sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Chamado para sofrer e alegrar-se: pela santidade e esperança | John Piper

Romanos 5:1–8

Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem obtivemos também nosso acesso pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e gloriemo-nos na esperança da glória de Deus. E não somente isso, mas também gloriemo-nos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a perseverança, e a perseverança a experiência, e a experiência a esperança; e a esperança não desaponta, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Pois, quando ainda éramos fracos, Cristo morreu a seu tempo pelos ímpios. Porque dificilmente haverá quem morra por um justo; pois poderá ser que pelo homem bondoso alguém ouse morrer. Mas Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós.

Eu espero ajudá-los a se prepararem para sofrer por Cristo. Uma das razões para isso é que a Bíblia diz que devemos nos preparar, e a outra razão é que os tempos modernos nos impõem isso.

Preparando para sofrer

David Barrett, o historiador missionário que edita a Oxford World Christian Encyclopedia, publica todo ano uma estimativa do estado do movimento Cristão pelo mundo com projeções de como as coisas serão no ano 2000. Na publicação desse ano ele reporta que em 1980 houve cerca de 270.000 martírios Cristãos. Esse ano provavelmente 308.000 e em 2000 ele estima que haverá 500.000.1 Essas são pessoas que morrem diretamente porque são Cristãos.

Na Somália, hoje, há dezenas de milhares de Cristãos sendo intencionalmente isolados e morrendo de fome por facções rivais. A tensão entre Muçulmanos e Cristãos na Nigéria é perigosamente explosiva. Os milhões de Cristãos na China e em vários outros países vivem em constante risco de prisões e rechaços .

No nosso próprio país a sociedade secular, especialmente as elites intelectuais e líderes da mídia, tem sido crescentemente hostis à igreja evangélica e à visão bíblica de justiça e bondade que nós apoiamos. A primeira emenda tem sido retorcida a serviço do antagonismo secular. De modo que não mais seria inimaginável pensar que algum juiz argumente que a provisão pública de água e eletricidade para igrejas Cristãs seja inconstitucional por causa da separação do estado e da igreja.

Protestos pacíficos, pró-vida, que estão simplesmente orando em lugares públicos podem ser violentamente agredidos por defensores do aborto, como em Búfalo, Nova Iorque, e não recebem nenhuma proteção da polícia, mas são ao invés, acusados de cometerem crimes.

O nome de Jesus é abertamente desprezado e blasfemado pelos famosos de uma maneira que a décadas atrás os faria repreensíveis aos olhos do publico, mas hoje tudo isso é aprovado ou ignorado.

O Custo da Grande Comissão

Tudo isso quer dizer que ser Cristão vai custar mais nos próximos anos. E que terminar a grande comissão vai custar algumas de nossas vidas – como já tem custado, e como sempre custou. Oitocentos anos atrás Tertulian disse: “Nós [Cristãos] nos multiplicamos quando somos ceifados por vocês; o sangue de Cristãos é semente” (Apologeticus, 50). Duzentos anos depois São Jerônimo disse: “A igreja de Cristo foi fundada pelo derramamento do seu próprio sangue, não o de outros; por vivenciar adversidades, não por infringi-las. Perseguições têm a feito crescer; martírios a tem coroado” (Carta 82).

Falamos tanto de países fechados hoje que nós temos praticamente esquecido totalmente a perspectiva de Deus quanto às missões – como se Ele quisesse que missões fossem fáceis ou seguras. Não há países fechados para os que entendem que perseguição, prisão, e morte são resultados naturais de se espalhar o evangelho. E Jesus disse claramente que esses são resultados naturais. “Então sereis entregues à tortura, e vos matarão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome.” Mateus 24.9 “Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, guardarão também a vossa.” João 15.20.

Enquanto não recuperarmos a perspectiva de Deus no sofrimento e no pregar o evangelho, nós não vamos nos alegrar nos triunfos da Graça que Ele planeja.

