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segunda-feira, 3 de março de 2025

É pecado o crente sentir tristeza? | Augustus Nicodemus

Sentir tristeza não é pecado. A Bíblia nos mostra que até mesmo homens e mulheres de Deus, profundamente comprometidos com o Senhor, experimentaram tristeza. O próprio Jesus, que nunca pecou, sentiu tristeza profunda, como vemos em Mateus 26:37-38, quando Ele disse: "A minha alma está profundamente triste até à morte." Davi, em muitos salmos, expressa angústia e pesar (Salmo 42:11). O apóstolo Paulo também falou de momentos de tristeza em sua vida (2 Coríntios 6:10).

O que pode ser pecado é como respondemos à tristeza. Se ela nos levar ao desespero ou à desconfiança em Deus, caímos em erro. Porém, se a tristeza for conduzida ao Senhor em oração, ela pode nos aproximar ainda mais d’Ele. Paulo fala de uma tristeza segundo Deus que leva ao arrependimento e à vida, diferente de uma tristeza mundana que conduz à morte (2 Coríntios 7:10).

O ponto central é confiar em Deus mesmo em meio à tristeza, sabendo que Ele é o nosso consolo (Salmo 34:18) e que há esperança no Senhor, mesmo nos dias mais difíceis. A tristeza faz parte da condição humana, mas em Cristo encontramos força para enfrentá-la com fé.

Augustus Nicodemus 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Como suportar a noite | Neil Quinn

 Introdução

Os cristãos se alegram porque Deus nos chamou das trevas espirituais para a sua maravilhosa luz ( 1Pe 2.9 ). Caminhamos pela fé na Luz do mundo. No entanto, às vezes Deus nos chama para caminhar à noite, quando sua providência nos deixa perplexos ou nos magoa. Mesmo assim, Deus nos deu sua palavra para nos guiar, como “uma lâmpada que brilha em lugar escuro, até que o dia amanheça” ( 2 Pedro 1:19 ). Um guia útil é a história de Noemi, que também foi chamada para caminhar através da escuridão espiritual do sofrimento. Ao vermos a obra graciosa de Deus na vida de Noemi, aprendemos três lições para suportar noites espirituais.

Lição 1: Prepare-se para a noite

A história de Noemi começa com sofrimento. Nós a encontramos viúva, enlutada e faminta ( Rute 1:1–5 ). Poderíamos ficar surpresos ao saber que esse tipo de dificuldade não é a exceção, mas a norma para o cristão. Deus pode não nos chamar para sofrer como Noemi sofreu, mas mesmo assim, Pedro diz aos cristãos para não “se surpreenderem com a prova de fogo quando vier sobre vocês para testá-los, como se algo estranho estivesse acontecendo com vocês” (1 Ped. 4.12 ). Jesus não nos disse para nos afirmarmos e assumirmos o nosso conforto, mas para negarmos a nós mesmos e tomarmos as nossas cruzes.

Isto não deve tornar-nos pessimistas; isso deveria nos preparar. A noite sempre chega. Não ficamos surpresos quando o sol se põe e, porque sabemos que ele está chegando, estamos preparados. A noite não deveria nos surpreender. O sofrimento também não deveria.

Em Gênesis 41 , Deus avisou Faraó em sonho que sete anos de abundância seriam seguidos por sete anos de fome. Ele fez isso para que Faraó se preparasse para os dias de fome, enchendo seus armazéns com grãos durante os dias de fartura. É verdade que Deus não nos disse quando chegarão as nossas noites espirituais e fomes, ou quanto tempo durarão, mas ele nos disse que virão. Portanto, não devemos desperdiçar os dias de fartura, mas usá-los para nos prepararmos para quando a noite ou a fome chegarem. Devemos absorver os raios do evangelho quando ele brilha intensamente em nossos corações e encher os depósitos de nossas almas com sua graça. Devemos nos preparar para a noite através dos meios da graça que Deus nos deu, porque a nossa fé não verá tão bem quando o sol se pôr.

A falta de uma teologia bíblica do sofrimento confunde e confunde. Podemos ser tentados a duvidar das promessas de Deus. Deus pode se sentir distante e silencioso. Nossa força física e espiritual pode diminuir. É nesse momento que precisamos ser sustentados pela graça armazenada. A nossa preparação não tornará o sofrimento mais agradável , mas torná-lo-á mais suportável .

Lição 2: Não confie na sua visão

Quando sofremos, não é incomum sentir que a escuridão nunca irá desaparecer. Podemos tentar, portanto, perscrutar o nosso futuro hipotético para encontrar qualquer fio de esperança ao qual nos agarrarmos. O problema desta abordagem é que não conseguimos ver claramente na escuridão do sofrimento – o sofrimento é como um microscópio que amplia a nossa dor e o nosso medo, preenchendo todo o nosso campo de visão – e assim podemos convencer-nos de que o nosso futuro não tem esperança. Foi assim que Noemi se sentiu.

Noemi expressa esse sentimento quando diz às mulheres de Belém: “Não me chamem de Noemi; chame-me de Mara, pois o Todo-Poderoso tratou comigo de maneira muito amarga. Saí cheio, e o Senhor me trouxe de volta vazio. Por que me chamar de Noemi, quando o Senhor testemunhou contra mim e o Todo-Poderoso trouxe a calamidade sobre mim?” ( Rute 1:20–21 ). Naomi significa agradável e Mara significa amargo. Em sua tristeza atual, Naomi pensou que nunca mais conheceria a plenitude ou o prazer.

