terça-feira, 5 de março de 2013

O Homem por detrás do Ministério | Paul Tripp

ministerio-pastoralGostaria de iniciar este artigo a partir de onde o último terminou. Devemos ser cuidadosos ao definir prontidão ministerial e maturidade espiritual.

É perigoso pensar que o graduado muito bem treinado no seminário está pronto para o ministério ou mesmo confundir conhecimento, ocupação e habilidade com maturidade espiritual pessoal.

A maturidade é um fator vertical que será acompanhado por uma ampla variedade de manifestações horizontais - diz respeito ao relacionamento com Deus, resultando num viver sábio e humilde. O amor por Cristo se manifesta no amor ao próximo, a apreciação pela Sua graça se manisfesta em graça para com o próximo, a gratidão pela paciência e pelo perdão de Jesus o capacita a ser paciente e perdoador e sua experiência diária com o poder resgatador do evangelho produz amor por outros que estão experimentando o mesmo resgate.

Estes fatores precisam ser colocados em primeiro plano diante do pedido e análise de todos os candidatos ao pastorado. Não estamos selecionando habilidades, conhecimento nem experiência ministerial. Estamos selecionando pessoas consagradas de todo coração e cujos ministérios serão sempre moldados e dirigidos por alguma forma de adoração, em meio ao próprio processo de santificação, ainda lutando contra o poder tentador e enganoso do pecado e que enfrentam os engodos diários de um mundo que simplesmente não está funcionando da maneira planejada por Deus.

Estamos selecionando pessoas que Deus irá chamar à tribulação para a redenção delas mesmas e para a Sua glória, pessoas que possuam, no dia-a-dia, relacionamentos íntimos com outros pecadores, pessoas capazes de se desviar, de se enganar e que são tentadas a ser auto-suficientes e hipócritas, que trazem suas lutas e entendimentos das experiências ministeriais para este novo lugar, que precisam tão desesperadamente do perdão, da transformação, do fortalecimento e da graça libertadora quanto quaisquer outras às quais venham algum dia pregar e que ainda estão aprendendo sobre a graça.

Então devemos conhecer – realmente conhecer – quem colocamos na posição de cuidado e liderança espiritual do povo de Deus.

Alguns Exemplos Bíblicos

Ao examinarmos as Escrituras, fica claro que a liderança frutífera ou fracassada raramente se deve somente ao conhecimento, estratégia, habilidade e experiência. Vejamos o que Romanos 4 afirma de Abraão. Ele foi escolhido por Deus para receber as promessas da Sua aliança. Recebeu a promessa de que sua descendência seria como a areia do mar. Todavia, sua esposa já era idosa, muito além da idade de dar a luz, e ele ainda não tinha o filho que daria continuidade a sua linhagem. Romanos 4 nos diz algo importante sobre o coração de Abraão. Quando você e eu somos chamados por Deus para esperar por um longo período, como foi o caso de Abraão, nossa história é, não raro, uma narrativa de fé constantemente enfraquecida. Quanto mais pensamos sobre o que esperamos, mais enxergamos nossa falta de habilidade para atingir nosso objetivo. Quanto mais nos permitimos refletir porque fomos escolhidos para esperar, mais nossa fé se enfraquece.

Não é o caso de Abraão. Esta passagem nos ensina que durante este tempo de espera prolongada, sua fé, na realidade, aumentou. Ao invés de meditar na impossibilidade de sua situação, Abraão meditou no poder e no caráter Daquele que fez a promessa. Quanto mais Abraão permitia que seu coração se deleitasse na glória de Deus, mais se convencia de estar em boas mãos. Ao invés de um ciclo de falta de coragem e esperança, a história de Abraão foi um de estímulo e incentivo.

O que dizer de José, instrumento escolhido por Deus para preservar os filhos de Israel da fome e consequente extinção? Quando seduzido pela esposa de Potifar, capitão da guarda de Faraó, não cedeu. Por quê? Não foi por medo das consequências, por sua experiência de vida ou por suas habilidades de negociar as relações complicadas do palácio. Gênesis 39 nos diz claramente o que motivou José a tomar esta decisão crucial em sua vida. Ele resistiu devido à profunda devoção do seu coração ao seu Senhor. Seu coração não era movido por prazeres horizontais, mas por adoração vertical. Não podia conceber a prática uma ação tão iníqua contra Deus. Uma glória maior do que as glórias temporárias do mundo criado o cativou, e então disse um “não” sincero, enfático e sem delongas.

Pronto para Ir

Ou pense sobre Moisés diante da sarça ardente. Deus o havia escolhido para ser Seu instrumento de redenção, para livrar Israel da escravidão e levá-los à terra prometida. Mas o profeta não estava nem disposto nem otimista. Êxodo 3 e 4 registra sua argumentação com Deus. Moisés acreditava que era totalmente incapaz, despreparado e inadequado para realizar o que o Criador havia preparado para ele. A resposta do Todo-Poderoso foi simples: "Eu irei com você." A declaração final de Moisés também foi simples : "Ah! Senhor! Envia aquele que hás de enviar, menos a mim." Deus demonstrou a Moisés, em primeira mão, o poder que estava a sua disposição como o instrumento escolhido por Ele - mesmo assim, Moisés implorou-Lhe que não o enviasse.

