quinta-feira, 3 de abril de 2025

Resenha: Masculinidade Tóxica | Nancy R. Pearcey

Resenha Descritiva do Livro "The Toxic War on Masculinity: How Christianity Reconciles the Sexes"

Autor: Nancy R. Pearcey
Editora: Baker Books
Ano de Publicação: 2023
Gênero: Teologia, Sociologia, Cultura

Introdução

O livro "The Toxic War on Masculinity: How Christianity Reconciles the Sexes" de Nancy R. Pearcey aborda a crescente tensão cultural em torno do conceito de masculinidade. A autora investiga a crítica contemporânea aos padrões tradicionais de masculinidade, contrastando-os com uma visão cristã da masculinidade bíblica. Com uma abordagem que combina pesquisa histórica, análise cultural e evidências sociológicas, Pearcey busca desconstruir a narrativa de que a masculinidade, por si só, é inerentemente tóxica.

Estrutura e Conteúdo

O livro está dividido em várias seções que exploram diferentes aspectos da masculinidade e sua relação com a fé cristã. Pearcey começa analisando como a sociedade moderna chegou a considerar a masculinidade como um problema e examina as raízes históricas dessa percepção. Ela argumenta que, ao longo dos séculos, a masculinidade foi moldada por influências filosóficas e ideológicas que se afastaram dos princípios bíblicos.

A autora apresenta uma distinção entre "masculinidade bíblica" e "masculinidade cultural", defendendo que a primeira está enraizada em características como responsabilidade, serviço e proteção, enquanto a segunda pode estar contaminada por ideias distorcidas de poder e dominação. Para isso, ela traz exemplos históricos e dados empíricos que demonstram como homens que vivem de acordo com princípios cristãos tendem a ter relacionamentos mais saudáveis e a serem mais engajados na sociedade de forma positiva.

Além disso, Pearcey expõe como certas narrativas feministas e progressistas reforçaram uma visão negativa dos homens, atribuindo a eles uma culpabilidade coletiva por problemas sociais. No entanto, ela também reconhece os males do patriarcado disfuncional e critica as formas prejudiciais de masculinidade que existem, promovendo uma visão equilibrada e redentora do papel masculino na sociedade.

Abordagem e Argumentação

A escrita de Pearcey é envolvente e acessível, combinando rigor acadêmico com uma linguagem clara. Ela utiliza estatísticas, depoimentos e referências bíblicas para construir sua argumentação, tornando seu trabalho um equilíbrio entre pesquisa acadêmica e análise cultural. Sua tese central enfatiza que a masculinidade não precisa ser vista como tóxica, desde que seja vivida dentro dos parâmetros do Evangelho.

Conclusão

"The Toxic War on Masculinity" é uma obra relevante para aqueles que desejam compreender a crise contemporânea da masculinidade sob uma perspectiva cristã. Nancy Pearcey desafia concepções modernas e apresenta uma visão restauradora do papel dos homens na sociedade. Seu livro é indicado para leitores interessados em teologia, sociologia e debates culturais sobre gênero e fé.

Por: Pb. Evandro Marinho

sábado, 29 de março de 2025

Nascido Escravo, A Ilusão livre Árbitro

O conceito de livre-arbítrio, à luz da exposição de Martinho Lutero em seu livro Nascido Escravo, é uma ilusão incompatível com a doutrina bíblica da salvação. Lutero argumenta que a vontade humana, longe de ser livre, encontra-se em escravidão ao pecado, à carne e à vontade de Satanás. 

Romanos 3 declara enfaticamente: "Não há justo, nem um sequer... não há quem busque a Deus" — o que nega qualquer capacidade natural do homem para voltar-se voluntariamente a Deus.

A ideia de livre-arbítrio pressupõe que o homem, mesmo em seu estado caído, possui em si algum poder para escolher o bem espiritual ou buscar a Deus. No entanto, as Escrituras e a experiência universal revelam que, deixado a si mesmo, o homem inevitavelmente se afasta de Deus. Lutero destaca que o próprio propósito da lei não é indicar um caminho possível de justiça pelas obras, mas sim mostrar o pecado, esmagar o orgulho humano e conduzir o pecador à graça.