A dor, assim como o choro intenso, embaça nossa visão. Quando nossos corações choram, não estamos em condições de avaliar nossa situação atual, muito menos a futura. Precisamos saber que não estamos em nosso estado de espírito correto quando vivenciamos uma calamidade e, portanto, não somos os melhores juízes de nossas circunstâncias. Como criaturas, a nossa visão é sempre limitada. Como sofredores, também pode ser distorcido.

Quando entramos em espiral em direção ao desespero, devemos lembrar que não podemos ver tudo, e o que podemos ver nem sempre é confiável, mesmo que algumas coisas sejam verdadeiras. Noemi não estava errada ao atribuir sua calamidade à mão de Deus. No entanto, como o resto da história deixa claro, ela estava errada ao acreditar que não tinha esperança. A noite havia chegado, mas ainda havia luz.

Lição 3: Procure o Luar

A história de Noemi nos lembra que a percepção nem sempre é realidade. O fato de não vermos a atividade de Deus em nossas vidas não significa que ele esteja deixando de agir. Deus muitas vezes nos dá vislumbres de sua atividade, mas podemos estar tão preocupados com nossa dor que a perdemos. Mesmo quando Deus traz a noite e remove temporariamente a luz do sol, ele não removeu toda a luz – ainda há luar. Não é tão brilhante, mas está lá e, através dele, Deus sussurra que ainda está trabalhando para o nosso bem. Portanto, mesmo quando lamentamos a luz que Deus leva, devemos procurar a luz que ele dá.

Deus deu a Noemi o luar, mas a perspectiva distorcida pela dor de Noemi cegou-a para isso. Nós, no entanto, precisamos ver estes raios críticos da luz amorosa de Deus.

O primeiro feixe é o fim da fome. Noemi volta para casa porque Deus visitou seu povo novamente com comida ( Rute 1:6 ) – que provisão misericordiosa! O segundo e mais significativo feixe é Ruth. A sua presença é a prova de que Deus não deixou Noemi sozinha. Através de Rute, Deus proverá comida e filhos para Noemi. Quando Noemi declara que Deus a trouxe de volta vazia, Rute provavelmente está bem ao lado dela! Noemi está sentindo falta da provisão de Deus.

Deus está sempre trabalhando para o nosso bem ( Romanos 8.28 ). Procure seus raios de luar, seus sinais sutis de graça e encontre, como diz o hino: “Força para hoje e esperança brilhante para amanhã”. Suas vigas são um argumento contra a nossa sentida desesperança.

Conclusão

Os cristãos sofrerão. Na verdade, devemos sofrer. O sofrimento é essencial: se quisermos partilhar a sua coroa, devemos primeiro partilhar a sua cruz ( Rm 8.17 ). Não há ressurreição sem morte. Deus deve nos esvaziar para nos preencher.

Deus trouxe Noemi do prazer ao amargor, da plenitude ao vazio. Ao contrário do que ela podia ver, Deus não estava agindo para destruí-la. Ele estava se movendo para salvá-la e a toda a humanidade. Deus lhe daria um filho através de Rute que seria o avô do Rei Davi, através de quem viria o Cristo prometido.

Deus não revelou nada disso a Noemi. Ela queria visão, mas precisava de fé. O mesmo é verdade para nós. Queremos que Deus nos diga como tudo vai funcionar. Queremos que ele responda a todas as nossas perguntas sobre o porquê . Mas a fé não depende dessas respostas. Mais do que por quê , precisamos saber quem. Quem é o nosso Deus? Quem nos colocou onde estamos? Quem está conosco? A resposta é: Nosso Pai celestial, que é nosso Deus em Cristo, aquele que tudo vê, conhecendo perfeitamente o fim desde o princípio, sempre agindo de acordo com sua perfeita sabedoria, conhecimento, amor, graça e fidelidade. Confie nele até que “o dia respire e as sombras fujam” ( Cântico dos Cânticos 2:17 ).

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Três aplicações pessoais; Por Evandro Marinho:

  1. Preparação para as adversidades: Assimilar a noção de que o sofrimento faz parte da jornada cristã e utilizar os momentos de abundância espiritual para fortalecer a fé, preparando-se para possíveis noites espirituais.

  2. Cautela na interpretação das circunstâncias: Em tempos de sofrimento, evitar confiar exclusivamente na própria visão, reconhecendo as limitações e distorções causadas pela dor, e buscar uma perspectiva mais ampla.

  3. Atenção aos sinais da graça de Deus: Manter-se alerta para os sinais sutis da atividade divina mesmo em meio à escuridão, lembrando que Deus continua trabalhando para o bem daqueles que O amam, mesmo quando não compreendemos completamente os acontecimentos.


Créditos
Autor: Neil Quinn atua como pastor da Good Shepherd Presbyterian Church (PCA) em Kalamazoo, MI, onde mora com sua esposa e quatro filhos.
Tradução & Aplicações Pessoais: Evandro Marinho

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Conselhos aos que sofrem (11) | Rev. Ronaldo Lidório

Parte: 11 - AOS QUE ENFRENTAM TEMPESTADES

Independente de como chegam, as tempestades frequentemente causam insegurança, sofrimento, ansiedade e dor. Elas vêm em forma de enfermidades prolongadas, conflitos familiares, problemas relacionais, provações, desempregos ou aflições. E algo é comum a todos: não é fácil passar por tempestades!

