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sexta-feira, 18 de julho de 2025

Ao cometer suicídio, o cristão perde a salvação? | Miguel Núñez

Esse tem sido um dos temas mais controversos ao longo dos anos, e que lamentavelmente muitos têm respondido de uma maneira emocional e não através da análise bíblica. Aqueles de nós que crescemos no catolicismo sempre ouvimos que o suicídio é um pecado mortal que irremediavelmente envia a pessoa para o inferno. Para muitos que têm crescido com essa posição, é impossível despojar-se dessa ideia.

Outros têm estudado o tema e, depois de fazê-lo, concluem que nenhum cristão seria capaz de acabar com sua própria vida. Há outros que afirmam que um cristão poderia cometer suicídio, mas perderia a salvação. E ainda outros pensam que um cristão poderia cometer suicídio em situações extremas, sem que isso o conduza à condenação.

Em essência temos, então, quatro posições:

  1. Todo aquele que comete suicídio, sob qualquer circunstância, vai para o inferno (posição Católica Tradicional).
  2. Um cristão nunca chega a cometer suicídio, porque Deus impediria.
  3. Um cristão pode cometer suicídio, mas perderá sua salvação.
  4. Um cristão pode cometer suicídio, sem que necessariamente perca sua salvação.

A primeira dessas quatro posições foi basicamente a única crença até a época da Reforma, quando a doutrina da salvação (Soteriologia) começou a ser melhor estudada e entendida. Nesse momento, tanto Lutero como Calvino concluíram que eles não podiam afirmar categoricamente que um cristão não poderia cometer suicídio e/ou o que se suicidava iria ser condenado. Na medida em que a salvação das almas foi sendo analisada em detalhes, muitos dos reformadores começaram a fazer conclusões, de maneira distinta, sobre a posição que a Igreja de Roma tinha até então.

No fim das contas, a pergunta é: O Que a Bíblia diz?

Começamos mencionando aquelas coisas que sabemos de maneira definitiva a partir da revelação de Deus:

  • O ser humano é totalmente depravado (primeiro ponto do TULIP calvinista). Com isso, não queremos dizer que o ser humano é tão mal quanto poderia ser, mas que todas as suas capacidades estão manchadas pelo pecado: sua mente ou intelecto, seu coração ou emoções, e sua vontade.
  • O cristão foi regenerado, mas mesmo depois de ter nascido de novo, devido à permanência da natureza carnal, continua com a capacidade de cometer qualquer pecado, com a exceção do pecado imperdoável.
  • O pecado imperdoável é mencionado em Marcos 3:25-32 e outras passagens, e a partir desse contexto podemos concluir que esse pecado se refere à rejeição contínua da ação do Espírito Santo na conversão do homem. Outros, a partir dessa passagem citada, atribuem a Satanás as obras do Espírito de Deus. Obviamente, em ambos os casos está se fazendo referência a uma pessoa incrédula.
  • De maneira particular, queremos destacar que o cristão é capaz de tirar a vida de outra pessoa, como fez o Rei Davi, sem que isso afete a sua salvação.
  • O sacrifício de Cristo na cruz perdoou todos os nossos pecados: passados, presentes e futuros (Colossenses 2:13-14, Hebreus 10:11-18)
  • O anterior implica que o pecado que um cristão cometerá amanhã foi perdoado na cruz, onde Cristo nos justificou, e fomos declarados justos sem de fato sermos, e o fez como uma só ação que não necessita ser repetida no futuro. Na cruz, Cristo não nos tornou justificáveis, mas justificados (Romanos 3:23-26, Romanos 8:29-30)

A salvação e o ato do suicídio

Dentro do movimento evangélico existe um grupo de crentes, a quem já aludimos, denominados Arminianos, que diferem dos Calvinistas em relação à doutrina da salvação. Uma dessas diferenças, que não é a única, gira em torno da possibilidade de um cristão poder perder a salvação. Uma grande maioria nesse grupo crê que o suicídio é um dos pecados capazes de tirar a salvação do crente. Nós, que afirmamos a segurança eterna do crente (Perseverança dos Santos), não somos daqueles que acreditam que o suicídio ou qualquer outro pecado eliminaria a salvação que Cristo comprou na cruz.

Tanto na posição Calvinista como na Arminiana, alguns afirmam que um cristão jamais cometerá suicídio. No entanto, não existe nenhum versículo ou passagem bíblica que possa ser usado para categoricamente afirmar essa posição. Alguns, sabendo disso, defendem sua posição indicando que na Bíblia não há nenhum suicídio cometido pelos crentes, enquanto aparecem vários casos de personagens não crentes que acabaram com suas vidas. Com relação a essa observação, gostaria de dizer que usar isso para estabelecer que um cristão não pode cometer suicido não é uma conclusão sábia, porque estamos fazendo uso de um argumento de silêncio, que na lógica é o mais débil de todos. Há várias coisas não mencionadas na Bíblia (centenas ou talvez milhares) e se fizermos uso de argumentos de silêncio, estamos correndo o risco de estabelecer possíveis verdades nunca reveladas na Bíblia. Exemplo: não aparece um só relato de Jesus rindo; a partir disso eu poderia concluir que Jesus nunca riu ou não tinha capacidade para rir. Seria esse um argumento sólido? Obviamente não.

Gostaríamos de enfatizar que, se alguém que vive uma vida consistente com a fé cristã comete suicídio, teríamos que nos perguntar antes de ir mais além, se realmente essa pessoa evidenciava frutos de salvação, ou se sua vida era mais uma religiosidade do que qualquer outra coisa. Eu acho que, provavelmente, esse seria o caso da maioria dos suicídios dos chamados cristãos.

Apesar disso, cremos que, como Jó, Moisés, Elias e Jeremias, os cristãos podem se deprimir tanto a ponto de quererem morrer. E se esse cristão não tem um chamado e um caráter tão forte como o desses homens, pensamos que pode ir além do mero desejo e acabar tirando a própria vida. Nesse caso, o que Deus permitir acontecer pode representar parte da disciplina de Deus, por esse cristão não ter feito uso dos meios da graça dentro do corpo de Cristo, proporcionados por Deus para a ajuda de seus filhos.

