiz como parente do jumento que seguiu seu caminho carregando um importante fardo. Os discípulos haviam dito a seu dono:‘O Senhor precisa dele.’ E, assim, parece que agradou a Deus ter-me usado nesse tempo, exatamente como eu era, a despeito de todas as coisas, as coisas desagradáveis, que muito corretamente são e serão ditas sobre mim. Assim fui usado. (...) Apenas aconteceu de eu estar no ponto certo. Uma teologia um pouco diferente da teologia usual fazia-se claramente necessária em nossa época, e foi-me permitido ser o jumento que carregou essa teologia melhor ao longo de parte do caminho, ou tentou carregá-la da melhor forma que pude.

    Como veremos, todos eles foram pastores e reformadores relutantes. Sabiam que eram pequenos para a grande tarefa à qual Deus os chamou. Sabiam que sua suficiência estava em Deus. Por isso, relutaram em entrar para o ministério cristão. Alguns chegaram a lutar para não entrar no ministério cristão! Eles sabiam que pecadores falarem do Deus vivo para outros pecadores não era uma tarefa corriqueira.

  4. O teólogo reformado holandês G. C. Berkouwer disse certa vez para seus alunos na Universidade Livre de Amsterdã que todos os grandes teólogos começam e terminam a sua obra com uma doxologia. Na vida das nossas personagens, piedade e louvor caminham lado a lado com erudição e conhecimento. Não há uma falsa polarização, tão comum em nosso tempo, entre estudo e devoção ou luz e paixão nesses homens, e isso pode ser visto nas obras de Irineu, Atanásio, Agostinho, Lutero, Calvino, Edwards e Barth. Eles escreveram e pensaram para a glória de Deus e edificação da igreja.
  5. A maioria das personagens que estudaremos nesta obra foram pastores – e grandes pastores. E, neles, as artes esquecidas do discipulado, da mentoria, da catequese e da evangelização estavam unidas. Vemos isso especialmente em Bento, Tomás de Kempis, Baxter, Wesley, Conceição e Bonhoeffer.
  6. Essas personagens moldaram o que tem sido chamado de cosmovisão cristã, isto é, uma visão integral da obra de Deus na criação e restauração de todas as coisas, com suas abrangentes aplicações para a vida espiritual, social e cultural. Isso é notado sobretudo em Kuyper, mas também em Schaeffer.
  7. A fé que esses homens tinham na graça de Deus também estava ligada ao seu serviço à sociedade. Eles se dedicaram não apenas à igreja, mas serviram a homens e mulheres de forma integral. Fundaram escolas, universidades, hospitais, lutaram pela abolição da escravatura, traduziram Bíblias e alimentaram os pobres. Essa característica é notada principalmente em Basílio, Melanchthon, Wilberforce e Kuyper.
  8. No estudo dessas personagens, devemos destacar a ênfase na comunhão dos santos. Pode ser de ajuda ter em mente que a igreja cristã estava unida até o século xi, quando a igreja ocidental e a igreja oriental se dividiram. E, no século xvi, a igreja ocidental novamente se dividiu, durante a reforma protestante, quando a mensagem central das Escrituras foi redescoberta – Deus salva pecadores somente pela graça, recebida pela fé somente.

    Principais Ramos da Igreja Cristã

    séc. I ao séc. XI: A Igreja Cristã

    século XI: Católica Ocidental  - Católica Oriental

    século XVI: Protestante  Católica Romana - Católica Oriental - Igrejas Protestantes

    século XVI: Anabatista  Reformada   - Luterana  - Anglicana

    século XVII: Puritanos (presbiteriana, congregacional, batista)

    século XVIII: Metodista

    século XX: Pentecostal

    Adaptado de What It Means To Be Reformed: An Identity Statement. Grand Rapids, MI: CRC, 2002, p. 8.