Se o livre-arbítrio fosse real, haveria mérito humano na salvação, o que contradiz frontalmente textos como Romanos 3.24, onde lemos que os crentes são “justificados gratuitamente, por sua graça”. 

O livre-arbítrio, portanto, não apenas é incapaz de cooperar com a graça, mas, segundo Lutero, é uma expressão da justiça própria que compete com a obra de Cristo. A salvação é totalmente pela fé, mediante a graça soberana, sem que o homem possa dar sequer o primeiro passo em direção a Deus por sua própria vontade.

Negar o livre-arbítrio não é negar responsabilidade, mas é afirmar que toda a esperança do pecador repousa fora dele mesmo — no chamado eficaz e na regeneração operada pelo Espírito Santo. A liberdade verdadeira não está na vontade caída, mas na libertação que Cristo concede aos seus. Assim, todo louvor pertence a Deus, que “faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1.11), e não ao homem, cuja vontade, sem Deus, é apenas escravidão.

Augustus Nicodemus

sexta-feira, 28 de março de 2025

Pedro, Paulo e Francisco | Augustus Nicodemus

A análise da vida e do legado de Pedro e Paulo, em comparação com o papado contemporâneo, evidencia profundas divergências entre a eclesiologia bíblica e a estrutura hierárquica da Igreja de Roma.

Pedro, conforme suas próprias palavras em 2Pedro 1.12-15, mostra-se preocupado em deixar aos cristãos não um sucessor institucional, mas uma memória fiel da verdade por meio das Escrituras. A ênfase está na permanência da doutrina, não na criação de um ofício perpétuo. A autoridade apostólica, em sua concepção, é transmitida por meio da Palavra escrita e não por meio de uma cadeia de sucessores.

Paulo, igualmente, compreendia seu ministério como um chamado direto de Cristo. Ele rejeitava qualquer tentativa de centralização ou culto à personalidade, como se vê em 1Coríntios 1.10-17. Sua preocupação era com a pureza do evangelho e a edificação de igrejas locais governadas por presbíteros, não por uma figura singular e suprema. O apóstolo apontava constantemente para Cristo como cabeça da Igreja (Ef 1.22-23), não para si mesmo nem para outro homem.

A figura do papa, mesmo quando revestida de gestos simbólicos de humildade, como a escolha do nome Francisco, permanece inserida em uma estrutura incompatível com o padrão apostólico. A autoridade papal, com pretensões de infalibilidade e jurisdição universal, não encontra fundamento no Novo Testamento. O modelo apostólico é descentralizado, pastoral, fundamentado na suficiência das Escrituras e na liderança de Cristo.

A crítica ao papado, portanto, não se dirige apenas ao indivíduo que ocupa a posição, mas à própria noção de uma autoridade eclesiástica suprema sobre a Igreja de Cristo. A sucessão legítima não é episcopal, mas doutrinária. Os apóstolos legaram à Igreja as Escrituras como fundamento permanente da fé. O papado, ao postular uma autoridade paralela à da Palavra, compromete a centralidade de Cristo e enfraquece a doutrina da suficiência das Escrituras.

Em contraste com o sistema romano, a Igreja fiel deve recuperar a simplicidade e a pureza do modelo neotestamentário: uma comunidade edificada sobre o ensino dos apóstolos, preservado nas Escrituras, com Cristo como único cabeça e pastor supremo.

Augustus Nicodemus

Semana da Páscoa | Augustus Nicodemus

A Semana Santa frequentemente se converte num espetáculo de simbolismos vazios, onde rituais repetitivos como a Via-Sacra obscurecem a clareza do evangelho. A centralidade da cruz de Cristo — seu sacrifício vicário e ressurreição gloriosa — é ofuscada por tradições que muitas vezes carecem de base bíblica e fomentam uma espiritualidade teatral. Em vez de conduzir ao arrependimento genuíno, muitos desses atos apenas reforçam uma piedade emocional, mas desprovida da verdade transformadora do evangelho (João 8:32).

A verdadeira Páscoa, no entanto, não celebra dor encenada, mas redenção eficaz. “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado” (1 Coríntios 5:7) — esta é a realidade que molda a fé cristã. Ele não apenas sofreu; Ele venceu a morte com poder (1 Coríntios 15:55-57). A cruz não é um objeto a ser venerado em rituais dramáticos, mas a proclamação de que a justiça de Deus foi satisfeita (Romanos 3:25-26). 

