quarta-feira, 27 de julho de 2011

Irmãos, Vamos Interrogar o Texto


Se a Bíblia é coerente, então entender a Bíblia significa compreender a forma como as coisas se ajustam mutuamente. Tornar-se um teólogo da Bíblia significa ver cada vez mais peças se ajustarem mutuamente num glorioso mosaico da divina vontade. E praticar exegese significa interrogar o texto sobre a forma como suas muitas proposições são coerentes na mente do autor. Se nós vamos alimentar o nosso povo, devemos sempre avançar no nosso entendimento da verdade bíblica. E para avançarmos no nosso entendimento da verdade bíblica, devemos ficar preocupados pelas afirmações bíblicas.

Deve incomodar-nos que Tiago e Paulo não parecem escarnecer. Apenas quando estamos perturbados e incomodados é que pensamos com produndidade. E se nós não pensarmos com profundidade sobre a forma como as afirmações bíblicas se ajustam mutuamente, nunca iremos penetrar na sua raiz comum nem descobrir a beleza da verdade divina unificada. O resultado final é que a nossa leitura da Bíblia se tornará insípida, iremos aplicar-nos à “literatura secundária” fascinante, os nossos sermões serão o trabalho pobre de “vendedores de produtos usados” e as pessoas sentirão fome.

“Nós nunca pensamos antes de sermos confrontados com um problema”, afirmou John Dewey. Ele estava certo. E é por isso que nós nunca pensaremos com profunidade sobre a verdade bíblica antes de nos sentirmos perturbados pela sua complexidade.

Devemos formar o hábito de ficarmos sistematicamente perturbados por coisas que, à primeira vista, não fazem sentido. Ou, colocando de outra forma, devemos interrogar incansavelmente o texto. Uma das maiores honras que recebi enquanto ensinava em Bethel foi quando os assistentes de ensino no departamento bíblico me deram uma camiseta com as iniciais de Jonathan Edwards na frente e com as seguintes palavras nas costas: “Fazer perguntas é a chave para o entendimento.”

Mas existem algumas forças importantes que se opõem à nossa interrogação incansável e sistemática de textos bíblicos. Uma delas é que essa posição consome muito tempo e energia numa pequena porção das Escrituras. Fomos ensinados na escola (de forma muito errónea) que existe uma correlação directa entre ler muito e aquisição de conhecimento. Mas na verdade não existe nenhuma correlação positiva entre a quantidade de páginas lidas e a qualidade de conhecimento adquirido. Muito pelo contrário.

Exceto no que se refere a poucos génios, o conhecimento diminui à medida que tentamos ler cada vez mais. A compreensão ou entendimento é o produto de meditação intensiva, que produz dores de cabeça, sobre dois ou três versículos e sobre a forma como eles se ajustam mutuamente. Este tipo de reflexão e ruminação é provocado quando interrogamos o texto. E você não pode fazer isso à pressa. Portanto, devemos resistir à urgência enganosa de esculpir entalhes à nossa arma bibliográfica. Demore duas horas a fazer dez perguntas a Gálatas 2:20 e você vai ganhar cem vezes a compreensão que teria obtido depois de ler 30 páginas do Novo Testamento ou qualquer outro livro. Vá devagar. Interrogue. Pondere. Rumine.

Uma outra razão pela qual é difícil gastar horas a explorar as raízes da coerência consiste em que hoje é fundamentalmente impopular popular sistematizar e procurar a harmonia e unidade. Esta busca nobre entrou em tempos difíceis pelo facto de tanta harmonia artificial ter sido descoberta por defensores impacientes e nervosos da Bíblia.

Mas se a mente de Deus é verdadeiramente coerente e não confusa, então a exegese deve pretender ver a coerência da revelação bíblica e a unidade profunda da divina verdade. A menos que nos dediquemos para sempre ás superfície das coisas (satisfeitos por descobrirmos “tensões” e “dificuldades”) então devemos resistir a modas atomizadas (e basicamente anti-intelectuais) no estabelecimento teológico contemporâneo. Existe muito descrédito de erros passados e muito pouca construção em andamento.

Uma terceira força que se opõe ao esforço de interrogar a Bíblia é o seguinte: Fazer perguntas é o mesmo que colocar problemas e nós temos sido desencorajados, durante toda a vida, de encontrarmos problemas no Livro Sagrado de Deus.