    O gráfico anterior pode ajudar o leitor a situar as várias personagens deste livro no ramo denominacional a que pertencem, e seu lugar na história da igreja. Mas, ao mesmo tempo, devemos lembrar o que o famoso evangelista inglês do século xviii, George Whitefield, afirmou, num sermão:

    Pai Abraão, quem está com você nos céus? Os episcopais? Não! Os presbiterianos? Não! Os independentes ou metodistas? Não, não, não! Quem está com você? Nós, aqui, não sabemos seus nomes. Todos os que estão aqui são cristãos (...). É esse o caso? Então, Deus, nos ajude a esquecer o nome de grupos e nos tornarmos cristãos de verdade.

    A vida desses homens nos lembra que a igreja é maior que uma denominação. Na Escritura, o vocábulo igreja nunca é usado para designar um prédio, uma denominação ou a influência cristã na sociedade, mas a grupos locais reunidos para ouvir a Palavra de Deus (At 8.1; Rm 16.16; 2Ts 1.4), e a todo o povo de Deus, através dos séculos (Mt 16.18; 1Co 15.9; Ef 5.25). A igreja é composta de todos aqueles que confiam e descansam apenas no sacrifício único de Cristo na cruz. Então, somos chamados a apreciar a multiforme graça de Deus que age além da denominação à qual pertencemos. Como bem lembra Bruce Shelley:

    A ideia [do termo denominação] remonta a uma ala minoritária do partido puritano na Inglaterra do século xvii. Na Assembleia de Westminster (1643) havia um grupo de independentes [congregacionais (...)]. Esses homens chegaram à conclusão de que a condição pecaminosa do ser humano, até mesmo dos cristãos, tornava impossível a compreensão da plena e clara verdade de Deus. Desse modo, nenhum conjunto único de crenças poderia jamais representar plenamente a exigência total de Deus sobre a mente e o coração dos crentes, e nenhum corpo único de cristãos poderia afirmar ser a verdadeira igreja de Deus sem considerar outros crentes em outros grupos. Assim sendo, na mente desses puritanos, a palavra denominação implicava em que um corpo particular de cristãos (digamos, por exemplo, os batistas) era apenas uma parte da igreja cristã total, chamada – ou denominada – por seu nome especial, batista.

    Que o estudo dessas personagens nos estimule para que venha a ser verdade em nosso tempo o antigo dito cristão: “Em coisas essenciais, unidade; nas não essenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade”.

  9. A vida dos biografados foi marcada por grande coragem. Eles dominaram seus medos e confiaram na graça e soberania de Deus. Eles seguiam a senda do Cristo sofredor. Isso é exemplificado na vida de Policarpo, Atanásio, Huss, Tyndale, Carey e Bonhoeffer.
  10. Seguindo-se a esse ponto, em todas as personagens temos exemplificada a ligação entre devoção, avivamento e triunfo escatológico. Deus conduz sua igreja por meio de contínuos avivamentos na história, o que nos faz esperar pela vinda triunfante de Cristo no último dia. Por isso, nossas personagens continuaram a servir a Deus de forma corajosa, sem nunca ficarem desiludidos ou sem esperança. Já que o Senhor Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos, eles não seriam derrotados de forma alguma, se Deus estivesse ao seu lado.

O teólogo medieval Pierre de Blois, que viveu cerca de trezentos anos antes de Lutero, afirmou que somos anões espirituais, e, quando estudamos os escritos dos gigantes do passado, no caso, os Pais da Igreja, nos colocamos sobre seus ombros, vendo mais longe. Sou devedor de vários escritores contemporâneos, sobretudo dos textos do eminente historiador metodista Justo Gonzalez. Mas, intencionalmente, evitei escrever um texto acadêmico. Por isso, ao final de cada capítulo, o leitor poderá encontrar não apenas sugestões de leituras para aprofundamento, mas também a recomendação dos livros escritos por esses homens, que, em nome de Cristo, nosso Senhor, fizeram a história da igreja, e que servirão de edificação, desafio, correção, conforto e estímulo em nossa peregrinação. Ao fim do livro são citadas outras obras em língua inglesa que foram úteis na preparação deste livro e que podem ter utilidade para o leitor.

O tema comum a todas as vidas abordadas neste livro é a glória de Deus. Que em tudo o Deus Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, receba a glória: “Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre!” (Rm 11.36).