Obediência em missões e em justiça social têm sempre sido custoso, e sempre será. No vilarejo de Miango, Nigéria, há um albergue e uma pequena igreja chamada Kirk Chapel. Atrás da capela há um pequeno cemitério com 56 túmulos. Trinta e três deles têm corpos de filhos de missionários. Os epitáfios dizem: “Ethyl Arnold: 1 de setembro, 1928 – 2 de setembro 1928” ”Barbara J. Swanson: 1946-1952.” “Eileen Louise Whitmoyer: 6 de maio, 1952 – 3 de julho 1955”. Esse foi o custo de se levar o evangelho para a Nigéria para muitas famílias nos anos recentes. Charles White nos contou a sua história sobre quando ele visitou o pequeno cemitério. Ele terminou sua narrativa com uma frase tremendamente forte. Ele disse, “A única maneira para entendermos o cemitério de Miango é lembrar que Deus também enterrou Seu Filho no campo missionário.”.2

E quando o ressuscitou dos mortos, Ele chamou a igreja para segui-lo ao mesmo campo perigoso chamado “todo o mundo”. Mas será que estamos dispostos a segui-lo?

O que fazer diante de 2 Timóteo 3:12?

Há dois anos atrás em Ermelo, Holanda, irmão Andrew contou a história de quando estava em Budapeste, Hungria, com doze pastores da cidade ensinando a Bíblia. Até que entrou um velho amigo, um pastor da Romênia que tinha sido recentemente solto da prisão. Irmão Andrew disse que ele parou de ensinar e percebeu que estava na hora de ouvir.

Depois de uma longa pausa o pastor romeno disse, “Andrew, há pastores presos na Holanda?” “Não”, ele respondeu. “Por que não?” perguntou o pastor. Irmão Andrew pensou por um momento e disse, “Eu acho que deve ser por que nós não tiramos vantagem das oportunidades que Deus nos dá”.

Aí veio a pergunta mais difícil. “Andrew, o que você faz diante de 2ª Timóteo 3:12?” Irmão Andrew abriu a Bíblia e leu em voz alta “E na verdade todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições”. Ele fechou a Bíblia e disse, “Irmão, me perdoe. Nós não fazemos nada diante desse verso”.3

Eu temo que nós estejamos domesticando o conceito de vida divina e transformado esse conceito em uma moralidade inofensiva de classe média. E que 2ª Timoteo 3:12 se tornou incompreensível para nós. Eu penso que muitos de nós não estamos preparados para sofrer pelo evangelho. E é por isso que eu me sinto chamado a tomar quatro semanas para lidar com o que a Bíblia diz e para o que Deus está nos chamando hoje.

Quatro propósitos Bíblicos para sofrimento

Cada mensagem corresponde a um desses quatro propósitos para o sofrimento. E nós podemos falar de propósitos para o sofrimento porque é claramente o propósito de Deus que às vezes vamos sofrer por causa da justiça e por causa do evangelho. Por exemplo, 1ª Pedro 4.19 “Portanto os que sofrem segundo a vontade de Deus confiem as suas almas ao fiel Criador, praticando o bem.”

Os quatro propósitos que eu tenho em mente são:


O propósito moral, porque o sofrimento refina nossa santidade e esperança (Romanos 5:1-8).


O propósito da intimidade, porque no sofrimento nossa relação com Cristo se torna mais profunda e mais doce. (Filipenses 3:7-14).


O propósito missionário, porque Deus nos chama para completar o sofrimento de Cristo quando entendemos o valor do sofrimento d’Ele através da realidade do nosso sofrimento (Colossenses 1:24).


E o propósito da Glória, porque essa pequena, momentânea aflição está nos garantindo galardão eterno (2ª Corintios 4:16-18).

O Propósito moral (espiritual) do sofrimento

Hoje nós vamos focalizar no propósito moral (ou espiritual) do sofrimento. Deus ordena que nós soframos pelo evangelho e por causa da justiça por causa do efeito moral e espiritual que esse sofrimento tem em nós.

