quarta-feira, 2 de julho de 2014

Justificação pela Fé Somente | RC Sproul; John Marcarthur, Joel Beeke; John Gerstner; John Armstrong

fideA nossa vitalidade espiritual é medida pelo quanto conhecemos sobre a doutrina da justificação pela fé somente. Conhecer a profundidade dessa doutrina é descobrir o quão profundo podemos descobrir a respeito da nossa miséria como pecadores e passar por uma transformação vital.

Descobrir pessoalmente essa doutrina é passar por uma transformação existencial.

1. Deve ser perfeito para ser aceito por um Deus perfeito

Vamos andar por um caminho de redescobertas. Duas narrativas bíblicas nos servirão de marco inicial em nossa caminhada: Lucas 18.9-14 e Mateus 5.20-48.

“Propôs também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo para orar; um fariseu, e o outro publicano. O fariseu, de pé, assim orava consigo mesmo: ó Deus, graças te dou que não sou como os demais homens, roubadores, injustos, adúlteros, nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou o dízimo de tudo quanto ganho. Mas o publicano, estando em pé de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: ó Deus, sê propício a mim, o pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que a si mesmo se exaltar será humilhado; mas o que a si mesmo se humilhar será exaltado.” [Lucas 18.9-14, ênfase nossa]

Para entendermos bem essas narrativas, primeiro devemos derrubar uma imagem pré-concebida comum dos fariseus: hipócritas, num sentido de não serem sinceros no que dizem fazer. E os fariseus e escribas não eram os hipócritas judeus? Eram, mas não nesse sentido popular. Aliás, é o mesmo erro que cometemos quanto ao sentido da palavra maquiavélico: um ato maléfico em benefício particular de um indivíduo. Porém este é o sentido popular. O sentido real e original (político) era um ato – considerado maléfico segundo a moral vigente da época (moral católica medieval) – praticado por um governante ou príncipe em benefício da comunidade de seu Estado.

Mas a primeira narrativa não está mostrando que o fariseu estava exagerando ou contando uma mentira. Aliás, a denúncia de Jesus quanto à hipocrisia dos fariseus (em outras passagens) era num sentido de cometerem um engano quanto à maneira (que achavam) de se tornarem justos. Ora, a narrativa apenas mostra o esforço que o fariseu teve em alcançar ou conquistar o favor de Deus em sua justificação, para isso luta em viver um padrão moral acima dos outros homens, procurando não errar em nada.

Nos dias atuais a primeira narrativa poderia substituir o fariseu pelo “santo” católico Francisco de Assis ou pela madre Teresa de Calcutá – e não estamos aqui colocando em questão a veracidade da fé de ambos, pois o julgamento não nos pertence. Dois exemplos de pessoas que buscavam viver um padrão acima dos outros, sacrificando a própria vida em favor dos outros, buscando o bem em seu maior extremo. Nossa prática moral não chega nem perto da deles. Aliás, Agostinho dizia que melhores que ele foram para o Inferno! Essa comparação é apenas para dar uma idéia do que a primeira narrativa quer dizer: não adianta confiar nossa justificação (sermos considerados justos, limpos, inocentes perante uma lei) em nossa prática moral, por mais alta que possamos chegar. Então devo praticar imoralidade porque não adianta de nada ter alguma moral? De forma nenhuma, como veremos em nossa caminhada.

A primeira narrativa apenas quer mostrar um pensamento que era comum entre os fariseus e que muito persiste nos dias atuais: nivelar o padrão moral de Deus pelo padrão mais alto conhecido entre os homens (nossos conhecidos), isto é, como praticamos o padrão mais alto, então é o padrão aceito por Deus. A idéia errônea principal, portanto, é que por sermos os maiores praticantes da lei (de Deus) devemos acreditar ser tal prática suficiente (aceitável) como o padrão que Deus requer. Na pratica, hoje, isto acontece de uma forma variante: existem vários padrões “mais altos” – “mais altos” porque é relativo a “altura” de um padrão para outro –, cada um acha que o seu padrão é o suficiente para Deus aceitar, normalmente por causa da existência de padrões piores. Geralmente tais padrões são conhecidos pelos seguintes mandamentos: “pratique o bem”, “ame ao próximo”, “não mate”, “não faça mal aos outros”, “faça caridades”, “ame sua família” entre outros. E não estamos aqui discutindo a relatividade da moral. Aliás, vamos considerar que ela exista e seja verdadeira. Ainda assim não resolve o problema que Jesus procura mostrar na primeira narrativa! Por exemplo, você acha que fazer caridade todos os dias é o padrão aceito por Deus para se tornar justo. Certo. Então este será o padrão mais alto entre os homens. Só que isso não resolve o problema. Então o que resolve finalmente? A resposta se encontra na próxima narrativa.

“Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus. Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e, Quem matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão, será réu de juízo; e quem disser um insulto a seu irmão será réu diante do sinédrio; e quem lhe disser: Tolo, será réu do fogo do inferno. (...) Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela. (...) Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil. Dá a quem te pedir, e não voltes as costas ao que quiser que lhe emprestes. Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos. Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis demais? não fazem os gentios também o mesmo? Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial.” [Mateus 5.20-48, ênfase nossa]

Essa segunda narrativa completa o mistério da primeira narrativa. Veja que ela já começa dizendo que se não ultrapassarmos em muito o padrão mais alto conhecido entre os homens (a dos fariseus e dos escribas) não seremos considerados justos. Na verdade Jesus colocou os seus ouvintes num beco sem saída. Já era difícil viver um padrão como a daqueles judeus, pior seria ultrapassar em muito tal padrão. Humanamente impossível! Então Jesus começa a exemplificar o que é ultrapassar em muito tal padrão – talvez não consigamos nem chegar perto de um desses exemplos – até por fim mostrar a causa disso tudo: “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial”. Este é o ponto crucial para Cristo e fatal para nós: a perfeição.

Qualquer padrão moral que passarmos a viver (e mesmo considerar como o mais alto) deve ser perfeito para ser aceito por um Deus perfeito. Se nos achamos bons, caridosos, amáveis, amigo, fiel, íntegro, trabalhador, devemos sê-lo sempre a todo instante, a toda circunstância, em todos os dias, meses e anos e para com todos. Não importa se você relativa a sua moral, se há alguma, então você deve ser perfeita nela para ser considerado justo.

Ora, racionalmente ser bom não é está bom, porque para ser bom é necessário está perfeitamente bom. Ser algo é está perfeitamente esse algo. Logo ser (considerado) justo é está perfeitamente justo, seja nessa vida inteira ou em próximas – mesmo existindo reencarnações ou purgatórios. Quando se é perfeito não existe padrão mais alto ou mais baixo, logo se reencarnações ou purgatórios objetivam nos tornarem perfeitos é porque este “perfeito” é apenas um padrão mais alto. Não deixou de ser imperfeito, apesar de aparentar para nós perfeição. Ser perfeito é ser incapaz de ser imperfeito, com uma mesma natureza.

E agora? Como podemos sair dessa situação? Como podemos pagar tal dívida humanamente impossível de ser quitada? Prossigamos em nossa caminhada.

2. O caminho controverso da fé

O que deixamos claro anteriormente era: temos uma dívida impagável para com Deus por causa de nossa imperfeição. Não temos “dinheiro” suficiente para pagar a dívida e mesmo com todos os nossos próprios esforços nunca conseguiríamos tal “dinheiro”. Talvez “roubando”, mas ai a dívida aumenta e entramos num círculo vicioso. A única solução é alguém pagar a nossa dívida de forma perfeita. Não apenas isto! Mas também não voltarmos a cometer mais qualquer erro. Ora, sabemos que a dívida é conseqüência e não causa do problema. Por isso, além de pagarmos a dívida devemos ter a certeza de que não a teremos novamente, pois caso contrário, de nada adiantará pagar uma dívida com a possibilidade de que a venhamos a tê-la novamente – e no nosso caso é certo que a teremos de novo porque ainda continuamos sendo imperfeitos mesmo com a dívida paga e, portanto não vai demorar muito para pecarmos. Logo temos dois aspectos que precisamos resolver: o positivo (pagar a dívida) e o negativo (não contrair mais dívida). Será que há alguém que possa ter a iniciativa que não merecemos (graça) de nos dar esta graça?

Por meio da imputação – recurso forense, legal – poderíamos resolver este dilema. Isto é, alguém poderia pagar não só a nossa dívida, mas cumprir para nós a lei perfeitamente. Mas nem todos entendem dessa forma – a forma protestante. E, portanto falaremos das concepções católico-romana e protestante a respeito da justificação pela fé. E iremos descobrir que existe muito católico que mal compreende a doutrina protestante e vice-versa.