Fonte: Livro “Servos de Deus”, lançamento de fevereiro de 2014 da Editora Fiel, do autor Franklin Ferreira.

Extraído de: Ministério Fiel - O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O martírio de Policarpo (C.156)

O dia estava quente. As autoridades de Esmirna procuravam Policarpo, o respeitado bispo da cidade. Elas já haviam levado outros cristãos à morte na arena. Agora, uma multidão exigia a morte do líder. Policarpo saíra da cidade e se escondera na propriedade de alguns amigos, no interior. Quando os soldados entraram, ele fugiu para outra propriedade. Embora o idoso bispo não tivesse medo da morte e quisesse permanecer na cidade, seus amigos insistiram em que se escondesse, talvez com temor de que sua morte pudesse desmoralizar a igreja. Se esse era o caso, estavam completamente equivocados.

Quando os soldados alcançaram a primeira fazenda, torturaram um menino escravo para que revelasse o paradeiro de Policarpo. Assim, apressaram-se, bem armados, para prender o bispo. Embora tivesse tempo para escapar, Policarpo se recusou a agir assim. "Que a vontade de Deus seja feita", decidiu. Em vez de fugir, deu as boas-vindas aos seus captores, ofereceu-lhes comida e pediu permissão para passar um momento sozinho em oração. Policarpo orou durante duas horas. Alguns dos que ali estavam com a finalidade de prendê-lo pareciam arrependidos por prender um homem tão simpático. No caminho de volta a Esmirna, o chefe da guarda tentou argumentar com Policarpo: "Que problema há em dizer 'César é senhor' e acender incenso?". Policarpo calmamente disse que não faria isso. As autoridades romanas desenvolveram a idéia de que o espírito (ou o "gênio") do imperador (César) era divino.

A maioria dos romanos, por causa de seu panteão, não tinha problema em prestar culto ao imperador, pois entendia a situação como questão de lealdade nacional. Porém, os cristãos sabiam que isso era idolatria. Pelo fato de os cristãos se recusarem a adorar o imperador ou os outros deuses de Roma e adorar Cristo de maneira silenciosa e secreta em seus lares, a maioria das pessoas achava que eles não tinham fé. "Fora com os ateus!", gritavam os habitantes de Esmirna, enquanto buscavam os cristãos para prendê-los. Como sabiam apenas que os cristãos não participavam dos muitos festivais pagaos e não ofereciam os sacrifícios comuns, a multidão atacava o grupo considerado ímpio e sem pátria. Então, Policarpo entrou em uma arena cheia de pessoas enfurecidas. O procónsul romano parecia respeitar a idade do bispo. Como Pilatos, queria evitar uma cena horrível, se fosse possível. Se Policarpo apenas oferecesse um sacrifício, todos poderiam ir para casa.

— Respeito sua idade, velho homem — implorou o procónsul.
— Jure pela felicidade de César. Mude de idéia. Diga "Fora com os ateus!". O procónsul obviamente queria que Policarpo salvasse a vida ao separar-se daqueles "ateus", os cristãos. Ele, porém, simplesmente olhou para a multidão zombadora, levantou a mão na direção deles e disse:
— Fora com os ateus! O procónsul tentou outra vez: Policarpo
— Faça o juramento e eu o libertarei. Amaldiçoe Cristo!
O bispo se manteve firme.
— Por 86 anos servi a Cristo, e ele nunca me fez qualquer mal. Como poderia blasfemar contra meu Rei, que me salvou?

A tradição diz que Policarpo estudou com o apóstolo João. Se isso foi realmente verdade, ele era, provavelmente, o último elo vivo com a igreja apostólica. Cerca de quarenta anos antes, quando Policarpo começou seu ministério como bispo, Inácio, um dos pais da igreja, escreveu a ele uma carta especial. Policarpo escreveu, de próprio punho, uma carta aos filipenses. Embora não seja especialmente brilhante e original, essa carta fala sobre as verdades que ele aprendeu com seus mestres. Policarpo não fazia exegese de textos do Antigo Testamento, como os estudiosos cristãos posteriores, mas citava os apóstolos e os outros líderes da igreja para exortar os filipenses. Cerca de um ano antes do martírio, Policarpo foi a Roma para acertar algumas diferenças quanto à data da Páscoa com o bispo daquela cidade.