Em Mateus 8, lemos a respeito de uma grande tempestade que caiu sobre Jesus e seus discípulos enquanto estavam em um barco. A expressão grega para qualificar a tempestade que experimentaram é 'megas' – grande, terrível.

A reação dos discípulos foi de desespero, acordando Jesus com forte clamor: “[...] Senhor, salva-nos! Perecemos!” (v.25).

É importante observar que Jesus, nesse momento, questiona a fé dos seus discípulos. E faz, assim, uma clara ligação entre a fé e o descanso; entre a maneira como cremos e como é possível descansar em Deus, mesmo em meio às tormentas. Ele pergunta: [...] por que sois tímidos, homens de pequena fé? E, levantando-se, repreendeu os ventos e o mar; e fez-se grande bonança" (v.26).

Três verdades devem ser destacadas.

Primeiro, em nossas vidas há dias bons e dias maus. Cedo ou tarde, todos experimentamos tempestades e sofrimentos. Devemos, assim, nos preparar, fortalecendo a nossa fé e relembrando a cada dia em quem cremos.

Segundo, não há tempestade que resista às palavras de Jesus. Ele tem o poder de repreender os ventos e a fúria do mar, fazendo acalmar a mais forte das tormentas. Portanto, não apenas estamos em boas mãos, mas também as tempestades que experimentamos estão nas mãos de Deus.

Terceiro, Cristo usa as tempestades para fortalecer a nossa fé. Ele deseja que creiamos em Deus e nos propósitos de Deus. Ele deseja que creiamos o suficiente para descansar, mesmo vivendo os dias mais escuros.
Assim, perante a tempestade, creia e descanse. Creia, pois Jesus é sempre fiel. E Ele está conosco em meio à tormenta. E descanse, pois, Ele nos guarda e guia. Segundo a sua vontade e no seu tempo, basta uma palavra e toda tormenta se calará.

Minha oração é que, após cruzarmos o árido deserto do sofrimento – seja ele qual for – saiamos mais crentes em Cristo, mais descansados de coração e mais envolvidos com a missão. Que em nossas vidas seja Ele exaltado!

Conselhos aos que sofrem (10) | Rev. Ronaldo Lidório

 Parte: 10 – AOS QUE SE ENCONTRAN SEM FORÇAS

Na conclusão da magnífica carta de Paulo aos efésios, ele ensina que devemos nos fortalecer no Senhor: "Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder" (Ef. 6:10).

Primeiramente para não cairmos na “cilada do diabo” (v.11), o que nos leva a refletir que as armadilhas são muitas e estão ao nosso redor (1Pe 5:8). De fato, o apóstolo destaca esse perigo, pois escreve o verso 20 explicando que a nossa luta não é contra carne e sangue, mas “principados e potestades”. Via de regra, o inimigo das nossas almas nos ataca nas áreas mais enfraquecidas em nossas vidas. Assim, uma pergunta deve ser levantada: qual é a área fraca da sua vida que precisa, urgente e intensamente, ser fortalecida no Senhor e na força do seu poder?

Em segundo lugar, devemos nos fortalecer no Senhor para resistirmos “no dia mau” (v.13), evidenciando que nossos dias são inconstantes e que é crucial resistir para, ao fim, permanecer com a fé inabalável. Parece-me que a dinâmica do texto nos apresenta um movimento: nos fortalecermos no dia bom para conseguirmos resistir quando o dia mau chegar.

Por fim, ele pede oração para que tenha intrepidez na pregação do evangelho de Cristo (v.19), fazendo uma interessante ligação entre a oração e a missão. Mostra que não somos naturalmente audaciosos e intrépidos.

Se o próprio Paulo pediu oração por coragem para a evangelização, nós também precisamos fazê-lo. Tal coragem é resultado direto da graça de Deus, motivo pelo qual precisamos orar e pedir. Uma vida tímida na oração é uma vida tímida na proclamação do evangelho.

O destaque de Paulo, além de apresentar os motivos para nos fortalecermos em Deus, é indicar como fazê-lo. Na teologia bíblica, se conciliarmos as cartas paulinas, encontraremos sete práticas cristãs que alimentam a nossa fé: Palavra, adoração, comunhão, oração, santidade, boas obras e evangelização. Essa é a trilha da espiritualidade onde somos fortalecidos no Senhor para permanecer, mesmo passando pelo sofrimento, com a fé inabalável.

  1. Leia e medite na Palavra de Deus. É ela que alimenta a sua fé e mostra o caminho.
  2. Encha seus dias com frequente adoração, o reconhecimento de quem Deus é e o que Ele faz. Faça isto de forma privada e individual no seu quarto, e, também, pública e coletiva com sua igreja local.
  3. Abrace a comunhão, caminhando com aqueles que amam e seguem o Senhor Jesus.
  4. Cultive a vida de oração – diálogo com o Pai em nome do Filho Jesus.
  5. Busque de forma intensa e intencional uma vida santa que agrada o coração de Deus.
  6. Chore com os que choram, abrace e socorra o aflito e necessitado.
  7. E evangelize, com suas palavras e vida, proclamando sobre o único redentor daquele que crê – Jesus.
Portanto, encha seus dias com a Palavra, adoração, comunhão, oração, santidade, boas obras e evangelização. Você será fortalecido no Senhor!