Dizer que Roma ensina a justificação pelas obras é uma mentira ou pura ignorância de quem a acusa. Em seu Concílio de Trento afirma que a fé é começo, o alicerce e a raiz da justificação: “a fé é o começo da salvação, o fundamento e raiz de toda justificação, sem a qual é impossível agradar a Deus”. Mas não é só isso. Roma também ensina que a graça é infundida no coração do pecador para que este manifeste essa fé, que há pouco falamos, junto com a santificação e com as boas obras de modo a conseguir nesta vida ou no purgatório a aceitação de Deus ou a justificação, logo com merecimento. Em outras palavras, as virtudes de Cristo infundidos no coração do pecador o permitem inerentemente se tornar um justo diante de Deus: “graça e caridade que é derramada em seus corações pelo Espírito Santo”. Em resumo, temos os seguintes conceitos utilizados por Roma na doutrina da justificação pela fé:

1. A justiça que nos justifica é a que vem de dentro de nós: justiça inerente.
2. Essa justiça é desenvolvida por nós (pelo menos durante a vida): justificação por processo.
3. Essa justiça que desenvolvemos dentro de nós recebe a ajuda da graça: pecador tornado justo.
4. Um pecador não pode ser justificado, deve ser antes justo para ser justificado: declaração analítica.
5. A fé para justificar deve conter qualidades, principalmente o amor, infundidas pelo Espírito Santo: fé como obra.
6. A fé participa do início da justificação, e depois as boas obras vindas da graça junto com os sacramentos garantem o processo de justificação.
7. Santificação participa do processo de justificação. O status do pecador só muda se mudar a natureza desse pecador – se tornando justo com a santificação. Logo, justificação não é apenas uma questão forense.

Quem ensina a justificação pelas obras é o pelagianismo puro. O que na verdade mais se aproxima dessa concepção católica é a corrente protestante conhecida como arminianismo (para alguns um tipo de semi-pelagianismo), principalmente com relação aos pontos 2, 3 e 5, que são semelhantes. Não é de surpreender, portanto, que muitos protestantes e evangélicos a cada dia concordam com o documento Colson-Neuhaus, elaborado por um grupo de católicos e protestantes: “Afirmamos juntos que somos justificados pela graça por meio da fé por causa de Cristo... Todos os que aceitam Cristo como Senhor e Salvador são irmãos e irmãs em Cristo. Os evangélicos e católicos são irmãos e irmãs em Cristo”. [Evangélicos e Católicos Juntos: A Missão Cristã no Terceiro Milênio. 1994]

Certa vez ouvi a seguinte frase de um pastor em João Pessoa que muito resume a concepção católico-romana: “Com a fé se conquista a salvação e com a santificação se garante a salvação”. Ora, para Roma Deus apenas nos dar graciosamente as ferramentas para merecermos, conseguirmos, alcançarmos, conquistarmos a justificação e, por conseguinte, nos ajuda graciosamente a sustentarmos, garantirmos a salvação. O mesmo diz o arminianismo. E não vamos aqui entrar na questão calvinismo X arminianismo. Cada um procure conhecer bem suas convicções. Aqui nos deteremos somente à doutrina da justificação pela fé X doutrina da justificação pela fé somente. Lembrando que a falta de conhecimento leva a prática religiosa ao fanatismo (inconsciente) como o apóstolo Paulo adverte em Romanos 10.2-3: “Porque lhes dou testemunho de que eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento. Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus”.

Assim como há enganos quanto ao conhecimento da doutrina católica, da mesma forma ocorre com o protestantismo. Por isso faremos um resumo dos conceitos envolvidos na concepção protestante:

1. A justiça que nos justifica é a de outro: justiça imputada.
2. Essa justiça foi desenvolvida por Jesus Cristo: justificação por ato.
3. Essa justiça de Cristo é imputada por causa da graça: pecador declarado justo.
4. Por causa da imputação o pecador pode ser declarado justo: declaração sintética. Ao mesmo tempo pecador e justo.
5. A fé não deve ter qualquer qualidade: fé como ato.
6. O início e fim da justificação são mediante a fé somente. Mas a própria fé é justificada pelas obras, isto é, após a justificação as boas obras devem existir apenas para confirmar a fé como verdadeira. Assim o pecador é justificado pela fé somente e a fé é justificada pelas obras.
7. Santificação não participa do ato de justificação, mas ocorre depois. O status do pecador muda apenas com a justificação e a sua natureza apenas muda a partir da regeneração e se aperfeiçoa com a santificação. Logo, justificação é estritamente uma questão forense, mas num sentido amplo é sempre acompanhada da regeneração, isto é, o pecador justo não é (vive) mais o mesmo pecador de antes, pois sua natureza é transformada de forma a querer viver para Deus.