Exultando na esperança da gloria de Deus

Vamos ler um dos maiores textos sobre esse tema: Romanos 5:3-4. Depois de mostrar que nós somos justificados pela fé e que temos acesso à graça através de Jesus, ele diz no verso 2 que nós Cristãos “gloriemo-nos na esperança da glória de Deus.”A causa principal da alegria na vida do Cristão é a ansiosa expectativa de que nós iremos ver e compartilhar a glória de Deus. Esperança na Gloria de Deus é a nossa alegria.

Se isso é verdade, então Paulo é perfeitamente consistente nos versos 3 e 4 quando ele diz que vamos também exultar nas coisas que fazem nossa esperança crescer. Eis a linha de raciocínio: nós começamos com a esperança da glória de Deus no fim do verso 2, e terminamos com a esperança do fim do verso 4. Aí está o ponto: se nós exultarmos na esperança, nós vamos exultar naquilo que traz esperança.

O Que traz esperança

Os versos 3 e 4 descrevem o que é isso. “E não somente isso, mas também gloriemo-nos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a perseverança, e a perseverança a experiência, e a experiência a esperança;”

Então a razão pela qual nos alegramos nas tribulações não é que nós gostamos de dor, miséria, desconforto, ou problemas (não somos masoquistas), mas porque tribulações produzem aquilo que nós gostamos, quer dizer, uma esperança cada vez mais forte que nasce das experiências de paciência e perseverança. Além de um senso de aprovação.

Deus tem um propósito para o sofrimento de Seu povo

Então a lição principal aqui é que Deus tem um propósito no sofrimento de Seu povo. E esse propósito é frequentemente diferente da meta do ministério em que trabalhamos. A meta do ministério pode ser evangelizar nas Cidades Gêmeas os solteiros, profissionais do subúrbio, ou Muçulmanos Turcos. Mas o propósito de Deus pode ser produzir mais esperança nos ministros e missionários colocando-os na prisão. Deus está sempre fazendo mais do que isso (como vamos ver nas próximas semanas), mas isso seria suficiente.

Em outras palavras, Deus talvez não dê eficiência e produtividade ao ministério do nosso jeito. Repetidamente Paulo teve que se contentar com o trabalho estranho de Deus nas suas prisões, surras, naufrágios, e planos frustrados. Como pôde Deus ser tão ineficiente ao ponto de deixar sua missão ser bloqueada dessa forma repetidamente? A resposta desse texto (que não é a única resposta) seria: Deus está comprometido com o crescimento da esperança e santidade do Seu povo no processo de alcançar os perdidos. E somente Deus sabe como balancear essas duas coisas e como cumpri-las da melhor forma.

Os Efeitos das aflições

Agora vamos observar os efeitos das aflições mais especificamente. Há 3 aspectos específicos mencionados nos versos 3 e 4.

1-Perseverança Primeiro, tribulações trazem perseverança ou paciência. Paulo não quer dizer que isso é uma verdade universal. Para muitos, tribulações trazem à tona ódio, ressentimento, raiva e reclamações. Mas esse não é um efeito permanente naqueles que têm o Espírito de Cristo. Para eles o efeito é paciência, porque o fruto do Espírito é paciência.

Quer dizer que, antes que dificuldades venham às nossas vidas, especialmente dificuldades que enfrentamos por Cristo, não experimentamos a extensão e profundidade da nossa devoção a Cristo. Enquanto os tempos não ficam difíceis, não experimentamos e não realmente sabemos se somos Cristãos de ocasião – do tipo que Jesus descreveu na parábola dos solos em Marcos 4:16-17.

“Do mesmo modo, aqueles que foram semeados nos lugares pedregosos são os que, ouvindo a palavra, imediatamente com alegria a recebem; mas não têm raíz em si mesmos, antes são de pouca duração; depois, sobrevindo tribulação ou perseguição por causa da palavra, logo se escandalizam.”