Identifique as áreas fracas da sua vida, sejam padrões de pensamentos, vícios secretos, motivações duvidosas ou orgulho camuflado. Depois desse autoexame, busque em Cristo um sincero quebrantamento que leve a um verdadeiro arrependimento.

Livre-se urgentemente das suas fraquezas crônicas, pois são nessas lacunas que você será frontalmente atacado pelo inimigo. E não caminhe sozinho! Busque um companheiro de oração, de caminhada, de coração. A comunhão entre os santos é o ambiente que permite que o bálsamo seja derramado sobre a ferida.

Portanto, aos que sofrem, deixo este encorajamento: Deus o fortalecerá. Você não está sozinho, pois o Rei do universo, que o amou e chamou, está ao seu lado todos os dias. Clame e o Senhor o ouvirá. E, enquanto o livramento não chega, persevere com fé, perseverança e paz. Fé, pois Ele o chamou para crer. Assim, o descanso de alma é um resultado direto da fé. Perseverança, pois o caminho muitas vezes é longo e árduo. Caminhe um dia por vez, sabendo que as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã. E, por fim, paz, mesmo em meio ao sofrimento. Lembre-se: por mais forte que seja a tormenta, estamos nas mãos do Senhor, que é fiel.

Conselhos aos que sofrem (8) | Rev. Ronaldo Lidório

Parte: 08 AOS QUE SÃO PERSEGUIDOS

A Palavra afirma que aqueles que viverem em Cristo serão perseguidos (2 Tm 3:12). Também que alguns sofrerão perseguição por causa da justiça (Mt 5:10) e que isto envolverá não apenas o sofrimento do corpo, mas também a difamação pessoal e moral (Mt 5:11).

Em meio à perseguição somos ensinados a guardar a Palavra de Deus (Jo 15:20) e à medida que a igreja é perseguida, o Senhor a fortalece para permanecer inabalável (Ef. 6:13). Em momentos difíceis, a mesma igreja que sofre é também aquela que se encontra em posição de dar grande testemunho de Cristo!

Em Atos capítulo 8, a igreja primitiva passou por forte perseguição. Ensina a Palavra que o sofrimento era físico, emocional e espiritual. No verso 1 o autor fala que a igreja “sofria perseguição”, usando o vocábulo diogmos que indica dor física. No verso 2 lemos que a igreja “pranteava” a morte de Estêvão, do grego kopeton que significa dor na alma – um sofrimento emocional. Por fim, no verso 3 vemos que Paulo “assolava” a igreja, onde encontramos o termo elumaineto, também usado em João 10:10 para se referir à ação do ladrão e inimigo que veio roubar, matar e destruir, ou seja, um sofrimento espiritual.

Entretanto, em meio a essas perseguições e sofrimento, de alguma forma que não compreendemos, Deus produz valentia e perseverança nos seus filhos e abre largas portas para que Jesus se torne mais e mais conhecido.

O mesmo ocorreu em Atos 8. Em meio a todo o sofrimento – físico, emocional e espiritual – a igreja foi dispersa por toda parte (v.1); porém, como consequência dessa dispersão, o evangelho também se difundiu, pois proclamavam a Cristo (v.4). Vemos que multidões se converteram (v.6), Deus mostrou sinais e maravilhas (v.7) e, por fim, houve grande alegria em Samaria com vidas sendo transformadas (v.8.)

Atos 8 é um texto que narra a poderosa intervenção de Deus em ambientes improváveis. Começa no verso primeiro com uma grande perseguição e termina no verso oito com uma grande alegria. Parece que esse modo de operação de Deus continua o mesmo hoje. Em meio a grandes perseguições o Senhor tem produzido também grandes alegrias. Talvez, em virtude disso, quem sai andando e chorando enquanto semeia volta sempre com alegria trazendo os frutos colhidos, pela graça do Pai.

Durante um seminário em área resistente à pregação do evangelho na Ásia central, procurei uma analogia que pudesse representar as equipes missionárias naquela região. Veio à mente a figura dos barcos usados para quebrar o gelo marítimo do Alasca, os conhecidos ice-breakers. São barcos pequenos, com motores potentes e a proa construída de aço com espessura dobrada e afiada, que funciona como um machado que bate e racha a superfície congelada à medida que o barco avança.

Após tais barcos realizarem seu trabalho, chegam os grandes navios turísticos que seguem para conhecer a linda e exótica região. Nesse momento o clima é de festa e deslumbramento, porém quebrar o gelo não foi tarefa fácil nem rápida. Olhando os ice-breakers de longe, tem-se a impressão de que estão parados em meio a enormes blocos de gelo. Observando mais de perto, porém, nota-se que o gelo tem sido quebrado, metro a metro, e os pequenos barcos se movem a frente, vagarosamente, realizando tão pesado trabalho.