Muitos acreditam, como já mencionamos, que esse pecado cometido no último momento não proveu oportunidade para o arrependimento, e é isso o que termina roubando-lhe a salvação ao suicidar-se. Eu quero que o leitor faça uma pausa nesse momento e questione o que aconteceria se ele morresse nesse exato momento, se ele pensa que morreria livre de pecado. A resposta para essa pergunta é evidente: Não! Ninguém morre sem pecado, porque não há nenhum instante em nossas vidas em que o ser humano está completamente livre do pecado. Em cada momento de nossa existência há pecados em nossas vidas dos quais não estamos nem sequer apercebidos, e outros que nem conhecemos, mas que nesse momento não temos nos dirigido ao Pai para buscar seu perdão, simplesmente porque o consideramos um pecado menos grave, ou porque estamos esperando pelo momento apropriado para ir orar e pedir tal perdão.

A realidade sobre isso é que, quando Cristo morreu na cruz, ele pagou por nossos pecados passados, presentes e futuros, como já dissemos. Portanto, o mesmo sacrifício que cobre os pecados que permanecerão conosco até o momento de nossa morte é o que cobrirá um pecado como o suicídio. A Palavra de Deus é clara em Romanos 8:38 e 39: “Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”. Note que o texto diz que “nenhuma outra coisa criada”. Esta frase inclui o próprio crente. Notemos também que essa passagem fala que “nem as coisas do presente, nem do porvir”, fazendo referência às situações futuras que ainda não vivemos. Por outro lado, João 10:27-29 nos fala que ninguém pode nos arrebatar da mão de nosso Pai, e Filipenses 1:6 diz que “aquele que começou a boa obra em vós, há de completá-la até o dia de Cristo Jesus”. Concluindo:

  • Se estabelecemos que o cristão é capaz de cometer qualquer pecado, por que não conceber que potencialmente ele poderá cometer o pecado do suicídio?
  • Se estabelecemos que o sangue de Cristo é capaz de perdoar todo pecado, ele não cobriria esse outro pecado?
  • Se o sacrifício na cruz nos tornou perfeitos para sempre, como diz o autor de Hebreus (7:28, 10:14), não seria isso suficiente para afirmarmos que nenhum pecado rouba a nossa salvação?
  • Se até Moisés chegou a desejar que Deus lhe tirasse a vida, devido à pressão que o povo exerceu sobre ele, não poderia um paciente esquizofrênico ou na condição de depressão extrema, que não tenha a força de caráter de um Moisés, atentar contra a sua própria vida de maneira definitiva?
  • Se não somos Deus e não temos nenhuma maneira de medir a conversão interior do ser humano, poderíamos afirmar categoricamente que alguém que deu testemunho de cristão durante sua vida, ao cometer suicídio, realmente não era um cristão?
  • Baseados na história bíblica e na experiência do povo de Deus, poderíamos concluir que o suicídio entre crentes provavelmente é uma ocorrência extraordinariamente rara, devido à ação do Espírito Santo e aos meios de graça presentes no corpo de Cristo.
  • Pensamos que o suicídio é um pecado grave, porque atenta contra a vida humana. Mas já estabelecemos que um crente é capaz de eliminar a vida humana, como o fez Davi. Se eu posso fazer algo contra alguém, como não conceber que posso fazê-lo contra mim mesmo? Essa é a nossa posição.

Como você pode ver, não é tão fácil estabelecer uma posição categórica sobre o suicídio e a salvação. Tudo o que podemos fazer é raciocinar através de verdades teológicas claramente estabelecidas, a fim de chegar a uma provável conclusão sobre um fato não estabelecido de forma definitiva. Portanto, quanto mais coerentemente teológico for meu argumento, mais provável será a conclusão que eu chegar. Agostinho tinha razão ao dizer: “Naquilo que é essencial, unidade; naquilo que é duvidoso, liberdade; e em todas as coisas, caridade”. Minha recomendação é que você possa fazer um estudo exaustivo, outra vez ou pela primeira vez, acerca de tudo o que Deus disse sobre a salvação, que é muito mais importante que o suicídio, que é quase nada.

Tradução: César Augusto.

Revisão: Renata do Espírito Santo.

Fonte: ¿Puede un cristiano cometer suicidio?

sábado, 29 de março de 2025

Nascido Escravo, A Ilusão livre Árbitro

O conceito de livre-arbítrio, à luz da exposição de Martinho Lutero em seu livro Nascido Escravo, é uma ilusão incompatível com a doutrina bíblica da salvação. Lutero argumenta que a vontade humana, longe de ser livre, encontra-se em escravidão ao pecado, à carne e à vontade de Satanás. 

Romanos 3 declara enfaticamente: "Não há justo, nem um sequer... não há quem busque a Deus" — o que nega qualquer capacidade natural do homem para voltar-se voluntariamente a Deus.

A ideia de livre-arbítrio pressupõe que o homem, mesmo em seu estado caído, possui em si algum poder para escolher o bem espiritual ou buscar a Deus. No entanto, as Escrituras e a experiência universal revelam que, deixado a si mesmo, o homem inevitavelmente se afasta de Deus. Lutero destaca que o próprio propósito da lei não é indicar um caminho possível de justiça pelas obras, mas sim mostrar o pecado, esmagar o orgulho humano e conduzir o pecador à graça.

Se o livre-arbítrio fosse real, haveria mérito humano na salvação, o que contradiz frontalmente textos como Romanos 3.24, onde lemos que os crentes são “justificados gratuitamente, por sua graça”. 

O livre-arbítrio, portanto, não apenas é incapaz de cooperar com a graça, mas, segundo Lutero, é uma expressão da justiça própria que compete com a obra de Cristo. A salvação é totalmente pela fé, mediante a graça soberana, sem que o homem possa dar sequer o primeiro passo em direção a Deus por sua própria vontade.

Negar o livre-arbítrio não é negar responsabilidade, mas é afirmar que toda a esperança do pecador repousa fora dele mesmo — no chamado eficaz e na regeneração operada pelo Espírito Santo. A liberdade verdadeira não está na vontade caída, mas na libertação que Cristo concede aos seus. Assim, todo louvor pertence a Deus, que “faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1.11), e não ao homem, cuja vontade, sem Deus, é apenas escravidão.

Augustus Nicodemus

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Qual a importância da plena humanidade e divindade de Jesus | Pb. Evandro Marinho

A importância de Jesus ser plenamente homem e plenamente Deus está no fato de que a redenção da humanidade depende dessas duas naturezas unidas em uma só pessoa. Se Jesus não fosse plenamente Deus, Ele não poderia prover uma salvação perfeita e infinita; se não fosse plenamente homem, Ele não poderia representar a humanidade e morrer em nosso lugar. Essa doutrina, conhecida como união hipostática, é central na cristologia e essencial para a compreensão do Evangelho.