Uma história diz que, nessa cidade, ele debateu com o herege Mar-cião, a quem chamava "o primogênito de Satanás". Diz-se que diversos seguidores de Marcião se converteram com sua exposição dos ensinamentos apostólicos. Este era o papel de Policarpo: ser uma testemunha fiel. Líderes posteriores apresentariam saídas criativas diante de situações em constante mutação, mas a era de Policarpo requeria apenas fidelidade, ele foi fiel até a morte.

Na arena, a argumentação continuava entre o bispo e o procónsul. Em certo momento, Policarpo admoestou seu inquisidor: "Se você [...] finge que não sabe quem sou, ouça bem: sou um cristão. Se você quer aprender sobre o cristianismo, separe um dia e me conceda uma audiência". O procónsul ameaçou jogá-lo às feras. Policarpo disse: "Pois chame-as. Se isto fosse uma mudança do mal para o bem, eu a consideraria, mas não posso admitir uma mudança do melhor para o pior".Ameaçado pelo fogo, Policarpo reagiu: "Seu fogo poderá queimar por uma hora, mas depois se extinguirá; mas o fogo do julgamento por vir é eterno". Por fim, anunciou-se que Policarpo não se retrataria. O povo de Esmirna gritou: "Este é o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses, que ensina o povo a não sacrificar e a não adorar!". O procónsul ordenou que o bispo fosse queimado.

Policarpo foi amarrado a uma estaca, e o fogo foi ateado. Contudo, de acordo com testemunhas oculares, seu corpo não se consumia. Conforme o relato dessas testemunhas, ele "estava lá no meio, não como carne em chamas, mas como um pão sendo assado ou como o ouro e a prata sendo refinados em uma fornalha. Sentimos o suave aroma, semelhante ao de incenso, ou ao de outra especiaria preciosa".

Quando um dos executores o perfurou com uma lança, o sangue que jorrou apagou o fogo. Este relato foi repassado às congregações por todo o império. A igreja valorizou esses relatos e começou a celebrar a vida e a morte de seus mártires, chegando a coletar seus ossos e outras relíquias. Em 23 de fevereiro, todos os anos, comemoravam o "dia do nascimento" de Policarpo no Reino celestial. Nos 150 anos seguintes, à medida que centenas de outros mártires caminharam fielmente para a morte, muitos foram fortalecidos pelos relatos do testemunho fiel do bispo de Esmirna.

Fonte: Os 100 acontecimentos mais importantes da história do cristianismo
Por:
A. Kenneth Curtis


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Justino Mártir escreve sua Apollogiia (C. 150)

O jovem filósofo caminhava junto à costa, sua mente estava agitada, sempre ativa, buscando novas verdades. Ele estudara os ensinamentos dos estoicos, de Aristóteles e de Pitágoras; e, naquele momento, era adepto do platonismo, que prometera uma visão de Deus aos que sondassem a verdade com profundidade suficiente. Era isso que o filósofo Justino queria. Enquanto caminhava, encontrou-se com um cristão, já idoso. Justino ficou perplexo diante de sua dignidade e humildade. O homem citou várias profecias judaicas, mostrando que o caminho cristão era realmente verdadeiro. Jesus era a verdadeira expressão de Deus.

Esse encontro ocasionou grande mudança na vida de Justino. Debruçado sobre aqueles escritos proféticos, lendo os evangelhos e as cartas de Paulo, ele se tornou um cristão dedicado. Assim, nos últimos trinta anos de sua vida, viajou, evangelizou e escreveu. Desempenhou um papel muito importante no desenvolvimento da teologia da igreja, assim como da compreensão que a igreja tinha de si mesma e da imagem que apresentava ao mundo. Praticamente desde o início, a igreja funcionou em dois mundos: o judeu e o gentío. O livro de Atos dos Apóstolos registra o lento e, às vezes, doloroso desabrochar do cristianismo no mundo gentío. Pedro e Estêvão pregaram aos ouvintes judeus, e Paulo falou aos filósofos atenienses e aos governadores romanos.