Em várias partes do mundo a igreja de Cristo enfrenta restrição para existir e, às vezes, perseguição por partilhar a fé. Em outras, a pregação do evangelho é restrita, seja por barreiras políticas, linguísticas, culturais, climáticas, religiosas ou sociais. Também em nosso país, cristãos evangélicos frequentemente experimentam pressões e críticas. O trabalho é vagaroso e tem-se a impressão de que nada novo acontecerá.

Devemos, entretanto, lembrar que após o gelo quebrado virão navios com multidões que passarão pelo caminho aberto. Nesse dia haverá deslumbramento e alegria pela bondade do Senhor que em meio ao contexto mais improvável fez algo novo acontecer.

Para vocês que andam e choram enquanto semeiam, continuem a andar, chorar e semear, pois um dia o fruto da semente estará perante o Santo Cordeiro de Deus. Guarde a sua fé enquanto anda e chora. Não perca a alegria, a mansidão, a oração e a paz. E não deixe de semear mesmo no sofrimento, pois há promessa de frutos para os que semeiam na dor. Também não dê ouvidos àqueles que dizem que o Eterno o abandonou, que a semente não frutificará, que o caminho não tem fim. Eles não sabem que o Cordeiro de Deus é também o Leão de Judá.

Conselhos aos que sofrem (7) | Rev. Ronaldo Lidório

 Parte 07 – AOS QUE TEM A FÉ ABALADA

A igreja de Cristo vive dias de forte antagonismo entre a fé e a dúvida, o amor e a indiferença, a santidade e o pecado, a liberdade e a perseguição. Perante um mundo que nos convida a ver, Deus nos convida a crer. Entender esse convite, abraçá-lo e proclamá-lo, parece ser a nossa missão e o significado de nossas vidas.

Paulo afirma que “a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé” (Rm 1:17). Esse verso reproduz a mensagem de Habacuque (Hc 2:4), que faz essa afirmação 600 anos antes de Cristo. No primeiro capítulo do livro de Habacuque, o profeta denuncia o sofrimento do povo de Deus perante o ataque dos caldeus, narrando a aflição do povo com a violência, destruição, prisão e humilhação. E pergunta: "Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás? Por que me mostras a iniquidade e me fazes ver a opressão?" (Hc 1:2-3).

O profeta pede que Deus mude as circunstâncias e anule o sofrimento, porém a resposta de Deus é diferente: o Senhor lhe diz que o povo sofrerá ainda mais e que as dores apenas começaram. Habacuque se desespera e aguarda na torre de vigia. Lança-se à oração (Hc 2:1).

Perante essa crise profundamente desesperadora, ele reconhece algo novo sobre Deus, e diz:

“Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é minha fortaleza” (Hc 3:17-19).

O profeta percebe que Deus não perdeu seu poder diante do caos. Deus não deixa de ser Deus quando se cala. Habacuque pede que o Senhor mude as circunstâncias, mas Deus lhe convida a crer que Ele é Deus apesar e além das circunstâncias.

No capítulo 2 Habacuque exclama aquilo que iria levar Paulo, após 600 anos, a fundamentar a carta aos Romanos, e Lutero, após 2.100 anos, a iniciar a Reforma Protestante: “O justo viverá por fé” (Hc 2:4). Deus não nos convida a ver, mas a crer. Deus nos convida a ter fé. E, como Paulo afirma: “a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10:17).
Não há nada mais poderoso em nossas ações do que proclamarmos a Palavra do Senhor, na qual cremos. Ela gera fé e transforma o coração mais duro, a nação mais forte, o homem mais ímpio, como transformou a minha e a sua vida. Creia que Ele fará isso ainda com milhões ou bilhões.

Vivemos em um país que carece profundamente de paz, justiça e livramento. Creio que é também missão da igreja clamar ao Senhor para que essas circunstâncias mudem, bem como lutar e participar dessa transformação. Porém, nossa missão vai além do clamor pela mudança do cenário. Ela envolve também proclamar que, mesmo em meio à tragédia, há Deus – e Ele nos convida a crer.

A primeira missão da igreja, portanto, não é a proclamação, mas a fé. Não é viver, mas morrer. Não é mudar, mas ser transformada. A missão é resultado da fé.

À semelhança de Habacuque, nossa tendência é buscar com maior intensidade o livramento do sofrimento diário. Deus, porém, vê além da linha do horizonte e promove um livramento eterno. Por vezes Ele usa o sofrimento temporário para que tenhamos nossa atenção voltada para sua dependência. Outras vezes os maiores aprendizados não ocorrem nas savanas tranquilas, mas nos desconfortáveis desertos. Não devemos buscar o sofrimento, mas compreender que há um propósito maior que a dor.

“Ainda que a figueira não floresça...” nos ensina que todos os planos de Deus, mesmo em meio ao sofrimento e caos, são planos de amor. E que reconhecer isso nos dá a mais santa e poderosa mensagem: há Deus!
“Ainda que a figueira não floresça...” nos ensina que todos os planos de Deus, mesmo em meio ao sofrimento e caos, são planos de amor. E que reconhecer isso nos dá a mais santa e poderosa mensagem: há Deus!