1. Jesus como Plenamente Homem

Para que Jesus pudesse ser nosso Redentor, era necessário que Ele compartilhasse plenamente da nossa humanidade. A Escritura ensina que Ele assumiu carne e sangue para cumprir essa missão:

"E o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (João 1:14). 
"Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo" (Hebreus 2:17).

Motivos pelos quais Jesus precisava ser plenamente homem:

  1. Para ser nosso representante diante de Deus
    Assim como Adão foi o representante da humanidade e trouxe o pecado ao mundo (Romanos 5:12), Cristo veio como o "segundo Adão" (1 Coríntios 15:45) para redimir aquilo que foi perdido. Se Ele não fosse humano, não poderia agir como substituto dos pecadores.

  2. Para obedecer perfeitamente à Lei de Deus
    A Lei de Deus exige perfeição, e somente um ser humano perfeito poderia cumpri-la em nosso lugar. Jesus viveu uma vida sem pecado e cumpriu toda a justiça (Mateus 5:17).

  3. Para sofrer e morrer pelos nossos pecados
    Como Deus, Jesus não poderia morrer, pois Deus é imortal. Mas ao assumir a natureza humana, Ele pôde sofrer, experimentar a morte e pagar o preço pelo pecado (Filipenses 2:8; Hebreus 9:26).

  4. Para ser um sumo sacerdote misericordioso
    Jesus, ao viver como um ser humano, experimentou nossas fraquezas, dores e tentações, tornando-se um sumo sacerdote que pode se compadecer de nós (Hebreus 4:15).

2. Jesus como Plenamente Deus

Ao mesmo tempo, Jesus precisava ser plenamente Deus para que Sua obra redentora fosse eficaz e suficiente para salvar a humanidade. A Bíblia afirma claramente a divindade de Cristo:

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (João 1:1). 
"Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Colossenses 2:9).

Motivos pelos quais Jesus precisava ser plenamente Deus:

  1. Para que Seu sacrifício tivesse valor infinito
    Se Jesus fosse apenas um homem perfeito, Sua morte poderia salvar apenas uma pessoa. Mas porque Ele é Deus, Seu sacrifício tem valor infinito, suficiente para salvar todos os que creem Nele (Hebreus 9:12-14).

  2. Para vencer o pecado e a morte
    Nenhum mero homem poderia derrotar o poder do pecado e da morte. Somente Deus tem esse poder, e Cristo demonstrou isso em Sua ressurreição (1 Coríntios 15:55-57).

  3. Para ser o objeto legítimo da nossa fé e adoração
    Se Jesus fosse apenas um homem, adorá-lo seria idolatria. Mas como Ele é Deus, é correto e necessário que O adoremos (Filipenses 2:9-11).

  4. Para nos revelar plenamente o Pai
    Somente Deus pode revelar Deus. Jesus disse: "Quem me vê a mim vê o Pai" (João 14:9). Como Deus encarnado, Ele nos mostra quem Deus é de maneira perfeita.

3. A União das Duas Naturezas: A União Hipostática

A doutrina da união hipostática ensina que Jesus é 100% Deus e 100% homem ao mesmo tempo, sem que Sua natureza divina se misture ou se altere por causa da humana. Isso é um mistério, mas é claramente ensinado nas Escrituras:

"Pois há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem" (1 Timóteo 2:5).

O Concílio de Calcedônia (451 d.C.) definiu essa doutrina afirmando que Cristo tem "duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação".

4. Aplicação para Nossa Vida

A plena humanidade e divindade de Jesus impactam diretamente nossa vida cristã:

  1. Temos segurança na salvação, pois foi Deus quem pagou por nossos pecados e Seu sacrifício é perfeito.
  2. Podemos nos aproximar Dele com confiança, pois Ele entende nossas fraquezas e nos ajuda em nossas lutas.
  3. Temos um modelo perfeito de vida, pois Jesus viveu como um ser humano em santidade.
  4. Temos esperança na ressurreição, pois Ele venceu a morte e prometeu que também seremos ressuscitados.

Pb. Evandro Marinho 

Referências Bibliográficas

  • Bailey, Mark L., and Tom L. Constable. Nelson’s New Testament Survey. Thomas Nelson, 1999.
  • Berding, Kenneth, and Matt Williams. What the New Testament Authors Really Cared About: A Survey of Their Writings, 2nd Edition. Kregel Publications, 2015.
  • Carson, D. A., Douglas J. Moo, and Leon Morris. An Introduction to the New Testament. Vida, 1997.
  • Elwell, Walter A., and Robert W. Yarbrough. Encountering the New Testament: A Historical and Theological Survey, 3rd Edition. Baker Academic, 2013.
  • Köstenberger, Andreas J., L. Scott Kellum, and Charles L. Quarles. The Cradle, the Cross, and the Crown: An Introduction to the New Testament. B&H Academic, 2009.
  • Wright, N. T., and Michael F. Bird. The New Testament in Its World: An Introduction to the History, Literature, and Theology of the First Christians. Zondervan Academic, 2019.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

A MALIGNIDADE DO PECADO | John Flavel (1671)

Se a morte de Cristo foi aquilo que satisfez a Deus em favor de nossos pecados, existe uma infinita malignidade no pecado, visto que ele não pôde ser expiado de outro modo, senão por meio de uma satisfação infinita. Os tolos zombam do pecado, e existem poucas pessoas no mundo que se mostram verdadeiramente sensíveis a respeito de sua malignidade. No entanto, é certo que, se Deus exigisse de você a penalidade completa, os sofrimentos eternos não seriam capazes de expiar a malignidade que se encontra em um só pensamento pecaminoso. 

Talvez você pense que é muito severo o fato de que Deus sujeitaria as suas criaturas aos sofrimentos eternos por causa do pecado e nunca mais ficaria satisfeito com elas. Quando, porém, você considerar bem a verdade de que o Ser contra o qual você peca é o Deus infinitamente bendito e meditar em como Ele agiu em relação aos anjos que caíram, você mudará de ideia. Oh! Que malignidade profunda existe no pecado! Se você deseja entender quão grave e horrível é o pecado, avalie seus próprios pensamentos, quer à luz da infinita santidade e excelência de Deus, que é ofendido pelo pecado; quer à luz dos sofrimentos de Cristo, que morreu para oferecer satisfação pelo pecado. Então, você obterá compreensões profundas a respeito da gravidade do pecado. Se a morte de Cristo satisfez a Deus e, consequentemente, nos redimiu da maldição do pecado, a redenção de nossa alma é caríssima. As almas são preciosas e muito valiosas diante de Deus. 

Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo(1 Pe 1.18-19). 

Somente o sangue de Deus é um equivalente para a redenção de nossa alma. Ouro e prata podem redimirmos da servidão humana, mas não podem livrar-nos da prisão do inferno. 

Toda a criação não vale a redenção de uma única alma. As almas são muito preciosas; Aquele que pagou o preço da redenção delas pensou nisso. Mas os pecadores vendem por um valor muito baixo as suas próprias almas. Se a morte de Cristo satisfez a Deus no que diz respeito aos nossos pecados, quão incomparável é o amor de Deus para com pobres pecadores! Se Cristo, por meio de sua morte, consumou uma plena satisfação pelo pecado, Deus pode perdoar com segurança o maior dos pecadores que crer em Jesus.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Esforce-se para descansar | Jon Bloom

Se a Graça É um Favor Imerecido, Por Que Precisamos Nos esforçar?

O evangelho não é um convite para que nos aproximemos de Jesus e recebamos sua graciosa, inestimável e benevolente dádiva da salvação? Sim:

“Porque pela graça vocês foram salvos por meio da fé. E isso não é obra de vocês, é dom de Deus, não resultado de obras, para que ninguém se glorie.” (Ef. 2:8–9, NVI).

O evangelho não é um convite para que venhamos a Jesus para sermos aliviados dos fardos de nossas almas e recebermos seu incomparável descanso? Sim:

“― Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para a alma. Pois o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” (Mt. 11:28–30).

Então, como podemos conciliar essas declarações maravilhosas e reconfortantes sobre a passividade do evangelho com as seguintes exortações à ação rigorosa e incômoda da santificação?

“― Se alguém quiser vir após mim, negue se a si mesmo, tome a sua cruz e siga me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá, mas quem perder a própria vida por minha causa a encontrará.” (Mt. 16:24–25).
“Portanto, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês.” (Col. 3:5).
Ponham em prática a salvação de vocês com temor e tremor, pois é Deus quem produz em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele.” (Filip. 2:12–13).
Portanto, esforcemo-nos para entrar nesse descanso [de Deus], a fim de que ninguém venha a cair, seguindo aquele exemplo de desobediência [como a da geração de Moisés].” (Heb. 4:11).
Busquem... a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor. Tomem cuidado para que ninguém se afaste da graça de Deus.” (Heb. 12:14–15).
Combata o bom combate da fé. Tome posse da vida eterna, para a qual você foi chamado.” (1 Tim. 6:12).

Como pode o recebimento passivo do “dom indescritível” da graça de Deus (2 Cor. 9:15), que Jesus obteve integralmente para nós por meio de sua obra de redenção (Rom. 3:23-24; Ef. 2:8–9; Gál. 6: 14), a fim de nos libertar de nossas próprias obras sem esperança, para que, pela fé, possamos descansar em Cristo (Mt. 11:28–30; Rom. 11:6; Gál. 3:2–3), exigir nosso ativo “avançando” e “prosseguir[indo] para alcança-lo” (Filip. 3:12–14)?

Se a salvação é um dom gratuito e gracioso de Deus para nós e “não é resultado de [nossas] obras”, por que precisamos “pôr em prática [nossa] salvação”? Será que isso é apenas a Bíblia falando da boca para fora?

Não. Estamos simplesmente nos deparando com uma genialidade de proporções surpreendentes – o projeto paradoxal de nossa redenção. Se o examinarmos com cuidado, veremos a peculiar, autoafirmativa e reveladora glória de Deus neste plano de salvação, um plano que os seres humanos não pensariam em inventar (e que nunca foi inventado em nenhuma religião criada pelo homem).

Genialidade Surpreendente

Gostaria de destacar apenas um aspecto dessa glória. Embora sejamos salvos pela graça incondicional e eletiva de Deus (Ef. 1:4; 2:5), por meio do dom gratuito da fé (Ef. 2:8), as obras que nossa fé produz provam que nossa fé é real (Tg. 2:18). A fé é o dom gratuito da eleição; as obras são a evidência dessa eleição.

É por isso que, por um lado, Jesus diz: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair” (Jo. 6:44) – a dádiva gratuita da eleição – e, por outro lado, ele diz: “Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos.” (Jo. 14:15) – a evidência da eleição. Ele une as duas coisas quando diz: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz (eleição), e eu as conheço, e elas me seguem (evidência)” (Jo. 10:27).

A genialidade do projeto de Deus aqui é vista em algumas das parábolas de Jesus. Ele diz que quando a rede do evangelho é lançada no mar do mundo, ela “apanha toda sorte de peixes” (Mt. 13:47), alguns justos e outros maus. A igreja visível é sempre uma pescaria mista, ou sempre tem joio no meio do trigo (Mt. 13:24–30), ou sempre tem bodes no meio das ovelhas (Mt. 25:31–46). O que distingue os eleitos dos outros é sua fé dada por Deus, demonstrada por suas obras dependentes de Deus (Tg. 2:14–26; 1 Jo. 3:10). A fé opera por meio do amor (Gál. 5:6).

Falar é fácil. Jesus disse: “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mt. 7:21).

Garanta Sua Escolha

Há muito mais glória a ser vista nesse projeto brilhante e paradoxal, que é o dom gratuito da graça salvadora de Deus, o qual se manifesta por meio de nossa vontade e obras (Filip. 2:13)! Poderíamos explorar como isso mostra a sabedoria e o poder de Deus de maneiras completamente imprevistas para os seres humanos orgulhosos (1 Cor. 1:27–31; 2:8), ou como isso dá testemunho público da realidade e do evangelho de Jesus (Jo. 13:35), ou como isso fortalece nossa fé concedida por Deus, aumenta nossa alegria Nele e nos santifica (Tg. 1:2–4; Heb. 12:11). Mas isso é assunto para outros artigos.

Não há contradição nos convites do evangelho para recebermos passivamente a dádiva gratuita da salvação de Deus e nas exortações do evangelho para que prossigamos para nos apropriarmos dessa dádiva. Nossas obras não são decisivas para nossa salvação. Elas são evidências da obra salvadora de Deus em nós.

E é por isso é dito “empenhem-se ainda mais para consolidar o [nosso] chamado e eleição” (2 Ped. 1:10), trabalhando em nossa salvação com temor e tremor.

quinta-feira, 7 de março de 2024

(ED) - Os Erros do Romanismo (37) O Batismo | Rev. Ageu Magalhães


Sequência de Estudos "Os Erros do Romanismo" Por temas abaixo:

domingo, 5 de junho de 2022

Salvação, obra de Deus | Rev. Hernandes Dias Lopes

E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.” (Rm 8.30).