Paulo está dizendo que o grande efeito das tribulações é que elas trazem paciência, resistência e perseverança ao povo de Deus. Assim eles vêem a fidelidade de Deus nas vidas deles e sabem que são realmente o povo d´Ele.

2-Prova de caráter

Isso é o segundo efeito mencionado (v.4). “e a perseverança a experiência, e a experiência a esperança;” Literalmente a palavra dokimen significa “a experiência de ser testado e aprovado”. Poderíamos dizer “aprovação” ou “testado e aprovado”.

Isso não é difícil de se entender. Se, quando as tribulações vierem você perseverar na devoção a Cristo e não se revoltar contra ele, então você sairá dessa experiência com uma sensação mais forte de que você é real, você foi provado, você não é um hipócrita. A árvore da confiança entortou, mas não quebrou. Sua fidelidade e lealdade foram postas à prova e passaram. Agora elas têm um “caráter aprovado”. O ouro da sua fé foi posto no fogo e saiu refinado, não consumido. (ver Malaquias 3).

Quando por fogo meu caminho passar, Minha graça, suficiente, vai suprir, A chama não vai arder, Eu ordeno Seu joio vai consumir e seu ouro vai refinar.

Esse é o segundo efeito da aflição: o provar e refinar do ouro da sua fidelidade a Jesus. Perseverança traz segurança e aprovação.

3-Esperança

O terceiro efeito vem do senso de se encontrar testado, aprovado e refinado. Verso 4: “e a experiência a esperança”. Isso nos leva de volta ao verso 2 por quem obtivemos também nosso acesso pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e gloriemo-nos na esperança da glória de Deus.. A vida cristã começa com esperança na promessa de Deus no evangelho, e segue numa espiral crescente atravéz de aflições para mais e mais esperança.

Aprovação traz mais esperança porque nossa esperança cresce quando experimentamos a realidade da nossa própria autenticidade atravéz do teste. As pessoas que conhecem a Deus melhor são aqueles que sofrem com Cristo. As pessoas mais firmes na sua esperança são aquelas que foram testadas mais profundamente. As pessoas que procuram mais intensamente, fielmente pela esperança da Gloria são aquelas que tiveram os confortos dessa vida arrancados por tribulações.

Exultando na esperança da gloria e na tribulação

Então a primeira coisa que dizemos sobre sofrimento e aflição nessa série é que Deus tem um propósito. E esse propósito é trazer à tona a paciência e perseverança do Seu povo pelo amor do Seu nome; e através disso testar, provar e refinar a realidade da fé e aliança com Cristo; e por meio desse senso de aprovação fortalecer, aprofundar e intensificar nossa esperança.

Nós temos metas ministeriais na nossa igreja (discipulado urbano, pequenos grupos, redes de evangelismo, defender bebês, mobilizar a juventude e crianças); nós temos uma grande visão missionária de mandar 2000 até 2000; nós temos um prédio para pagar e um orçamento para administrar pelo prédio para Cristo e Seu reino. O quanto disso a vontade de Deus vai permitir eu não sei. Mas eu sei o seguinte: na nossa obediente caminhada em direção a essas metas Deus tem um propósito para cada obstáculo, cada frustração, cada dor, e cada aflição, e esse propósito é tão importante quanto as próprias metas – sua perseverança, seu caráter posto à prova, e sua esperança na Glória de Deus.

O que mais Deus estiver fazendo em termos de planejamento na sua vida, isso Ele sempre está fazendo no seu coração. Então façamos como Paulo e exultemos na esperança da Glória e também nas tribulações que virão.


Por: John Piper
Fonte: pt.desiringgod.org
Tradução: Renato Costa

1 - International Bulletin of Missionary Research, vol. 16, no. 1, January, 1992, p. 27.
2 - Charles White, "Small Sacrifices," Christianity Today, vol. 36, no. 7, June 22, 1992, p. 33
3 - Herbert Schlossberg, Called to Suffer, Called to Triumph, (Portland: Multnomah Press, 1990), pp. 9–10.