O que está acontecendo aqui? Moisés não estava protegido por toda sua educação egípcia, não estava motivado pela abundância do seu conhecimento sobre a cultura dos egípcios e nem estava motivado pelo seu entendimento da política do palácio. Nenhum destes fatores ajudou Moisés neste ponto, pois ele foi traído pelo medo do seu próprio coração. Só em face da ira de Deus ele finalmente partiu.

Ou imagine o exército de Israel no vale de Elá, armado para a batalha, porém muito assustado para lutar. Ali permaneceu de pé como o exército escolhido do Deus Todo-Poderoso, o Senhor dos Exércitos, com medo de enfrentar o campeão filisteu, acometido por um caso lastimável de amnésia dissociativa. Esqueceram-se de quem eram e das promessas que receberam. Então formularam uma equação espiritual incorreta na medida em que levaram em conta o momento. A batalha não era aqueles soldadinhos insignificantes contra o enorme gigante, mas o gigante insignificante contra o Deus onipotente. 1 Samuel 17 narra a chegada de Davi. Este pastor de ovelhas, que ali estava para entregar mantimentos aos seus irmãos, era um homem de fé e já havia experimentado o poder resgatador de Deus. Davi não conseguia entender porque o exército não queria lutar. Num ato de coragem só possível a alguém que se reconhece como filho de Deus, Davi avançou até o vale para enfrentar Golias com nada além de uma funda. Sabia que o Senhor iria entregar em suas mãos o campeão filisteu e seu exército. Entendeu que sua luta não era na sombra da glória de Golias, mas no esplendor da glória de Deus. A coragem que vem da fé o impeliu até aquele vale.

Ou lembre-se de Elias, que após uma grande vitória contra os profetas de Baal no monte Carmelo, se sentiu tão sozinho, sem coragem e sem esperança que quis morrer. 1 Reis 19 nos mostra este patético profeta que se desviou totalmente do seu objetivo. Não conseguia ver uma saída. Convencido de que era o único homem justo que restara, estava certo que o mal triumfaria. Somente Deus poderia trazê-lo de volta ao juízo. Elias não estava sozinho, a obra de Deus não estava pronta e o mal não venceria no final. Havia ainda 7.000 homens fiéis para levar adiante o trabalho.

Pense no que disse Paulo em face da oposição de Pedro, que estava para comprometer um princípio central do evangelho por medo do que um certo grupo de pessoas pensaria a seu respeito e de como reagiriam.

Ele estava a ponto de agir de maneira a contradizer a mensagem a qual foi chamado a pregar, não por falta de conhecimento, experiência ou habilidade, mas porque, no momento, seu coração estava sendo governado mais por medo horizontal do que por fé vertical

O Fator Determinante

Em cada exemplo, a condição do coração do líder fez a diferença. O coração é, inevitavelmente, o fator determinante no ministério. Coloque duas pessoas lado a lado com exatamente o mesmo treinamento, experiência e habilidade, e seria fácil concluir que reagiriam de maneiras similares às exigências do ministério da igreja local. Sim, seria fácil, mas perigoso. O potencial para uma diferenciação significativa no sentido de como estes homens atuam como pastores é tão vasto quanto a lista de fatores que podem governar o coração de uma pessoa no ministério.

É ingenuidade pensar que o ministério pastoral é sempre estimulado pelo amor por Cristo e por Seu Evangelho, simplista concluir que as pessoas no ministério possuem um amor natural e permanente por outras e que todos estão trabalhando para difundir o reino de Deus. É importante reconhecer que muitos na obra foram seduzidos pela glória pessoal e perderam de vista a glória de Deus. Nem todos trabalham como resultado da humilde percepção de sua própria necessidade.

Ministérios fracassam porque líderes começam a pensar que já chegaram lá e não se protegem da maneira como orientam todo o resto do rebanho. É ingenuidade pensar que pastores estão isentos de tentações sexuais, medo do homem, inveja, ganância, orgulho, incredulidade, amargura e idolatria. Cada um está sendo restaurado pela graça de Deus.

Então, é essencial compreender o coração do homem por detrás do conhecimento, habilidade, experiência e estratégia ministerial antes de convidá-lo a pastorear o rebanho de Deus. Pode estar certo de que como os líderes de Deus do Antigo Testamento, os atuais irão enfrentar momentos cruciais de escolha no ministério e na vida pessoal. Nestes momentos importantes, o coração consagrado vencerá e determinará as escolhas certas. Porque, como todas as pessoas, o que governa o seu coração direcionará sua vida e seu ministério. É imprescindível ir além, muito além do perfil que surge dos dados do seu curriculo. Aquele chamado para ensinar a Palavra de Deus deve ter um coração governado pela graça.

 

  • Por Paul Tripp

  • Tradução: Adriana Misiara Rodrigues
  • Fonte: Livros e Sermões Bíblicos