O texto em epígrafe diz, com diáfana clareza, que a salvação é uma obra de Deus. Ele a planejou, a executou e a consumou. O homem não é o agente de sua própria salvação, Deus é. Quatro verdades solenes são, aqui, acentuadas:

Em primeiro lugar, Deus predestina para a salvação. 

A predestinação é um decreto eterno e soberano de Deus, no qual, ele, livremente, nos escolheu para a salvação, não com base nos nossos méritos, mas conforme a sua própria determinação e graça. A eleição divina não ocorreu no tempo, mas antes da fundação do mundo. Não com base em nossas obras, mas conforme o seu favor imerecido. Não porque Deus previu que iríamos crer em Jesus, mas para a fé a Jesus. Não porque Deus previu que iríamos ser santos, mas para sermos santos e irrepreensíveis perante ele.

Em segundo lugar, Deus chama eficazmente para a salvação. 

Há dois chamados, um externo e outro interno. Um dirigido aos ouvidos e outro dirigido ao coração. Muitos são chamados, mas poucos escolhidos. Jesus diz que suas ovelhas ouvem sua voz e lhe seguem. Ele dá a elas a vida eterna e ninguém as arrebatará de suas mãos. A voz do pastor é o evangelho. Quando o eleito ouve o evangelho, o próprio Deus tira o tampão de seus ouvidos, a venda de seus olhos e transforma o seu coração de pedra num coração de carne. O chamado divino é eficaz. A voz de Deus é poderosa. O evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. É evidente, portanto, que a doutrina da predestinação não é um desestímulo à pregação, mas uma garantia de sua eficácia. O Senhor Jesus disse a Paulo, na cidade de Corinto: “…fala e não te cales; …pois tenho muito povo nesta cidade.” (At 18.9-10).

Em terceiro lugar, Deus justifica os que são chamados para a salvação. 

A justificação é um ato livre e soberano de Deus, no qual, ele declara justo, diante do seu tribunal, todos aqueles que creem em Cristo. A justificação não acontece em nós, mas fora de Deus. Não é um processo, mas um ato. Não possui graus, ou seja, todos aqueles que são justificados estão plenamente quites com a lei de Deus e com sua justiça. Na justificação, nossos pecados foram imputados a Cristo e a justiça de Cristo foi imputada a nós. Na cruz, Jesus pagou a nossa dívida e agora, portanto, nenhuma condenação há mais para aqueles que estão em Cristo Jesus. Não apenas nossa dívida foi paga, mas temos um crédito infinito diante do tribunal de Deus, a justiça de Cristo depositada em nossa conta.

Em quarto lugar, Deus glorifica a todos quantos foram predestinados, chamados e justificados. 

A glorificação é uma realidade futura. Dar-se-á na segunda vinda de Cristo, quando os mortos ressuscitarão com corpos glorificados, semelhantes ao corpo da glória do Senhor Jesus e os vivos serão transformados e arrebatados para encontrar o Senhor nos ares. Muito embora, esse auspicioso evento se dará no fim, nos decretos de Deus, a glorificação já um fato consumado. Por isso, Paulo colocou o verbo “glorificou” no pretérito perfeito. A salvação não apenas é uma obra exclusiva de Deus, mas é, também, assegurada pelo próprio Deus. É impossível um salvo perder a salvação. É impossível alguém predestinado, chamado, justificado e glorificado perecer eternamente. O mesmo Deus que começou a boa obra em nós, completá-la-á até o dia de Cristo Jesus. Ninguém pode ir a Jesus sem que o próprio o Pai o traga a ele e ninguém vai a ele para ser lançado fora. Das mãos de Jesus ninguém pode nos arrebatar. É digno de nota, porém, que não somos salvos no pecado, mas do pecado. Somos salvos para vivermos uma vida santa e irrepreensível. A evidência da salvação é a santidade, pois sem santidade ninguém verá o Senhor.

Rev. Hernandes Dias Lopes

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Será que Deus ama o pecador e odeia apenas os seus pecados? | Dr. John H. Gerstner

“Arrependam-se ou pereça” exige que as pessoas ponderem seriamente acerca do slogan popular: “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador.” É necessário haver um arrependimento consistente diante da afirmação “Deus ama o pecador?” Se Deus ama o pecador, enquanto ele está vivo, é estranho que Deus o envie para o inferno, assim quando ele morrer. Deus ama o pecador até a morte? E não o amaria no tormento eterno?

Há algo errado aqui. Ou, Deus ama o pecador e não irá mandá-lo para dentro da fornalha de Sua ira eterna, ou Ele o enviará para a Sua ira eterna e não o ama. Ou, “você está indo para o inferno a menos”, porque Deus odeia você, como você é. Ou, Deus te ama e “você está indo para o inferno a menos que” é falsa.

O que leva quase todos a crerem que Deus ama o pecador é por Ele fazer tão bem ao pecador. Ele concede tantos favores incluindo deixar que continue vivendo. Como Deus pode permitir que o pecador viva e lhe dê tantas bênçãos, a não ser que Ele o ame? Há um tipo de amor entre Deus e os pecadores. Nós o chamamos de “amor de benevolência.” Isso significa que é um amor de boa vontade. Benevolens - bem disposto. Fazer bem. Deus pode fazer bem para o pecador sem amá-lo com o outro tipo de amor. “Amor complacente”, um prazer em, afeição por, admiração de. Ele existe na perfeição entre o Pai e o Filho, “em quem me comprazo” ( Mt 3:17; Mc 1:11).

Deus é perfeitamente descontente com o pecador. O pecador odeia a Deus, desobedece a Deus, é ingrato a Deus por todos os Seus favores, e até mesmo mataria a Deus, se pudesse. Este pecador está morto em seus delitos e pecados (Ef 2:1). “Os pensamentos e desígnios de seu coração são continuamente maus” (Gn 6:5). Ele é escravo do pecado (João 8:34) e um servo do diabo (Ef 2:2).

Deus não tem em nada amor complacente para com o pecador. Ele tem um ódio perfeito dele, de fato, Ele diz que “odeio-os com ódio consumado” (Sl 139:22 ).