Conselhos aos que sofrem (6) | Rev. Ronaldo Lidório

Parte 06: AOS QUE NÃO TEM MORADA CERTA

Estive em contato com etnias peregrinas em dois momentos de minha vida. Visitei brevemente um grupo tuaregue na região desértica do Saara e, de forma mais prolongada, convivi com três famílias Fula no nordeste de Gana. Fiquei impressionado com as características que marcam uma sociedade nômade e destaco três. A primeira é que eles mantêm uma vida material simples, com bens e posses que podem ser facilmente transportados, descartando o supérfluo. A segunda é perceptível quando vi que eles orientam a vida pelos relacionamentos pessoais e não pelo território, mantendo um alto nível de compromisso relacional que subsiste a diferentes cenários. E, por fim, a terceira característica é que as motivações que os levam à peregrinação passam por diversas vertentes, sendo uma delas a esperança de encontrar algo melhor em outra terra.

O autor aos Hebreus nos fala sobre estrangeiros e peregrinos que viveram na esperança e morreram na fé, buscando uma pátria celestial e, por isso, Deus se manifestou como seu Deus e lhes preparou uma morada (Hb 11:13-15). Um desses peregrinos, Abraão, movido por uma promessa do Senhor, trocou a cidade pelas tendas, o certo pelo desconhecido, a casa de seus pais pela esperança em Deus.

Fé e esperança são valores essenciais para os cristãos peregrinos e conduzem a uma vida paradoxal. Em Cristo, somos chamados a viver como responsáveis cidadãos da terra, mas orientados pela cidadania dos céus, de modo a não nos apegarmos às coisas desse mundo, alegrando-nos sempre com a criação de Deus.

Como peregrinos, não somos sujeitos à carne, mundo e diabo, mas ainda estamos em luta contra todos eles. Proclamamos o evangelho que nos dá salvação, mas não nos tira do mundo ou do caos. Convidamos as nações a crerem em Deus, mesmo sabendo que, em muitos casos, seremos perseguidos pela nossa fé.

A fé dos peregrinos bíblicos produz resultados na terra. Na Bíblia, percebemos que essas pessoas fizeram ruir as muralhas de Jericó, subjugaram reinos, obtiveram promessas e fecharam bocas de leões (Hb 11: 30-34). Pela fé o impossível pode acontecer, se o Senhor assim desejar.

Há, porém, o outro lado da vivência da fé, pois a epístola aos Hebreus relata que os crentes no Senhor foram torturados, passaram pela prova de açoites, foram apedrejados, provados, serrados ao meio, mortos ao fio da espada e andaram sem rumo (Hb 11:35-37). Trata-se de uma fé impregnada de esperança, que não apenas deságua em livramentos e feitos no presente, mas também prepara o cristão para enfrentar o vale do sofrimento sem deixar de crer que a casa do Pai o aguarda.

Alegre-se com as maravilhas da criação de Deus nesse mundo, lembrando que elas apontam para a perfeição que há de vir. Chore todas as lágrimas pelos que partem ou sofrem nessa vida, com a doce convicção de que não haverá choro na casa do Pai. Envolva-se com a proclamação do evangelho de forma intensa, sabendo que na eternidade não haverá evangelização, apenas adoração.

Fortaleça a cada dia a sua fé, pois no porvir não precisaremos dela para crer, já que veremos face a face o nosso Senhor. Sofra as dores que lhe são impostas, sem deixar que a ansiedade ou a amargura o cativem. Jesus pagou o preço por todos os nossos pecados e carregou sobre si as nossas dores.

Peregrino, a cada passo fortaleça-se na fé e alimente-se da esperança, vivendo de forma plena os seus dias e lembrando que Ele o aguarda.
Peregrino, a cada passo fortaleça-se na fé e alimente-se da esperança, vivendo de forma plena os seus dias e lembrando que Ele o aguarda.

Conselhos aos que sofrem (5) | Rev. Ronaldo Lidório

 Parte 05: AOS QUE NÃO CONSEGUEM ORAR

O Senhor Jesus nos ensinou que a oração, associada à fé, promove uma resposta do Pai (Mt 21:22). Também nos lembrou que nos embates mais difíceis no Reino de Deus devemos nos preparar com oração e jejum (Mt 17:21).

O Mestre associou a oração à vida diária com Deus, necessidade de todo ser humano (Lc 6:12), e se entristeceu porque os seus discípulos dormiam quando precisavam vigiar (Lc 22:45). Depois da sua morte vemos esses discípulos unânimes na oração (At. 1:14). Pedro e João saíam juntos para orar (At. 3:1) e os apóstolos se reservaram ao ensino da Palavra e oração (At 6:4) para a edificação da Igreja. Paulo diz que orava pelas igrejas plantadas (Ef. 6:18) e Pedro exortou à vigiar em oração (1 Pe 4:7). A oração permeia a Palavra como um precioso ensino para cada um de nós.

Em Atos 4 lemos que, após Pedro e João serem libertos da prisão, reuniram-se com os demais cristãos e oraram. A Palavra nos mostra que a oração foi unânime, com concordância de todos (v.24). Essa oração começa exaltando a Deus, reconhecendo que Ele está acima de todos (“Tu és soberano Senhor”), é o Criador de todas as coisas (“fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há”) e fala com os homens (“que disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca de Davi”). Essa oração manifesta quem Ele é, o que Ele fez e como Ele fala (v.24-25).

Logo depois faz uma rápida transição para a realidade que experimentam e descreve o sofrimento, relembrando que haviam perseguido e crucificado Jesus e que agora se revoltam contra a sua igreja. Pedem, assim, que Deus olhe para as ameaças que sofrem e termina com um pedido sobre o qual chamo a sua atenção (v.26-29).