O Cristo ressurreto exige resposta de fé obediente, e não mera participação em liturgias sazonais. A Escritura nos chama a anunciar “a morte do Senhor até que Ele venha” (1 Coríntios 11:26), não a encená-la como um espetáculo.

Augustus Nicodemus

quinta-feira, 27 de março de 2025

A Quaresma: Tradição Humana ou Prática Bíblica? | Pb. Evandro Marinho

A prática da Quaresma, amplamente observada pela Igreja Católica Romana e por algumas tradições protestantes, levanta questões importantes para aqueles que buscam um cristianismo enraizado na Escritura. A história mostra que a Quaresma não é uma prática dos primeiros cristãos e tem conexões com festivais pagãos que antecederam o cristianismo. Neste artigo, analisaremos a origem histórica da Quaresma, seu desvio das Escrituras e a crítica de reformadores protestantes.

A Origem Histórica da Quaresma

A Quaresma é um período de 40 dias de jejum e penitência, culminando na Páscoa. Seguindo o testemunho de historiadores cristãos, essa prática começou a ser instituída no século II por Teléforo, bispo de Roma, mas foi oficializada somente em 519 d.C. A adoção desse período de abstinência pode ter sido uma tentativa de substituir uma antiga prática pagã relacionada a Tamuz, uma divindade babilônica que era pranteada por 40 dias após sua morte.

Essa conexão com ritos pagãos é preocupante, pois Deus ordenou claramente ao Seu povo que não adotasse práticas dos pagãos (Deuteronômio 12:30-32). O profeta Ezequiel também denunciou a prática das mulheres chorando por Tamuz no templo (Ezequiel 8:14-15), demonstrando a desaprovação divina a essas tradições.

O Que Diz a Escritura?

A Palavra de Deus é a única autoridade para a fé e a prática cristã. No Novo Testamento, não encontramos qualquer ordenança para observar a Quaresma ou qualquer outro período de jejum litúrgico prescrito anualmente. Em Colossenses 2:16-17, o apóstolo Paulo adverte contra a imposição de festivais e práticas externas como necessárias para a vida cristã:

"Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombra das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo" (Cl 2:16-17).

A imposição da Quaresma como um tempo especial de espiritualidade pode levar à falsa ideia de que algumas obras externas podem contribuir para nossa justificação, o que é frontalmente rejeitado pelo ensino bíblico (Efésios 2:8-9).

A Denúncia dos Reformadores

Os reformadores protestantes, como Martinho Lutero, João Calvino e Ulrico Zuínglio, criticaram duramente a imposição de práticas religiosas não prescritas na Escritura. Lutero afirmou que a verdadeira espiritualidade não vem de "privações humanas, mas da fé verdadeira em Cristo". Calvino, em suas "Institutas", destacou que qualquer acréscimo à Palavra de Deus corrompe a verdadeira religião. Ele escreveu:

"Deus não deseja ser honrado de outro modo senão segundo Sua Palavra, e não aceita as invenções humanas em Sua adoração" (Institutas, Livro IV, Cap. 10).

Conclusão: Retornemos às Escrituras!

A prática da Quaresma é um exemplo de como tradições humanas podem se infiltrar na adoração cristã, desviando os crentes da simplicidade do evangelho. Não precisamos de ritos instituídos por homens para buscar a Deus, mas da fé verdadeira em Cristo e de uma vida de arrependimento e santidade constante, não limitada a um período específico do ano.

O verdadeiro jejum é aquele que nasce de um coração arrependido e transformado pelo Evangelho, conforme Isaías 58:6:

"Porventura não é este o jejum que escolhi? Que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo, e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo jugo?"

Portanto, ao invés de nos submetermos a tradições humanas, voltemo-nos para a suficiência das Escrituras e para a verdadeira liberdade em Cristo.

quinta-feira, 20 de março de 2025

Como estruturar um sermão Expositivo | Pb. Evandro Marinho

A estrutura do sermão expositivo segue um padrão bem definido para garantir clareza, fidelidade ao texto bíblico e impacto espiritual. De acordo com diversos estudiosos da homilética reformada, como Bryan Chapell, Hernandes Dias Lopes e Jilton Moraes, a organização do sermão expositivo pode ser dividida nos seguintes elementos essenciais:

1. Escolha do Texto Bíblico

O sermão expositivo parte de uma passagem específica das Escrituras, geralmente uma perícope (seção coerente do texto).