Neste mundo o pecador em nada tem satisfação, senão no amor benevolente de Deus. Cada experiência de dor, bem como o prazer é do amor de Deus - de benevolência. Mesmo a dor é do Seu amor, porque Ele tende a despertar o pecador do seu perigo. Deus realmente ama o pecador, a quem Ele odeia com um ódio perfeito, mas com um perfeito amor de benevolência.

O pecador, como eu disse, torna em maldição cada bênção divina, incluindo o amor da benevolência de Deus. Isso ele faz por interpretar o amor de benevolência, como sendo um amor de complacência.

Tanto quanto “o ódio dos pecados” está relacionado, pois não existem pecados aparte do pecador. Deus odeia o pecar, ou seja, o matar, roubar, mentir, cobiçar, etc., mas isso faz alusão ao autor destes crimes.

Deus nunca odeia os remidos, mesmo quando eles pecam. Seria Ele um injusto admirador de pessoas? Não! (At 10:34) Deus odeia o pecador não redimido, mas ama os remidos, mesmo quando eles pecam por um motivo bom e justo. Deus ama os remidos, mesmo quando eles pecam, porque o Seu Filho, em quem Deus se compraz, vivendo sempre para interceder por eles (Rm 8:27, 34). Cristo morreu para expiar a culpa dos pecados de Seu povo. Quando eles pecam, estes são expiados - pelos pecados. Eles são pecados com sua culpa removida. Em certo sentido, estes pecados não são considerados. Deus não odeia o seu povo quando eles pecam, porque eles estão em Seu Filho, Cristo Jesus. E eles são feitos aceitáveis em seu Filho. Ele “nos faz aceitos no Amado” (Ef 1:6).

Nepotismo Divino? Não, o Seu Filho morreu por essas pessoas e pagou o preço por seus pecados passados, presentes e futuros. Eles são cancelados antes de serem cometidos. Essa é a verdade, não uma ficção. Justiça não é nepotismo favorecido. Na verdade, não é a sua relação original com Cristo que faz com que os seus pecados sejam sem culpa, mas a satisfação realizada por Cristo pelos seus pecados que criou o relacionamento como filhos adotados na família de Deus.

Quando o homem pecou, morreu espiritualmente e foi rejeitado da comunhão com Deus, seu criador e amigo (Gn 3; Rm 5:12). A ira de Deus estava sobre ele, o pesar no trabalho era a sua parte na maldição; bem como o sofrimento no parto; alienação e morte, como ameaçadas. Deus é santo; os seus olhos são tão puros que não podem contemplar a iniquidade. (Hq 1:13)

Esta foi uma terrível, mas santa ira. Deus estava usando o seu poder onipotente, mas segundo a Sua justiça perfeita. O homem foi afetado, mas ele mereceu. Não era mais, nem menos, do que ele merecia. Deus não é mais poderoso do que santo, nem mais sagrado do que poderoso.

Toda a glória a Deus por sua santa ira. (Jo 17:3; Rm 9:17).


Extraído de http://www.the-highway.com/lovesinner_Gerstner.html

Traduzido em 7 de Março de 2014.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

A fé e a certeza da salvação | Hernandes Dias Lopes

Há uma estreita conexão entre a fé em Cristo e a certeza da salvação. Foi o próprio Jesus quem disse: “Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna” (Jo 6.47). Alguns cristãos sinceros pensam que é impossível ter certeza da salvação e vivem inseguros e sem deleite espiritual. Outros, movidos pela presunção, ostentam uma falsa segurança de salvação e vivem confiados em si mesmos para entrar no céu. É preciso gritar a plenos pulmões que a salvação é uma dádiva de Deus e não uma conquista humana. É oferta da graça e não resultado das obras. É recebida pela fé e não pelos rituais religiosos. Consequentemente, nenhum homem pode vangloriar-se de sua salvação. Se a salvação fosse por méritos, então, o homem teria de que se gloriar, mas como ela é oferta da graça, o homem só pode se curvar e agradecer a Deus por tão grande dádiva.

Porque a salvação é presente de Deus, independente de mérito humano, quando cremos no Senhor Jesus e o recebemos pela fé como Salvador pessoal podemos ter certeza da salvação. Essa garantia nos é dada pelo próprio Salvador. Jesus não poderia ter sido mais enfático: “Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna” (Jo 6.47). O verbo “ter” está no presente do indicativo. Quem crê em Jesus não teve nem terá a vida eterna, mas tem a vida eterna. É uma posse imediata e segura. O apóstolo João, nesse mesmo viés, escreveu sua Primeira Carta para que os crentes pudessem ter essa certeza: “Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus” (1Jo 5.13). 

Jesus disse de forma insofismável: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.27,28). Aqueles que creram em Cristo nasceram de novo, foram selados pelo Espírito Santo, têm seus nomes escritos no livro da vida e estão assentados com Cristo, nas regiões celestes, acima de todo principado e potestade. A salvação daqueles que creem em Cristo é assegurada por Deus e nele podemos confiar, pois não é homem para mentir.

É importante enfatizar que a fé não é a causa meritória da salvação; é sua causa instrumental. Não somos salvos por causa da fé, mas mediante a fé. Somos salvos pelo sacrifício de Jesus feito na cruz em nosso lugar e em nosso favor. Jesus cumpriu a lei por nós e satisfez todas as demandas da justiça divina. Ele quitou a nossa dívida e com o seu sangue nos resgatou para Deus. Ele se identificou conosco e morreu a nossa morte. Agora, aqueles que estão em Cristo estão quites com a lei de Deus e com a justiça de Deus. Morremos com Cristo e ressuscitamos com ele para uma nova vida. Agora nenhuma condenação há mais para nós, pois estamos em Cristo Jesus. 

O Pai nos justificou, o Filho morreu por nós, ressuscitou e está intercedendo em nosso favor e o Espírito nos selou para o dia da redenção. Nossa salvação está plenamente garantida pelo próprio Deus Triúno. Estamos plenamente certos de que nem a morte nem a vida; nem anjos nem principados; nem altura nem profundidade; nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor. Estamos salvos, eternamente salvos. 

Podemos tomar posse da vida eterna e começar a desfrutá-la aqui e agora. Pela fé podemos desfrutar do gozo antecipado da glória. É claro que não estamos falando de fé na religião, fé nos ídolos, fé em nós mesmos. Estamos falando da fé em Cristo Jesus, o Filho de Deus, o Rei da glória, o Verbo encarnado, o nosso Justo Advogado, Redentor da nossa alma, Senhor da nossa vida, nosso bom, grande e supremo Pastor. Nele temos copiosa redenção. Nele temos refúgio eterno. Nele temos segurança da salvação.

