quinta-feira, 1 de março de 2012

Pau que nasce torto morre torto? | Luiz sayão

“Sei que sou pecador desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha mãe” (Salmos 51:5).

Nas últimas décadas tem havido um grande debate nos meios acadêmicos sobre o fator determinante dos atributos humanos. Antes da modernidade, acreditava-se que grande parte dos problemas do homem tinha origem no mundo espiritual. Os doentes mentais, por exemplo, eram sempre vistos como possuídos por um espírito mau. Com o florescimento do método científico e com a multiplicidade metodológica das diversas ciências, a realidade humana passou a ser interpretada mormente a partir de dois enfoques: ambiental e genético. Isso quer dizer que a origem de nosso comportamento, ou procede da influência do ambiente onde vivemos, ou está determinada geneticamente.

    Desde os anos 1950, houve uma tendência de valorizar o ambiente como principal fator determinador do comportamento humano. Talvez isso possa ser entendido como uma reação ao pesadelo nazista e às teorias racistas e supremacistas presentes principalmente no mundo germânico e anglo-saxão. Assim, muitos antropólogos, psicólogos e sociólogos enfatizaram muito que o contexto à nossa volta molda o nosso jeito de ser. Aparentemente, o enfoque tem sido mudado nos últimos 20 anos. A sofisticação tecnológica, os estudos sobre o DNA humano e as demais pesquisas genéticas mais recentes têm valorizado a base genética do comportamento humano. A partir daí, muitos têm enfatizado que “engordar muito” pode ser mais genético do que por falta de bons hábitos. As doenças graves têm hora marcada para aparecer, já definidas no próprio DNA humano. Para surpreender a muitos, têm surgido sugestões de que “trair o cônjuge”, “ser estuprador”, “ser assassino”, “possuir tendência heterossexual, homossexual, bissexual ou pansexual” é fator determinado pelo código genético humano. Parece que o enfoque genético deve receber muita atenção nos próximos anos. Até no campo da lingüística, a teoria da linguagem inata de Chomsky, com a sugestão de que todas as línguas humanas possuem uma “sintaxe básica geral” determinada biologicamente, tem recebido crédito maior.

     Enquanto isso, os religiosos, dentre eles, muitos evangélicos, ficam assustados diante da possibilidade de que muitos dos comportamentos rejeitados pelo cristianismo histórico venham a ser “finalmente explicados e justificados pela ciência”. A verdade é que muitos estão realmente confusos.
    
Voltando nossa atenção para o texto sagrado, certamente encontramos muita luz sobre o assunto (para variar!). Quando lemos o salmo 51, notamos que a poesia davídica é uma confissão de pecado. O salmista confessa duplamente sua situação de pecado perante Deus. No versículo 4, ele afirma que pecou contra Deus, isto é, cometeu um ato que fere o padrão moral divino. Por isso, ele lamenta e confessa que Deus tem todo o direito de julgá-lo. Quando lemos o versículo 5, o texto diz literalmente no hebraico: “Eis que fui formado em iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe.” O significado do texto não é difícil de ser captado. A idéia não é que ele nasceu de um ato pecaminoso em si (ato sexual). Isso não faz sentido no contexto. A NVI corretamente traz o sentido do texto: “Sei que sou pecador desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha mãe.” O salmista simplesmente descobre que o seu problema não foi apenas determinado pelo ambiente. Considerando que o salmo descreve o arrependimento de Davi pelo pecado de adultério com Bate-Seba, o texto mostra que, além dos fatores que possibilitaram a prática do mal, o problema mais sério é que “nascemos” pecadores. Em linguagem bem simples, temos “defeito de fábrica”. Historicamente, a teologia tem chamado isso de “pecado original” ou “natureza pecaminosa”. O problema é que depois de anos de doutrinação humanista, a maioria de nós acredita que nascemos “neutros” ou até mesmo “bons”. Somente depois, por causa de fatores externos, é que nosso comportamento pode ser prejudicado.

     O pensamento bíblico não precisa temer nenhuma ciência. De fato, o nosso comportamento tem origem espiritual, ambiental e genética. Os três fatores interagem de modo complexo na experiência humana. Um não exclui o outro. Por isso, ainda que se possa comprovar (e provavelmente o farão) que muitos comportamentos perversos do ser humano possam estar relacionados diretamente a um fator genético, isso jamais exclui o “erro objetivo”, jamais “exclui a culpa” e nunca “pode ser justificado”.

     Será que a presença de muita testosterona em um indivíduo deveria “justificar” um estupro? Talvez ajude a explicar em parte o ocorrido. Hormônios que favoreçam nossa agressividade poderiam “justificar” um homicídio? Podemos afirmar que uma tendência humana perversa ou a prática de um comportamento humano nocivo deve ser “redimido” por ser considerado “natural” ou “biologicamente” explicável? É claro que não! Assim adultério, práticas homossexuais, dependência de drogas, alcoolismo, etc., permanecem como práticas indesejáveis!

     É por essa razão que a única esperança está em Cristo. Seu Evangelho nos dá a grande liberdade de transcendermos nossas terríveis limitações tão bem expostas pelos filósofos existencialistas e pelos pesquisadores da genética. Ainda que tenhamos feito o mal e nossas tendências pecaminosas existam desde o nascimento, podemos orar como Davi e crer que seremos perdoados e ganharemos forças para lidar com nossa fragilidade. Isso é extraordinário, pois, finalmente, podemos contar com a realidade de que, apesar do que somos, da criação que recebemos, das limitações culturais e de toda a carga genética letal que tenhamos herdado, por causa de Cristo e de Seu Evangelho, “pau que nasce torto não precisa morrer torto”.


Luiz Sayão é lingüista, editor acadêmico de Edições Vida Nova e ganhou o prêmio Abec de Personalidade Literária
Fonte: Revista Enfoque