É impossível respeitar excessivamente a Bíblia, mas é muito possível respeitá-la de forma errada. Se nós não perguntarmos seriamente como é que textos diferentes se ajustam mutuamente, então somos ou super-humanos (e percebemos toda a verdade num relance) ou indiferentes (e não nos incomodamos em conhecermos melhor a verdade). Mas eu não vejo como alguém que seja indiferente ou super-humano possa ter um respeito adequado pela Bíblia. Portanto, a reverência pela Palavra de Deus exige que nós façamos perguntas e coloquemos problemas e que acreditemos que existem respostas e soluções que irão recompensar o nosso trabalho com “tesouros novos e antigos” (Mat. 13:52).

Devemos ensinar o nosso povo que não é irreverente ver dificuldades no texto bíblico e pensar com profundidade sobre a forma como elas podem ser resolvidas.

Eu não acuso o meu filho de 6 anos, Benjamim, de irreverência quando ele não consegue perceber o sentido de um versículo da Bíblia e me faz perguntas sobre isso. Ele começou agora a aprender a ler. Mas será que as nossas capacidades de ler são perfeitas? Algum de nós pode, com uma leitura rápida, compreender a lógica de um parágrafo e ver a forma como cada parte se relaciona com todas as outras e a forma como todas se ajustam mutuamente para construir um ponto unificado? Muito menos o pensamento de uma epístola inteira, o Novo Testamento, a Bíblia! Se nós nos preocupamos com a verdade, devemos interrogar incansavelmente o texto e formar o hábito de nos incomodarmos com as coisas que lemos.

Isto é exatamente o contrário de irreverência. É aquilo que fazemos se desejamos intensamente a mente de Cristo. Nada nos leva mais profundamente aos conselhos de Deus do que vermos aparentes discrepâncias teológicas na Bíblia e ponderarmos sobre elas dia e noite até que se ajustem num sistema emergente de verdade unificada. Por exemplo, há um ano lutei durante dias sobre a forma como Paulo conseguiu afirmar por um lado, “Não estejais inquietos por coisa alguma” (Pp. 4:6) mas por outro lado dizer (com aparente impunidade) que a sua “ansiedade por todas as igrejas” era uma pressão diária sobre ele (2 Co. 11:28). Como conseguiu ele afirmar “Regozijai-vos sempre” (1 Ts.5:16), e “Chore com aqueles que choram” (Rm. 12:15)? Como conseguiu ele dizer para agradecermos “sempre e por tudo” (Ef 5:20) e depois admitir “Tenho uma grande tristeza e uma angústia incessante no meu coração” (Rm. 9:2)?

Mais recentemente perguntei, O que significa aquilo que Jesus disse em Mateus 5:39 para dar a outra face quando lhe batessem, mas disse em Mateus 10:23, “Quando eles te perseguirem numa cidade, foge ...”? Quando você foge e quando suporta as dificuldades e oferece a outra face? Também tenho ponderado em que sentido é verdade que Deus é “lento em zangar-se” (Ex. 34:6) e em que sentido “A Sua ira é rapidamente acesa” (Sl. 2:12).

Existem centenas e centenas de aparentes discrepâncias deste tipo nas Sagradas Escrituras e nós desonramos o texto quando não as vemos e quando não as analisamos. Deus não é um Deus de confusão. A sua língua não é bifurcada. Existem resoluções profundas e maravilhosas para todos os problemas. Ele tem-nos chamado para uma infinidade de descobertas de modo que todas as manhãs durante as eras vindouras nós devemos irromper em novas canções de louvor.

Em 2 Timóteo 2:7 Paulo dá-nos uma ordem e uma promessa. Ele ordenou, “Pense no que eu digo.” E ele prometeu, “Deus te dará compreensão de tudo”.

Como é que se ajustam mutuamente a ordem e a promessa? O pequeno “para” dá a resposta. “Pense .... porque Deus irá recompensá-lo com o entendimento.”

A promessa não é feita a todos. É feita para aqueles que pensam. E nós não pensamos até sermos confrontados com um problema. Por isso, irmãos, vamos interrogar o texto.

Por: John Piper

Fonte: http://www.desiringgod.org/