Rev. Hernandes Dias Lopes

Fonte: I.P. de Vitória

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

A Predestinação | R. C. Sproul

Provérbios 16.4

O SENHOR fez todas as coisas para determinados fins e até o perverso, para o dia da calamidade.

João 13.18

Não falo a respeito de todos vós, pois eu conheço aqueles que escolhi; é, antes, para que se cumpra a Escritura: Aquele que come do meu pão levantou contra mim seu calcanhar.

Romanos 8.30

E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.

Efésios 1.4-5

assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade,

2 Tessalonicenses 2.13-14

Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade, para o que também vos chamou mediante o nosso evangelho, para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo.

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Poucas doutrinas suscitam tanta polêmica ou provocam tanta consternação como a doutrina da predestinação. Trata-se de uma doutrina difícil, que precisa ser discutida com grande cuidado e precaução. Apesar disso, trata-se de uma doutrina bíblica, com a qual temos de lidar. Não devemos ousar ignorá-la.

Praticamente, todas as igrejas cristãs têm algum tipo de doutrina sobre a predestinação. Isso é inevitável, visto que o conceito claramente se encontra nas Escrituras. 

Muitas igrejas, entretanto, discordam—muitas vezes veementemente — quanto ao seu significado. O ponto de vista metodista é diferente do ponto de vista luterano, o qual discorda do ponto de vista presbiteriano. Embora seus pontos de vista difiram, cada um deles está tentando chegar a uma sólida compreensão desta difícil questão de maneira apropriada.

Em sua forma mais elementar, a predestinação significa que nosso destino final, seja o céu ou o inferno, é decidido por Deus não somente antes de irmos para lá, mas até mesmo antes que tivéssemos nascido. 

A predestinação ensina que nosso destino final está nas mãos de Deus. Outra maneira de expressar isso é: Desde toda a eternidade, antes mesmo que nós existíssemos, Deus decidiu salvar alguns membros da raça humana e permitir que o resto da raça humana perecesse. Deus fez uma escolha— escolheu alguns indivíduos para serem salvos na eterna bênção do céu e escolheu passar por sobre outros, permitindo que sofressem as consequências dos seus pecados no tormento eterno do inferno.

A aceitação desta definição é comum a muitas igrejas. Para chegar ao âmago da questão, alguém deve perguntar: como Deus fez tal escolha? O ponto de vista não-reformado, defendido pela grande maioria dos cristãos, é que Deus faz essa escolha com base em sua presciência. Deus escolhe para a vida eterna aqueles que sabe que o escolherão. Esse conceito é chamado de visão presciente da predestinação, porque baseia-se na presciência de Deus quanto às decisões ou ações humanas.

A visão reformada difere no fato de que ela vê a decisão final para a salvação nas mãos de Deus, e não nas mãos do homem. Segundo este ponto de vista, a eleição de Deus é soberana. Não se baseia em decisões ou respostas previstas por parte dos seres humanos. Aliás, vê tais decisões fluindo da graça soberana de Deus.

O ponto de vista da Reforma afirma que nenhuma pessoa caída jamais escolheria a Deus por iniciativa própria. Pessoas caídas ainda têm livre-arbítrio* [livre-agencia] e podem escolher o que desejam. O problema é que não nutrem nenhum desejo por Deus e não escolherão a Cristo a menos que sejam antes regeneradas. A fé é um dom que procede do novo nascimento. Somente aqueles que foram eleitos responderão com fé ao Evangelho.

Os eleitos escolhem a Cristo somente porque antes foram escolhidos por Deus. Como no caso de Esaú e Jacó, o eleito foi escolhido exclusivamente com base no beneplácito soberano de Deus e não com base em algo que tivessem feito ou desejado fazer. Paulo declara:

“E não ela somente, mas também Rebeca, ao conceber de um só, Isaque, nosso pai. E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela. O mais velho será servo do mais moço... Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.” Romanos 9.10-12, 16

O problema mais incômodo envolvendo a predestinação é que Deus não escolhe ou elege salvar todas as pessoas. Ele reserva para si o direito de ter misericórdia de quem quer ter misericórdia. Alguns membros da humanidade caída recebem a graça e a misericórdia da eleição. Deus ignora o restante, deixando-os em seus pecados. Os não-eleitos recebem justiça. Os eleitos recebem misericórdia.

Ninguém é tratado com injustiça. Deus não é obrigado a ser misericordioso igualmente com todos. É decisão dele o quanto será misericordioso. Mesmo assim, nunca pode ser acusado de ser injusto com qualquer pessoa (ver Rm 9.14,15).

Sumário
1. A predestinação é uma doutrina difícil e deve ser tratada com cuidado.
2. A Bíblia ensina a doutrina da predestinação.
3. Muitos cristãos definem a predestinação em termos de presciência de Deus.
4. A visão da Reforma não considera a presciência como uma explicação para a predestinação bíblica.
5. A predestinação baseia-se na escolha de Deus e não na escolha dos seres humanos.
6. Pessoas não-regeneradas não nutrem nenhum desejo de escolher a Cristo. 
7. Deus não elege todas as pessoas. Reserva para si o direito de ter misericórdia de quem quer.
8. Deus não trata nenhuma pessoa injustamente.

Nota do Blogueiro: *Creio que houve um erro em que neste pont a tradução usou o termo "livre árbitro", visto que o mesmo foi perdido na queda em Gn. 3, neste caso coloquei entre colchetes o termo que considero mais adequado que é "livre agência" que se adequa mais a teologia de R.C. Sproul.

Fonte: Verdades Essenciais da Fé Cristã – R.C.Sproul. 
Editora Cultura Cristã. 

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A íntima União Entre Cristo e o Crente | J. C. Ryle

Leia João 15.1-6 

Esses versículos, precisamos lembrar com atenção, contêm uma parábola. Ao interpretá-la, não podemos esquecer a grande regra que se aplica a todas as parábolas de Cristo. O ensino geral de todas elas é a primeira verdade a ser observada. Não precisamos insistir sobre os pequenos detalhes, interpretando-os em excesso, ao ponto de achar um significado para todos eles. São muitos e imensos os erros em que os crentes têm caído por negligenciar esta regra. 

Primeiramente, esses versículos nos ensinam que existe íntima união entre Cristo e o crente. Ele é a “videira”, os crentes são os “ramos”. A união entre os ramos e o caule principal de uma videira é a mais íntima que podemos imaginar. Nisso consiste o segredo de toda a vida, beleza, vigor e fertilidade do ramo. 

