sábado, 21 de janeiro de 2012

Não é que evangélicos se salvam! | Luiz Sayão

As últimas eleições brasileiras chamaram a atenção. Foram surpreendentes! Alguns a consideraram estarrecedoras. Uma grande quantidade de candidatos comprovadamente corruptos e denunciados pela imprensa foram escolhidos pelo povo para serem seus representantes. Até que faz sentido! O resultado das urnas, por exemplo, não refletiu a indignação de muitos com o escândalo do mensalão. Oito acusados de envolvimento com o provável esquema de compra de votos na Câmara Federal foram eleitos: José Genoíno (PT), João Paulo Cunha (PT), José Mentor (PT), Paulo Rocha (PT), Vadão Gomes (PP), Pedro Henry (PP), Sandro Mabel (PL) e Valdemar da Costa Neto (PL).

Se isso fosse pouco, temos de volta a figura de Paulo Maluf como o deputado federal mais votado por São Paulo, de Fernando Collor de Melo, senador eleito por Alagoas, e do próprio presidente Lula, apesar dos escândalos de seu partido! Lula foi escolhido pela população com ampla vantagem de votos. Lula, Maluf e Collor. É brincadeira?!

O objetivo deste artigo não é defender nenhuma posição política. Não acredito nem na esquerda nem na direita. Não desejo transparecer simpatia em favor de qualquer candidato ou partido. O tema de nossa reflexão é, na verdade, a ética. O que nos apavora e nos deixa assustados é que o fator “corrupção” tornou-se irrelevante, mera banalidade para o nosso povo. Há uma idéia amplamente difundida de que todos os políticos são corruptos, e não há solução. É lamentável! Está na hora de voltar nossa atenção aos profetas de Israel. Eles, sim, não eram complacentes com a decadência moral e espiritual de seu tempo. Que eles nos sirvam de diretriz nesse momento confuso e triste de nossa história.

Isaías, por exemplo, enfrentou dias difíceis na época de Acaz (735-715 a.C.) e de Manassés (696-642 a.C.). A tradição judaica conta-nos que ele teria sido serrado ao meio pelo perverso rei de Judá. Veja o comentário de Isaías sobre a liderança corrupta de sua época
(Is 1.23): “Seus líderes são rebeldes, amigos de ladrões; todos eles amam o suborno e andam atrás de presentes. Eles não defendem os direitos do órfão, e não tomam conhecimento da causa da viúva.”
Mas isso ainda não é tudo. Isaías, um pouco adiante (Is 3.14,15), prossegue:
“O Senhor entra em juízo contra as autoridades e contra os líderes do seu povo. Vocês arruinaram a vinha, e o que foi roubado dos necessitados está nas suas casas. Que pretendem vocês ao esmagarem o meu povo, e ao moerem o rosto dos necessitados? Quem pergunta é o Senhor, o Senhor dos Exércitos.”

Mais ou menos na mesma época, ecoam as palavras de Miquéias, ainda mais contundentes (Mq 3.9-11):
“Ouçam isto, vocês que são chefes da descendência de Jacó, governantes da nação de Israel, que detestam a justiça e pervertem tudo o que é justo; que constroem Sião com derramamento de sangue, e Jerusalém com impiedade. Seus líderes julgam sob suborno, seus sacerdotes ensinam visando lucro, e seus profetas adivinham em troca de prata…”

A decadência espiritual e moral do século VIII a.C. trouxe o juízo sobre o reino do Norte (Israel), que sucumbiu sob o poder assírio. Dois séculos depois, o mesmo aconteceu com Judá, sob a espada dos babilônios.

Ezequiel descreve a grosseira decadência dos líderes de sua época, no tempo do ocaso do reino do Sul (Ez 22.26-29):
“Seus sacerdotes cometem violência contra a minha lei e profanam minhas ofertas sagradas... Seus oficiais são como lobos que despedaçam suas presas; derramam sangue e matam gente para obter ganhos injustos. Seus profetas disfarçam esses feitos, enganando o povo com visões falsas e adivinhações mentirosas… O povo da terra pratica extorsão e comete roubos; oprime os pobres e os necessitados e maltrata os estrangeiros, negando-lhes justiça.”

Sofonias, que viu o início da decadência de Judá, também traz palavras pesadas:
“Ai da cidade rebelde, impura e opressora!… No meio dela os seus líderes são leões que rugem. Seus juízes são lobos vespertinos que nada deixam para a manhã seguinte. Seus profetas são irresponsáveis, são homens traiçoeiros. Seus sacerdotes profanam o santuário e fazem violência à lei” (Sf 3.1,3-4).

Como podemos verificar, os profetas de Israel e de Judá não eram complacentes com o mal. Eles não se corromperam apesar da corrupção da classe sacerdotal e dos próprios monarcas de Judá. A ética procedente do Deus Santo de Israel não permitia que abrissem mão da justiça e da retidão. Essa proposta precisa ser retomada. Precisamos de profetas, e não de líderes religiosos políticos. Precisamos de gente comprometida com a verdade. Não se pode aceitar a liderança espiritual de quem se vende para um grupo político. Isso é inaceitável. Precisamos de gente que mantém a voz profética contra quem pratica o mal. Não importa se o mal vem desse ou daquele partido. Não importa se o mal é praticado por George Bush, por Fidel Castro, por Saddam Hussein, por Adolf Hitler, por Ariel Sharon. Não importa. Mal é mal! Pecado é pecado!

No meio dessa confusão e equívoco, apesar das críticas que sofrem da imprensa em geral e de muitos líderes religiosos, os evangélicos deram um excelente exemplo do que é compromisso com ética. Uma vez conhecidas as denúncias de corrupção entre os parlamentares evangélicos, a punição veio nas urnas. A bancada evangélica no Congresso sofreu o pior revés desde a década de 80. De acordo com o levantamento parcial realizado pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), a bancada de deputados federais identificados com as igrejas evangélicas encolheu de 61 para 30 na próxima legislatura.

Segundo analistas, o repúdio dos eleitores está ligado sobretudo ao envolvimento dos parlamentares evangélicos em escândalos recentes, como o do mensalão e o dos sanguessugas. Isso é animador! Não é que os evangélicos se salvam?! Ao contrário dos eleitores de Maluf, de Lula e de Collor, os evangélicos consideram o fator ético suficiente para rejeitar um candidato. Que maravilha! Ainda há esperança!

Infelizmente, os perversos e corruptos sempre terão apoio, conforme nos revela o Salmo 73.7-10:
“Do seu íntimo brota a maldade; da sua mente transbordam maquinações. Eles zombam e falam com más intenções; em sua arrogância ameaçam com opressão. Com a boca arrogam a si os céus, e com a língua se apossam da terra. Por isso, o seu povo se volta para eles e bebe suas palavras até saciar-se.”

Concluindo, desejo enfatizar a grande verdade expressa na palavra de Isaías que permanece como tremenda advertência para aqueles que abrem mão da ética para, de alguma forma, terem vantagem com isso (Is 5.20):
“Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem, mal, que fazem das trevas luz e da luz, trevas, do amargo, doce e do doce, amargo!”

Por Luiz Sayão
Fonte: Revista Enfoque