Lembre-se que a igreja vivia o início da perseguição com o encarceramento de seus líderes e logo depois enfrentaria a morte de Estêvão e dias terríveis que se abateriam sobre todos. Era um momento sensível, de incertezas, graves ameaças e muita insegurança.

A oração termina com um pedido a Deus. Poderíamos esperar que o pedido fosse por livramento, quem sabe tolerância na perseguição ou ainda firmeza na fé. Mas surpreendentemente o pedido é outro: “concede aos teus servos que anunciem com intrepidez a tua Palavra” (v.29).

Devemos orar por livramento em meio ao sofrimento, cura em dias de enfermidade e alegria quando a angústia se aproxima. Sim, devemos faze-lo com fé e esperança. Mas parece-me que uma oração essencial é que Deus nos dê coragem para que em qualquer circunstância ou crise anunciemos com alegria do Nome acima de todo nome – Jesus Cristo.

Para os que, em meio à dor, não conseguem mais orar, lembrem-se que o Espírito Santo nos ajuda em nossa fraqueza e também intercede por nós com gemidos inexprimíveis (Rm 8:26). Ele conhece a sua dor e ouve as suas lágrimas.

Em meio à crise os apóstolos se puseram a orar. Devemos fazer o mesmo. Ore com confiança e intrepidez. Ore com gratidão e descanso. Ore com amor e compaixão. E creia que Deus ouve as orações. Ele nos surpreenderá! “Ouve, ó Deus, a minha súplica; atende à minha oração” (Sl 61:1).

Em meio à crise os apóstolos se puseram a orar. Devemos fazer o mesmo. Ore com confiança e intrepidez. Ore com gratidão e descanso. Ore com amor e compaixão. E creia que Deus ouve as orações. Ele nos surpreenderá! “Ouve, ó Deus, a minha súplica; atende à minha oração” (Sl 61:1).



Conselhos aos que sofrem (4) | Rev. Ronaldo Lidório

 Parte 04: AOS QUE PERDERAMA A ALEGRIA

É desejo de Deus que tenhamos alegria. Deus nos ordena em sua Palavra: “Alegrai-vos no Senhor!” (Fp 4:4). Aliás, a alegria no Senhor é alvo de diversos estímulos bíblicos. Somos convidados a nos alegrar porque “grandes coisas fez o Senhor por nós” (Sl 126:3), pelo “dia que o Senhor fez” (Sl 118:24), pois “a alegria do Senhor é a vossa força” (Ne 8:10) e porque Ele é o Deus “da minha salvação” (Hc 3:18).

Aqueles que se alegram no Senhor são os “retos de coração” (Sl 32:11), lembram-se do “seu santo nome” (Sl 97:12), reconhecem a sua bondade (Jl 2:23) e sinceramente “buscam ao Senhor” (1 Cr 16:10). A verdadeira alegria é um dos nossos grandes privilégios e um dos nossos grandes desafios. E o oposto da alegria em Cristo não é simplesmente a tristeza, mas o descontentamento.

Enganoso é o coração. Conseguimos experimentar descontentamento mesmo vivendo debaixo da abundante graça de Deus. Em meio à fartura, nos descontentamos pelo que ainda não temos. Cobertos de afirmações e elogios, nos chateamos com uma pequena crítica. Alvos da constante graça de Deus, nos revoltamos por uma oração ainda não respondida. Imersos em incontáveis bênçãos, nos abatemos por aquela não recebida. É da nossa natureza caída abraçar o descontentamento, mesmo em meio à insuperável graça e abundantes motivos de alegria.

Alegrar-se no Senhor é um ato de adoração. Não é resultado de um mero sentimento, mas do reconhecimento da sua bondade. Trata-se de enxergar que a presença do Eterno é suficiente e que nenhuma tragédia da vida superará a sua graça.

Alegrar-se no Senhor é um exercício de fé, pois é resultado da confiança em Deus, que pode todas as coisas. À medida que creio, me alegro, pois sou tomado por uma profunda convicção de que Ele tudo pode; que sua graça é infinita e real; que no meio da provação existe um propósito maior que é cuidadosamente desenhado por Ele.

A alegria no Senhor ataca a ansiedade, direcionando para Deus as expectativas do nosso coração e fazendo repousar a nossa alma. À medida que creio, vejo a alegria combater a ansiedade e dar lugar ao descanso. Ansiedade é preocupar-se com tragédias que possivelmente jamais acontecerão. Alegria é sentir-se abraçado por Deus, em lugar amoroso e seguro, mesmo se a tragédia vier.

A Palavra nos orienta a buscarmos a alegria e não andarmos ansiosos (Fp 4: 4,6). O roteiro é definido para orar e suplicar ao Senhor, com os corações gratos (v.6). Assim, o resultado será a profunda “paz que excede todo o entendimento”, a qual “guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus” (v.7).

O cuidado que precisamos nos atentar é com os nossos pensamentos. É preciso que nossos pensamentos sejam ocupados apenas pelo que é verdadeiro, respeitável, justo, puro e amável. E por aquilo que tenha virtude e louvor (v.8). O que deixamos entrar e fazer morada em nossos pensamentos pode promover a ansiedade ou fazer brotar a paz.