Se for desligado do caule, o ramo não possui vida em si mesmo. A seiva que flui através do caule é a fonte e o poder que mantém todas as folhas, botões, flores e frutos. Arrancado do caule, logo o ramo há de secar e morrer. 

A união entre Cristo e o crente tanto é íntima quanto verdadeira. Em si mesmos, os crentes não possuem vida, poder e vigor espiritual. Tudo que possuem em sua vida espiritual procede de Cristo. Eles são pessoas que vivem, se comportam e agem como crentes, porque recebem de Cristo um contínuo suprimento de graça, auxílio e capacidade. 

Unidos pela fé ao Senhor Jesus, em uma misteriosa união realizada pelo Espírito Santo, os crentes permanecem firmes, andam e percorrem a jornada da vida cristã. Mas qualquer sinal de bondade existente neles procede de seu Cabeça, o Senhor Jesus Cristo. 

Este pensamento produz conforto e instrução. Os crentes não têm motivo para sentirem-se desesperados quanto à sua salvação, imaginando que nunca chegarão ao céu. Devem meditar sobre o fato de que não foram deixados a viver por si mesmos, na dependência de seu próprio poder. Sua raiz é Cristo; tudo que existe na raiz tem em vista o benefício dos ramos. Se Cristo vive, eles também viverão. Os incrédulos não devem se admirar da perseverança e firmeza dos crentes. Embora sejam fracos, a raiz dos crentes está nos céus e jamais morrerá. “Quando sou fraco”, disse o apóstolo Paulo, “então é que sou forte” (2 Co 12.10). 

Em segundo, esses versículos nos ensinam que existem tantos os falsos quanto os verdadeiros crentes. Existem ramos na videira que parecem estar unidos ao caule principal, mas não produzem qualquer fruto. São homens e mulheres que aparentam ser membros do corpo de Cristo, porém no último dia ficará comprovado que não possuíam qualquer união com Ele. 

Nas igrejas, há miríades de pessoas que professam ser crentes, mas sua união com Cristo é apenas exterior e formal. Alguns deles pensam estar unidos a Cristo por causa do batismo ou por serem membros de igreja. Alguns deles vão muito além disso, tornando-se membros que participam da Ceia do Senhor e conversam com entusiasmo sobre as coisas espirituais. Mas falta-lhes algo necessário. Apesar de participarem dos cultos, ouvirem os sermões, terem sido batizados e participarem da Ceia do Senhor, não possuem a fé, a graça divina e a obra do Espírito Santo em seus corações. Não estão unidos a Cristo, e Ele não está nestas pessoas. Sua união com Cristo é apenas nominal e não verdadeira. Tais pessoas têm nome de que vivem mas, aos olhos de Deus, estão mortas. 

Este tipo de crente está apresentado na figura dos ramos da videira que não produzem fruto. Inúteis e desagradáveis, estes ramos servem ape nas para serem cortados e queimados, pois nada recebem da seiva do caule e não produzem resultado em troca do lugar que ocupam na videira. Assim ocorrerá no último dia aos crentes falsos, que apenas professam o nome de Cristo. 

Se não se arrependerem, seu fim será a eterna condenação. Ficarão eternamente separados da companhia dos verdadeiros crentes e, à seme­lhança dos ramos secos e inúteis, serão lançados no fogo eterno. Por fim, descobrirão que, não importando o que eles pensam neste mundo, existe o verme que não morre e o fogo inextinguível. 

Em terceiro, esses versículos nos ensinam que os frutos do Espírito são a única evidência satisfatória de alguém ser um verdadeiro crente. O discípulo que “permanece” em Cristo, assim como o ramo que permanece na videira, produz muito fruto. 

Aquele que deseja saber o significado do vocábulo “fruto” logo achará a resposta. Arrependimento para com Deus, fé em nosso Senhor Jesus Cristo, santidade de vida e de conduta — isto é o que o Novo Testamento chama de fruto. Estas marcas caracterizam a pessoa que vive como genuíno ramo da “videira verdadeira”. Se não tivermos estas coisas, em vão confessaremos que possuímos a graça divina e vida espiritual. 

Não existe vida onde não há frutos. Aquele que não possui estas virtudes, embora es­teja vivo, encontra-se morto. 

A verdadeira graça, não podemos esquecer, jamais é infrutífera. Não dorme, nem cochila. Em vão supomos que somos membros do corpo de Cristo, se o exemplo dEle é a única evidência satisfatória da união salvado­ra que existe entre nossa alma e o Senhor Jesus. Não existe a verdadeira vida espiritual no coração em que não podemos ver o fruto do Espírito. O Espírito de vida em Cristo Jesus sempre se manifestará na vida e conduta diária daqueles em quem Ele habita. O próprio Senhor Jesus declarou: “Cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto” (Lc 6.44). 

Por último, esses versículos nos ensinam que Deus frequentemente levará o crente a progredir em santidade através das providências que utiliza em seu lidar com ele. Está escrito: “Todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda”. 

O significado destas palavras é evidente. Assim como o viticultor po­da e apara os ramos de uma vinha frutífera, a fim de tomá-la mais frutífera, assim também Deus purifica e santifica os crentes através das circunstâncias da vida em que Ele os coloca.

Falando sinceramente, as provações são o instrumento pelo qual nosso Pai celestial toma o crente mais santificado. Por meio destas, Ele desperta nos crentes suas virtudes passivas e comprova se eles são capazes de suportar a vontade dEle, tão bem quanto o fazê-la. 

Por meio das provações, Deus os afasta do mundo, atraindo-os a Cristo, aproximando-os da Bíblia e da oração, fazendo-os conhecer seus próprios corações e tomando-os humildes. Este é o processo pelo qual Deus “limpa” os crentes e os toma mais fru­tíferos. As vidas dos santos de todas as épocas são o melhor e mais verdadeiro comentário desse texto. Raramente encontramos um crente, do Antigo ou do Novo Testamento, que não foi purificado por meio de sofri­mentos e, à semelhança de seu Mestre, não foi “um homem de dores”. 

Aprendamos a ser pacientes nos dias de trevas, se realmente conhe­cemos a união vital com Cristo. Sempre lembremos a doutrina ensinada nessa passagem, para que não murmuremos e queixemos por causa das aflições. 

Nossas provações visam fazer-nos o bem. Deus “nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hb 12.10). Fruto é algo que nosso Senhor deseja ver em nós; por isso, se achar necessário, utilizará a podadeira. 

J. C. Ryle 
Meditações no Evangelho de João 
Editora Fiel