O pregador deve ler e reler o texto, orar sobre ele e considerar o seu contexto imediato e histórico.

2. Identificação da Grande Ideia

Haddon Robinson chama isso de "Grande Ideia" do sermão: a principal verdade teológica da passagem que será explicada e aplicada.

Deve-se formular a ideia central com clareza e brevidade.

3. Estruturação do Sermão

Um sermão expositivo clássico contém as seguintes partes:

A. Introdução

Deve capturar a atenção dos ouvintes.

Apresenta o tema e a relevância do texto para a vida cristã.

B. Corpo do Sermão

Desenvolvimento da exposição do texto, dividindo-o em pontos principais e subpontos que emergem diretamente da passagem.

Utilização de ilustrações para reforçar o entendimento da audiência.

Aplicação prática das verdades extraídas do texto.

C. Conclusão

Recapitulação da grande ideia e dos pontos principais.

Exortação e aplicação final.

Chamado à resposta (não necessariamente um apelo emocional, mas uma convocação à obediência e fé).

4. Exegese e Aplicação

O sermão deve basear-se em um estudo profundo do texto, incluindo análise do original, contexto histórico e teológico.

A aplicação deve ser relevante para os ouvintes e enraizada na verdade bíblica.

5. Clareza e Unidade

Cada parte do sermão deve estar interligada e contribuir para comunicar a mensagem principal.

O sermão não deve ser uma sequência de informações soltas, mas um argumento coeso e progressivo.

A estrutura bem definida do sermão expositivo garante que a pregação seja fiel às Escrituras, compreensível para os ouvintes e eficaz em sua aplicação.

Pb. Evandro Marinho 

sexta-feira, 14 de março de 2025

Vivendo em época de crise | Augustus Nicodemus

Vivemos tempos difíceis em que a inflação corrói o poder de compra, o desemprego assola muitas famílias, e a instabilidade econômica gera insegurança. Diante dessas realidades, é fácil sermos levados pelo medo ou pela indignação que vemos nas redes sociais. Mas qual deve ser a postura do cristão?

• Confiança em Deus, não no sistema econômico.

O sustento vem do Senhor, não dos mercados. "Fui moço e agora sou velho, mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência mendigar o pão" (Salmo 37:25). Precisamos trabalhar, planejar e ser responsáveis, mas sem nos deixar dominar pela ansiedade (Mateus 6:25-34).

• Sabedoria e prudência financeira.

Provérbios nos ensina a sermos diligentes e evitar dívidas desnecessárias (Provérbios 22:7). Em tempos de incerteza, devemos buscar uma administração financeira sábia, evitando gastos impulsivos e cultivando a generosidade com aqueles que mais precisam (2 Coríntios 9:6-7).

• Trabalho e esperança, mesmo em tempos difíceis.

O desemprego e o subemprego são desafios reais, mas devemos lembrar que "tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor" (Colossenses 3:23). O cristão não deve desistir, mas buscar oportunidades com esforço e fé, confiando que Deus abre portas.

• Engajamento responsável e oração pelo país.

O aumento da dívida pública e a necessidade de reformas são assuntos sérios, mas devemos evitar discursos de ódio e desespero. A Bíblia nos chama a orar pelas autoridades (1 Timóteo 2:1-2) e a sermos luz e influência positiva na sociedade. Criticamos com sabedoria, cobramos com responsabilidade e confiamos que Deus continua no controle.

• Esperança além das crises.

Nossa esperança não está na economia, nos governos ou nos investimentos deste mundo, mas no Reino de Deus. "Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas" (Mateus 6:33).

Seja no desemprego ou na instabilidade, o cristão vive pela fé e não pelo medo. Sejamos prudentes, justos e confiantes na provisão do Senhor, lembrando que nossa missão vai além das crises: sermos sal e luz em meio à escuridão.

Que o Senhor nos dê paz e sabedoria!

Augustus Nicodemus