Que Deus nos dê mais discernimento sobre aquilo que alimentamos em nossas mentes e corações – para a sua glória e a nossa alegria.

Conselhos aos que sofrem (3) | Rev. Ronaldo Lidório

 Parte 3: QUANDO CHEGA A TEMPESTADE

À semelhança de Davi, às vezes, experimentamos a solidão do deserto, o constrangimento nos relacionamentos e a incerteza sobre o amanhã. A vida, nesses momentos, torna-se mais lenta, opaca e pesada. E nosso coração, inclinado ao pecado, pode se apegar a uma erva daninha da espiritualidade: o descontentamento.

No Salmo 63, vimos que Davi se encontrava no deserto de Judá em um dos momentos mais angustiantes de sua vida. Duas possibilidades são plausíveis: ele escapava de Saul antes de se tornar rei, ou fugia de seu filho Absalão, quando esse se revoltou contra o próprio pai. Em ambas as situações, Davi estava perdendo quase tudo o que tinha: reputação, liberdade e relacionamentos familiares.

Ele possuía diversos motivos para abraçar o profundo descontentamento, mas tomou outro caminho: o da confiança, gratidão e louvor. Nenhum descontentamento, por mais enraizado que esteja, resiste à sincera gratidão e louvor a Deus.

Faça da canção de Davi a sua oração: “Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água. Assim, eu te contemplo no santuário, para ver a tua força e a tua glória. Porque a tua graça é melhor do que a vida; os meus lábios te louvam. Assim, cumpre-me bendizer-te enquanto eu viver; em teu nome, levanto as mãos” (Sl 63:1-4).

Eu convido você a buscar neste dia o caminho do contentamento, como fez Davi. Ainda que o sofrimento esteja presente, a incerteza alojou-se em sua casa e a tempestade parece ter chegado, confie no Senhor, descanse no Senhor, e entregue seus caminhos ao Senhor.

Em nossa vivência cristã experimentamos dois momentos bem demarcados, e Jesus Cristo estará conosco em ambos.

O primeiro é breve e passa como o vento. Já o segundo é eterno.  
O primeiro é marcado pela esperança e o segundo, pelo esplendor.  
No primeiro buscamos a Deus e no segundo estamos ao seu lado. 
No primeiro enfrentamos quebras, lutas, enfermidades e angústias.  
No segundo não haverá choro, decepções, dor nem morte. 
No primeiro somos peregrinos, caminhantes e forasteiros, não temos morada certa. 
No segundo chegamos ao lar.

Enquanto caminhamos pelo dia do sofrimento, que a nossa alma tenha mais sede de Deus do que de água. Que Ele seja o nosso tudo. Então nada nos faltará.

Conselhos aos que sofrem (02) | Rev. Ronaldo Lidório

Parte 2: AOS QUE ESTÃO EM SOFRIMENTO

A natural expectativa de quem passa pelo sofrimento é ver a rápida e final intervenção de
Deus. Quando a enfermidade chega à nossa casa, o desemprego torna-se uma realidade ou as crises pessoais se avolumam, nosso clamor é por livramento.

Há sofrimentos públicos, conhecidos e lamentados por todos. E há sofrimentos particulares que destroçam o coração, mas passam despercebidos até pelo amigo chegado. Mais importante do que o calibre do sofrimento é como passamos por ele. O fim do sofrimento pode ser uma alma amargurada, um coração incrédulo e uma mente frustrada. Há, porém, um outro caminho.

O Salmo 63 foi escrito por Davi no deserto de Judá em um dos momentos mais angustiantes de sua vida. Possivelmente, ele escapava de Saul antes de se tornar rei, ou fugia de seu filho Absalão, quando esse se revoltou contra o próprio pai. Em ambas as situações, Davi havia perdido a reputação, a liberdade e importantes laços familiares.

Essa inspiradora canção revela as mais profundas convicções de Davi. No verso 1, ele indica que a sede de Deus era maior do que a sede de água. Nos versos 2 a 5, ele louva a Deus reconhecendo sua força e glória, e agradece pela graça, que é melhor que a vida. Faz também um compromisso de o louvar enquanto viver. Nos versos 6 a 8, Davi busca o descanso no Eterno e usa verbos que estão no presente, como “recordo”, “canto” e “medito”.

Davi crê e canta o descanso em Deus no dia do sofrimento, não apenas após libertar-se dele. Nos versos 9 a 11, ele declara sua confiança na força e na vitória de Deus sobre seus inimigos.

O sofrimento pode ser um caminho que nos leva à amargura ou ao louvor, à incredulidade ou ao fortalecimento da fé. A qualidade da nossa fé será determinante para a maneira como passamos pelo deserto.

À medida que cremos, descansamos – ou seja, vemos o mundo com as lentes da graça e nos alegramos naquele que controla a vida. Crer que a presença de Deus é melhor que a vida parece ser o exercício mais transformador – da mente, do coração e da visão de mundo – que qualquer pessoa possa experimentar no dia mau.

Hoje, em meio ao seu sofrimento, confesse a sua fé em Deus, reconhecendo quem Ele é e o que Ele faz. Esse é o verdadeiro louvor. Peça fé suficiente para descansar, com alma e mente pacificadas; e louvar, com sincero agradecimento pelo amor e graça.

Por Rev. Ronaldo Lidório