Em Romanos 4.4-5 – “Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça” – e Filipensses 3.8,9 – “não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” – encontramos embasamento para o primeiro ponto. A justificação por meio da imputação da justiça inerente de Cristo contém dois aspectos: negativo e positivo. O aspecto negativo é que Cristo precisou morrer no lugar do pecador para pagar por seus pecados. O aspecto positivo é que Cristo precisou viver perfeitamente a lei no lugar do pecador para que este tivesse uma justiça perfeita diante de Deus. Portanto o pecador, por imputação, teve sua dívida paga e cumpriu perfeitamente a lei. A justiça infundida encontra um problema em relação ao sacrifício de Jesus. Isto porque se os pecados fossem infundidos em Cristo, este se tornaria inerentemente mal e não poderia pagar nem pelos os próprios pecados. Assim foram imputados a Cristo os resultados dos pecados (a dívida e a impossibilidade de cumprir perfeitamente a lei) daqueles que foram justificados pela fé.

A justificação não pode ser um processo porque a justiça do pecador, por imputação (um ato), é a justiça perfeita de Cristo. Por isso encontramos nas Escrituras que ao ser justificado o pecador já não entra mais condenação – “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8.1,2) – ou juízo – “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (João 5.24).

O terceiro e quarto ponto pode ser resumido pela expressão “Justo e Justificador” em Romanos 3.26: “para Ele mesmo ser Justo e o Justificador daquele que tem fé em Jesus”. Num mesmo ato Deus agiu com misericórdia e justiça.

O quinto ponto baseado em Romanos 5.1,2 – “Justificados, pois mediante a fé, temos paz com Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes” – e em Efésios 2.8 – “Porque pela graça sois salvos,mediante a fé, e isto não vem de vós; é dom de Deus” – diz que não é por causa da força, pureza, sinceridade ou qualquer qualidade na fé que o pecador é justificado, pois é a justiça de Cristo por causa da graça que nos justifica. A fé é meramente um instrumento e não tem valor em si, um vaso vazio e de barro, respectivamente, como bem expresso em 2 Coríntios 4.7: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós”. É por causa da graça (favor imerecido) que a justiça de Cristo nos é imputada mediante a fé. A fé, portanto, não tem nenhuma condição meritória, mas uma condição instrumental ou lógica. A fé em si é vazia para a justificação, pois ela apenas recebe o que realmente tem valor: a justiça de Cristo. Por isso Deus não pode responder a nossa fé, e sim usar a nossa fé como vaso para derramar a justiça de Cristo, pois a causa da justificação não é a fé do homem, mas a graça de Deus. A justificação é pela graça somente porque a fé é um instrumento e não mais uma obra: “E, se é pela graça, já não pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Romanos 11.6). Aliás, se a fé em si salvasse (ajudasse a salvar) então ela teria que ser perfeita para gerar uma salvação perfeita. Muitos justificam que Salmos 51.17 dar a entender que Deus não despreza a justificação do pecador quando a sua fé é acompanhada de um coração quebrantado, mas lendo o versículo anterior descobrimos que o texto faz um contraste entre oferecer um sacrifício que Deus prefere e oferecer um sacrifício que Deus não se agrada, que pode ocorrer na santificação e não para a justificação: “pois não te comprazes em sacrifícios; do contrário, eu tos daria; e não de agradas de holocaustos. Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantando; coração compungido e contrito não o desprezarás, ó Deus”. (Salmos 51.16,17)

O início e fim da justificação são mediante a fé somente exatamente porque Cristo é o “Autor e Consumador” dessa fé: “olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus” (Hebreus 12.2). Novamente repetimos que o importante é o conteúdo do vaso e não o vaso. Por isso que Deus se agrada da fé do pecador como dito em Hebreus 11.6. Porque é a justiça de Cristo que Deus “vê” em nossa fé em vez da nossa justiça própria.

E como é viver sendo um pecador justificado? Quer dizer que não importa se faço boas obras de agora em diante?