A vida de Justino apresenta muitos paralelos com a vida de Paulo. O apóstolo era um judeu nascido em área gentia (Tarso); Justino era um gentio nascido em área judaica (a antiga Siquém). Eles tinham boa formação e usavam o dom da argumentação para convencer judeus e gentíos da verdade de Cristo. Os dois foram martirizados em Roma em razão de sua fé. Durante os reinados dos imperadores do século I, por exemplo, Nero e Domiciano, a igreja se esforçava sobreviver, para continuar sua tradição e para mostrar ao mundo o amor de Jesus Cristo. Os não-cristãos viam o cristianismo como uma seita primitiva, uma ramificação do judaismo caracterizada por ensinamentos e práticas estranhas.

Em meados do século II, sob o comando de imperadores mais razoáveis como Trajano, Antonino Pio e Marco Aurélio, a igreja teve uma nova preocupação: explicar o motivo de sua existência para o mundo de maneira convincente. Justino se tornou um dos primeiros apologistas cristãos, ou seja, um dos que explicavam a fé como sistema racional. Com escritores que surgiriam mais tarde como Orígenes e Tertuliano, ele interpretou o cristianismo em termos que seriam familiares aos gregos e aos romanos instruídos de seus dias. A maior obra de Justino, a Apologia, foi endereçada ao imperador Antonino Pio (a palavra grega apologia refere-se à lógica na qual as crenças de uma pessoa são baseadas). Enquanto Justino explicava e defendia sua fé, ele discutia com as autoridades romanas por que considerava errado perseguir os cristãos. De acordo com seu pensamento, as autoridades deveriam unir forças com os cristãos na exposição da falsidade dos sistemas pagãos.

Para Justino, toda verdade era verdade de Deus. Os grandes filósofos gregos haviam sido inspirados por Deus até certo ponto, mas permaneciam cegos com relação à plenitude da verdade de Cristo. Desse modo, Justino trabalhou livremente com o pensamento grego, explicando Cristo como seu cumprimento. Ele se aproveitou do princípio apresentado pelo apóstolo João, no qual Cristo é o Logos, a Palavra. Deus Pai era santo e separado da humanidade maligna, e Justino concordava com Platão nesse aspecto. Porém, por intermédio de Cristo, seu Logos, Deus pôde alcançar os seres humanos. Como o Logos de Deus, Cristo era parte da essência de Deus, embora separado, do mesmo modo que uma chama se acende a partir de outra (é por isso que o pensamento de Justino foi fundamental no desenvolvimento da consciência da igreja com relação à Trindade e à encarnação).

Contudo, Justino tinha uma linha de pensamento judia que caminhava com suas inclinações gregas. Era fascinado pelas profecias já cumpridas. possível que isso tenha nascido no encontro com o idoso à beira-mar. Porém, ele percebeu que a profecia hebraica confirmou a identidade singular de Jesus Cristo. Como Paulo, Justino não abandonou os judeus à medida que se aproximava dos gregos. Em Diálogo com Trifão, outra grande obra, ele escreve a um judeu, um conhecido dele, apresentando Cristo como cumprimento da tradição hebraica. Além de escrever, Justino viajou bastante, sempre argumentando a favor da fé. Ele se encontrou com Trifão em Êfeso. Em Roma, encontrou-se com Marcião, o líder gnóstico. Em outra ocasião, durante uma viagem a Roma, Justino se indispôs com um homem chamado Crescendo, o Cínico. Quando Justino retornou a Roma, por volta do ano 165, Crescendo o denunciou às autoridades. Justino foi preso, torturado e decapitado, com outros seis crentes. Justino escreveu certa vez: "Vocês podem nos matar, mas não podem nos causar dano verdadeiro". O apologista apegou-se a essa convicção até a morte. Ao fazer isso, recebeu o nome que passaria a usar por toda a história: Justino Mártir.

Fonte: Os 100 acontecimentos mais importantes da história do cristianismo
Por:
A. Kenneth Curtis