3. Obedecendo pela fé

Estamos chegando na última etapa de nossa caminhada, onde aprenderemos como obedecer pela fé, sendo um pecador e justificado ao mesmo tempo. O ponto mais importante aqui é compreender o lugar das boas obras na vida de um pecador já justificado, pois alguns podem questionar: “De que adianta boas obras se já estamos justificados?”. Ou mais corrente no meio evangélico onde as boas obras se tornam em santidade: “De que adianta santidade se estou justificado de todo jeito?”; “De que adianta vigilância se não perderei a salvação?”.

As perguntas anteriores são típicas de pessoas que não entenderam a obediência pela fé ou não receberam uma nova natureza para obedecer pela fé. E não tocamos num ponto que foge ao escopo do estudo: regeneração. Quando ocorre a justificação o pecador é também regenerado em sua natureza de forma a não ser o mesmo pecador de antes. Ele agora busca ser justos diante dos homens – sabendo que diante de Deus só será justo pela fé – e santo diante de Deus. Ora, “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” [I Co 1.30]. Jesus já cumpriu tudo aquilo que Deus requer de nós em sua lei de forma perfeita: santidade, sabedoria e justiça. Nada que façamos irá aumentar (diminuir) alguma coisa em nossa justificação.

Estamos justificados pela fé diante de Deus, mas pela fé não estamos “justificados” diante dos homens. Precisamos demonstrar aos homens que somos justificados, para isso nossa fé precisa ser validada (justificada) com as boas obras. E é exatamente isso que Tiago diz em sua carta. O erro de Roma aqui está em entender Tiago 2.14-26 como justificação pela fé e pelas obras, e na verdade está se falando de justificação da fé e não do pecador, pois em Gênesis 15, Abraão é justificado por sua fé – texto usado por Paulo – e em Gênesis 22.9-18, a fé de Abraão é justificada por sua obediência. Mas esse entendimento é claro só é possível se usar uma regra básica de hermenêutica: contexto.

Essa questão de justificação diante dos homens é uma coisa séria. Como pode um justificado não se comportar como um? Ora, para algo ser (justificado como) sabedoria deve ter frutos de sabedoria (Mateus 11.19). Portanto a palavra justificado usado por Tiago tem um sentido de validado.

Além de não demonstrar hipocrisia aos homens o justificado deve ser santo diante de Deus, não para alcançar ou melhorar sua justificação (salvação), pois não pode, porém para não atrapalhar a sua vida espiritual e sua intimidade com Deus (Salmos 32; 51). O sentido de boas obras não é apenas caridade. Santidade também é uma boa obra, porque se feita de forma perfeita pelo homem então este recebe merecidamente aceitação de Deus. Ora, não foi pela santificação e justiça perfeita de Cristo que fomos justificados?

Um grande problema que pode ocorrer na vida de um pecador justificado é exatamente achar que não é mais pecador e pensar ter alcançado a perfeição. Isto porque ele não compreende muitas vezes que apesar de não podermos mais sofrer a condenação de algum pecado (Romanos 8.1,2), pensa que não pecou, que não é culpado por algum pecado cometido. Isto fica mais claro no meio pentecostal, pois alguns quando cometem determinados pecados culpam os demônios. Só que quem comete o pecado é o culpado e não quem monta uma circunstância que nos propicia a pecar. Isso eles vão fazer sempre. É tolice se preocupar se um demônio está irado ou não com nossa situação. Ele sempre está! Portanto a justificação pela fé tira a condenação do pecado, mas não a culpabilidade do pecado. Por isso, devemos confessá-los para reconhecer que somos os autores desse pecados e assim progredirmos na santificação e não esquecer que para isso temos um Advogado junto ao Pai (1 João 2.1). A justificação nos tira de uma prisão onde fomos sentenciados à morte (perdoado) e a santificação nos tira de uma doença mortal (curado).

Quem obedece com boas obras e/ou santificação para garantir a salvação ou alcançá-la não obedece pela fé e, portanto, não demonstra ser justificado pela fé, pois está tentando acrescentar algo a justiça perfeita de Cristo.

Livro base

Nome: A Marca da Vitalidade Espiritual da Igreja: Justificação Pela Fé Somente.

Autores: RC Sproul; John Marcarthur, Jr; Joel Beeke; John Gerstner; John Armstrong.

Editora: Cultura Cristã.

Fonte: Cidade Viva